Memórias Antigas
Right to left, left to right
Night to day and day to night
As the starlight fades to gray,
I'll be marching far away
Right to left and left to right
- Linkin Park "Skin to Bones"
Ele não existia. Era menos que uma ténue sombra, uma concha vazia onde o vento não assoprava, e a sua única companheira era a dor. Sentia-a dilacerar-lhe os músculos, cravando-se e queimando a pele, até a respiração faltar-lhe, e os pulmões gritarem por ar. Havia dias em que era capaz de convencer-se que a dor era tolerável, que era forte o suficiente para suportar-lhe a agonia dos seus traços febris, mas geralmente o fardo era tão grande que obrigava-o a encarar a realidade: não havia escolha possível. Algumas vezes, era capaz de escutar encantamentos proferidos em voz baixa, ou sentir um líquido amargo grudando-se à sua língua, escorrer-lhe pela garganta a baixo, mas nada parecia fazer a sua dor abrandar.
Dentro dele, não havia dias nem noites. Tudo era um labirinto de pensamentos perdidos. Só uma vez sonhou: com uma cúpula de vidro cristalina, banhando-o e reflectindo a luz do sol, um caminho ferroviário deserto, com umas bancadas adjacentes de pedra simetricamente dispostas, e um bebé dobrado sobre o seu próprio corpo esfolado. Os seus choros faziam mais lembrar o grito agudo dum animal selvagem, enchiam-no de terror e desprezo sem fim. E ele temia que o bebé, um fragmento dum ser esquecido, fosse ele e não Voldemort.
Depois do pesadelo, acordou com o suor a banhar-lhe a pele, marcando um compasso da sua agonia constante. A curandeira do Hospital de St. Mungus, uma mulher gorda e de cara redonda, não respondeu a nenhuma das suas perguntas, obrigando-o, em vez disso, a deitar-se de novo e descansar. Desde essa altura, imagens vagas que mais pareciam um sonho longínquo, atravessaram a sua mente. Um quadro de rostos familiares, ainda assim desconhecidos: um rapaz alto e gordo de blusão largo, uma rapariga de pele escura e cabelos negros, um gigante barbudo (devia ser Hagrid, sim só podia ser Hargrid!), Ron de olhos marejados de lágrimas, sem ele saber bem porquê, e Hermione segurando-lhe a mão, como se a sua vida dependesse disso.
No entanto, as noites transformara-se em dias, e os dias prolongaram-se em semanas, até poder ser finalmente transferido para a ala hospitalar de Hogwarts. Embora a Madame Pomfrey não fosse menos minuciosa e autoritária do que a curandeira de St. Mungus, Harry era capaz de receber mais visitas a horas marcadas, desde que elas não fossem muito longas. Um dia, quando a Madame Pomfrey não encontrava-se à vista, perguntou:
- O quê que aconteceu depois de eu ser atacado?
Ron e Hermione entreolharam-se desconfortavelmente. A verdade era que, desde que tinham chegado, os seus amigos pareciam demasiado excitados para espalhar todas as notícias do que tinha acontecido na sua ausência, mas pareciam demasiado relutantes em abordar o motivo da sua estadia prolongada no hospital.
- Nós estávamos tão assustados, Harry! – exclamou nervosamente Hermione. – Devíamos ter ficado contigo, sabendo que já tinhas sido atacado… - Os olhos cintilavam-lhe de lágrimas, enquanto brincava agitadamente com a sua gravata às riscas. Seria difícil a Harry convencer-lhe que Ginny tinha pedido para falar com ele sozinho, e dificilmente seria prático passarem a vida a seguirem-lhe. - A Professora McGonagall e o Professor Snape perguntaram por ti no baile, mas ninguém parecia ter te visto. Saíram à tua procura, e passado pouco tempo voltaram com a notícia que tinham-te encontrado gravemente ferido.
- Tenho pena da Luna… -respondeu com sinceridade. - Esse deve ter sido o seu pior baile de todos os tempos. – Passou a mão pelo cabelo revolto, lembrando-se de como os alunos da sua própria casa costumavam-lhe pegar partidas, e esconder as suas coisas.
- Eu penso que tendo em conta a circunstância ela vai-te perdoar, pá – riu-se Ron, claramente mais aliviado e motivado pela calma exposta de Harry.
- E depois disso?
