O Início do Fim
You flew in from the dawn
Such a sight when you came into view
You whispered softly
Youthful caress
Swan, my swan
Dive, heat my blood
Swan, my swan
Before dawn breaks
Bring out my yearning
The longing of the lonely
- Máddji "Dawn Light"
Quando Harry chegou à torre de astronomia o sol já tombava, sonolento, por detrás das colinas e montanhas sem fim, a cor turva do céu misturando-se com o horizonte, emprestando-lhe o seu manto pesado. Lá no alto, a lua cravada de encontro à abóboda celestial, refletia-se friamente, a sua luz espelhada sobre o lago gelado.
Com um movimento de varinha fácil, a porta da torre de astronomia abriu com um ranger estridente.
Já tinham passado cinco minutos da hora marcada, mas Snape ainda não tinha chegado. Caminhou em passadas largas, as memórias insistindo teimosamente em não o deixar em paz. Tentou acalmar-se com dificuldade, libertar-se da sensação de aperto forte sobre o seu peito. Hermione não tinha quais queres provas, era a sua palavra contra a deles. E quem iria acreditar numa coisa como aquela? O próprio não acreditaria se não soubesse.
Fechou os olhos e respirou profundamente, à medida que a noite caia, crescia também com ele o prenúncio duma tragédia, impregnando-o com a sensação dolorosa duma ameaça qualquer por vir. Cada sombra que aparecia, recortada de encontro aos móveis frios, parecia transformar-se numa quimera de carne e osso, alimentada pelos seus maiores receios. Por mais duma vez, pareceu-lhe ver um vulto a entrar na torre, a sua memória pronta a imaginar rapidamente a forma de Snape a emergir nas trevas, o seu rosto por momentos suave encostado ao seu corpo, tal como o vira à menos duma hora, quando ainda pensava que teriam uma eternidade pela frente.
Queria desaparecer, desafumar-se no ar, sem ter de enfrentar a raiva do professor. Era capaz de tolerar os risos mal contidos, os dedos apontados, e o olhar incrédulo dos seus colegas, só não era capaz de suportar o desapontamento de Snape. Sabia-o, mas a verdade demorava tempo a ser absorvida pela sua mente. Recusava-se a acreditar que ia perder Snape, tudo por sua culpa. Se não tivesse dito nada a Hermione... Devia ter mantido a calma, tomado conta da conversa, racionalizado com ela até fazê-la entender do que nada do que dissera fazia sentido. Porquê fora tão defensivo? Se tudo isso tivesse-se passado no ano passado, não teria dificuldade em rir-se de Hermione, de lançar-lhe um olhar de nojo perante a ideia de ter um interesse, por mais remoto do que fosse, no mais odiado dos seus professores. Infelizmente nunca tinha sido bom a mentir.
A essa hora a Hermione já podia ter contado à diretora tudo, Snape já podia estar no seu gabinete, e talvez alguém já estivesse à sua procura. Isso explicava tanta demora. O professor costumava ser excecionalmente pontual. Na aula passada tinha perdido pontos por ter chegado um minuto atrasado, mesmo sabendo que no seu relógio só tinha passado pouco mais de alguns segundos.
- Potter. – Uma voz fria e arrastada penetrou no silêncio suave.
Abriu os olhos e, muito lentamente, rodou sobre os seus próprios calcanhares, virando-se na direção de Snape. Queria fugir, sair dali para fora, ainda era demasiado cedo. Não podia terminar tudo assim. No entanto, quando levantou a cabeça, esqueceu-se de todos os seus receios, a presença à sua frente servindo como um rochedo duro para agarrar-se durante as tempestades.
- Eu… eu tenho de contar-te alguma coisa… - confessou, num murmúrio rouco.
- Antes disso… – disse Snape, ignorando o seu olhar de desespero. Com um movimento apressado de varinha, uma luz doentia brotou da sua extremidade, iluminado suavemente as prateleiras bolorentas, esquecidas ao fundo da sala, a atulhar de mapas e pergaminhos amarelecidos. – Preciso de saber se contastes para onde ias, talvez a um dos teus amigos mais próximos, curiosos por saber com quem encontravas-te depois de teres faltado às aulas.
- Claro que não! – insurgiu-se Harry. – Eu sei o quanto importante é manter um segredo.
- Ninguém seguiu-te? – voltou a perguntar, silenciosamente.
O teto da sala era transparente, e por cima das suas cabeças, um mar de estrelas piscavam e cintilavam, num redemoinho luminoso. Caminhou na direção de Snape, a alguns metros de distância, perto da entrada para a sala, o rosto magro parcialmente envolto nas trevas
- Eu não sou estúpido! – exclamou exasperado. – Escuta-me - piscou os olhos e tirou os óculos para os limpar -, a Hermione… ela descobriu tudo… eu não disse-lhe nada… - lançou-lhe um olhar implorativo, os olhos a lacrimejarem devido à luz da varinha.
- Aproxima-te – ordenou-lhe num tom ríspido.
-Não estás-me a ouvir?
Naquele momento, hesitou, os dedos fechando-se instintivamente sobre o cabo da sua varinha, escondida dentro do bolso das calças. Para ser-se um bom Auror era preciso saber ler-se a atmosfera, prever com exatidão cada passo do seu oponente. E, sem saber porquê, sentiu como se encontrasse num jogo, cada passo dado na sua direção obrigando-lhe a caminhar lentamente na direção oposta.
- Aproxima-te – repetiu Snape.
- O quê que passa-se contigo? – perguntou Harry, o suor frio a escorrer lentamente pela sua testa. Algo estava fora do normal. Pensou se Snape já saberia, não parecia mostrar qualquer interesse no que acabava de dizer, mas isso era impossível. Algo devia-se ter passado de errado.
Sentiu uma vibração rápida no ar. A varinha de Snape moveu-se como uma espada pronta a desferir um golpe, e um jacto de luz verde projetou-se na sua direção. Naquele momento, não teve tempo para pensar em mais nada, enviou-se para trás do móvel, cravando as unhas até arderem, ao sentir a vibração do feitiço de Snape atingir a madeira, quebrando-a em vários pedaços.
- Alarte Ascendare.
- Arresto Momentum! – gritou Harry, o alvo em movimento diminuindo de velocidade. Sentiu-se as costas a baterem de encontro ao vidro da janela, os ossos transformados em chamas.
- Eu não compreendo-te – confessou, tentando ganhar mais algum tempo. – O quê que se passa de errado contigo? – Lutou para manter a calma, o suor das suas mãos tornando a varinha escorregadiça.
