—Capitulo dezesseis.

Inferno.

—Chegamos, Barth.—Disse Fehla, olhando diretamente para a mansão Parker.—E parece que alguém chegou antes.

O portão à sua frente estava retorcido e jogado de lado. Haviam varias pegadas encaminhadas para a floresta e, por uma janela, passavam vários lampejos de varias cores.

—Vamos.—Disse por fim, apontando para a imponente mansão.—Não temos tempo a perder.

O gigante adiantou-se, pisando sobre o retorcido portão, terminando de destruí-lo. Percorreram o caminho até a mansão, a cabeça de Barth sempre no mesmo nível da copa das árvores. Pararam diante da porta da mansão e Fehla saltou de seu ombro, parando em pé na soleira.

—Me espere aqui.—Ordenou, puxando o chicote e encaminhando-se até a porta. Barth grunhiu alguma coisa e ficou parado.

Com um movimento da mão, abriu a porta. Como se deslizasse pelo chão, foi até a escada. Subiu os degraus saltando. Logo estava deslizando por um corredor. Não demorou muito, teve que usar seus reflexos e desviar dois feitiços com seu chicote. Ali, dois jovens duelavam duramente com outros comensais.

—Incompetentes.—Sussurrou, cruzando os braços.—Eles são apenas dois.

Escondeu-se nas sombras e esperou. Os flashes de luz cessaram. Os dois jovens estavam parados, ofegantes, no meio de diversos comensais desacordados. Saiu das sombras, passo a passo, sem ser notada.

—Eu não sabia que tinha tanta gente seguindo Voldemort.—Disse John, ofegante, inclinando-se sobre um dos comensais. Estendeu uma mão na direção do capuz. Quando seus dedos encostaram no tecido, algo envolveu-lhe o pulso e puxou-o para o lado.

—Que diabos..?—John levantou-se, olhando para o fim do corredor.

—Sobreviveram.—Sorriu Fehla, o chicote jogado por cima do ombro.—Que milagre, para bruxos meia-boca como vocês.

John terminou de levantar, encarando Fehla, confuso. Depois, encarou Josh, ainda confuso. O irmão devolveu-lhe o olhar, dando de ombros e balançando a cabeça negativamente. Voltaram a encarar a garota, ainda tão confusos quanto antes.

—Desculpa, mas...—John fez uma careta engraçada, desconcertado.—nós te conhecemos?

—Acho que não.—Disse, o sorriso zombeteiro dançando em seus lábios.—E não vou me dar ao trabalho de me apresentar. Vocês não vão viver o suficiente para lembrar o meu nome.

John e Josh novamente se encararam, dando de ombros.

—Acha mesmo que pode derrotar nós dois só com esse chicote?—Josh deu um sorriso torto.—A não ser que seja para uma sessão de sadomasoquismo.

—Acho que vai acabar sendo uma sessão apenas de sadismo...—Ergueu o chicote no ar, imponente e, quando o abaixou, vários feixes sóbrios dispararam do chão.


Lauren permanecia sentada na beirada a fonte dos irmãos mágicos. Seu corpo estava apoiado sobre os joelhos e seu olhar perdido à frente. Não podia acreditar no que tinha ouvido. Não podia acreditar que Nilo e Roy estivessem falando a verdade. Ou estariam? Seu pensamento caiu diretamente aos estranhos acontecimentos. O pilar de luz no meio da cidade, a invasão à Azkaban, o shopping e, para terminar, todos aqueles estranhos homens de negro que haviam surgido de todos os lados.

Então...Stéphanie também estaria envolvida nisso? Estaria ao lado de Voldemort em tudo o que estava acontecendo? Claro que estava. E Lauren sabia muito bem disso. Ela só...não queria acreditar.

—Sra. Ashford?—Uma voz chamou-lhe a atenção. Ergueu o olhar e encarou o jovem nervoso que estava ao seu lado.—Tem alguém lhe esperando na sala de conferencia.

Lauren franziu a testa, mas o jovem apenas deu de ombros e voltou para a recepção. O átrio do ministério estava um completo caos. Memorandos voavam de um lado para o outro, produzindo diversas sombras. Lareiras continuavam a explodir, uma atrás da outra, trazendo aurores e outros diversos funcionários. Outros preferiam chegar aparatando, mas o local estava muito cheio e geralmente isso causava acidentes.