- Foste trazido para o Hospital de St. Mungus – prosseguiu Ron. – Não te lembras? Bem suponho que não… - respondeu claramente embaraçado. – Foi feito um inquérito para apurar responsabilidades, mas quase toda a gente estava no baile, até a bibliotecária estava a dançar com o Professor Flitwick, só a Margaret Pye estava de castigo na torre dos Ravenclaw, depois de enfeitiçar as estátuas do quarto andar para perseguir os alunos do primeiro ano. A torre não era muito perto, e ela não se lembra de ter ouvido nada. A maioria dos fantasmas também estava a assistir ao baile, e se o Peeves viu alguma coisa é impossível de saber, não é como se ele fosse-nos dizer se não quisesse, só o Barão Sangrento tem alguma mão nele. Mas eu acho que não, a maioria das pessoas lembrasse de o ter vistos a atirar explosivos para dentro dos cocktails.
- Então ninguém desconfiou do Draco?
Ron agitou-se, e murmurou alguma coisa em voz baixa, visivelmente relutante em continuar com o relato.
- O quadro do Sir Cadogan disse que viu dois rapazes que cabiam dentro da descrição do Malfoy e o Goyle, perto do lugar onde encontraram-te. A Professora McGonagall interrogou-os. O Malfoy disse-lhe que havia um lapso dum período de tempo que não lembrava-se do que tinha acontecido – prosseguiu Hermione, remexendo-se desconfortavelmente na cadeira, e lançando-lhe um olhar apologético -, e a Pansy Parkinson confessou que ele começou a comportar-se duma forma muito estranha a dada altura, no baile. A Directora pensa que ele estava sobre o efeito da maldição Imperius… - confessou, pronunciando as últimas palavras o mais rapidamente possível. - Os Aurors prenderam o Goyle. Eles pensam que ele decidiu agir de livre vontade a pedido do Malfoy, quando ele estava sob o efeito da maldição.
- E eu suponho que toda a gente acreditou, não foi? – exclamou Harry, com dificuldade em esconder o seu mau humor. – E como é que alguém haveria de arranjar maneira de o amaldiçoar na presença da escola inteira? Devorador da Morte uma vez, Devorador da morte para sempre. O Malfoy nunca fez alguma coisa para merecer a nossa confiança.
O Draco podia ter sido menor quando tatuara a marca duma serpente, enroscada sobre uma caveira, no seu antebraço; os seus pais podiam ter sido ameaçados pelo Voldemort, como eles foram contar em tribunal, depois da guerra acabar, e do sangue já ter sido derramado; mas ele ainda tinha tido uma escolha. Os Aurors podiam ter arranjado forma de protegê-los em troca de informação, como Dumbledore dissera, ainda assim a família Malfoy preferira sempre a alternativa mais fácil, e mais confortável. O Draco e os seus amigalhaços tentaram levar o diadema dos Ravenclaw ao Voldemort, e tinham-nos prejudicado mais do que ajudado. Durante a batalha nenhum deles tinha lutado contra os Devoradores da Morte.
- Alguém podia ter-lhe lançado um feitiço silenciador. Para além do mais, o Professor Snape também foi um Devorador da Morte antes de passar-se para o nosso lado – relembrou Hermione.
Sem saber bem porquê, Harry sentiu-se irritado à menção do nome de Snape sendo atirado para aquela conversa.
- O Snape espiou para o Dumbledore, e quase morreu por causa do Voldemort, o quê que o Malfoy fez por nós?
- Para além do mais, não é como se fosse a primeira vez que o Malfoy tenta envenenar alguém – acrescentou Ron, que até agora tinha estado calado, a escutar a conversa. – No sexto ano envenenou uma das garrafas de hidromel do Slughorn.
- Pois, é. E podia ter sido o Malfoy a atacar-me na Floresta Proibida – continuou Harry, encorajado pelas palavras de Ron. – Não à forma de saber se ele realmente estava na Torre dos Slytherin.
Harry deixou-se cair, de novo, na cama. Os músculos do corpo protestavam, traindo as feridas por curar, e a dor arranhava-lhe o peito, roubando-lhe o ar dos pulmões. Sentiu as pálpebras tornarem-se pesadas contra a sua vontade, enquanto obrigava o seu próprio corpo a permanecer acordado.
- Mas quando foste atacado, durante o jogo de quidditch, o Malfoy também estava a jogar, não havia forma de ele ter conseguido lançar-te um feitiço – alvitrou Hermione, afastando uma das suas madeixas de cabelo amendoadas da frente do rosto.