Já não era o escolhido, Voldemort estava morto, ainda assim tinha-se sentido ainda mais desesperado depois da batalha de Hogwarts do que quando Umbridge cravara-lhe a sangue na pele "Eu não devo dizer mentiras". Finalmente podia começar a viver sem ter de preocupar-se em sobreviver o tempo inteiro, a ordem podia ainda não ter sido completamente restaurada ao mundo da magia, mas já não faltava muito, e esse não era o seu trabalho. Mas por mais que tentasse-se convencer, o buraco do seu coração teimava em permanecer inalterado. Continuava a sentir em cada passo dado a ideia que ainda continuava a lutar para sobreviver, sem ter realmente vivido. Sem qualquer inimigo a tentar derrubar o governo, a ideia que tão cuidadosamente tinha construído, de que as circunstâncias impediam-lhe de ser completamente feliz tinham desaparecido, deixando-o atarantado.
Tudo mudara em tão pouco tempo. À menos duma hora tinha deixado o gabinete, mais feliz do que alguma vez sentira-se em muito tempo. Nos últimos tempos até Ron notara a diferença, cada dia passado sentia-se mais confiante do futuro, mais convicto que tudo ia correr bem. Alguém amava-o pelo que ele realmente era, não por causa da sua fama. Alguém mais velho e experienciado, alguém tão picuinhas como Snape, ainda assim tinha-o escolhido a ele. Pela primeira fez sentiu-se realmente seguro, as palavras afiadas dele não cravavam-se realmente na sua mente. Era capaz de ler entre cada frase o seu verdadeiro significado. Era amado e desejado, e não conseguia deixar de odiá-lo agora, por ter-lhe roubado tudo isso.
- Tu disseste-me que amavas-me.
- E tu acreditaste? – Snape soltou um sorriso de escárnio, os olhos negros comprimidos num esgar cruel. – Já não és uma criança, Potter. Não sabes o que é mentir? Eu disse o que convinha-me dizer para fazer-te acreditar, e foi demasiado fácil: estavas desesperado o suficiente, à espera que um homem qualquer notasse a tua importância. – Encostou a ponta da varinha à sua garganta, pressionando com força o suficiente até sentir a sua respiração alterada. – Sempre fostes assim. Dependentes de outros mais fortes do que tu para fazerem o trabalho por ti, até não restar mais ninguém para defender-te. Aí, por sorte, derrotastes o Senhor das Trevas, tornando o teu ego ainda mais inflamado que o habitual.
- Porquê? – articulou com dificuldade.
- Atreves-te a perguntar porquê? – insurgiu-se, pressionando a varinha com ainda mais força, até fazê-lo tossir, o peito apertando-se com dificuldade de respirar. – Mataste-a. Matas-te a tua mãe, e até o teu precioso pai. Mataste-os a todos. Se não fosse por ti ela ainda estaria viva.
Substituiu a varinha pelas suas mãos. O tempo parou por momentos, dedos frios e magros deslizaram pela sua garganta, arrancando-lhe a vida, até ao som do vento começar a mistura-se com as penumbras da noite.
Como uma mosca presa numa teia de aranha, Harry lutou para libertar-se, procurando por zonas vulneráveis onde atingir, golpeando e pontapeando até ficar sem mais força, a visão começando a tornar-se nublada. Os seus dedos arranharam-lhe o rosto, cravando-se na sua pele até derramar sangue.
Snape soltou um uivo de dor, e Harry aproveitou a oportunidade para afastar-se, a sensação de asfixia provocando-lhe lágrimas nos olhos.
Tossiu com dificuldade, sem afastar os olhos por um momento que fosse do vulto à sua frente. – Eu não acredito em ti! – desafiou com dificuldade em articular, a voz rouca saindo num murmúrio quebradiço. – Se quisesses-me ver realmente morto já tinhas tido muitas oportunidades.
- Silencio! – ladrou Snape, empunhando a varinha em riste. – Não quero mais ouvir o som da tua voz! – As pupilas contraíram-se num esgar cruel. Deu um passo em frente. – Everte Statum.
- Protego – gritou, desesperado.
Um escudo transparente ergue-se entre ele e Snape como uma muralha cuidadosamente construída, mas não foi capaz de impedir completamente o impacto do feitiço, projetando-o para trás, em direção à janela fechada. Tentou agarrar-se, em vão, ao parapeito da janela, e ouviu, mesmo antes de ver: o barulho de vidro a quebrar-se, a pele rasgando-se quando entrava em contacto com os objetos afiados, o vento solitário lamuriando-se lá fora, o silêncio e tranquilidade da noite protegendo-os de olhares intrusivos. Naquela escuridão ninguém seria capaz de o ver.
Com dificuldade, ignorou a sensação de medo vertiginosa, como se tivesse inalado um gás perigoso. O sangue nas veias corria intensamente pelo seu corpo, mais vivo do que alguma vez se sentira, o coração cravando-se no seu peito, a cada segundo passado, recordando-o do quanto era bom viver.
Tentou lutar contra a gravidade, sem acreditar que ia morrer daquela forma, traído pelo homem que amava. A ideia que alguns dias parecer-lhe-ia absurda tornando-se realidade.
E foi então que recordou-se, com dedos trémulos segurou a varinha e apontou-a na sua própria direção, o céu estrelado um manto leve soube o seu corpo. - Levitation. – Ramos velhos e retorcidos chicotearam-lhe o rosto e os braços, o seu tornando-se agora num mar de folhas sem fim. A alguns centímetros de colidir de encontro ao solo, o seu corpo manteve-se a flutuar no ar, pairando suavemente, como uma flor ao vento.
Sem perder mais tempo, levantou-se e começou a caminhar por um trilho de relva fresca, tropeçando e cambaleando entre colinas e encostas, o castelo uma presença tranquilizadora ao longe. Estacou por momentos, se fosse rápido estaria em poucos minutos no interior de Hogwarts. No entanto, a cabana de Hagrid encontrava-se ainda mais próxima, escondida entre um braço de árvores paralelos à Torre de Astronomia, marcando o início da floresta proibida.
Atravessou um pequeno riacho, que teimava em serpentear entre as fileiras de seixos, a água silenciosamente murmurando tranquilamente nos seus ouvidos, tornando-o ainda mais nervoso. Qualquer ruido, por mais pequeno que fosse, o suficiente para fazê-lo parar e virar-se, agitando a varinha bruscamente.
Bateu à porta e chamou:
- Hagrid! Abre a porta!
