Detenção
Ouça baby
Não há montanha alta
Não há vale profundo
Não há rio largo o suficiente, baby
Se você precisar de mim, me chame
Não importa onde você está
Não importa a distância
Não se preocupe, baby
Apenas chame meu nome
Estarei lá depressa
Você não tem que se preocupar
- Marvin Gaye "Ain't no Mountain High Enough"
O sol sorria alegremente, espreguiçando os seus raios quentes, até tingir as pedras do castelo em tons de dourado e carmesim. Mas, ali, nas masmorras do castelo, tudo era negro e sombrio. As penumbras reinavam em cada recanto, para serem, apenas, brevemente ofuscadas pelo brilho das torças a dançarem suavemente, e as rasadas geladas mergulhavam os alunos num ambiente desolador, obrigando-os a puxar a gola das camisas para cima para protegerem-se do frio, enquanto aguardavam que Snape finalmente falasse.
A porta de madeira da sala de poções fechou-se com um rangido suave. Harry arrastou-se atrás de Ron e Hermione, e sentou-se na fila de trás, a uns metros de distância dos seus amigos, na única mesa disponível, tentando, sem muito sucesso, ignorar os burburinhos emitidos por alunos em seu redor, que silenciavam-se, apressadamente, à sua passagem.
Sentiu-se grato por Snape não fazer mais do franzir o cenho à sua passagem, mesmo sabendo que era o último a chegar. Noutras alturas isso teria merecido um comentário malicioso, assim como a perda de pontos para a sua casa. Talvez ele estivesse de bom humor, pensou, como se o professor alguma vez tivesse de bom humor, ou talvez tivesse esgotado todos os insultos possíveis para esse ano. Ainda assim, não conseguiu deixar de sentir-se demasiado consciente ao ver como os seus dois olhos, duma escuridão sem fim, cravavam-se nas suas costas, à medida que caminhava, dilacerando-o com uma intensidade extrema.
- Como já devem saber, dentro de alguns messes, terão de efetuar os fossos N.E.W.T de poções. Existe, aqui, a presença de alunos sem talento e com intelecto demasiado limitado, que teriam feito melhor em desistir. – Desta vez Snape focou os seus olhos brevemente em Nevile, que fazia os possíveis para não encolher-se no seu banco. - Contudo, eu julgo que a maioria de vocês, se deixarem de desperdiçar o vosso tempo com passatempos desnecessários, focarem-se e aplicarem-se ao máximo, poderão atingir resultados razoáveis – disse secamente, por de trás duma cortina de cabelos untuosos, caminhando em volta das secretárias dos alunos. - No ano passado, houve alguns contratempos que impediram alunos de participarem no exame. Este ano não haverá desculpas. Serão tratados de igual forma, sem favoritismos nem privilégios. Se fiz-me entender, prestem atenção e abram o livro na página trezentos e noventa. – Parou atrás da sua secretária.
Toda a gente sabia que Snape só aceitava alunos com um outstanding para as suas aulas de nível N.E.W.T, e tinha sido, graças a Slughorn, que aceitava alunos com apenas um excede espectativas que Harry passara a poções.
Harry abriu o livro distraidamente e tirou um pedaço de pergaminho velho da sua mala, arriscando um breve olhar em seu redor, para encontrar todos os alunos impecavelmente quietos, antes de agarrar na sua pena e molhá-la no tinteiro, ponderando o que ia escrever a seguir.
Desde que esse ano lectivo começara, sentia-se cada vez mais distante de Ron e Hermione, como se um muro tivesse sido erguido entre eles. Não era a primeira vez que a sua amizade sofria de alguns contratempos. Quando encontravam-se sozinhos, à procura dos horcruxes, com a tensão provocada pelo medo de falhar e a inutilidade do plano, tinha havido momentos em que julgara que nunca mais iriam voltar a falar-se, principalmente com Ron, que tinha sido especialmente influenciado pelos efeitos nefastos do medalhão. Mas a longo prazo, as suas preocupações desvaneceram-se facilmente, tornando-se mais indefinidas. O calor da batalha de Hogwarts trouxera novas preocupações, e com ele novos medos, deixados para trás mais tarde, para logo tornarem-se outro motivo para fortalecer a sua amizade.
Tudo mudara com a chegada dum novo ano e, se Harry não tivesse encontrado amor num dos lugares menos esperados, ter-se-ia arrependido de ter voltado. Hermione e Ron nunca compreenderiam, nunca aceitariam como Snape fazia-o sentir-se completo. Uma barreira adensava-se, alimentada por mentiras e enganos, para logo manter-se dolorosamente fixa, um espinho indomável sobre os seus pés, numa memória constante que nunca seria realmente aceite, pelo menos não enquanto tivesse na escola.
No entanto, havia coisas que ainda podia partilhar com os seus colegas. Quem sabe até trouxer um pouco da camaradagem perdida entre eles.
"Eu tenho um plano para descobrir quem tentou matar-me", escreveu em traços apressados, parando apenas para molhar a pena, e dobrou o pedaço de papel quadrado meticulosamente, formando um esboço dum grou pequeno.
- Wingardium Leviosa – proferiu em voz baixa, fazendo com que o grou voasse no ar brevemente, para logo a seguir aterrar entre a mesa de Hermione e Ron.
Ron foi o primeiro a aperceber-se, desenhava distraidamente um dragão e uma _ nas margens do seu manual. Pegou no pergaminho e desdobrou-o, escrevendo uma mensagem rápida, e voltou a dobrá-lo sob o formato dum sapo. O origami de papel antigo deu um salto rápido, poisando na sua secretária, mesmo em frente ao seu livro.
Pegou nele e desdobrou-o, sem antes aperceber-se que despertara olhares interessados nalgum dos alunos mais próximos, curiosos pelo que estava-se a passar. Harry deu graças pelos Slytherin sentarem-se sempre nas filas da frente, deixando as filas de trás desocupadas para os alunos da sua casa, que já conheciam a reputação do professor para dar preferência aos seus.
Snape, alguns metros mais à frente, continuava a discursar acerca da importância de esmigalhar artemisia adequadamente, as suas palavras registavam-se muito vagamente na sua mente, acompanhadas por uma sensação de desconforto crescente, ao vê-lo começar a rondar as secretárias dos alunos em passos largos.
Harry apertou o papel com força entre os dedos, lendo-o rapidamente, tentando evitar não tremer. "Isso pode incluir uma data de gente! Aposto que grande parte dos Slytherin dariam de tudo para ver-te morto, pá. Alguns dos parentes deles foram presos depois da batalha de Hogwarts, graças a ti."
Atafulhou o papel com uma velocidade estonteantemente rápida no seu bolso, quando Snape aproximou-se da sua secretária, fazendo o possível para fingir que estava a escutá-lo. Todavia, o seu coração abraçava desconfortavelmente o seu peito, como se tivesse falhado um lance de escadas, tornando as palavras que chegavam aos seus ouvidos, fracas e desconexas.
- A poção, se for bem preparada, induz o seu usuário num sono profundo. Simples mas efetiva, e com uma forte aplicação prática. Têm uma hora e meia, nada mais. No final das aulas, quero uma amostra do seu conteúdo, devidamente etiquetada com o vosso nome, sobre a vossa secretária. Provarão uma pequena dose, o suficiente para causar-vos um ligeiro cansaço nos próximos minutos, e veremos se prestaram atenção – disse asperamente Snape, no seu tom de voz lúgubre habitual.
Harry somente atreveu-se a tirar o pergaminho amarfanhado do seu bolso, quando o professor acabara de completar um ciclo completo em volta da sala de aula e sentara-se por de trás da sua secretária, acenando com a sua varinha num breve movimento de pulso, em direcção ao quadro, as instruções para o preparo aparecendo desenhadas a giz branco, numa letra impecavelmente direita e sem floreados.