Espremendo-se por entre as pessoas daquela sala, Lauren conseguiu chegar até as escadas. Os elevadores estavam sempre abarrotados (se fossem elevadores comuns, com certeza já teriam dado pane). Subiu os lances rapidamente, até chegar à sala de conferência. Abriu a porta e entrou, fechando-a lentamente.

Era uma sala ampla, com assoalho de madeira, coberto por um bonito carpete. Havia diversos quadros, muitos deles de ex-ministros, todos sonolentos ou dormindo. No meio da sala, havia uma grande mesa, cercada de cadeiras confortáveis, de acolchoado vermelho. Sentado em uma delas estava Seth, sério. Marie estava sentada em outra, debruçada sobre a mesa, entediada.

—Seth...—Murmurou Lauren, encostando-se na porta, encarando o marido.—eu...

—O que diabos você tem na cabeça?—Perguntou Seth, fechando os olhos e massageando a testa.

—Eu...

—Queria se matar?—Continuou, como se não tivesse escutado Lauren falar.—Acabar com a própria vida?—Ele finalmente ergueu o olhar. Estava estreito, mas não demonstrava raiva ou coisa parecida.

—Era a St...

—Claro...—Seth soltou uma risada baixa, carregada de sarcasmo.—como eu não imaginei? O que mais faria você agir como uma doida varrida?

—Seth, por favor.—Gemeu Lauren, sentindo os joelhos fraquejarem.—Não vamos mais brigar. Por favor. Estamos precisando de um pouco de paz.

Seth suspirou cansado, levantando da cadeira. O ferimento já estava completamente fechado, ao que parecia. Parou diante de Lauren e ficou encarando-a por algum tempo, antes de abaixar a cabeça e balançar-la, negativamente.

—Vai ser difícil...pelo menos enquanto houver os "assuntos de Lestrange" entre nós.—E, dizendo isso, passou o braço pelo lado do corpo de Lauren, abrindo a porta.

Ainda encararam-se por algum tempo. O olhar de Lauren era de alguém que estava prestes a cair no choro. Deu um passo para o lado, dando passagem para Seth, que logo estava fora da sala. Lauren ficou algum tempo parada, olhando para o nada, antes de escorregar pela parede e quedar-se sentada no carpete. Marie aproximou-se, passando as mãozinhas pelo rosto da mãe, aparando as lagrimas que começavam a cair. Diante de tudo aquilo, finalmente a Lestrange ruiu.


A águia negra, forma animaga de Pedro Ravenclaw, assim que tomou essa forma, iniciou uma queda livre, como um míssil. O bico apontado para o chão, as asas bem juntas ao corpo. Seu corpo era impelido para trás, pela forte pressão do ar. Metros antes da colisão, inclinou mais o corpo, descrevendo uma perfeita curva no ar, direcionando-se para a entrada do St. Mungus. No momento em que seu corpo passou pela passagem secreta, voltou a forma humana, derrapando pelo piso. Um lampejo vermelho obrigou-o a rolar para o lado, para trás de uma estatua.

—Cara...que recepção...—Murmurou, ofegante, ainda atrás da escada.

Sacou a varinha e saiu de trás da estatua. Rebateu dois feitiços que voavam em sua direção, desferindo outros dois, derrubando os comensais que atiravam.

A recepção do St. Mungus estava um caos. Feitiços eram disparados por todos os lados. Haviam cadeiras reviradas, papeis espalhados, paredes destruídas. Havia uma quantidade imensa de pessoas desacordadas (pelo menos Pedro esperava que estivessem desacordadas) no chão. Seus amigos estavam duelando também. Pareciam cansados. Ofegantes. Os rostos suados e contorcidos a cada feitiço lançado.

Num movimento rápido, Pedro escorregou para detrás de uma pilastra e, do mesmo modo, correu até Ashley, que estava atrás da recepção, usando o balcão como escudo.

—Onde está a Lilá?—Perguntou, urgente, abaixando-se para desviar de um feitiço.