- Podia ter sido o Goyle - insistiu Harry.
- O Goyle estava na enfermaria depois dum rapaz dos Hufflepuff ter-lhe lançado um feitiço para os furúnculos. Não havia forma de ter sido ele a lançar o feitiço. – Hermione lançou um olhar breve a Ron antes de prosseguir. – A Professora McGonagall pensa que um dos antigos Devoradores da Morte pode ter-se infiltrado na escola, e te atacado por vingança pela morte do Quem-nós-sabemos.
- A escola inteira anda a dizer que foi por causa disso que os Aurors ficaram mais duma semana a patrulhar os corredores de Hogwarts, e que isso explica a tua estadia prolongada nos aposentos do Snape – disse Ron, com sinceridade.
Harry lembrava-se muito vagamente da sua estadia com Snape. Calculava que devia ter sido relativamente curta, e sem muitas altercações para ter-se esquecido dela tão facilmente. Ainda assim, sentia uma certa curiosidade em saber se o martelar do seu coração, desconfortavelmente de encontro ao seu peito, e a sensação de ter borboletas a voarem descontroladamente no seu estômago, tinha sido suficiente para fazer calar a aversão e o desânimo cuja presença de Snape fazia sempre exercer sobre ele. Já não lembrava-se da última vez que se tinham encontrado sozinhos.
- Pois, e quem é um Devorador da Morte que frequenta o mesmo ano que nós? – apressou-se a perguntar Harry. Tudo quanto sabia, o Malfoy cabia perfeitamente na descrição.
- Oh, Harry! – exclamou Hermione frustrada, mas calou-se antes da Madame Pomfrey entrar, com um olhar irritado.
- Ainda aí? Não têm aulas? Deixem o Potter descansar – pediu num tom de voz duro.
Hermione e Ron despediram-se brevemente, e levantaram-se quase automaticamente, caminhando em passadas largas em direcção à porta. Antes de saírem, lançaram-lhe um pequeno aceno.
As manhãs tornaram-se um pouco mais curtas, e as tardes mais longas. Uma semana depois, a Madame Pomfrey anunciou-lhe que já estava curado, e podia efectivamente sair.
Harry olhou pela janela. Hoje era um dia aparentemente triste: cinzento e húmido. Um manto de nuvens escuras navegava lentamente, fustigas pelas rachadas fortes de vento. Gostas de água grossa, manchavam os painéis de vidro, e folhas finas de neve dançavam lá no alto, caindo e empilhando-se, formando uma cama fina de neve sobre o solo. Ainda assim não deixou-se desanimar, o frio sobre a sua pele, só servia para intensificar o seu bom humor e aumentar-lhe as energias, perante a perspectiva de poder, finalmente, deixar a enfermaria.
Apressou-se a mudar de roupa para o seu uniforme habitual, apertando a sua capa comprida em volta dos ombros, e calçando os sapatos de lustro negros no fim.
Consultou o relógio na parede da enfermaria antes de sair. Eram onze horas, os Gryffindor deviam estar a ter um bloco duplo de Poções com os Slyhterin. Se fosse noutra ocasião, não teria tido interesse em ir assistir à aula, mas faltava pouco mais de dez minutos para acabar, e Harry tinha completado, há alguns dias, de ler o capítulo 19 de poções, e de escrever uma composição de um metro e meio sobre os efeitos nocivos da Acácia. A Madame Pomfrey ficara chocada, e prontificara-se a ir dizer a Snape que o seu doente ainda não estava suficientemente reabilitado para começar a fazer trabalhos escolares, mas Harry, pressentindo o que aconteceria caso recusasse-se, aceitou fazê-la, vendo nisso um desafio. De qualquer forma, já não se sentia realmente doente.
A ideia de entregar a composição, pessoalmente, no seu gabinete, era desconfortável por si só, e a perspectiva de ter de ouvir Snape lê-la em voz alta, com a sua voz de escárnio constante, comentando cada erro ou palavra mal escrita, durante uma hora inteira da próxima aula, era suficiente para fazê-lo sentir-se mal disposto.