Com um movimento rápido, escreveu uma mensagem breve em letras apressadas, e dobrou o papel de novo até formar um grou. Quando preparava-se para enviar a menagem, sentiu, antes de mesmo ouvir, a vibração negra no ar, acompanhada por palavras invernosas, que arrestaram-se dos seus lábios lentamente:
- Eu pensava que a maioria dos alunos deste ano, já tinha maturidade suficiente para obedecer a uma simples regra. Aparentemente eu estava errado. Não é, Potter? – Seria o professor capaz de desmaterializar-se em Hogwarts? Snape encontrava-se mesmo atrás dele, o seu manto a roçar no seu, e ele podia jurar que era capaz de sentir o seu calor corporal, convidando-o a aproximar-se. – Porquê que não partilhas com os teus colegas o quê que tinha assim tão importância que não podia esperar pelo fim das aulas? Estamos à espera para ouvir. Será uma das tuas novas crises que o Profeta Diário tão gosta de falar? Porque celebridade ou não, se voltares a mandar mensagens nas minhas aulas apanhas um castigo. – Snape estava agora a inclinar-se sobre a sua secretária, os olhos brevemente contraídos, e os lábios enrolados numa linha fina. - Mostra-me as tuas mãos – ordenou num tom de voz perigosamente suave.
Inspirou pequenas golfadas de ar, tentando acalmar o seu coração traiçoeiro. Incrível como ele não mudara assim tanto, mesmo depôs da semana passada. Continuava a provocá-lo com palavras duras e cruéis, parando sempre para apontar os seus erros com comentários sarcásticos, sem qualquer indício das emoções que encontrara nos seus braços.
- Nada.
- Tal como julguei: para além de preguiçoso também és mentiroso – acusou-o Snape, a voz carregada de desprezo evidente. E, com um movimento rápido, agarrou-lhe as suas mãos, até obrigá-las a abrirem-se, e soltarem o pedaço de papel que tentara esconder sobre o seu colo, por debaixo da secretária.
Snape desembrulhou o pergaminho e começou a lê-lo em voz alta:
- "Falamos mais tarde". – Foi tudo o que ele conseguiu ler. – Talvez devesses ter escutado as tuas próprias palavras. Dez pontos a menos para os Gryffindor. Começamos bem essa aula. Deve ser um privilégio para ti, Potter. O teu comportamento, só de si, já é quase suficiente para pôr a tua casa em último lugar este ano.
Alguns alunos dos Slytherin começaram a soltar risinhos maldosos. Snape amarrotou o papel sobre o seu punho fechado e guardou-o no bolso, lançando um olhar duro na sua direção.
- Potter, quero-te na fila da frente, já. – ordenou. - Não tenho tempo para demoras proporcionais.
Harry apenas olhou para ele com desafio evidente, provocando-o a não afastar o seu olhar. Sentia um prazer perverso em ouvir Snape criticá-lo, obrigando-o a atravessar uma linha ténue e agir. Preferia tudo isso a ter de sentar-se ao lado de Draco, mas o Professor não retribuiu-lhe nenhum do seu prazer, em vez disso limitou-se a afastar-se.
De mau humor, arrastou os pés distraidamente, equilibrando as suas coisas numa montanha precária, em frente ao seu rosto, escoltado por olhares curiosos. O único lugar vazio na fila da frente era a terceira cadeira, mesmo em frente à secretária de Snape, ninho de Slytherins, todos eles parecendo muito pouco amistosos, e se não soubesse que o professor não poderia prever isso, teria dito que tinha feito de propósito.
Se pudesse, adiava esse momento, mas não havia nada que pudesse fazer. Hermione e Ron lançavam-lhe olhares apologéticos.
Tentou ignorar a sensação de ter uma flecha de raiva, derramada quente sobre o seu peito, provocando com que os seus dentes rangessem, e os seus olhos pegassem fogo inadvertidamente, enquanto focava-se no rosto pálido de Draco. Agora que o via tão perto, não queria esquecer-se dele. Queria recordar cada traço do seu rosto, lembrar-se de quem o magoara naquela noite, até ao seu peito ameaçar explodir de raiva, atiçando as sementes da vingança. Foi apenas com muito custo que domou as suas emoções, interrogando-se porquê que Snape pedira-o para sentar-se a seu lado, sabendo o quanto isso custava-lhe.
Bateu com o manual com demasiada força, provocando com que alguns olhares voltassem-se sua direção. Todos os seus sentimentos alertavam-no para ter cuidado, registou inconscientemente os seus dedos amarrarem-se em redor da varinha no seu bolso, o seu corpo tenso como as cordas dum arco, ainda assim não conseguiu evitar sentar-se a seu lado por muito mais tempo. Puxou a cadeira o mais longe possível, sem ficar sentado indiscretamente no colo da Pansy Parkinson.
Desta vez, esforçou-se para concentrar nas palavras de Snape, para descobrir que afinal não era assim tão fácil. Pensava que depois da declaração de amor, o medo e o ódio, que lutavam para conquistar mais espaço na sua mente, sempre que escutava o professor, iam diminuir de proporções significativamente, dando espaço para focar-se na matéria. No entanto, em vez disso, sentia-se cada vez mais distraído pelo vulto à sua frente. Reparava constantemente em pormenores que não prestara atenção antes. Na forma como o tecido negro da sua roupa apertava-se subtilmente quando caminhava, na nuvem que era a sua capa negra, nos movimentos que a sua mão fazia quando lançava um encantamento, nada disso ajudava-o a sossegar o seu coração.
Foi com assombro, que percebeu que, por aquela altura, já todos os alunos tinham voltado para as suas mesas com os ingredientes para o preparo da poção. Levantou-se rapidamente, grato por ter conseguido escutar, ao menos, algumas das sugestões de Snape quanto à forma como aquecer a poção para tingir o ponto certo.
Quando voltou, ouviu Pansy, murmurando o seu nome com a mão à frente da sua boca, para abafar os risos mal disfarçados. Calou-se abruptamente ao vê-lo aproximar-se. Ela que falasse, pensou, não era como se fosse culpado dos problemas que estava a ter com o namorado. Draco evitava olhar para mais alguma coisa do que a poção à sua frente, o seu rosto tinha adquirido um tom acinzentado doentio.
À uns dias atrás, Harry deparara-se com uma rede de poções ilegais no colégio. Jeremias tentara vender-lhe várias poções para ampliar a memória, agora que os exames aproximavam-se, mas Harry interessou-se mais por uma poção dos desejos, que restara dos estoques de poções para o dia dos namorados. Segundo ele, muito procurada. E, embora Hermione fosse reprimi-lo por isso, comprou uma dose por instinto, pensando em usá-la mais tarde, para conseguir uma detenção com Snape. Ainda assim, hesitava. Preferia enfrentar um dragão a aborrecê-lo, e temia que algo como isso fosse cruzar a linha. A última coisa que desejava era passar uma detenção perdida, com Snape a torturá-lo constantemente com apalavras ríspidas. Mas, quanto mais tempo passava com Pansy e Draco a seu lado, mais vontade tinha de usá-la.
Harry tentou não pensar mais nisso, enquanto adicionava quatro ramos de lavanda ao almofariz, junto com duas colheres duma mistura de ervas estandarte, habitualmente usadas para complementar poções, e começou a esmigalhá-la com movimentos sonoramente irritados, imaginando o rosto de Draco na mistela de ervas aromáticas.
Passados uns minutos, começou a sentir-se um pouco mais calmo, a presença de Snape, pela primeira em muito tempo, era capaz de fortalecer-lhe o espírito e tranquilizá-lo.
Limpou a testa com as costas da mão, o calor que subia do caldeirão em ondas gasosas quase o asfixiava com o seu cheiro nauseabundo, ganhando volume rapidamente. Tentou não pensar no que acabara de comer ao pequeno-almoço a todo o custo, parecia quase como se a temperatura da sala tivesse subido mais do que cinco graus celsius.
Quando tentou arriscar um olhar nervoso na direção do professor, demasiado consciente da sua presença, sentiu uma picada dolorosa na sua mão direita, queimando-lhe a pele num formigueiro desconfortável. Soltou um gemido. Pansy tinha derramado uma parte do conteúdo púrpura do seu caldeirão sobre si. Afastou a mão instintivamente, fazendo os possíveis para não fulminá-la com o olhar. Tinha quase a certeza que fizera de propósito, sabendo bem o quanto Snape privilegiava os da sua própria casa.