—Numa enfermaria, no primeiro andar.—Ashley parecia preocupada. Ergueu-se para lançar mais um feitiço e voltou a abaixar-se.—Não conseguimos passar por eles. Não temos como ir até lá. São muitos!

Pedro mordeu lábio inferior e pensou por um instante. Ergueu um pouco a cabeça e mirou o corredor que levava as escadas. Haviam uns sete comensais parados ali, lançando feitiços ou defendendo-se deles.

—Vou passar por eles...—Guardou a varinha no bolso e esgueirou-se para fora da recepção. Era possível notar o aumento da temperatura ao seu redor.

—Hey!—Ashley virou-se e seguiu-o.—Espera! Eu vou com você!

Abaixados, foram desviando dos feitiços que voavam por cima deles. Um deles, o que parecia ser um avada kedavra, atingiu a placa que mostrava os andares, despedaçando-a. Uma "esquadrilha" de cadeiras voou por cima deles, atingindo as paredes e alguns bruxos que lutavam contra os comensais.

—Cubra os olhos!—Gritou Pedro, para poder sobressair-se ao intenso barulho que havia na sala.

Ashley obedeceu, sem entender direito. Próximo aos comensais, Pedro parou, inclinando um pouco o corpo para frente e socando o chão com força. O vácuo formado ao redor de seu pulso explodiu o piso, erguendo uma espécie de cortina de poeira, encobrindo a visão dos comensais. Aproveitando a vantagem, saltou sobre eles, disparando uma série de chute e socos.

—O caminho está livre!—Gritou para Ashley, segurando-lhe a mão e puxando para o corredor.

Passaram por sobre os corpos desacordados dos comensais, disparando pelo corredor. Aos poucos, o som da violenta luta na recepção foi diminuindo até morrer ao longe. Diminuíram o passo, respirando rápido.

—Por ali.—Ashley apontou uma escada no fim do corredor, ao lado de uma grande porta dupla de madeira.

Subiram as escadas rapidamente. No andar de cima, varias pessoas abrigavam-se. Encolhidas nos corredores, temerosas. Crianças choravam alto, adultos discutiam o que estava acontecendo. Algumas enfermeiras tentavam acalmar as pessoas, sem nenhum sucesso.

—Por que não aparataram para fora daqui?—Perguntou Ashley, olhando para as pessoas, com a testa franzida.

—Estão em pânico.—Disse Pedro, caminhando lentamente na direção delas.—Devem ter esquecido que podem aparatar. Ou...—Olhou para os lados, passando a mão pela parede.—não podem.

Ashley franziu a testa e também passou a mão pela parede. Franziu ainda mais a testa, juntando as sobrancelhas.

—Isso é...

—Magia negra. Tem magia negra envolvendo o prédio.—Disse Pedro, afastando-se da parede e olhando para Ashley.—Não se pode aparatar aqui.

—Temos que tirar todos daqui!—Ashley exclamou baixinho, para não chamar a atenção de ninguém.

—Primeiro vamos achar a Lilá.—Disse Pedro. Lentamente foi passando por entre as pessoas escondidas. Alguns ainda erguiam a cabeça para olhar-lo. Mas a grande maioria estava apavorada de mais para notar qualquer movimento.

—Acho que...—Ashley parou no meio do corredor, mordendo a ponta do dedo.—ela está num dos últimos quartos. Não lembro direito agora.

—A energia dela está fraca demais pra poder localizar.—Pedro olhou para os lados, como se procurasse algo através das paredes.

—Com licença...—Ashley parou uma enfermeira que seguia apressada para o outro lado do corredor.—pode me ajudar? Estou procurando uma garota com queimaduras nas costas.

—Ultimo quarto do segundo corredor à direita.—Disse, puxando o braço e continuando o caminho, no mesmo passo apressado de antes.

Sem demoras, correram por entres as pessoas.


—Vejam só. Que pródigo.—Voldemort ergueu-se, soltando seu braço decepado. Para o espanto de Violet e Stéphanie, não havia sangue. Era como se Voldemort fosse feito de pedra.—A irmã mais velha aparece para salvara sua menina dos olhos. Comovente.