Subiu até ao sétimo andar e entrou na Torre dos Gryffindor. Continuava praticamente igual à ultima vez que a vira. Decorada com os quadros de antigos alunos da casa, e um painel com um leão dourado a rugir sobre um fundo cor de rubi. As confortáveis poltronas continuavam dispostas desorganizadamente em volta da lareira, com se um tornado tivesse passado por lá, e Harry teve de ter cuidado para não embater nelas quando atravessava. Sentiu-se grato por não haver nenhum aluno, naquela hora, à vista. Uma ponta de alívio brotou do seu peito e cresceu, até dar lugar a uma sensação de calma permanente. A última coisa que queria era ver-se encurralado e interrogado por um grupo de alunos demasiado ansiosos por receber respostas que ele não era capaz de dar.
No fim, só a sua cama encontrava-se diferente. Um mar de presentes e cartões de melhoras espalhavam-se aleatoriamente em volta da sua poltrona, e foram precisos alguns segundos para localizar a sua mala, e mais alguns minutos para guardar tudo lá dentro.
Saiu do dormitório e contornou o corredor a correr, amaldiçoando o facto da sala de poções ficar nas masmorras. Deviam faltar poucos minutos para as aulas acabar, e Snape era sempre severo, independente do seu humor. Ignorou o seu coração, que gritava, visivelmente trémulo, no seu peito.
Finalmente chegou às masmorras. Desceu o degrau das escadas com um lance de dois em dois, sentindo-se capturado por numa atmosfera negra e densa. Mesmo se tivesse de olhos vendados, seria capaz de atravessar o corredor com facilidade. Era capaz de recordar-se das correntes de ar frias, da sensação que a pedra dura provocava-lhe sobre os dedos, do ar abafado que condensava-se em seu redor, das paredes sombrias adornadas com teias de aranha prateada, porque tudo aquilo fazia-o lembrar-se do professor.
Antes que pudesse bater à porta, ouviu o barulho agudo da companhia. A porta abriu-se de rompante, acompanhada pelo tumulto habitual de alunos ansiosos por deixar as aulas, sussurrando, e rindo em voz baixa. Ao vê-lo, a maioria deles detiveram-se e rodearam-no, excitados por ouvir novas.
- Já estás melhor, Harry?
- Lês-te o cartão que te enviei?
- Ainda bem que recuperastes, vais voltar a treinar a equipa de Quidditch?
No meio de tanto barulho, Harry foi capaz de distinguir a voz lenta e arrastada de Snape elevar-se no ar, cortando-lhe a respiração.
- Afastem-se! Deixem o Potter respirar! – ordenou rispidamente. – Estão a sufocá-lo, e seria uma infelicidade se eu tivesse de perder o meu tempo a alertar a Directora duma nova recaída – concluiu com sarcasmo. – Aproxima-te, Potter!
- É verdade que ficastes com uma cicatriz do tamanho duma Bludger? Deviam-te começar a chamar o Cicatrizado em vez do Escolhido – sentenciou Pansy Parkinson.
Um grupo de alunos da casa dos Slytherin começaram a rir-se. Para seu grande alívio, Draco não parecia estar presente.
- Vai dar uma volta! – exclamou Harry, irritado.
- Potter! Eu disse aproxima-te, ou estás também surdo?
- Não que eu tenha consciência… - murmurou baixinho, para que o professor não o escutasse. Ron, Hermione e Parvati, que estavam mesmo a seu lado, ouviram-no, e tiveram-se de esforçar-se para sufocar uma rachada de risos.
Snape encontrava-se sentado, em frente à sua secretária, agitando a varinha em direcção a um redemoinho de folhas a voarem pelo ar, para logo a seguir irem assentar sobre vários montes de folhas impecavelmente organizadas.
- Já acabei de escrever a composição… senhor – acrescentou, poisando o pergaminho sobre a secretária de mogno polida.
Por momentos fugazes, Harry teve a esperança que Snape não fosse pegar nele, mas o professor agarrou-o e começou a desenrolá-lo, passando os olhos pelas suas letras apressadas.
- Isso é caso para festejar, Potter. – ironizou Snape, os olhos negros e sombrios brilhando maliciosamente. - Não estava à espera que, passados sete anos de poções, fosses capaz de compreender os efeitos duma dose de folhas jovens de acácia antes duma fervedura inicial, ou talvez devesse agradecer à Miss Granger, pelo seu talento para ditar – concluiu, fechando o pergaminho, e guardando-o na gaveta da escrivaninha.
- Isso não é verdade – mentiu Harry. Hermione, de facto, tinha-o ajudado a escrever grande parte da composição, com pena de Harry, por ele ter ainda tantos capítulos para acabar de ler, justo quando estava doente.