- Miss Parkinson, tenha mais cuidado, não queremos que o Potter fique mais desfigurado que o habitual – zombou Snape, lançando um encantamento para limpar a sua secretária, com um sorriso gelado no seu rosto magro.
Uma picada de raiva floresceu-lhe no peito. Abaixou os olhos em direcção à sua própria poção, focando-se intensamente no caldeirão, ao mesmo tempo que escondia o seu rosto vermelho por de trás da tempestade de fumos prateados. Porquê que Snape era tão injusto, logo quando julgava que ele tinha mudado? Ele sabia bem a forma como sentira-se depois daquelas marcas, ainda assim não tinha hesitado em humilhá-lo diante da sala inteira. Sabia que ele era o mestre dos disfarces, cada expressão que vestia servia para intensificar o seu papel, mas ninguém estava a pedi-lo para beneficiá-lo, bastava não gozar com ele daquela forma. Graças a tudo isso, a sua poção adquiria uma cor demasiado pálida, borbulhando furiosamente num mar revolto. E teria Snape em conta o motivo de estar estragada? Claro que não. Se não fosse por Pansy já a teria mexido por trinta segundos como o manual indicava.
Sentiu Snape pegar na sua mão ferida, entoando um encantamento em voz baixa, até a sua ferida reduzir-se a uma leve impressão desconfortável. Era incrível como os seus dedos tão gelados eram capazes de provocar uma sensação agradável sobre a sua pele, acordando o sangue nas suas veias, e fazendo com que uma onda de calor subisse ao seu rosto. Respirou fundo, confuso. Snape era sempre capaz de suscitar-lhe emoções diversas.
Os seus olhos eram dois poços fundos, vazios e inexpressivos. Enterravam-se nos seus como se fossem capazes de ler a sua alma, expondo e avaliando cada recanto privado do seus ser, até deixá-lo vulnerável e com a cabeça tonta. Por de trás deles, era capaz de ler uma luta de emoções irreconhecíveis, confluindo entre si, provocando com que o seu coração bate-se mais forte contra o seu peito.
Era agonizantemente difícil restringir-se naqueles momentos, felizmente Snape afastou a mão antes que ele atrai-se o seu corpo de encontro ao seu, e as emoções vagamente expressas desapareceram como um sol numa manhã gelada de inverno.
Suspirou, tocando distraidamente na sua mão. Ainda era capaz de sentir a sensação de dedos fantasmas sobre a sua pele.
Depois de deitar os ramos de valeriana, mexeu sete vezes com uma colheu de pau grande, no sentido do relógio, apenas para ver o líquido do seu caldeirão fumegante tornar-se demasiado grosso, num tom de alabastro doentio. Foram precisas as suas duas mãos, para arrancar a colher do fundo do caldeirão, que lutava para ser engolida por uma maré gasosa. Virou-se na direcção de Hermione. A sua poção era dum roxo líquido, subindo em pequenas nuvens estreladas e evaporando-se antes de atingir o teto.
Faltava pouco minutos para o tempo de preparação acabar, e ele tinha a certeza que receberia uma má nota. Não soube bem o que deu-lhe. Era agora ou nunca. Instintivamente, agarrou no frasco, esquecido no fundo da sua mala, com a poção do desejo e trocou-o com a poção acabada de preparar da Pansy. O recipiente era igual ao usado pelos alunos dos últimos anos a poções: transparentes, de vidro mal trabalhado, com trinta cilindros. Mas, os olhares mais atentos poderiam notar uma cor mais forte, e um vidro menos embaciado por uma poção acabada de fazer.
- O vosso tempo para completar a poção chegou ao fim. Se não conseguiram fazer uma poção adequada não será com mais meia hora que o conseguirão. – disse Snape friamente, levantando-se da sua secretária. – Vamos começar pela fila da frente.
Harry teve quase a certeza que Snape ia aproximar-se da sua secretária, as suas atenções focaram-se nele momentaneamente, e por um momento, esqueceu-se de respirar, mas em vez disso ele caminhou na direção de Blaise, inspecionando o seu caldeirão.
Snape era um professor severo, e duro, capaz de invocar medo na memória dos seus alunos. Quando chegava à sala, não era preciso mandá-los silenciar, embora muitas vezes o fizesse, um silêncio pesado abatia-se por cada recanto da masmorra, reinando durante o curso das aulas inteiras, apenas para ser interrompido por breves sussurros nas horas certas. Mesmo assim, os Slytherin eram sempre mais beneficiados. O professor aconselhava-os pacientemente acerca das suas poções, mostrando-lhes os seus erros, e corrigindo apressadamente quando parava junto deles. Ao contrário dos Gryffindor, tinha a certeza, não seriam obrigados a ingerir a poção se esta parecesse intragável.
Draco mediu a sua poção com um conta gotas, provando uma colher pequena do seu conteúdo. Depois disso, quando os seus olhos tornavam-se mais pesados, Snape deu-lhe o antídoto, sem fazer qualquer comentário, as rugas do seu rosto, ainda assim exprimidas numa expressão feroz. E Harry sentiu um prazer mórbido ao vê-lo tremer, mais pálido, sem ser capaz de levantar o rosto da tampa da mesa.
Mas não teve muito tempo para sentir-se contente. A sua satisfação desmoronou-se como cartas empilhadas ao vento, ao ver Snape avançar na direção da secretária de Pansy. Afastou o rosto, incapaz de assistir aquela cena sem a sua culpabilidade traísse-lhe o olhar.
- Miss Parkinson, desentrelace-se do Mr Zabini antes que ele tenha de ir para a secção de traumas graves.
Harry arriscou um olhar, surpreso. Tinha quase a certeza que a poção ia surtir efeito com o Draco, não com Zabini. Se o soubesse, talvez não o tivesse feito, a última coisa que queria era magoar a Ginny daquela forma, depois da sua separação brusca com o Slytherin. Sentia-se parcialmente culpado por ter prometido começar a namorar com ela, depois de matar Voldemort, para descumprir a promessa, evitando-a nos primeiros messes de aula, embaraçado pelo seu interesso por Snape continuar a crescer, abafando qualquer oportunidade de alguma vez voltar a interessar-se por ela.
Ouviu um berro de raiva na fila de trás, e um silêncio mórbido. Toda a gente encontrava-se imóvel, tentando evaporara-se por de trás das suas secretárias, o sangue fugindo-lhes dos rostos preocupados. Da última vez que algo como isso tinha acontecido, segundo as suas memórias, tinha sido no seu segundo ano, quando criara uma diversão para Hermione poder roubar pó de chifre de bicórneo dos armários pessoais de Snape.
- Petrificus Totalus! – entoo Snape. - Potter, o quê que fizestes? – rugiu venenosamente, virando-se na sua direcção. - Porquê que tudo o que acontece de mal tem de estar relacionado, de alguma forma, contigo?
Harry arriscou um olhar para a secretária a seu lado. Pansy tinha as pernas ligadas e os braços apertados a seu lado, estendidos ao longo do seu comprimento. Encontrava-se firmemente congelada no seu assento, o seu corpo preso numa expressão rígida, com o seu rosto desconfortavelmente esmigalhado de encontro à sua secretária, enquanto Zabini tentava, a todo o custo, afastar-se o máximo possível do seu lado, como se a rapariga tivesse uma doença contagiosa.
Foi com muita dificuldade que abafou um sorriso. – Eu não fiz nada, professor.
- Então eu presumo que seja uma infeliz coincidência que, justo na primeira aula sentada a teu lado, Miss Parkinson comece-se a comportar duma forma imprópria – comentou Snape, numa voz de seda suave, o rosto soturno marcado por uma expressão de triunfo.
- Talvez ela tivesse-se a reprimir durante demasiado tempo – aventou Harry, num tom de desafio evidente.