Ouviu o barulho de passos a aproximar-se.
- O quê que estás a fazer fora do castelo, a uma hora destas? Não tens nada dentro do cérebro para além de ar? – A voz negra cortava como lâminas afiadas, deixando-o a sentir-se ainda mais vulneral. - Surpreendes-me Potter, até para ti, isso é um comportamento mais estúpido que o habitual.
Virou-se, com a varinha sempre em riste, as suas mão tremendo levemente, o frio da noite empapando-lhe a pele exposta.
Ali, mesmo à sua frente, envolto em trevas, a sua capa restolhando sobre o pavimento molhado, com os seus cabelos negros agitados por uma brisa gelada, encontrava-se Snape. Quando ele deu um passo apressado na sua direção, Harry pressionou com mais força o seu próprio corpo de encontro à madeira dura da porta, uma sensação estranha mordendo-lhe a pele. Percebeu, sem qualquer espanto, que um líquido quente e escuro escorria-lhe da testa, molhando a sua capa.
- NÃO APROXIMES-TE! – gritou, desesperado, o barulho do seu próprio coração amortecendo-lhe a voz.
- O quê que estás para ali a dizer? Não fazes qualquer sentido – respondeu-lhe Snape calmamente, caminhado muito devagar, como se ele fosse um animal ferido.
- EU DISSE PARA NÃO APROXIMARES-TE.
Snape ignorou-o, focando os seus olhos intensos em Harry, expondo-lhe a alma com um toque suave da sua mente. A sua raiva evaporando-se ao enxergar, pela primeira vez, a sua expressão assustada, com os braços cortados e um fio de sangue a escorrer-lhe pela testa. Em poucos minutos, sentiu como se a noite tivesse-se tornado ainda mais escura, a capa do professor escondendo-lhe o corpo, os braços apoiados de encontro à porta. Fechou os olhos, o calor do dos seus corpos misturando-se. Snape debruçou-se sobre ele, levantando-lhe o rosto, até ficar voltado na sua direção.
Sentiu-se ridículo, patético. Mesmo depois de tudo o que passara-se, as suas pernas ameaçavam ceder sobre o peço do seu próprio corpo, o seu coração teimando em bater a um ritmo apressado, ignorando os protestos da sua cabeça, borboletas dançando engaioladas nas suas entranhas, até as lágrimas subirem-lhe aos olhos.
Snape levou os seus lábios magros à concha dos ouvidos de Harry, murmurando suavemente cada palavra, numa carícia meiga. – Não tenhas qualquer dúvida: se eu quisesse-te ver morto, já estarias a esta hora tombado no chão, com as moscas a fazerem-te companhia. Ao contrário da Bellatrix, eu não tenho paciência para brincar com as minhas prezas. – Beijou-lhe o pescoço, mordendo-o entre cada palavra. – Essa será a última vez que irei repetir-me. Eu amo-te. És a única pessoa que amei depois da tua mãe e não julgo que venha a amar mais ninguém – confessou-lhe, a sua voz tornando-se mais persuasível. – Diz-me o quê que passou-se.
Abriu os olhos, fixando-os intensamente no rosto à sua frente.
- À meia hora, recebi uma carta tua, para encontrar-me contigo na torre de astronomia, alguém… alguém igual a ti atacou-me, empurrou-me da torre – arfou Harry, o peito lutando para engolir mais golfadas de ar.
- E tu acreditaste que era eu – acusou-o num tom perigosamente baixo, os dentes rangendo ameaçadoramente, enquanto as pupilas negras dilataram-se.
Harry segurou-lhe pela manta, encostando o rosto ao seu peito, até conseguir inalar o cheiro a ervas acabadas de cozer.
- Eu não acreditei em nada – respondeu honestamente. – Não tive tempo para pensar…
- Diz-me algo que eu não saiba. Isso não é diferente do habitual. Quando é que paras para pensar? - Snape segurou-lhe, com facilidade pelo braço, arrastando-o colado ao seu corpo, a capa negra protegendo-lhe de possíveis olhares indiscretos. – Vamos, a diretora precisa de saber do ocorrido. Uma busca em volta dos recintos escolares e seremos capazes de encontra-la.
- Encontra-la? – repetiu Harry, confuso. – Quem é que ela é?
Snape ignorou, continuando a arrastá-lo pelas colinas escarpas, percorrendo o caminho inverso em direção ao castelo.
- Devias-me ter posto um feitiço de localização – brincou, os óculos brilhando com a luz da varinha a incidir sobre eles. – Pelo menos era isso que eu teria feito, desta forma não seria muito difícil encontrares-me.
Snape bufou, lançando-lhe um olhar de desagrado. – Eu não preciso dum feitiço de localização, pelo menos não, depois de confiscar-te o mapa do salteador. – A silhueta do castelo tornara-se agora mais nítida. - Confesso que facilitou-me o processo muito mais do que eu esperava. Bastava certificar-me que encontravas-te acompanhado por um dos teus amigos, sozinho ou rodeado por uma multidão grande o suficiente para sentir-me tranquilo. Se não fosse graças a Miss Weasley tudo teria corrido como planeado. – A sua voz tornou-se agora cada vez mais pesada, um tom de desprezo fugindo-lhe em cada palavra. – Por algum motivo inexplicável, a Miss Weasley parece ter uma predileção para desperdiçar o seu tempo e o teu, incomodando-te com conselho sobre a sua vida romântica que julga ser mais excitante do que realmente é. Graças a ela, a diretora viu-se na sua obrigação de questionar os meus métodos de repreensão, enquanto eu podia estar a gastar o meu tempo duma forma bem mais produtiva.
Abriu a boca para protestar. Snape estava a ser injusto, como sempre, para a Ginny. Raramente pedia-lhe ajuda, e Harry confessava que também gostava de ter alguém em quem pudesse confessar os seus problemas. Alguém que não o censura-se pelo seu relacionamento com o professor. De alguma forma, a imagem da Luna veio-lhe à cabeça.
- Demorastes demasiado tempo.
Snape franziu o cenho numa expressão de desagrado, os dedos apertando-se com mais força sobre o seu pulso. Harry aguardou para que falasse, sem dúvida para fazer algum comentário malicioso, mas não houve tempo para isso: um clarão rasgou o silêncio da noite, uma bola de fogo incandescente serpenteando na sua direção, depois outra mais pequena, raspando-lhe no ombro, como uma chuva de rubis luminosos, arrastada pelo vento.
- Atrás de mim, Potter! – ordenou com um movimento feroz de varinha, o seu olhar impenetrável.