Passos lentos, caminhou até a mão decepada. Colocou-a bem próxima ao toco que havia lhe sobrado. Os vasos sanguíneos do braço estenderam-se e grudaram aos da mão. A carne foi fechando, como se ali houvesse um zíper.

—Impressionadas?—Voldemort riu ao olhar a cara de espanto das duas.

—Você é tão...—Violet fez uma careta.—bizarro.

—Vou tomar isso como um elogio.—Abriu e fechou a mão com força, estalando cada dedo.

As duas Lestranges ficaram observando o lord das trevas, que parecia verificar o funcionamento de sua mão. Fechou-a mais uma vez e voltou o olhar para elas, um brilho brincando em seus olhos.

—Então...devo matar uma de cada vez ou as duas de uma vez só?—Ergueu uma sobrancelha, um sorriso irônico em seus lábios.—De um jeito ou de outro, vão terminar como a mamãezinha querida de vocês.

—Não, meu caro.—Violet levantou-se, segurando o punhal de prata, de maneira ofensiva.—Sinto muito. Mas não podemos ficar para sua festinha.

Trocou o punhal de mão e estendeu-o à irmã.

—Segure, Ste...

Stéphanie olhou a irmã por um tempo, sem entender direito. Com um pouco de receio, segurou o cabo do punhal também.

—Você realmente não está pensando em...

—Um!—Violet interrompeu Voldemort, falando alto.

—Realmente não acha que...

—Dois!

—Vocês não vão!—Sacou a varinha e apontou para elas.—Avada Kedavra!

—Três!

Stéphanie sentiu como se um gancho estivesse preso ao seu umbigo. Foi atraída na direção do punhal, enquanto o mundo ao redor girava, como se ela estivesse no olho de um furacão. Bruscamente sentiu o chão voltar aos seus pés e seu corpo, desequilibrado, tombou para trás.

Estava viva. Havia saído viva. Era algum tipo de milagre? Fechou os olhos por um tempo, deixando um pequeno sorriso formar-se em seu rosto.

—Não temos tempo para descansar, Ste.—A mais nova abriu os olhos, vendo que a irmã tirava a capa com uma das mãos, enquanto deixava o punhal sobre uma cômoda.—Temos que encontrar a Lauren.

Mais uma vez Stéphanie fechou os olhos. Lauren. Será que a irmã mais velha lhe perdoaria por tudo aquilo? Havia assassinado seus companheiros, quase matou a filha dela, sua própria sobrinha e havia ferido seu marido. Sem contar com o ultimo duelo. Havia duelado com sua irmã! Fechou os olhos com mais força, escondendo o rosto entre as mãos.

—Vamos, bebê!—Disse Violet, apressada, puxando a mão de Stéphanie.—Não temos tempo!

Stéphanie levantou-se.Se Violet soubesse...

Elas não tinham pouco tempo. Não tinham tempo nenhum.


—Eu não vou facilitar dessa vez!!—Berrou Henkor, em meio a uma furiosa luta de espadas com Amanda.

—Jura?! Eu também não!—Gritou a garota, pondo mais força nos ataques.

Pararam no meio prédio, medindo forças. Raios azuis e negros começaram a sair do local de contato da espada, faiscando em seus olhares. A força imposta pelos dois fez o chão ceder, abrindo uma cratera.

Saltaram para trás, caindo agachados em pontos opostos. Sem esperar muito, correram um na direção do outro. As espadas se encontraram com violência. Amanda afastou a espada e desceu contra a cabeça dele. Henkor foi rápido o suficiente para colocar a espada na frente e deter o golpe. O novo encontro entre as laminas formou uma fina camada de gelo entre elas.

—Você está melhor do que antes!—Disse Henkor, empurrando-a para trás e saltando para ganhar distancia.—Alguma poção mágica?

Amanda não respondeu. Parou derrapando pelo chão, guardando rapidamente a espada e inclinou o corpo para frente, tocando a palma das mãos no chão. Antes que seu adversário pudesse reagir, pesadas vigas de gelo ergueram-se do chão, em transversal, formando uma espécie de caverna de gelo.

—Isso é só o começo, amigo.—Disse Amanda, correndo na direção da formação de gelo.