Snape fixou-o intensamente, e Harry sabia o quê que ele estava a fazer, nunca tinha-o conseguido impedir antes. Tentou fixar a sua mente em momentos felizes, mas tudo o que veio-lhe à cabeça foram memórias da sua culpabilidade. Sem dar por isso, prendeu a respiração, até os seus pulmões arderem-lhe. Sentiu-se minguar perante a forma sinistra e pesada à sua frente, revirando-o vulgarmente, como se ele tratasse-se dum objeto sujo. Dilacerava-lhe cada recanto do seu ser com uma promessa negra de perigo eminente.
Os lábios magros de Snape retorceram-se num sorriso cruel. - Não é Miss Parkinson quem está reprimida aqui, Potter – disse-lhe muito lentamente. – Miss Lace, acompanhe a Miss Parkinson à ala hospitalar. O resto de vocês, fora daqui! Deixem as vossas amostras em cima da minha secretária – ordenou severamente. - Menos tu, Potter. Hás-de pagar caro por isso! – prometeu-lhe num tom de voz assassino, puxando-o pelo braço até obrigá-lo a levantar-se, sem dar-lhe se quer tempo para arrumar as suas coisas.
Harry ouviu a voz abafada de Hermione tremer-lhe do fundo da sala, apenas um pouco acima dum suspiro. Ainda assim, ressoou claramente, no silêncio vazio das catacumbas.
- Mas ainda falta dez minutos para as aulas acabarem.
- Eu penso que não fiz-me entender: isso não é um pedido é uma ordem! E eu garanto-te que isso será a última vez que questionas o meu método de ensino, Miss Granger. Algum tempo para porem a matéria em dia só vos fará bem.
Hermione pressionou os lábios com força, um de encontro ao outro, as mãos tremendo levemente. Parecia querer dizer qualquer coisa, mas Ron agarrou-lhe na mão com força, por de baixo da secretária, enquanto arrumava o amontoado de livros na mala, vestindo uma expressão indignada no rosto.
Aguardaram, impacientemente, que todos os alunos se fossem embora. Não foi preciso muito tempo: a maioria deles estava mais do que aliviado por poder deixar a sala. Apenas Ron demorou um pouco mais de tempo, saindo sem antes lançarem-lhe um breve olhar carregado de pena.
Sem perder tempo, o Mestre de poções agarrou-lhe o braço, arrastando-o por um corredor estreito, até ao seu centro, entre uma coluna de tochas a pegar fogo, batendo furiosamente de encontro à porta do seu gabinete, e empurrando-o para dentro da sala escura, assim que a porta abriu-se, rangendo ameaçadoramente. Desequilibrou-se, agarrando-se à prateleira atrás de si. Um barulho de frascos de vidro a partirem-se, dilacerou o silêncio, ribombando em conjunto com o seu coração assustado. Alguns dos frascos de boca larga de Snape, com criaturas sinistras a flutuar em formol, tinham-se quebrado, encharcando o seu conteúdo sobre a carpete negra.
- Reparo – disse Snape, com um gesto rápido de varinha. – Quando eu penso que atingistes o teu limite, és capaz de provar-me sempre o contrário – Harry notou que ele ainda agarrava-lhe pelo braço com brusquidão, mantendo-o próximo do seu corpo. – Drogar uma colega com uma poção proibida segundo os regulamentos de Hogwarts. Podias ser expulso, desta vez. Popular ou não, Potter, não pode estar a quebrar constantemente as regras. Vais ter de ser punido severamente. Eu vou ensinar-te como comportares-te. Servirás de exemplo ao teu grupinho de seguidores. Vou fazer com que nunca mais contestes a minha autoridade – avisou-o, empurrando-o de encontro à parede.
Os seus corpos colidiram. Snape cravou as suas unhas nas nádegas de Harry, a sua respiração húmida acariciando-lhe o pescoço provocadoramente, enquanto a outra mão prendia os seus braços no alto da sua cabeça. Os seus olhos brilharam por momentos, um calor negro atravessou neles, devorando casa recanto da sua pele exposta, consumindo-o intensamente.
Foi com muito custo que conseguiu liberar a sua respiração, o coração lutando desesperadamente para soltar-se do seu peito. As suas mãos procuraram instintivamente o tecido negro das vestes de Snape, afundando-se no material suave, ao sentir um joelho pressionar-lhe o seu pénis semi-ereto. Impressionante como alguém tão gelado era capaz de provocar-lhe um calor tão intenso. Sentiu-se afundar dentro dum abismo negro, bebendo cada traço da sua consciência escondida em breves sinais por decifrar. Levou as mãos as seu rosto numa carícia, querendo absorver tudo isso, até reencontrar-se na densidade das trevas.
- Então castiga-me – pediu-lhe Harry com dificuldade, a voz rouca traindo a sua excitação.
Como antecipara, os olhos de Snape estreitavam-se com desejo, a sua língua lambia distraidamente os seus lábios magros, provocando com que um afoite despertasse-lhe o membro adormecido, a sua pele açoitada por uma explosão de calor. Atirou a cabeça para traz, batendo na pedra dura, sem ser capaz de registar a dor espalhando-se pela sua nuca.
- Eu não vou tolerar que contestes-me, Potter! - rugiu enraivecido. - Se continuares a comportar-te desta forma seremos os dois expulsos! – E quando olhar-mos para o passado, para o tempo desperdiçado juntos, ambos acharemos os nossos comportamentos ridículos. – continuou num tom de voz mais suave, os seus lábios acariciando-lhe o lóbulo auricular, enquanto a sua mão tombava na direcção do interior da sua coxa, acariciando-a em padrões circulares.
Harry respirar pesadamente, tentando focar as suas atenções nas palavras proferidas, mas uma bola de calor entrançava as suas entranhas, tornando o seu corpo tenso, provocando com que espasmos fortes irrompessem dentro de si, incinerando-o em chamas.
- De quê que tens medo? – perguntou Harry. Eu sei o quê que eu quero – disse com determinação, inclinando-se para beijar-lhe os lábios. – Mas se quiséreis podemos separar-nos… – Snape empurrou-lhe um olhar cheio de ódio, as pupilas dilatando-se perigosamente. – Não para sempre! Eu não conseguia aguentar sem ti! – apressou-se a acrescentar alarmado, as unhas de Snape, por momentos, cravando-se com mais força sobre a sua pele. – Só até ao fim das aulas. Não falta muito. Depois disso, mesmo que descobrissem, ninguém podia despedir-te.
- Não seria assim tão fácil para mim, como desconfie que julgues - sussurrou levemente, numa carícia jovem. - Pensas que se eu pudesse-me separar de ti, já não o teria feito antes de chegar a este ponto? – perguntou Snape, uma mistura entre divertimento e aborrecimento engrossando a sua voz. – O teu comportamento foi impróprio, inoportuno e inaceitável, mas se eu quisé-se-te deixar, não teria o meu pénis pressionado de encontro ao teu.
- Não pares de tocar-me – pediu-lhe Harry, desesperado, agarrando-lhe com mais força, enquanto as mãos de Snape abriam o feixe das suas calças, introduzindo uma mão no seu interior.
- Confia em mim: eu não tenho qualquer intenção – declarou Snape. – O quê que queres? – perguntou convidativamente.
Harry tinha dificuldade em respirar, as palavras de Snape moviam-se na sua mente, sem ele ser capaz de apreender o seu significado. Dedos agarraram-se ao seu pénis por momentos, ágeis e suaves como uma pena, brincando como ele sem tocá-lo a sério.
Emitiu um pequeno grito de frustração. – Eu quero… hóóó… eu …
- Que eloquente! – ironizou Snape num tom de escarninho. - Se não fores capaz de elaborar uma frase completa, eu temo que não possa-te ajudar… O quê que queres? – voltou a perguntar.
- Eu quero… eu quero tocar-te… - corou.
Ainda segurando-o de encontro à parede, Snape afastou a mão que tocava-lhe, desapertando as suas calças e tirando o seu pénis para fora, sempre com o cuidado de manter o contacto visual, os seus olhos nivelados refletindo um fogo obscurecido pela posição em que o seu rosto se encontrava, uma mancha branca numa poça cor de sangue; a lareira adjacente, por de trás das suas costas, dando-lhe a impressão de ter os cabelos em brasas.