- Então explique-me os três principais efeitos nefastos de utilizar-se mais do que três gotas dum concentrado de acácia, por poção – ordenou-lhe Snape em tom fastidioso.
Harry nem lembrava-se do início da frase, e o pior é que quase era capaz de imaginar Hermione, atrás de si, com o braço levantado no ar, por mais ridículo que a ideia fosse. Ainda assim, arriscou um olhar na sua direcção, para encontrá-la à entrada da sala de aula, com Ron a seu lado, e um olhar de pena no rosto.
- Não sei, professor. Na altura que escrevi a composição tinha o livro, não é proibido, pois não?
- Não sejas impertinente, Potter! Menos dez pontos para os Gryffindor, sem dúvida que a tua equipa há-de agradecer-te. – Snape levantou-se da secretária, retribuindo-lhe uma expressão de desprezo. A sua voz tinha-se condensado, até formar a consistência de pigmentos de gelo escarpados. – A arte de preparar poções é dinâmica e intuitiva. Claro que nem toda a gente tem o talento que é necessário. – Snape olhou-o nos olhos maliciosamente. – É preciso aprender como pôr a matéria em prática adequadamente, sem ter sempre de recorrer a um livro.
- Posso ir andando? – perguntou Harry, demasiado ansioso por abandonar o ambiente deprimente as masmorras.
- Ainda não, Potter. Embora não venha-te conter aqui por muito mais tempo, já que deves ter muito que fazer com o teu tempo livre – proferiu sarcasticamente. Ergueu a varinha, e dois livros bolorentos e pesados saíram a voar da estante que ficava ao fundo da sala. Snape apanhou-os, e Harry conseguiu ver que havia anotações nas suas páginas. – Tendo em conta que decidistes ficar doente, eu tenho aqui alguma leitura útil para manteres a matéria acompanhada com os teus colegas. – A sua voz era um rugido suave, erguia-se, aumentando de proporções, até aquecer o seu corpo inteiro.
Snape, ao passar-lhe os livros, tocou-lhe com os seus dedos, pálidos e frios, sobre a sua pele, provocando com que uma onda de calor alastra-se ainda mais, e o seu corpo torna-se automaticamente tenso, antecipando qualquer movimento. Sentia-se tonto, queria depreender o seu olhar do rosto magro à sua frente, mas sentia-se hipnotizado e cativado, incapaz de desviar completamente o olhar e, todas as imagens que tentava invocar na sua mente, desvaneciam-se como cinzas ao vento. Apenas o seu cabelo negro escorrido, o seu nariz adunco, e os seus olhos, duas pedras de carvão duma escuridão sem fim, permaneciam colados à sua mente.
Alguns segundos passaram-se. Os lábios de Snape apertaram-se numa linha fina, e os seus dedos agarram-lhe com um pouco mais força, de uma forma tão pouco preceptivo que, se ele não tivesse atento, não teria notado, e Harry sentiu o seu pouco controlo quebrar-se. Era sempre tão difícil tecer um certo domínio sobre as suas emoções quando o professor estava envolvido. Queria tocar-lhe no rosto, e afundar os seus dedos no seu cabelo comprido. Queria… provar o sabor dos seus lábios, as emoções escondidas num esgar duro. Estendeu a sua outra mão, sem dar bem por isso, na direcção dele, mas os olhos de Snape, que avaliavam-no até agora com uma expressão calculadora, abriram-se de espanto. Largou-lhe a mão e virou-lhe as costas, com o manto negro a rodar atrás de si, como se tivesse sido queimado.
- Harry… - A voz apreensiva de Ron ressoou ao longe.
- Podes ir, Potter. Tenho muito que fazer. – Sentiu as palavras cortarem como lâminas afiadas. Já devia-se ter habituado, como a sua presença, sempre negra, era capaz de exercer um efeito nefasto sobre ele. Tentava-o e seduzia-o, com sonhos suaves daquilo que nunca podia ter, deixando um sabor a cinzas na sua garganta.
- Estás bem, Harry? – perguntou Hermione, preocupada.
- Vou ficar bem, desde que saia-mos dos calaboiços – retorquiu, com sinceridade. Quando descera, fora capaz de sentir um certo encanto naquele cenário desolador, agora tudo o que sentia era dor, sem saber completamente porquê.