A dois metros da entrada, as vigas explodiram, lançando grandes pedaços de gelo para os lados. Amanda foi rápida o suficiente para parar e erguer uma parede de gelo à frente, abaixando-se atrás dela. Podia escutar os pesados blocos baterem com força contra a parede. Amanda não tinha certeza de que era forte o suficiente para agüentar.

As pedras de gelo pararam de cair. Com um movimento da mão, Amanda fez a parede transformar-se em água. Arfante, olhou para frente, arregalando os olhos.

—Surpresa.—Disse Henkor, sorrindo diabólico.

Atrás dele havia um monstro negro, enorme, sem feições. Lentamente o monstro foi diminuindo, até voltar a ser apenas sua sombra. Sem esperar que a aquamaga entendesse o que estava acontecendo, fez um movimento com a mão e uma espécie de extensão sombria de seu braço atingiu Amanda, jogando-a longe.

—Droga!—Exclamou Amanda, rapidamente congelando o ar abaixo dela, formando uma ponte. Escorregou até parar perigosamente na ponta. Ergueu o olhar a tempo de saltar e desviar da mão sombria. Formou uma pequena plataforma de gelo abaixo de seus pés, fora do alcance de Henkor.—Esse filho da mãe não se cansa?

Levantou-se, recuperando o fôlego. Henkor andava até a beirada do prédio, olhando para Amanda. Parecia estar rindo e não havia nenhum vestígio da mão sombria.

—Onde está sua força agora?!—Gritou Henkor, cruzando os braços sobre o peito.—Pensei que fosse um pouquinho mais forte.

Amanda trincou os dentes, franzindo a testa. Droga! Seria muito difícil derrotar Henkor enquanto ele pudesse controlar as sombras. Mordeu o lábio inferior, olhando para os lados, procurando uma solução.

—Se isso não der certo...—Murmurou sozinha, mordendo o lábio com um pouco mais de força.—eu vou estar muuuuuuuuuuuuuuuito ferrada.

Flexionou os joelhos e saltou. Sentiu o vento frio soprar em seu rosto enquanto caia. Depois de cair uns sete metros, congelou o ar embaixo de seus pés, criando uma ponte até o prédio.

—Finalmente decidiu lutar!—Riu Henkor, em posição.

—Nem imagina como!—Fez a ponta inclinar-se um pouco para cima no final e saltou, flutuando por sobre ele.—Meu golpe, amiguinho! Zero absoluto!

Antes que Henkor pudesse dizer "ai", todo seu corpo congelou. Amanda escorregou até a beirada do prédio, deixando um grosso rastro de gelo para trás. Sua respiração condensava a sua frente e sua pele estava meio azulada. Seu cabelo parecia coberto por uma fina camada de gelo.

—Por isso...—Amanda tremia de frio.—odeio golpes novos.—Seu corpo caiu para trás, congelando ao redor.


—Não devemos estar longe.—Disse Ashley, dobrando um corredor.

Pedro não lhe respondeu. Estava anormalmente sério. Preocupado com sua filha. Seu coração apertava só de pensar que algo podia estar acontecendo a ela. Tinha que voltar o mais rápido possível para a mansão Parker.

Seus passos ecoavam pelo corredor. Vez ou outra escutavam algo explodir no andar de baixo ou um grito alto. As luzes nas paredes piscavam constantemente, como se fossem apagar.

—É aqui.—Disse Pedro, assim que chegaram ao fim do corredor.

Ashley concordou com um aceno de cabeça e adiantou-se, abrindo a porta. Do lado de dentro, Lilá estava deitada numa cama, vestindo um camisolão hospitalar, verde claro.

—Temos que tirar ela daqui rápido.—Disse Pedro, indo até Lilá, pegando-a nos braços.

—E temos que ajudar os outros!—Disse Ashley, segurando a porta para Pedro passar.

O piromago parou, mordendo o lábio inferior. Como iria tirar tanta gente de dentro do hospital, em meio ao grande confronto que estava ocorrendo no saguão de entrada (e provavelmente em toda Londres)? Olhou para Ashley que parecia tão aflita e perdida quanto ele.