À sua frente, um segundo vulto, idêntico ao de Snape, surgiu. Semelhante a um morcego negro a planar ao vento, cada passo deliberadamente lento, a varinha em riste apontada nas suas direções. Quando aproximou-se mais, Harry foi capaz de ver as marcas em sangue, deixadas pelas suas unhas, no seu rosto frio.
- Miller – exclamou Snape, fazendo um gesto para Harry deixar-se estar atrás de si. -, demorastes demasiado tempo!
Harry deixou-se ficar quieto, as palavras de Snape desdobrando-se na sua mente. Não estava realmente surpreso. Uma parte dele já desconfiara, depois da conversa que tivera com Snape tudo levara-lhe a crer que ele desconfiava de alguém que já se encontrava nos recintos escolares. Miller era uma das professoras mais recentes, e já era chefe da casa dos Gryffindor. Tinha mais talento e facilidade do que qualquer aluno em lançar-lhe uma maldição imperius, ou a envenenar-lhe os chocolates.
- Porquê? – exclamou, a voz tremendo-lhe de raiva. – Porquê que querias-me matar?
Miller não era uma devoradora da morte, que ele soubesse, não tinha qualquer motivo para vê-lo morto.
- Porquê? – repetiu indignada. – Não era a ti que eu queria ver morto, Potter.
- Para quem não querias fizestes um ótimo trabalho a tentar – retorquiu com azedume, sem nunca afastar a sua varinha do seu rosto.
Agora era realmente capaz de ver a diferença. Não soube como não se apercebera antes. O medo de perder Snape fizera-lhe esquecer, engolfara-o e prendera-o num labirinto sem fim. A forma como caminhava, abanando-se suavemente enquanto o verdadeiro Snape deslizava sem nunca fazer qualquer barulho, cada passo deliberadamente tomado, cada gesto escondendo um significado ulterior. A raiva nele não era fria nem quente, mas uma mistura impercebível dos dois, os seus olhos sem nunca traírem a expressão distante que acompanhava os seus dias.
- Atacar o Harry Potter, o herói do mundo da magia? – exclamou Snape num tom de escarninho, os lábios retorcendo-se cruelmente. - Devias desistir enquanto ainda vens a tempo – avisou-a, gravemente, sem dar-lhe qualquer importância, como se uma mosca se tratasse. – Segundo ouvi dizer tens amigos no interior do ministério da magia, talvez eles tenham pena e decidam entregar-te aos Dementors. O seu beijo pode nem ser tão mau assim, pelo menos comparado com uma vida em Azkaban, com os Dementor, a cada ano, a sugarem-te a vontade de viver – disse maliciosamente, os seus dedos de aranha fazendo deslizar a varinha . - Talvez o ministério da magia faça alterações às leis penais, mas duvido que dures o tempo suficiente para vê-las a serem aplicadas.
- Atmosphaerae augurium - gritou-lhe Miller, furiosa, agitando a varinha acima da sua cabeça.
Uma tempestade fez-se erguer do céu, as nuvens negras fervendo furiosamente, o barulho dos trovões inundando a noite. Um raio desceu, apressado nas suas direções. Snape, com um movimento fácil de varinha fez os ramos de árvores, retesassem à sua frente, formando uma teia de madeira retorcida e folhas verdes, formando um escudo protetor.
Harry fechou os olhos, sentido a eletricidade estática reverberar perto de si.
Com um novo deslizar de varinha, os ramos regressaram à sua posição habitual, inclinados em todas as direções possíveis, à procura da luz do sol. Um jacto líquido serpenteou da ponta da varinha de Snape, erguendo-se às suas frentes, e com um movimento brusco escorreu na direção de Miller, que ainda não tinha levantado a varinha para proteger-se. Tudo o que conseguiu fazer foi com que as ondas indomáveis não a afogassem, quando passaram por si, o chão em sua frente agora encharcado com cada gota de água derramada.
Tremendo dos pés à cabeça, o seu rosto desfigurado pela raiva, caminhou em frente. – Atreves-te? Depois de teres matado a minha irmã, tu e o teu grupo de amiguinhos devoradores da morte, demasiado cobardes para lutarem sozinhos – cuspiu-lhe Miller, o rosto pouco a pouco alterando-se até ficar com o aspeto habitual. O nariz mais pequeno, numa cara redonda e escura, a estatura baixa e entroncada. – E o Dumbledore, demasiado pronto a confiar, arranjou forma de dar-te um emprego caro, bem longe da prisão – continuou sem dar por mais nada para além da sua dor. – Pois eu não importo-me se arrependeste-te ou não, ou se mudastes de lado para salvar a tua própria pele. Eu quero ver-te morto! – guinchou pateticamente, lágrimas de fúria misturando-se com o seu rosto molhado. – É este tipo de homem com quem estás a dormir, Potter!
- Para! – pediu-lhe Harry, saindo de trás de Snape. – O professor já estava do nosso lado há muito tempo, mesmo antes do Voldemort desaparecer. Graças a ele conseguimos informações valiosas, se não fosse a espada dos Gryffindor, que ele deu-me, eu não teria conseguido destruir um dos Horcruxes.
- Mantei-te atrás de mim! – ordenou-lhe Snape, impacientemente, segurando a varinha em riste.
- Não – negou com suavidade. – Não preciso que protejas-me. – Endireitou os óculos que começavam-lhe a escorrer pelo nariz. Gostas grossas caíam do céu, misturando-se com a vegetação rasteira.
Miller riu-se, um riso triste e amargurado. - Não devia ter sido assim – sentenciou. – Quando por engano descobri do vosso caso não conseguir deixar de ver uma oportunidade perfeita. Se Snape tentasse-te matar, se alguém descobrisse o quê que passava-se entre vós, até o ministério seria obrigado a intervir. Ninguém quis saber da morte da Helen, mas o rapaz dourado, o orgulho do munda da feitiçaria… Haveriam consequências. Eu certifiquei-me que a dose de veneno que administrei-te não era alta o suficiente para matar-te, já estava à espera do próprio Snape salvar-te quando cais-te da tua vassoura com o meu feitiço de atordoar, não seria a primeira vez que ele tinha-o feito. Quando lancei-te a maldição imperius, quando lancei a maldição imperius ao Malfoy, sabia bem que estavas a alguns corredores de distância da festa, sabia que o Snape haveria de ir a correr atrás de ti, como era habitual. – Voltou a rir-se, lançando-lhes um olhar penetrante. – Não posso gabar-me de ter sabido sempre, algo podia correr mal com muita facilidade… mas se morresses tanto melhor. Merecia-o Potter – o rosto marcado de nojo -, e quando toda a gente souber duvido que a tua fama permaneça sem qualquer mácula.