Tudo mais parecia um sonho, os seus pés mal tocavam o chão, a sua respiração saia-lhe descontrolada devido há adrenalina crescente, e foi com cuidado, como se lidasse com uma besta selvagem, que acariciou-lhe o pénis, adorando a forma como endurecia à medida que a sua mão enrolava-se sobre a sua superfície em movimentos fortes.
Snape atirou a cabeça para trás, e ele parecia perfeito, tal como sempre sonhara, com os lábios apertados até quase fazer sangue e os olhos vidrados. Harry esqueceu-se de como pensar, tudo o que importava era continuar a prolongar aquela sensação indefinidamente.
Massajou toda a extensão da sua superfície, a pele fervendo e latejando, sendo empurrada cada vez mais de encontro à sua mão pelo corpo de Snape, que movia-se ao seu ritmo próprio.
- Harry… pára!
- Agora? – perguntou contrariado, afastando a sua mão.
- Estás a ir demasiado rápido. – Afastou-o de si. - Se continuares assim, eu não vou conseguir aguentar por muito mais tempo – alertou-o Snape, caminhando em direcção à casa de banho, enquanto arrancava cada peça de roupa do seu corpo, pelo caminho. – Se quiseres continuar eu sugiro que juntes-te a mim no duche. Sujaste-me as roupas, eu não posso apresentar-me nesse estado aos meus alunos.
Só naquela altura observou as manchas verdes musgo tingindo o seu tecido. Devia ter derramando-as sobra a sua roupa, sem querer, quando agarrara-se à prateleira por suporte. Deu graças por isso, de outra forma dificilmente veria o corpo de Snape completamente despido, sobre o seu olhar perscrutador. O Mestre de Poções tinha pouco tempo para expor-se, com a próxima aula a chegar a qualquer momento.
Caminhou atrás dele, tirando primeiro o seu casaco, enviando-o para o chão sem se importar, depois começando por desapertar os botões da blusa rapidamente, empurrando as suas calças, que escorregavam pelas suas pernas, para longe com um pontapé, vendo os olhos de Snape, quentes, escuros e cheios de adoração, derramando o seu desejo em camada de calor que derretiam a sua pele, como se ele fosse um deus perfeito, expondo-se perante um mortal.
Não teve tempo de continuar a seguir aquela linha de pensamentos. Snape arrastou-o atrás de si para a casa de banho.
XXX
Harry fechou os olhos, ouvindo o barulho da respiração suave de Snape enquanto virava as páginas, ao mesmo que escutava as batidas rápidas do seu coração, marcando os minutos passados num silêncio tranquilizador. Moveu-se lentamente, para não perturbar a sua leitura, desejando interiormente que não houvesse roupa entre eles, nada para além da sensação de pele pálida e suada entre os seus dedos; e espreitou sobre o seu próprio ombro, para o livro de poções encadernado, aninhado na mão direita de Snape, num angulo de difícil visão. Mesmo assim o professor não se queixava. Sorriu inadvertidamente.
- Datura… tive de fazer uma composição acerca das suas propriedades curativas à dois anos atrás. As raízes são usadas numa infusão de alecrim para curar insónia, mas as flores são altamente venenosas - disse Harry, tentando mostrar-se interessados. A verdade era que poções nunca fora o seu forte, e o seu interesse pelo professor da disciplina não tinha servido de nada para alterá-lo.
Encontrava-se sentado no colo de Snape, virado na sua direção, com a cabeça aninhado no seu ombro e os braços colados ao seu peito. Lá fora, a chuva ainda fustigava os vidros da janela, trazendo consigo correntes de ar fria que infiltravam-se facilmente entre as paredes de pedra antiga do castelo. Harry não importava-se: as masmorras podiam ser a parte mais fria de Hogwarts, mas a lareira crepitava gentilmente, as chamas encarnadas dançando e estalando, um trilho de línguas em fogo, espalhando o seu calor agradável em pequenas ondas; e a tempestade dos seus corpos ainda quentes do sexo não amainara.
Corou ao recordar-se a forma como Snape acariciara-o por de baixo da roupa com os seus dedos longos e ossudos, a sua voz reduzida a um murmúrio rouco, sussurrando-lhe obscenidades ao mesmo tempo que o penetrava com uma urgência crescente. Ainda era capaz de sentir o fantasma do seu órgão dentro de si.
Após uns breves minutos que mais pareceram horas, Snape finalmente levantou a cabeça das páginas, e parou de acariciar-lhe distraidamente o cabelo, as madeixas revoltas deslizando suavemente entre os seus dedos.
- Que desapontante. Espero que isso não seja uma das tuas pobres tentativas de impressionar-me, Harry. Vindo de ti estava à espera de algo mais original.
- Como o quê? Amanhã vou assaltar Gringotts? – riu-se Harry sem humor. - Porque eu já fiz isso e não foi divertido, ao contrário do que toda a gente julga. Como se não existisse mais nada que eu deseja-se fazer para além de passar a vida fugitivo, com o peso da missão para matar Voldemort sobre os meus ombros.
Era cansativo ter um grupo de alunos de diferentes casas a rodeá-lo constantemente, invejosos dos seus feitos, e demasiado excitados para ouvir os acontecimentos em primeira mão, sem ter em conta o quanto sério realmente fora passar os dias sem saber se os seus amigos ainda estavam vivos, sentindo-se um cobarde por estar escondido nos confins duma floresta qualquer, amaldiçoando-se por não ser melhor feiticeiro do que era, e odiando-se cada vez que via os olhares que os a Hermione e o Ron lançavam-lhe quando julgavam que ele não estava a ver. Cada noite que acordava com a cicatriz a queimar-lhe e imagens nítidas de mais um feiticeiro sendo torturado, sem saber se o ódio que martelava-lhe o sangue era seu, ou pertencia a outra pessoa, implorava para si mesmo que quando a morte chegasse, fechando-se inevitavelmente sobe si, fosse rápido e indolor.
Em poucos segundos, olhos frios e impenetráveis enterraram-se nos seus, duas lascas de obsidiana num rosto longo e adunco, refletindo a luz cintilante das chamas, e por momentos, relaxaram com ternura mal contida, ao focarem-se no seu rosto. Sentiu-se transbordar de alegria, sabendo que Snape só olhava para si daquela maneira. Não tinha sido há muito tempo que odiara-o com fervor, mas tudo isso parecia pertencer numa outra vida.
- Miss Johnson tem medo do escuro e quase é capaz de fazer o Longbottom parecer competente, Mr Goyle tem uma aversão irracional a insetos, e Thomas seria incapaz de lançar um simples encantamento de protecção nem que a sua vida dependesse disso. – bufou. - Nenhuns desses idiotas que tens como colegas iam durar mais do que uma semana na floresta, nem que a sua vida dependesse disso. As capacidades de sobrevivência dos jovens hoje em dia parecem restringir-se a comprar doces - havia afeição na sua voz dura. - Bem, eu estava à espera que contasses-me algo que ainda não sei.
- Como o quê?
- Durante o ano letivo passado cada uma das passagens secretas que lidavam Hogwarts ao exterior foram seladas por encantamentos mágicos, Devoradores da Morte patrulhavam os corredores do castelo e o seu exterior, eu tinha olhos e ouvidos a murmurarem-me dia e noite, com o prepósito de certificar-me que ninguém passava despercebido sem que eu soubesse, no entanto – parou para fazer uma breve pausa -, como é teu costume, tu e os teus amigos conseguiram infiltrar-se no castelo sem serem vistos.
- Isso foi sorte – confessou Harry, sentindo-se ligeiramente embaraçado. A verdade era que, se tivesse dependido deles, provavelmente teriam sido capturados. – Havia uma passagem secreta no pub do Aberforth que lidava há sala dos desejos. Os alunos serviam-se dela para saberem informação do que se estava a passar no exterior, e para arrancharem comida sem serem vistos. Se não fosse o ele provavelmente teríamos sido apanhados e tu provavelmente não terias sido atacado pela Nagini – disse à laia de desculpa.