Caminharam em silêncio, durante alguns minutos, até Harry perguntar:
- Algumas novidades?
- Oh, sim! – exclamou Hermione, falsamente excitada, numa tentativa de alegrar o amigo. – Ontem, uma aluna do terceiro ano, durante o exame de transfiguração com a Miller, transformou o kraken num cavalo-marinho. Não sei como é que ela conseguiu alterar a forma dum animal tão grande só com treze anos, tento em conta que transfiguração é uma disciplina muito complexa. É pena que ela não tivesse transformado os peixes do lago em corvos, como a professora pediu-lhe - concluiu, tentando balançar uma braçada de livros escolares sobre a sua mão esquerda.
- E parece que o Seamus e o Dean estão a andar juntos ou coisa do género – acrescentou Ron entusiasmado. – Inacreditável não é? – inquiriu, ao notar que Harry não parecia minimamente afectado, tendo em conta que já haviam boatos acerca deles no passado. – O Dean andou com várias raparigas no ano passado…
- E daí? – perguntou Hermione, levando as mãos à cintura num sinal de aborrecimento. - Não é como se eles não pudessem ter interesse nos dois lados.
- Eu sei! Não sou tolo! – exclamou Ron, indignado, as orelhas atingindo uma cor rubra. – É só estranho… Conhecemo-los á tanto tempo e eles nunca nos disseram nada… Às vezes faz-me pensar que não conhecemos a pessoa a sério.
- Às vezes as pessoas têm bons motivos para manter segredos… - Hermione lançou um olhar atento a Harry, obrigando-o a desviar o olhar apressadamente, sentindo um aperto gelado no seu estômago.
Se a Hermione descobrisse… Havia vezes em que suspeitava que ela sabia mais alguma coisa. Alguns dos seus comportamentos eram realmente estranhos. A forma como sentira-se genuinamente perturbado perante a ideia de Snape estar ferido, todas as vezes que ficara para trás nas suas aulas, os olhares e toques invulgares, e a forma como a menção de Snape era suficiente para tirá-lo dum torpor. Se fosse um pouco mais como Snape, talvez fosse capaz de fingir, usar uma máscara de segredos cravada em pedra dura, mas sempre fora demasiado bom a usar o coração exibido, no peito, como o professor o acusara tantas vezes.
Apressou-se a mudar de assunto.
- Hei! Para onde é que vamos?
Estavam no terceiro andar, perto da Torre de Treino, a norte. Harry e Ron caminhavam lado a lado, arrastados por Hermione, que apressava o passo em tom decidido.
- Para a biblioteca, claro! – respondeu. – Está quase na altura dos exames, e quase não estudamos nada! Eu ouvi dizer que os N.E.W.T.s são os testes mais difíceis, para ajudar os alunos a prepararem-se para escolherem uma carreira.
Ron e Harry entreolharam-se. – Não podemos estudar na sala de aula de transfiguração, ou coisa do género? – perguntou Ron.
Devido à chuva incessante e às rachadas fortes de vento, que rasgavam as copas das árvores, arrastando as folhas secas, e ondulando a relva matizada de verde, os alunos tinham sido autorizados a permanecer dentro das salas de aula, ao abrigo de paredes quentes. Se fosse por ele, Harry preferia estar lá fora, saborear a energia do vento, e sentir as gotas de água lavarem-lhe e apagarem-lhe os traços de Snape, tanto da sua pele como da sua memória.
- Como se fosse-mos capazes de estudar alguma coisa lá com todo aquele barulho – alvitrou Hermione.
- Depois da batalha de Hogwarts não à muito mais que nos possam ensinar – disse Harry, arrependido de ter voltado para frequentar o seu último ano. Se não o tivesse feito, talvez ainda fosse capaz de falar com os amigos com a mesma facilidade de antes, sem ter de esconder-lhes segredos e mentiras, ou olhar para Snape sem sentir um número de emoções mistas rebentarem no seu peito.
- Não podes estar a falar a sério, Harry! – exclamou Hermione, indignada. – Sem as nossas aulas, como é que havia de melhorar a minha interpretação das cartas astrais, aprender mais sobre a batalha dos Goblins, ou ler as runas com maior facilidade? Esse tipo de coisas não se aprende lutando.
- Bem, mas ia ser tudo muito mais fácil sem ter de estudar para todos estes exames – queixou-se Ron.