Sentiu o ódio crescer-lhe dentro do peito, um mostro aprisionado finalmente solto. Toda aquele tempo, sentindo-se assustado, confuso e perturbado perante a ideia que os seus colegas fossem descobrir… Não tinha vergonha de Snape. Ele tinha sido a melhor coisa que alguma vez acontecera-lhe na vida. Quando sentira-se tão sozinho, quando o Ron e a Hermione começaram a andar, sabia perfeitamente que tinham todo o direito, mas não conseguiu deixar de ficar zangado. Sempre foram inseparáveis, e ele não queria acabar sentindo-se tão abandonado como a criança que dormia na despensa, por debaixo da escada, sem pais nem amigos próximos, sonhando com um mundo diferente. Ginny e a Cho Chang... Não era a sério, pelo menos não como a forma que o professor o fazia sentir.
- Querias que eu condenasse-o a Azkaban, que eu passa-se o resto da minha vida a pensar que a pessoa a quem amo queria-me ver morto. Estás enganada! – retorquiu sem conseguir deixar de conter o desprezo evidente. - Eu não ia acreditar que o Snape fosse capaz de matar-me, não por muito tempo.
Em menos dum segundo, ergueu a varinha, o coração palpitando furiosamente contra o seu peito, marcando cada gesto seu. - Orbis.
- Cruciatus! – Miller entoou, quase ao mesmo tempo.
Sentiu os braços de Snape tocarem-lhe, projetando-se para a sua frente, para apanhar o impacto direto da maldição, num redemoinho negro de vestes e folhas secas a ondular ao vento.
Deixou-se ficar imóvel, respirando profundamente. Parecia que tinham passados horas até levantar novamente a cabeça. Snape ainda estava de pé, à sua frente, encostado a um tronco duma árvore para apoiar-se, o cabelo negro untuoso colado ao seu rosto magro, os seus olhos mais frios que nunca. Se não fosse pelas suas pernas fracas, com dificuldade em suster-se sobre o peso do seu próprio corpo, Harry não diria que tinha acabado de apanhar com uma maldição cruciatos. O seu rosto parecia cravado a gelo, inflexível e imperturbável, cada músculo do seu corpo rígido. Não era capaz de ler os seus traços mais do que era capaz de adivinhar o que passava-se no seu coração.
Pequenas silhuetas negras surgiram da ponta da sua varinha, tomando a forma de corvos com um olhar ameaçador, de picos abertos em sinal de ameaça velada, formando um enxame, até cobrirem os céus. Com um movimento de varinha, começaram a descer em bandos, precipitando-se sobre Miller, debicando e arranhando cada pedaço de pele exposta, até conseguirem arrancar pedaços de carne do seu corpo exposto, rios de sangue fresco manchando as suas vestes de encarnado.
Com dificuldade, Harry desviou os olhos, sentindo-se enojado. O seu estômago começou a andar às rodas, o sabor de bílis subindo-lhe à boca. De repente, sentiu-se grato por ainda não ter jantado.
Nada disso era necessário, Snape podia ter usado um feitiço de petrificação total, ainda assim não censurava-lhe. Miller era perigosa, enquanto estivesse armada corriam sempre perigo de vida.
Um pouco mais à sua frente uma luz incandescente esvoaçou, captando o seu campo de visão. O ruído de passos eram demasiado pesados para pertencerem-lhes, as vozes a aproximarem-se, falando claramente sobre o bramido do vento demasiado chocadas, os seus mantos negros de linho a ondearem ao vento demasiado limpos e secos.
Levantou o rosto. Um grupo de alunos e professores, vindos do castelo, corriam na sua direção, com as varinhas iluminando-lhes o rosto. Alguém chamou o seu nome, olhou atordoado. Alunos aos milhares inclinavam-se sobre o parapeito das janelas do castelo, uma multidão sem nome, movendo-se ruidosamente, os seus rostos demasiado pouco nítidos para serem-lhe reconhecíveis.
A professora McGonagall encontrava-se agora à sua frente, com madeixas brancas do cabelo revirado, soltas na brisa suave, segurando com força o xaile sobre o seu próprio corpo. Pirilampos luminosos poisavam sobre o seu tecido, o fogo apagado ainda era capaz de chamuscar-lhe a pele, irritando-lhe a garganta, quando o vento empurrava as colunas de fumo em vagas suaves.
- Valha-me Deus! O quê que aconteceu? – perguntou, fitando-os intensamente por de trás dos seus óculos de aros redondos.
Harry não prestou-lhe atenção, sentia-se hipnotizado pela figura de Snape, alguns centímetros à sua frente, as vestes manchadas de sangue. Caminhou como num sonho, em sua direção, cada passo pesando-lhe cada vez mais no seu peito. Tremendo, estendeu as maõs e tocou-lhe no peito, mesmo por cima dos pulmões, sentindo entre os seus dedos o ar a ser puxado em camadas rápidas.
- Estás ferido…
Sem pensar duas vezes acariciou-lhe o rosto, lágrimas teimando em marejar-lhe os olhos, enquanto comprimia os lábios firmemente.
- Potter… - articulou Snape, e a Harry suou-lhe a um pedido quebrado. –, o sangue não pertence-me. Tu és inacreditável.
Harry pôs-se nos bicos dos pés e beijou-o suavemente, os lábios molhados roçando-se sobre a sua superfície, até provocar-lhe um arrepio pelo corpo inteiro. Snape permanecia congelado, indeciso sobre como devia agir, e quando preparava-se para afastar-se, dececionado, sentiu uma mão enlaçar-se sobre o seu corpo, a outra segurando-lhe pelo pescoço, mordendo e sugando com ferocidade, o ar quente das suas boca acariciando-lhe a pele, o beijo aprofundando-se cada vez mais.
Quando separaram-se, ambos respiravam ofegantes, com dificuldade em processar tudo o que passara-se.
McGonagall tinha acabado de transfigurar uma pequena maca por debaixo do corpo da Miller, flutuando a alguns centímetros acima das suas cabeças. – Smith, acompanha-a à ala hospitalar. O resto de vocês - disse gravemente -, de volta ao castelo, não estamos numa atração de circo.
Virou-se nas suas direções. – Acompanhem-me ao meu escritório – ordenou-lhes, a mão fechada sobre a varinha. – Esperava muito mais de vocês.