Se ele tivesse sabido…
Um cheiro pungente a ervas acabadas de ferver interrompeu-lhe a linha de pensamentos. Ao fundo da sala, em cima da mesa de trabalho de Snape, um caldeirão apagado arrefecia tranquilamente, transbordando com um líquido claro e cristalino, de densidade aquosa. Uma muralha de vapores contaminava o ar da sala fechada, cercando os livros e pergaminhos velhos assim como os frascos de ingredientes que ocupavam aleatoriamente a mesa. No entanto, o cheiro que atraíra-lhe o seu olhar em primeiro lugar, não parecia vir do caldeirão, adensava-se em redor da sala e colava-se confortavelmente às paredes, como se tivesse pertencido sempre ali, aquele quarto escuro e frio, dando-lhe significado próprio.
- Que poção é que acabastes de preparar? – perguntou, encarando Snape de frente.
- Sempre tive a impressão de nunca ter sido capaz de ensinar-te nada – confessou, os olhos descendo sobre o seu corpo com uma lentidão deliberada -, pelo menos nada que fosse útil para a sociedade – um sorriso feroz retorceu-se nos seus lábios finos. – Sempre fostes impaciente. Eras capaz de insistir no mesmo caminho esperando fins diferentes, mas a culpa foi em parte minha, todos os alunos são capazes de atingir resultados medíocres com um incentivo próprio – a sua voz lenta e rouca arranhou-lhe os ouvidos provocadoramente, obrigando-o a respirar fundo para acalmar as batidas do seu coração. – Por esta altura já devias ser capaz de reconhecer devidamente esta poção, já que ela foi responsável pela situação em que encontramo-nos.
- Veritaserum – respondeu Harry quase automaticamente.
Uma poção translúcida, sem sabor ou odor capaz de identificá-la. No entanto, lembrava-se claramente: a garganta tornada em pó, dedos apertando-se sobre ela, roubando-lhe o pouco ar que ainda restava-lhe, até torná-lo tonto e enjoado, o sabor da bílis subindo-lhe há boca, como se tivesse engolindo uma dose dupla de _. Podia não ter sido capaz de distinguir o sabor no chá que acabara de beber, mas o medo que controlava-o naquela altura, a sensação de estar a cair dentro dum poço fundo, ainda o assombrava até aos dias de hoje. Sentira-se horrorizado ao ouvir a voz do professor gozando e humilhando as suas emoções depois de descobrir o seu segredo vergonhoso. Naquela altura, a sua cabeça martelá-la furiosamente num novelo confuso. Jurá-la para si mesmo nunca mais abandonar o dormitório, por mais ridículo que fosse.
- É uma poção difícil de preparar: os ingredientes devem ser frescos e de boa qualidade, a temperatura do fogão assim como o tempo entre cada ingrediente adicionado deve ser contado ao milésimo segundo, e a forma como a poção é agitada é tão importando como o método de empunhar uma varinha num duelo. Qualquer erro, por mais pequeno que fosse, e a poção deve ser preparada de novo na próxima lua cheia. Contudo, aqueles com talento o suficiente, são recompensados com uma arma poderosa: uns pingos derramados dentro do café da manhã serão suficientes para fazer qualquer feiticeiro cuspir os seus segredos mais profundos, desde que ele não tenha aprendido a proteger a sua mente contra intrujões externas.
A poção estava a amadurecer sobre a mesa, Harry lembrava-se de Snape ter dito que demorava um ciclo lunar completo para estar pronta a ser utilizada. Dependendo de quando tinha sido começada a fazer, podia já não faltar muito.
- Tu não precisas de utilizares a poção em mim para saberes a verdade. Basta perguntares-me – disse Harry, fixando-o intensamente de forma a fazê-lo compreender o quanto falava a sério.
Snape ergueu uma sobrancelha inquisitivamente, um leve sorriso crispando-lhe o rosto numa expressão cruel. – A sério? – desafiou-o num tom de voz perigosamente baixo, capaz de rasgar-lhe a pele – Porque à seis anos atrás, fazendo uso duma brincadeira de mal gosto que podia ter resultado em ferimentos graves a um dos teu colega de turma, uma dose de pó de chifre de bicórneo foi roubada dos meus armazéns pessoais. Como já deves saber, os chifres de bicórneo é um ingrediente raro e custoso, se o ladrão tivesse sido descoberto teria de me ter pagado uma quantia avultada, e eu não penso que desta vez houvesse forma de evitares-te de ser expulso. - O seu rosto severo parecia ser capaz de perfurar-lhe os pensamentos, deixando-lhe com a sensação tantas vezes desconfortável de ter os seus pensamentos expostos. - Esse não foi o único ingrediente que desapareceu do meu estoque pessoal - fez uma pausa que pareceu arrastar-se eternamente -, uma quantidade substancial de guelricho foi roubada durante o Torneio dos três feiticeiros e eu não sou estúpido, sei que não encontravas-te no teu dormitório.
O seu rosto severo não ajudou-o a acalmar as batidas apressadas do seu coração. A verdade é que não estava à espera de Snape fazer-lhe este tipo de perguntas. Tinha tido bastantes oportunidades quando administrara-lhe veritaserum ou quando estavam a praticar oclumância. Podia ter invadido facilmente a sua mente, deslizado facilmente pelas falhas nas suas barreiras, vasculhando as suas memórias preciosas até encontrar qualquer ato que o incriminasse. Talvez devesse aprender mesmo oclumância, pensou. Podiam estar num relacionamento, mas isso até agora não tinha evitando-o de tentar penetrar na sua mente.
- De alguma forma sempre desconfiastes de mim. Não posso ser responsáveis por todos os regulamentos infringidos – sorriu inocentemente. – Promete-me que não vais fazer nada se eu te contar quem foi? – ergueu os olhos e fixou-os intensamente no rosto de Snape, acariciando-o com ternura.
- Já passaram vários anos, Harry, mesmo que os delinquentes ainda estivessem em Hogwarts eu não poderia contar as circunstâncias que justificassem a minha acusação duma forma plausível.
Da forma como conhecia Snape, ele ainda podia vingar-se facilmente. Sabia de primeira mão que o professor guardava rancor com muita facilidade e não era fácil de perdoar.
- Eu, a Hermione e o Ron decidimos usar o feitiço de transformação para infiltrarmo-nos nos dormitórios dos Slytherin e descobrir o seu herdeiro. Era uma boa ideia – admitiu Harry, retorcendo os dedos nervosamente em torno do tecido das suas calças. – Pena que não tenha resultado. – Snape lançou-lhe um olhar de desagrado, obrigando-o a acrescentar: - Foi a Hermione que roubou o _. Eu fiquei apenas de causar uma distração – resolveu não relembrar a Snape a confusão que causara, as palavras derramando-se da sua boca num jacto rápido. – E foi o Dobby quem roubou o guelricho. Eu não fazia qualquer ideia – acrescentou.
- No entanto, de alguma forma pareces estar sempre envolvido em sarilhos. – censurou-o Snape, a voz seca e lenta arrastando-se entre cada palavra.
- Não mudes de assunto – pediu-lhe. – Para quê que estás a preparar veritaserum?
Sentiu o peito contrair-se inadvertidamente, uma centelha de temor retorcendo-se e empecilhando-o até deixar uma pequena marca de medo cravado no seu subconsciente. Tentou acalmar a mente, pensamentos traiçoeiros rastejando ao de cima. O pressentimento que Snape estava de alguma forma a ocultar-lhe alguma coisa não contribui-o em nada para acalmar os seus ânimos. Sempre o souber: que ele não confiava em si. Tentou focar-se no seu rosto com atenção, tentar saber se estava realmente a esconder-lhe qualquer coisa, mas o rosto de Snape permanecia teimosamente fechado, um mapa de caminhos confusos que não era capaz de seguir.