—Vamos dar um jeito.—Pedro fechou os olhos e passou pela porta, carregando Lilá nos braços.—Primeiro nós temos que...

—Ficar exatamente onde estão.—Disse uma voz fina e arrastada.

Pedro e Ashley viraram bruscamente na direção da voz. O mesmo homem de aparência raquítica do shopping estava parado, em frente a eles.

—Pegue a Lilá e vá até a saída.—Disse Pedro, sem desviar o olhar do homem a frente.

—Nem vem.—Disse Ashley, dando um passo a frente.—Você vai e tira todos daqui. E...—Ergueu um pouco a voz quando o amigo abriu a boca para protestar.—não me venha reclamar. Não temos tempo à perder.

Ravenclaw ficou olhando para Ashley por um tempo antes de respirar fundo e murmurar um "boa sorte". Passou correndo por Yatzhi que não moveu um dedo para impedir-lo.

—Ele vai ter a própria diversão.—Riu, dando alguns passos na direção da parede.—Assim como eu vou ter agora.

—Não sabia que era do tipo masoquista.—Riu Ashley, puxando a espada da bainha.

Yatzhi apenas riu. Tocou uma mão na parede e foi aproximando-se mais, até encostar o ombro. Antes que Ashley pudesse falar algo, adentrou a parede, como se ela fosse liquida. A garota correu até o local, tentando ultrapassar a parede, mas para ela continuava tão sólida quanto antes.

—Vamos brincar de esconde-esconde?—A voz de Yatzhi ecoou por todos os cantos.—Me procure. Se achar, terá um premio.

—Premio?—Guardando a espada, Ashley afastou-se lentamente da parede, ainda tocando-a com a palma da mão.—Que premio?

—Me encontre e eu te direi.—O membro do quinteto das sombras riu. Sua risada, assim como sua voz, ecoando pela parede.

—Eu não arriscaria me deixar tão curiosa.—Deu alguns passos a frente, a mão ainda tocando a parede.—Isso costuma ser perigoso.

Yatzhi riu mais alto. Ashley agora tocava a parede apenas com a ponta dos dedos. Então, rapidamente, virou-se, puxando a varinha com a outra mão, lançando um jorro de luzes vermelhas contra uma parede, explodindo-a. A vella teve a impressão de ver um pé em meio aos destroços, mas foi tão rápido que pensou ser sua mente. Voltou a encostar a mão na parede, concentrando-se.

—Passou perto, querida.—A voz dele voltou a ecoar pelas paredes.—Você é boa. Mas não o suficiente.

—Não me julgue ainda, 'querido'.—Disse Ashley, franzindo a testa, aproximando mais a palma da parede.—Eu só estou esquentando.

Ficaram em silencio. Ashley passava as mãos de uma parede a outra, franzindo mais a testa. Vez ou outra se virava, tendo a impressão de escutar passos. Mas não havia ninguém.

—Isso está começando a ficar chato.—A voz de Yatzhi soou entediada.—Poderia ser um pouco mais rápida?

—Vale a pena esperar, querido.—Disse Ashley, sorrindo.—Eu te garanto.

Yatzhi riu mais uma vez. Ashley virou-se, lançando um feitiço contra a parede, explodindo-a. Yatzhi estava parado lá, tossindo, em meio aos escombros.

—Te achei!—Correu até ele e segurou-o pelo colarinho, jogando-o no corredor.

O corpo de Yatzhi escorregou pelo chão, parando na metade. Levantou a cabeça, um pouco tonto, tentando se levantar.

—Não, não, não.—Disse Ashley, pisando contra seu peito, mantendo-o no chão.—Agora quero meu premio.

—Seu premio?—O magricelo riu, fechando os olhos.—Já darei seu premio.

—Não!—Ashley inclinou-se, tentando agarrar suas vestes, mas ele já havia entrado através do chão, sumindo novamente.—Maldito!


Pedro saiu em disparada pelo corredor. Tinha certeza de que havia pego o caminho certo, mas o corredor parecia mais longo do que era...e mais escuro. Ravenclaw foi diminuindo o passo até parar por completo, quando já eram totalmente envolvidos pelas sombras.