Quase podia jurar que nunca a tinha visto tão zangada.
Entraram no castelo, Harry tentando ignorar os olhares dos alunos pregados neles, a presença da diretora a única fronteira que impedia os seus comentários maliciosos. Os corredores e escadas estavam tão bem iluminados comparados com o exterior, que teve de piscar os olhos para habituar-se, desejando intimamente a proteção que a noite providenciara-lhes de olhares indiscretos.
McGonagall, às sua frente, abriu a porta do seu gabinete, e fez um gesto para entrarem.
O gabinete não mudara muito desde que pertencera ao seu último dono. A secretária continuava empoleirada como sempre, o chapéu selecionador esquecido a um canto, ao lado dum livro de capa dura, com um binóculo pousado a seu lado, e um tinteiro com uma pena de corvo. Uma lâmpada dourada iluminando uma bússola e um mapa encarniçado, assinalando as localizações dos outros colégios mágicos à volta do globo.
Harry passou pelo armário de mogno com artefactos antigos, e ignorou os retratos, com medo de encontrar o rosto desapontado de Dumbledore, depois de tudo o que tinham passado juntos. A antiga professora de transfigurações sentou-se em frente à secretária, fixando-os intensamente.
Sabia que o momento tinha chegado, mas não conseguiu encontrar em si coragem para falar, a língua amarrada desconfortavelmente ao céu da sua boca. A esta hora a escola provavelmente já saberia tudo e o Ron… o Ron nunca iria compreender, depois de tudo o que tinha dito acerca de Snape.
- Expliquem-se – pediu-os asperamente.
Snape relatou-lhe tudo na sua voz monótona de sempre, parando para ocultar apenas um pormenor ou outro que os pusesse numa situação mais desfavorável.
Harry escutou de boca calada, quando o professor acabou de falar, não conseguiu aguentar durante muito mais tempo o silêncio ameaçador.
- Foi a minha culpa, o Snape, quero dizer, o professor Snape... – tossiu embaraçadamente. – Fui eu que o seduzi – corou, mantendo os olhos fixos no chão. De repente a sua textura tinha-se tornado muito mais interessante.
- Eu duvido que a diretora seja capaz de acreditar que conseguisses-me convencer a fazer algo que eu não quisesse-se – adiantou-se Snape.
McGonagall bateu com o punho sobre a mesa. - Como se atreveram? Se o Dumbledore estivesse aqui para ver isso! – exclamou com brusquidão. – Já não és uma criança Potter, tens idade suficiente para saberes que isso é errado. Virou-se para encarar o mestre de poções. – E tu Severus, és o seu professor. Não é para isso que foste contratado. Não estava à espera disso, não de vocês – bufou, furiosa. – Há quanto tempo. – Quando nenhum deles respondeu, repetiu. – À QUANTO TEMPO?
Harry não moveu-se.
- Há cinco, quase seis messes – respondeu por fim Snape, os olhos inexpressivos. - O meu interesse no Potter não refletiu-se nas minhas notas – começou Snape num tom cortante. – Desde que o Senhor das Trevas foi derrotado todos os professores têm atropelando-se para darem-lhe excede as espectativas e excecional. Ninguém quer ficar do lado mal do Potter, não quando podem ganhar alguns benefícios pelas suas amabilidades. – Fez a palavra amabilidade rolar dos lábios como se fosse um insulto. – Ele podia fazer os exames sem metade do cérebro, como estou convicto que algumas vezes o fez, que ainda assim atingiria notas máximas – arguiu sarcasticamente, os lábios pressionando-se numa linha fina. – Pois eu não tenho preferidos. – Harry teve de morder os lábios para não desatar-se a rir. – Se os seus resultados forem medíocres irão refletir-se nas minhas notas.
Embora Snape tivesse acabado de implicar que ele era medíocre, não conseguiu deixar de sorrir. Desde que entrara em Hogwarts sempre soubera que poções era a disciplina na qual os Slytherin mais beneficiavam. O professor sempre fora injusto para ele, por isso era difícil de acreditar que seria capaz de receber algum benefício, por mais pequeno que fosse, pelo seu relacionamento. Pelo contrário, as suas notas pioraram, desde que começara-se a distrair com o som da sua voz, e a prestar menos tempo ao conteúdo das suas palavras.
- É a mim que cabe-me decidir se os professores são aptos ou não a dar as aulas, Severus. – Lançou-lhe um olhar de desagrado. – A vossa versão dos relatos terão de contar ao tribunal da magia, como é claro. Desde que não aja indícios que estejam a mentir, o que eu tenho muita dificuldade em acreditar, poderão ficar em Hogwarts. – Harry lançou um sorriso mal escondido à diretora, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, ela adiantou-se. – Se fosse por mim seriam expulsos, não merecem frequentar Hogwarts, e trazem vergonha ao nome da escola. Faço isso pelo Dumbledore, sei que ele queria que ficassem – concluiu, e Harry quase que pode jurar que havia, agora, algo mais suave a brilhar no seu rosto. – Com a condição, claro, do professor Snape absceder-se de passar qualquer castigo a ti, Potter. Não quero ver-vos a passar tempo juntos, fora da sala de aulas, e os exames de fim de ano terão de ser elaborados e corrigidos por outro professor de poções, e realizados noutra sala de aula à parte. Estou-me a fazer entender? – bateu com a ponta da pena afiada distraidamente sobre o tampo da mesa.
- Perfeitamente – sussurrou quase imperceptivalmente Snape, num tom amargo e sorumbático. - Posso sair? – pediu-lhe agora mais rispidamente, os seus pés já a caminharem em direção à porta.
- Sim. Tu também, Potter.
Harry virou as costas ao gabinete, arriscando um olhar rápido aos retratos. O Dumbledore não encontrava-se presentes. Sentiu-se grato. Quando fechou a porta, com um pequeno baque para não chamar a atenção de Peeves, Snape já encontrava-se a transpor o último limiar das escadas. Começou a correr atrás de si, os seus pés tropeçando num manual escolar deixado para trás, fazendo-o cair em frente à estátua dum hipogrifo alado. Pestanejou, sentindo-se atordoado, a pele dos joelhos queimando-lhe irritada. Com um ar resignado começou a apalpar o chão em busca dos seus óculos.
- Reparo – proferiu Snape, estendendo-lhe os óculos agora intactos.
Mãos suaves e frias ergueram-lhe o corpo, pressionando-o com o seu de encontro à parede fria, atrás de si. Sentiu um tremor passar-lhe pela sua pele, os seus ouvidos tilintando com o calor que projetava-se pelo seu corpo.