Com um estrondo, o vento húmido arremessou-se violentamente de encontra à pequena janela nas masmorras, abrindo-a bruscamente num som ameaçador. Com dedos tremules, virou-se quase automaticamente na sua direção, apertando o manto da invisibilidade de encontro ao seu peito. O vento apagara a lareira, engolfando-os num mar de trevas.
- Lumus – proferiu Snape entre dentes, e com um movimento rápido um jacto de luz espalhou-se pela sala, uma nova cortina de fogo serpenteando entre as brasas da lareira.
A poção de veritaserum, aninhada confortavelmente na prateleira em frente à cadeira na qual se encontravam, cercada de pequenos frascos de vidro translúcido, brilhava num tom tremulescente, a sua sombra, refletia-se de encontro à parede, num jogo de luzes tênues.
- Devias estar mais preocupado com o teu pobre desempenho a poções. Se quiseres eu…
-Não – interrompeu-lhe bruscamente. – Eu não preciso de ajuda a poções – suspirou. A última coisa que queria era passar o pouco tempo que tinha com Snape a ensinar-lhe sobre as propriedades mágicas duma planta com um nome complicado, e um cheiro que fazia os bolos da tia Petúnia parecerem saborosos.
Veritaserum não era uma poção comumente preparada. Para quê que o professor a queria? Talvez desejasse ter um exemplar à mostra para as aulas de poção… Tentou acalmar-se. Ainda assim…Era injusto como era capaz de abrir as suas emoções, deixa-las exposta duma forma tão vulnerável, confiar tão abertamente em alguém que até há tão pouco tempo queria vê-lo magoado, sem receber nada em troca. Queria vê-lo segredar-lhe pensamentos que até tão pouco tempo tinha mantido escondido. Muito mais do que murmúrios roucos que fugiam-lhe dos lábios quando faziam sexo.
- Gostava de ficar aqui, para sempre a teu lado.
Snape alevantou a sobrancelha interrogativamente, interpretando o seu pedido como um simples capricho. – Ias aborrecer-te com facilidade…
- Não! Estou a falar a sério!
- Cuidado com o que pedes - avisou-o, - ou eu vou manter-te permanentemente amarrado de encontro à minha cama. Implorando para que eu volte e pedindo por mais.
- Talvez não fosse má ideia – mentiu Harry sedutoramente, brindando-lhe com um sorriso fresco. – Eu podia usar o manto da invisibilidade para esgueirar-me para os teus aposentos quando toda a gente tivesse a dormir.
Snape beijou-lhe o canto dos lábios, um leve esgueirar divertido traindo-lhe a voz séria. – É demasiado perigo. Andares pelos corredores sozinho... Até a tua sorte tem de chegar eventualmente ao fim. Alguém podia dar pela tua falta. Sabes que horas são? – suspirou. – Os meus alunos vão tornar-se mais preguiçosos e mal treinados do que o costume se começar a deixa-los à espera tanto tempo.
Harry levantou-se com pouca vontade. A Professora Miller ia matá-lo desta vez, ou com o seu azar alertar a diretora para a sua falta. Conseguia ver claramente o seu rosto dececionado quando descobrisse que nada de grave acontecera-lhe, que apenas faltara por lazer.
Caminhou em direção à porta, deliberadamente lento. A ideia de perder a aula não era suficiente para sentir-se motivado a separar-se de Snape. Desejava ardentemente passar nem que seja um único dia inteiro a seu lado. Caminhando naturalmente na rua sem ninguém estranhar.
- Espera! – pediu rispidamente Snape. As suas mãos frias, cor de papel branco, fechando-se sobre o seu ombro magro. – Eu tenho algo para ti.
- Um presente atrasado de dia dos namorados! – exclamou entusiasmado.
Snape desviou teimosamente os olhos, embaraçado. - Parece-te que eu sou como um dos teus colegas, preguiçosos e ridiculamente românticos, sem nada para fazer para além de passar o dia à procura de prendas e a escolher os melhores lugares para jantar à luz das velas? – Um pequeno sorriso contorceu os seus lábios magros, traindo-lhe o tom de voz pesado e inflexível. – Tenho trabalhos de casa a corrigir e testes a fazer, não tenho tempo a perder com feriados de mau gosto.
Snape estendeu-lhe um pequeno pacote embalado em papel marrom, com uma corda da mesma cor a prendê-lo devidamente no lugar. Parecia suspeitamente semelhante a um presente, ainda assim resignou-se a não fazer qualquer comentário, embora não tivesse resistido em deixar com que um sorriso azougado cobrisse-lhe o rosto a radiar de felicidade. Tinha a certeza do quê que Snape estava a pensar: que contentava-se com facilidade. Talvez tivesse razão.
Cuidadosamente, pegou na embalagem e desatou o nó, retirando um anel do seu interior. Era dum verde metálico feito de liga de zingo, com um formato duma serpente de duas cabeças, enroladas sobre o seu próprio corpo escamoso, com um cristal em losango, cerrado entre as suas mandíbulas. As pupilas, semicerradas, pareciam fixar-se intensamente no seu rosto.
Corou ridiculamente, sem saber porquê.
Snape tirou-lhe o dedo das mãos com suavidade, e introduziu-lhe no dedo anelar. - Roda o cristal três vezes, e pensa em qualquer coisa – pediu-lhe.
Harry obedeceu, o calor do seu rosto alastrando-se até tingir as suas orelhas de vermelho, enquanto tentava ignorar a sensação de ter as entranhas em brasas.
"É um aparelho de comunicação", ouviu-se a pensar, e mesmo sabendo que já estava à espera, não conseguiu deixar de dar um salto. A voz ecoava pela sala, como se tivesse sido transportada pelo vento e ampliada por um holofote.
- Não passa dum simples anel ligado a outro anel igual, por um feitiço de comunicação poderoso. Apenas as pessoas que enviarem e receberem as mensagens vão ser capazes de as ouvir.
– Obrigada! Desta forma podemos comunicar mesmo durante as tuas aulas de poções, ou quando for de noite, e toda a gente tiver regressado aos seus dormitórios…
- Potter… - avisou-o rispidamente Snape, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa Harry desatou a rir-se.
- Estava a gozar! Eu sei o quanto estás ocupado, mas eu não consigo deixar de pensar de uma ou duas formas interessantes de usar estes anéis… - respondeu-lhe Harry sugestivamente. Imaginando a voz de Snape rouca, com os lábios quase a tocar no anel, gozando ao pensar em si, com as mãos profundamente dentro das suas calças. – Obrigada – repetiu, beijando os lábios de Snape, lenta e deliberadamente, contornando o interior da sua boca com a língua, até sentir Snape responder com brusquidão, invadindo a sua boca molhada numa luta pelo poder.
Afastaram-se passado uns minutos, um pequeno trilho de saliva unindo os seus lábios.
Harry agarrou na mala, junto ao cadeirão, e caminhou em direção à porta.
- Não quero ver-te a faltar a mais nenhuma aula que seja, mesmo que eu seja parcialmente culpado. Se isso continuar assim reprovas. E eu não tenciono passar mais um ano a ter um caso com um dos meus alunos.
- Espero que eu tenha sido o único – sorriu. – Adeus Severus. – Saiu, sem esperar para ver a reação de Snape ao ter-lhe chamado pela primeira vez pelo seu primeiro nome.
A aula de transfiguração já devia estar quase a chegar ao fim. Tinha de começar a controlar-se. Não podia deixar que Snape afetasse-o sempre desta forma, como se fosse a primeira vez que se apaixonara. Se continuasse desta forma não demoraria muito até alguém desconfiar. Lembrava-se claramente da noite passada, do sonho que tivera com o professor, obrigando-o a dobrar o corpo sobre a secretária, enquanto marcava-lhe com um caminho de beijos, as mãos explorando o seu corpo até encontrar o interior da sua perna, mesmo perto do seu… "Não! Concentra-te!", pensou contrariado, os pulmões obrigando-o a puxar o ar com mais força.