—Tem alguma coisa errada por aqui.—Pedro franziu a testa, aproximando-se cauteloso da parede. Colocou Lilá nas costas, envolvendo seus braços em seu pescoço, como suporte.—Esse corredor não era tão grande.

Encostou a mão na parede lentamente. Pedro rapidamente pulou para trás, abanando a mão, como se tivesse levado um choque.

—Putz! Tem uma grande corrente de energia passando por essas paredes!—Exclamou, ajeitando Lilá que havia escorregado um pouco de suas costas.

—Percebeu, não foi?—Perguntou uma voz, vinda das sombras.

O garoto virou-se rapidamente, em posição. Encarou a escuridão. Mas não havia som de passos nem de nada. Franziu a testa, correndo o olhar para os lados, procurando algum vestígio de movimento. Mas o corredor parecia mais uma vez vazio.

—Merda!—Exclamou repentinamente, abaixando-se. Escutou o som de fortes golpes atingindo a parede.—Preciso de um pouco de luz! Flames!

Uma chama surgiu em seu polegar. Ergueu lentamente, a tempo de ver os punhos que haviam surgido das paredes, formando uma grade acima dele. Apontou o polegar para frente, procurando alguém. Mas não havia ninguém.

—Não vai me encontrar assim, jovem Ravenclaw.—Disse a voz, parecendo mais próxima.

—Apareça!—Gritou Pedro, levantando-se, apontando a chama em seu polegar para todos os lados.

—Eu gostaria. Mas está sendo divertido brincar com você.—Disse a voz. Era calma, tranqüila. Não mostrava nenhuma alteração.

—Gato mia não é minha brincadeira favorita.—Pedro virou-se, ainda apontando a chama para todos os lados.—Sabe...prefiro brincar com o fogo.

—Um dia você pode se queimar.

Antes que Pedro pudesse responder, mais punhos irromperam da parede. Ravenclaw jogou-se no chão. A chama em seu polegar encostou em seu peito, queimando-o.

—Droga.—Resmungou Pedro, levantando-se lentamente, passando a mão pelo local bastante avermelhado.

—O que eu disse?—Perguntou a voz, ainda sem alterar-se.

—Aparece, desgraça!—Resmungou Pedro, amarrando mais os braços de Lilá em seu pescoço.

—Use seu cérebro, Ravenclaw.—Disse a voz.—Use seu cérebro para me encontrar.

Pedro mordeu o lábio inferior com força e olhou para os lados, o olhar estreito. Tentava colocar sua mente para funcionar, mas ainda estava muito preocupado com Emily. Queria sair logo dali e encontrar a filha. E os pensamentos de que algo de ruim poderia estar acontecendo com ela não ajudavam muito.

—Não tem outro jeito.—Juntou as mãos, formando um triangulo.—Lanterna de Alexandria!

Uma chama surgiu em meio ao triangulo formado por seus dedos, iluminando todo o corredor. Mas não era o corredor do hospital. Parecia o corredor de uma masmorra, tão fria e escura quanto a de Hogwarts.

—Uma ilusão.—Murmurou, olhando para os lados.—O que diabos você é? Que tipo de mago mental você é?

—Não sou um mago mental...nem elemental...e nem espiritual.

—Então o que diabos é você?—Pedro trincou os dentes, ainda olhando para os lados.

—Eu sou...—Um circulo sombrio abriu-se no chão. De dentro dele apareceu um homem negro, usando uma túnica negra com uma faixa branca presa à cintura.—Lamar...o quinto membro do quinteto das sombras.

—Ah!—Exclamou Pedro, rindo de canto.—Mais um. Encontrei outro amiguinho seu lá em cima.

—O Henkor.—Assim como sua voz, sua expressão não se alterava de modo algum. Era sempre calmo, como se nada estivesse acontecendo ao seu redor.

—É...deve ser.—Deu de ombros.

Ficaram em silêncio, encarando um ao outro por um tempo. A luz da lanterna fraquejou um pouco, mas manteve-se firme. Sua energia Elemental estava no fim. O fulgor dos dragões gêmeos consumia muita energia e ele já havia utilizado uma vez. Sem contar em todos os outros golpes elementais que havia usado na luta contra Lucius. Não devia sobrar muito de energia.