- Essa é a última vez que vamo-nos ver, fora das aulas, até ao ano acabar… - soluçou.
Faltavam quatro messes mas para si mais parecia um ano. Lembrou-se como Snape dissera-lhe que não conseguia separar-se dele, mesmo sabendo que já tentara, e o coração espremeu-se desconfortavelmente de encontro ao peito. As lágrimas lutando para subirem-se aos olhos.
Snape pressionou o seu joelho de encontro ao pénis de Harry, licitando-lhe um gemido de prazer, as suas próprias mãos sobre os seus lábios, tentando abafar os seus gemidos, enquanto braços magros acariciavam-lhe a pele por debaixo da blusa. Voltou a soltar um pequeno gemido, as pernas tremendo sobre o seu próprio corpo, à medida que os dedos desciam cada vez mais baixo, até brincarem com o tecido das suas calças. Sem conseguir conter-se, poisou os seus lábios sobre os de Snape, cravando os seus dentes na sua superfície, obrigando-o a abrir a boca e deixar a sua língua introduzir-se, explorando cada pedaço de pele que conseguia encontrar.
Snape afastou-se com dificuldade em respirar, as suas pupilas dilatadas e o seu rosto febril queimando-lhe deliberadamente cada recanto do corpo.
Felizmente ninguém encontrava-se no corredor. Snape sorriu pela primeira vez, descobrindo os dentes com um ar feral, os seus lábios magros acariciando-lhe o rosto. – Tu não és como os outros, criaturas fracas que não sabem o que querem. És capaz de entregar-te completamente, o teu ardor recompensa por qualquer inexperiência que tivesses no início. – A voz quente e roca acariciou-lhe a pele, atravessando o tecido fino das suas boxer, e indo alojar-se encontro ao seu pénis.
Em pouco menos que alguns minutos, tudo acabou. Passos podiam ouvir-se a caminharem nas suas direções, acompanhados de risinhos baixos. Separaram-se com a respiração ainda acelerada. Snape endireitou a sua blusa dobrada, com marcas de dedos na sua superfície e virou-lhe as costas, o manto negro cortando o ar atrás de si. Não seria conveniente que alguém os visse juntos depois de tudo.
Deixou-se ficar quieto, recordando cada momento em que passaram juntos.
XXX
- A sério que a diretora não vais expulsar-te? – perguntou-lhe Ron embasbacado. – Tivestes demasiada sorte: nada de castigo por parte do Snape até ao fim do ano! – exclamou, entusiasmado. – Gostava de estar no teu lugar.
- Ron, tentaram matá-lo! Como podes ter-te esquecido? – perguntou-lhe contrariada, evitando dirigir a palavra a Harry depois da sua última discussão.
- Mas o Snape… – continuou Ron, ignorando-a. – A sério que eu sempre soube que tinhas mal gosto, mas até eu não estava à espera disso! Tens uma fila de raparigas bonitas coladas a ti e não podias ter escolhido nenhum delas? – corou, até ficar vermelho como um tomate. – Já fostes à Madame Pomfrey, para teres a certeza que não é uma maldição ou qualquer coisa deste género?
Harry riu-se pela primeira vez, divertido. Os últimos dias não tinham sido fáceis. Os Slytherin vaiavam-no mais do que nunca, pelas costas dos professores. Histórias supostamente assinadas com o seu nome tinham começado a circular pelo castelo, sobre as suas experiências no quarto de Snape, que era descrito como um especialista em sexo mágico. Expressões como "Eu não sou como o Harry" começaram a surgir, para descrever raparigas que não estavam assim tão desesperadas por sexo. Os alunos da casa dos Ravenclaw começaram a fazer comentários nas suas costas, alguns atirando-lhe piadas maliciosos. Dizia-se que seduzira o professor numa tentativa desesperada de atingir melhores resultados escolares, e que Snape prometera-lhe sexo em troca de boas notas. Até haviam alunos de primeiro ano que paravam-no, com um olhar sonhador, para pedirem-lhe pela poção do amor potente que utilizara para enganar o professor.
Ainda assim, não podia deixar de sentir-se aliviado por não ter de encobrir a verdade constantemente. Esse peço sobre o seu coração, um espinho grande que separava-o dos seus amigos, abrandara consideravelmente, aumentando-lhe a disposição.
Harry agarrou nas mãos de Ron e Hermione e juntou-as por debaixo da sua.
- Não pode ser um feitiço potente ou qualquer coisa deste género. Eu já procurei sobre todas as maldições existentes e não encontrei nenhuma igual a essa, na biblioteca. – Hermione não conseguia deixar de rebolar os olhos. - Até tentei entrar à noite, na ala de livros interditos – sorriu, ignorando-a. – Se pudesses fazer com que a Hermione fosse igual à _ ou à cantora dos "Three Witches" não irias preferir que ela fosse tal igual como é agora? Quando está-se apaixonando por alguém, não existe outra pessoa que pareça mais bonita ou perfeita, acho eu… – balbuciou, corando ao ver a expressão surpresa de Hermione, que costumava acusá-los incessantemente de serem uns ignorantes no que tratava-se de emoções. - Todas as coisas que eu antes odiava nele agora parecem-me traços marcantes da sua personalidade, e eu não queria alterá-lo por nada. Não consigo deixar de comparar todas as raparigas desfavoravelmente a ele.
- Uma poção de amor não é a mesma coisa que uma maldição – respondeu a rapariga, exasperada, mordendo os lábios nervosamente, os dedos brincando com a bainha da sua manga, ao lembrar-se que Harry ainda devia-se lembrar da última vez que tinham-se encontrado. – És capaz de perdoar-me, Harry? Se ele realmente for o amor da tua vida – Ron teve de suster o seu próprio enjoou ao ouvir aquelas palavras -, detestaria que lembrasses-te sempre como eu me tinha oposto.
- Foi tudo dar ao mesmo. Se não tivesses contado à McGonagall ela teria descoberto mais tarde – respondeu apaziguadoramente, sabendo bem que se a Hermione tivesse hipótese de voltar atrás no tempo teria feito tudo da mesma forma. Ela sempre tivera um sentido de ética demasiado forte para deixar passar uma transcrição destas. Se tivessem sido expulsos, não acreditava que fosse capaz de a perdoar, mas acabando as coisas como tinham acabado, não fazia sentido guardar muito rancor, não quando tinha muitas coisas para apanhar com os seus amigos, principalmente agora que o tempo tornava-se cada vez mais quente.