Hermione, à sua frente, rodou o puxador espesso de bronze, e entrou pela porta que dava acesso à livraria. Harry e Ron entraram logo a seguir, observando as mesas de estudo quase vazias, sufocadas por uma imensidão de prateleiras bolorentas, atafulhadas de livros por ler. Sentaram-se mesmo em frente à porta, tirando os seus livros da mala, e começando a estudar.
Harry tentou embrenhar-se na sua leitura, e esquecer a voz desinteressada de Snape, encobrindo a marca que a sua presença deixava sobre ele, e apagando para sempre qualquer traço tão bem assente na sua memória. Mas aprender a ler as linhas do seu rosto, ou a medir a sua pulsação suave, parecia-lhe mais interessante do que tudo o que pudesse aprender a História da Magia. Mesmo assim, para sua grande surpresa, foi capaz de pôr a maioria das suas preocupações de lado, focar-se no texto à sua frente, acabar de ler o capítulo e começar o próximo. Pelo menos, até ouvir o barulho ténue da porta a abrir-se, acompanhado por uma sensação de opressão crescente. A atmosfera tornou-se mais fúnebre em seu redor, crescendo e envolvendo tudo. Sentiu os pelos do seu pescoço eriçar-se em antecipação, e um aperto no peito começar a formar-se.
Tentou ignorar a forma como se sentia, e continuar a ler, convencendo-se que tudo aquilo eram jogos provocados pela sua imaginação fértil, pressa a cenas dum passado recente. Ainda assim, não conseguiu obrigar o seu corpo a ficar quieto, e arriscou uma olhar de relance na direcção onde era capaz de ouvir barulhos de livros a serem fechados.
Snape encontrava-se a menos de cinco metros de distância. O seu vulto sombrio, semelhante a um morcego, confundia-se com as estantes de livros. Era engolido pelas suas sombras, projectadas em redor da biblioteca de forma a que quase atingiam a cadeira na qual encontrava-se sentado. Traziam consigo a promessa duma noite fria e escura, sem o brilho ténue do luar.
Justo agora, quando finalmente tinha-se conseguido concentrar nos estudos… Estaria ele a seguir-lhe? Precisava de pensar noutra coisa, em qualquer coisa que não fosse em Snape, a poucos metros de distância, sem ele poder realmente tocar-lhe.
Pegou no primeiro livro que encontrou à frente, que calhava ser um exemplar de "Poções e suas Principais Utilidades - volume dois", que Snape entregara-lhe ainda há pouco, e abriu numa página à calha.
- A aconitum não é utilizada para matar lobos? – perguntou a primeira coisa que via-lhe à cabeça, em voz demasiado alta, ansioso por ouvir a voz dos amigos preencher o vazio, sentindo-se ao mesmo tempo consciente dos olhares que a bibliotecária lançava-lhe.
Hermione abriu a boca, mas fechou-a automaticamente, olhando para trás de si, e Harry teve de resistir à tentação para evitar virar-se outra vez.
Snape apoiou as suas mãos sobre a mesa, em volta de Harry, e inclinou-se sobre as suas costas, de forma a poder sussurra-lhe ao ouvido:
- Sim, Potter. A aconitum era utilizada na Idade Média para envenenar lobos, junto com uma mistura de pó de vidro e mel – discursou, a sua voz baixa subindo de tom, e enrolando-se até formar uma insinuação pendente. - Também pode ser utilizada como anestesiante, mas geralmente é usada para combater os efeitos da demência que afecta os lobisomens depois de sofrerem uma transformação em lobos. – A respiração quente de Snape abraçou suavemente o seu lóbulo da orelha, deixando-o quente pelo corpo todo. Tremeu como uma folha ao vento, e teve de mexer-se desconfortavelmente na sua cadeira, para tentar esconder a sua erecção crescente.
O professor de poções tirou os seus braços, apoiados sobre a mesa, e afastou-se de Harry, dando-lhe espaço suficiente para poder respirar. Era como se a marca negra, que o envolvia, se tivesse dissipado duma só vez.
Respirou fundo e voltou a olhar para o livro aberto. A baixo duma imagem duma flor de aconitum roxa, que o tinha induzido a fazer a pergunta de há pouco em voz alta, havia uma descrição duma receita para preparar uma poção anti-memória. Porquê que isso deixava-o desconfortável?