Subiu as escadas de dois em dois e continuar a caminhar em direção à aula leste. Quando preparava-se para contornar o corredor, ouviu um barulho de passos atrás de si.
Uma passagem secreta fechou-se por de trás de Hermione, a estátua duma gárgula cobrindo-lhe parcialmente o corpo. - Harry! Preciso de falar contigo! – pediu-o com seriedade.
- Agora não tenho tempo! – exclamou Harry. O quê que a Hermione estava a fazer ali aquela hora? Não era costume dela faltar às aulas. – O Snape obrigou-se a lavar todos os caldeirões antigos, e a catalogar poções como de castigo – mentiu, sem olhar-lhe nos olhos.
Era-lhe difícil, demasiado difícil continuar iludindo toda a gente, o relacionamento dele com o professor um mundo completamente isolado, um sonho para ser vivido entre momentos fugazes.
- Harry…
Ignorou-a. – Ele disse-me que ou eu cumpria o castigo agora ou depois das aulas. Nunca o vi tão zangado. Preferi fazer tudo agora em vez de ficar até à noite com as mãos enfiadas dentro dum caldeirão…
- Harry – implorou Hermione numa voz sumida, e Harry conseguiu ver agora, que estava algo de errado. Eu sei – confessou contrariada, os olhos à beira das lágrimas e Harry teve de fazer o impossível para manter-se calmo, relembrando as palavras de Snape.
- Sabes o quê? – perguntou, fingindo-se confuso. Rezando para que Hermione perdesse a coragem e mudasse de assunto. Porquê que não tinha bebido uma poção da sorte justo hoje?
- Tu e o Snape estão a ter um caso! – Antes que Harry pudesse dizer mais alguma coisa continuou. – Eu sei! Julgas que mais cedo ou mais tarde alguém não haveria de notar? – perguntou-lhe honestamente.
- Eu não entendo…
- Por favor, não me mintas! – pediu-lhe Hermione. – Não tornes isso mais difícil. – A forma como ele olhava sempre para ti durante as aulas… os vossos desaparecimentos em conjunto, quando foram a Hogsmeade e mesmo antes disso… - afastou os cachos dos olhos. – Eu vi as tuas marcas no pescoço depois de teres estado no seu gabinete – corou profundamente.
- Não sabes o que dizes – gritou-lhe num tom de provocação.
Queria que ela confessasse, queria desabafar tudo para fora, queria rasgar e destruir até não restar nada à sua frente.
- Sei sim! – teimou. – Oh, Harry! Como pudestes fazer isso? Não vez que ele está a usar-te? Não sei porquê. Talvez tu faças-lhe lembrar a tua mãe…
Sentiu-se a quebrar, o chão abrindo-se perante si, e engolindo-o por inteiro. Não era capaz de pensar não importava o quanto tentasse. Uma raiva como nunca antes tinha sentido devorando-o até encobrir qualquer traço de medo, deixando apenas ossos, quimeras e vestígios do passado. Toda a sua felicidade, com tanta dificuldade conquistada, desabava-se agora perante si, deixando-o a sentir-se nu e exposto sobre os olhos julgadores da amiga.
- NÃO TE ATREVAS A FALAR DA MINHA MÃE! DEIXA-A FORA DISSO – gritou-lhe Harry, até ver o seu rosto empalidecer! Porquê que eu não tenho direito também a ser feliz? O Neville descobriu a sua coragem, tu e o Ron estão juntos, porquê que eu tenho de ser o único? – Rangeu os dentes, as suas mãos formaram um pulso, as unhas cravando-se com uma intensidade, dilacerante a palma das suas mãos. – O Dumbledore, o Sirius e os meus pais… morreram todos. Porquê que eu não tenho o direito a ao menos ser feliz?
- Ele é o teu professor, Harry. E tem o dobro da tua idade! – exclamou indignada, fazendo-se o possível para não encolher.
- E daí? – retorquiu com raiva, o monstro que vivia enclausurado no interior do seu peito, fugindo cá para fora. – Se não tivesse descumprido as regras ainda não estaria aqui!
- Isso é diferente – redarguiu Hermione. – Sabes que este tipo de regras existe por algum motivo entre alunos e professores! Eu vou ter de contar isso à directora.
- Já percebi – disse maldosamente, sem preocupar-se com nada para além de magoá-la. – Pensas que o Snape vai alguma vez beneficiar-me mais do que aos alunos da sua casa? Já te dignastes a ver as minhas notas a poções? São um traste! Tu estás só preocupada contigo mesma e com as tuas notas!
- Eu sei que tu vais acabar por perceber que eu fiz isso para o teu bem…
- NÃO! EU NUNCA MAIS VOU FALAR CONTIGO – parou abruptamente, Hermione virara-lhe as costas e desaparecer pela passagem secreta donde viera. – Hermione! Espera! Hermione!
Pouco a pouco a raiva foi-se dissipando do seu corpo deixando trémulo e assustado, um terror como nunca sentira antes apoderando-se do seu peito.
Bateu de encontro à parede, até que cada músculo da sua mão ardesse com violência, a cabeça num turbilhão de pensamentos confusos. Dentro em breve toda a gente ia saber. Snape de certeza que ia ser expulso. Mais de duas décadas de ensino para nada. Quem haveria de contratá-lo depois dos rumores? E Hogwarts sempre fora a sua casa.
Tudo isso era culpa sua. Se não tivesse aceitado a sua declaração de amor… Fora egoísta. Pensara que ao menos isso pertencia-lhes. Algo lindo e puro que partilhavam entre si, uma felicidade que tinha vinda a crescer como uma flor ao sol. Só pensara em si. Agora, era capaz de lembrar-se com exatidão das palavras de Snape, cada uma repetindo-se uma e outra vez na sua mente, até sentir-se demasiado cansado para pensar. Haveriam jornalistas, demasiado ansiosos por escrever artigos escandalosos e ganhar dinheiro fácil. E o pior que tudo é que isso seria o menor dos males. Se o relacionamento deles chegasse ao ministério… pessoas iam fazer perguntas e talvez o tribunal investigasse Snape de novo. O seu testemunho tornar-se-ia imparcial.
Deixou-se escorregar até cair sobre os seus próprios pés, fixando intensamente o piso. Snape tinha de saber, antes que fosse tarde de mais. Engoliu em seco e respirou profundamente, os músculos do seu corpo demasiado moles para obrigarem-no a levantar. Não tinha coragem de contar tudo isso a Snape. Temia ver arrependimento nos seus olhos. Não tolerava a ideia de ele ter-se arrependido dos momentos passados juntos.
Uma voz rouca e baixa chamou-lhe a atenção, vinda de cima de si. – Potter, o professor Snape mandou entregar-te essa carta.
Harry olhou para o rosto enrrugado de Filch.
- Não devia estar a ter aulas, rapaz?
Pegou na carta e desenrolou-a sobre os seus dedos trémulos. Saberia já Snape? Mas como era isso possível? E porquê que não o contactara pelo anel que tinha acabado de dar-lhe?
"Encontra-te comigo daqui a meia hora na torre do relógio. Snape."
Não havia nada a fazer. Não podia fugir do professor. A questão era: daqui a meia hora não seria tarde de mais?
Continuou a caminhar em passadas largas, ignorando as filas de alunos que acabava de sair das aulas, misturando-se pelos corredores largos do castelo. Sentia-se frio, como nunca antes, mas lá fora o sol brilhava teimosamente, derramando o seu manto carmesim sobre os picos das montanhas.
FIM
Deixem um review, por favor, se não tiverem tempo basta um smiley.
N/A:. Não tenho desculpas para o tempo que demorei a comentar. Tive doente durante demasiado tempo ainda assim podia já ter completado este capítulo, faltava-me apenas seis páginas. O próximo será o último, seguido de um epílogo. Em principio não ei de demorar assim tanto tempo. Obrigado pela vossa paciência. Principalmente a camila, acda, Ale Snape e Mysha-licius. Estava com demasiado vergonha para responder já que não tinha ainda publicado, mas o vosso comentário comoveu-me e deu-me vontade de continuar a escrever. Obrigada!