XXX
O mês de fevereiro deu lugar a um março quente e húmido. A princípio, a sua estadia em Hogwarts tornara-se um inferno. Recebeu insultos e piadas de mal gosto que eram mais do que suficiente para o resto da sua vida. Uma vez, quando um grupo de Slytherin deixou-o amaldiçoado, preso ao armário das vassouras, Snape perdeu a sua paciência desinteressada para com a sua própria casa, e tirou-lhes de tal forma pontos, que agora estavam no último dos lugares. Depois daí os insultos tornaram-se ainda piores, mas foi com um ligeiro prazer que notou que nenhum deles era capaz de enxerga-lo nos olhos, muitos menos aproximar-se dele mais do que alguns centímetros, sempre que Snape estava presente, e isso serviu-lhe como um pequeno consolo.
Ainda assim não conseguia deixar de aguardar que os dias passagem, contava cada um deles até a altura que poderá falar diretamente com Snape. Às noites, quando os outros alunos já estavam deitados, abraçava o seu próprio corpo, enroscando-se de encontro à almofada, imaginado que eram os braços de Snape que estavam em seu redor e não os dele. Ansiava por ouvi-lo dizer o seu nome, na sua entoação baixa e arrastada do habituar, de ter os seus lábios encostados aos seus.
Apenas uma ou duas vezes Snape respondeu-lhe às mensagens que enviava todos os dias, pelo anel que ele dera-lhe, e de todas as vezes não conseguia deixar de repetir cada palava dita, na sua mente, até a forma de Snape quase materializar-se à sua frente.
Felizmente a época dos exames chegou, ocupando-o com cada minuto do seu tempo, até não ter espaço para pensar em mais nada para além de manuscritos poeirentos e feitiços antigos. Hermione era a pior deles todos, era a última a abandonar a sala de convívio, o nariz dela sempre colado aos livros. E se alguém disse-se-lhe alguma coisa, por mais pequena que fosse, era capaz de responder em termos, e palavras desconexas, como se as suas presenças não fossem mais do que um fingimento da sua imaginação. Nesse sentido Ron estava igual a si, esperando para que os passagem.
Foi por isso que, quando acabou o mês de julho, e os exames já tinham sido todos completos, os alunos de diferentes casas juntaram-se para dar uma festa de despedida. Harry foi obrigado a participar, tentando encontrar no seu coração vontade de divertir-se, mas quando o relógio de cuco tocou para a meia-noite, despediu-se imediatamente, percorrendo os corredores do castelo, por debaixo do manto da invisibilidade, até chegar aos aposentos de Snape.
XXX
Abriu os seus olhos, resistindo em agarrar na sua varinha e amaldiçoar seja quem for que atrevera-se a entrar nos seus aposentos, passando pelos seus feitiços de alarme, para roubar o seu estoque pessoal de poções.
Ao lado da sua cama, encontrava-se Potter, tal e qual como o vira há algumas horas atrás, com o seu cabelo desordenado e os seus olhos cor de esmeralda com um brilho pálido a incidir sobre ele, como as escamas dum peixe de água doce.
- Senti saudades tuas. Passouse-se tanto tempo – disse, tirando uma a uma cada peça de roupa do seu corpo, até à sua pele ficar iluminado pelo brilho das centelhas da lareira, contornando a forma do seu corpo.
Afastou os cobertores da sua cama, fazendo espaço para que ele entrasse. Sentiu o colchão a tremer, por debaixo de si, o corpo de Harry a ferver encostando-se ao seu. Estendeu os dedos, preguiçosamente, para explorar cada recanto da sua pele, os seus membros nus entrelaçando-se, o espaço entre eles reduzido ao mínimo. A figura a seu lado, mais parecia um sonho, um pombo que poisa num ramo da árvore à noite, quando o sol põe-se e a lua ergue-se lá no alto, para deixar o seu lugar vazio quando o sol começa a espreitar ao longo do horizonte. Inalou, reconhecendo o cheiro do rapaz que tantas vezes saboreara, e sentiu vontade de tocar em cada recanto da pele, de confirmar que a figura à sua frente era tanto real como um corpo de carne e osso.
Beijou-o no pescoço, e no ombro, na testa e no canto dos lábios, atraindo o corpo para debaixo de si, pressionado de encontro à cama de linho.
- O quê que vai acontecer a nós? – perguntou-lhe Harry assustado, o peso dum futuro inserto escrito no seu rosto.
- Shhh, não precisas de pensar nisso. – Beijou-o outra vez no peito, as suas mãos deslizando pela sua superfície.
- Tive a pensar em candidatar-me para dar aulas em Hogwart – confessou-lhe, os olhos sérios postos nos seus.
- E quanto ao teu sonho de ser Auror? – bufou, sem conseguir afastar o sarcasmo da sua voz. Se Harry não tivesse sarilhos para envolver-se, tinha de ser ele mesmo a inventá-los. – Não quero que desistas da tua carreira ideal por causa de mim.
- Tu és mais importante – murmurou Harry, beijando-o na boca. – Sempre quis pertencer a alguém, ter alguém que só pertencesse-me. – Sabes, tive um sonho estranho na noite passada – continuou, os lábios separados apenas por alguns centímetros, enquanto os seus braços envolviam-no por debaixo de si. Foi-lhe à cabeça a imagem duma pedra preciosa rara, mantida em segurança por de trás de feitiços de alarme. – Sonhei que estava-mos casados – corou.
- Não podem dar-te o braço queres sempre mais. Nunca contentas-te com menos que os outros – redargui-o, a voz tornando-se tão pesada como a noite.
Mas, porque tudo não passava dum sonho, não conseguiu deixar do contentar. Não quando olhava-o daquela forma, como se o centro do seu mundo girasse em seu redor. Amanhã nenhum deles lembrar-se-ia disso, de qualquer forma.
- Talvez algum dia.
- Talvez – respondeu-lhe Harry, as memórias dum passado deixadas para trás.
FIM
N/a:. Finalmente acabou. Obrigada por toda a gente que leu a minha história e deixou um comentário. Principalmente Ia-Chan e Fred Snape. Foi um desafio escrevê-la. Um desafio que não punha de lado por nada. Provavelmente não demorará muito a sair o epílogo. Sempre planei que a história ia começar com um artigo escrito pela Rita Skeeter, e planejo termina-la com outro.
Fred Snape: Começar a ler uma fanfiction quando ela já está no fim tem a vantagem de não teres de esperar muito para ela estar completa. Para além dela ficar fresca na memória. :3