Então lembrou-se. As memórias chegaram-lhe nubladas, vindas dum sonho distante. Harry confessando o seu desejo pelo professor, sob o efeito da poção veritaserum, o sabor do seu esperma nos seus lábios, braços em volta dos seus, palavras venenosas e insultos cortantes, a noite em que eles passaram juntos, e o ruído da sua respiração suave abafando os seus pesadelos. Tudo isso envolvendo-o numa sensação de ter encontrado a peça dum puzzle que faltava-lhe.
Mas porquê que ele tinha-se esquecido de tudo isso? Só podia ter sido Snape. A ideia aterrorizava-o, mais do que estava preparado a admitir. Mas quem mais poderia ter sido? Ninguém a não ser ele tinha conhecimento deste tipo de memórias, só ele podia ter beneficiado em fazê-lo esquecer.
De repente, sentiu-se usado. Snape quisera apagar qualquer traço de proximidade, destruir as memórias que o uniam aos dois, porque já não tinha qualquer interesse nele. Beneficiara até certo ponto, e a partir do momento em que o fardo das complicações tornara-se mais grande do que era capaz de suportar, deitara a poção anti-memória na poção curativa que a Madame Pomfrey pedira-lhe para preparar, aproveitando-se da sua fragilidade, da fraqueza do seu corpo ainda doente. E não tinha sido esta a primeira vez que derramava uma poção na sua bebida. Tinha-o drogado com veritaserum no passado, obrigado a confessar o seu desejo proibido, e incentivando-o a agir. Tudo para mais tarde voltá-lo a drogar, e faze-lo esquecer de tudo o que tinha acontecido, cansado das complicações que a sua proximidade o tinha causado.
"Talvez se tivesse aprendido a proteger a minha mente…". Não. Recusava-se a pensar que, só por ter a sua mente vulnerável a intromissões externas, Snape visse-se no seu direito de apagar-lhe a memória.
Levantou-se da sua cadeira com brusquidão, fazendo com que os olhares de vários alunos virassem-se na sua direcção, arrumou os seus manuais na mala rapidamente, apertando-os com demasiada força numa tentativa falhada de fazer com que eles coubessem, e quando não conseguiu, deixou para trás os livros que o professor de poções dera-lhe, batendo com a porta da biblioteca com um estrondo, antes que o Ron ou a Hermione pudessem dizer alguma coisa.
Uma parte dele desejava ardentemente que Snape fosse atrás dele. Sentia um prazer mórbido ao pensar em gritar-lhe no corredor, queria magoá-lo, fazendo com que ele não pudesse esquecer-se mais dele sem sentir dor, mas Snape não veio atrás dele, nem deu-lhe qualquer reprimenda no dia seguinte. Quando voltaram a ver-se, ele reagiu como se não lembrasse-se do que tinha ocorrido, e isso cortou-lhe o coração até fazê-lo derramar sangue, muito mais do que queria acreditar.
Hermione e Ron tentaram obrigar-lhe a contar porquê que tinha-se comportado desta forma, mas Harry recusou-se a responder a verdade, num tom de voz cortante, e passado alguns dias todos eles estavam tão imersos nos estudos para os exames que nenhum deles voltou-lhe a falar sobre o assunto.
Estudar provou ser mais difícil do que estava à espera, a cabeça andava-lhe à roda, e as pálpebras insistiam em fechar-se, cansadas, os músculos doíam-lhe, e quando chegava à cama, era incapaz de adormecer, permanecia acordado a pensar em tudo o que tinha ocorrido, com Ron a seu lado a ressonar em voz alta. A comida também sabia-lhe pior do que o normal, e ele evitava comer demasiado, saindo do salão antes de toda a gente, sem nenhuma das vezes olhar na direcção de Snape. Ainda assim, a sua sombra atormentava-o, seguia-o para onde quer que fosse, invadindo-o duma sensação de nostalgia, como sal sobre a sua ferida ainda exposta.
FIM
N/A:. Bem, eu tinha prometido responder mais acerca do que Snape sente para com o Harry, mas o capítulo começou a tornar-se demasiado grande, outra vez, e eu tive de dividi-lo. A boa notícia é que não vão ter de esperar, em princípio, muito mais para o próximo capítulo. Já escrevi quatro páginas e posso adiantar que vai-se passar durante uma visita a Hogsmeade, com o Harry e o Snape a encontrarem-se logo no início.
Eu não traduzi a letra da música para português, tendo em conta que estou com pressa e preferi-a deixar este capítulo já publicado.