—Pode mudar essa ilusão para um lugar mais iluminado?—A luz da lanterna fraquejou mais uma vez.—Não vou poder lutar com você utilizando a lanterna.

—Lutar? Quem disse que eu quero lutar?—Lamar deu alguns passos na direção de Ravenclaw.—Lutas são desnecessárias. Esgotam as energias. Não. Não vou lutar com você.

—Ahm?—Pedro ergueu as sobrancelhas, confuso.—Bem...ótimo! Desfaça essa ilusão, me deixe ir e ambos ficamos felizes, certo?

—Errado.—Disse Lamar. Pedro ergueu mais as sobrancelhas, mais confuso.—Eu disse que não quero lutar. Mas não disse que vou te deixar vivo.

—Ahm? Mas o q...—Antes que pudesse completar, vários punhos sombrios surgiram do chão, tentando lhe acertar. Pedro saltou para trás, desviando. Mais punhos surgiram das paredes.—Porcaria! É muita coisa!—Desfez a lanterna e abriu os braços, apontando a palma das mãos para as paredes, lançando jatos de fogo nelas.

O fogo correu pelas paredes de pedra, dizimando as mãos sombrias. Pedro recolheu as mãos e o fogo sumiu. Sentiu os joelhos tremerem. Estava chegando a seu limite. A sala estava novamente no escuro, mas agora ele sentia a energia de Lamar.

—Você é bom.—Escutou sua voz aproximando-se.—Mesmo cansado, consegue evitar meus ataques e usar uma grande quantidade de fogo. Mas...por quanto tempo vai conseguir se manter em pé?

Era essa a pergunta que ele se fazia...


O exercito inglês havia sido rapidamente convocado para tentar conter o caos que havia se espalhado pelo país. Helicópteros, tanques, caças. Todo o armamento de alta tecnologia havia sido disponibilizado para conter a onda de ataques. Mas não estava dando muito certo. Tudo o que o exercito pode fazer foi retirar os políticos e a família real de Londres, levando para um abrigo seguro.

Agora, vários tanques cercavam o palácio de Buckinghan. Havia uma marcha de homens vestidos de negro seguindo naquela direção. Seria uma boa chance de deter-los. O general estava parado em frente aos tanques, olhando o fim da rua, esperando a chegada do misterioso exercito.

—Senhor! Eles estão chegando!—Disse um soldado, em cima de um tanque.

—Preparem as armas.—Ordenou o general. O soldado bateu continência e entrou no tanque.

No fim da rua, um exercito negro apareceu. Lançavam estranhos raios luminosos para cima, destruindo janelas, carros. Gritavam coisas incompreensíveis. Os soldados britânicos posicionaram os canhões e as metralhadoras na direção dos homens de negro.

—Em nome da rainha da Inglaterra.—Gritou o general, por um megafone.—Ordeno que parem!

Mas eles não pareceram escutar. Continuaram a marcha, cada vez mais próximos dos tanques.

—Vamos atacar.—Disse o general, erguendo o braço.—Ao meu sinal!

A tensão pairou no ar. Por alguns instantes o tempo parecia ter parado para os britânicos. Mas os comensais continuavam a marchar em direção à eles.

—Fogo!—O general bradou, descendo o braço.

Vários disparos simultâneos fizeram a rua tremer. As balas explodiam próximas aos comensais, que não se abalavam. Continuavam a marcha, mesmo quando um disparo acertava alguém. Para a surpresa e horror dos soldados britânicos, muitos dos feridos se levantavam, sem dar falta das partes perdidas do corpo.

—Continuem atirando!—Gritou o general, apavorado.—Continuem a...

A explosão de um de seus tanques interrompeu-lhe. Vários pedaços da lataria caíram no chão com fortes estrondos, acertando os soldados da artilharia.

—O que foi isso?!—Berrou o general, as mãos sobre a cabeça.

—Ali, senhor!—Um soldado apontou para o alto, apavorado.

O general olhou para cima. Um grande lagarto alado, negro, dava uma cambalhota no ar e apontava sua boca cravejada de pontudos dentes para eles.

—Evacuem! Evacuem!—Berrou o general, começando a correr para longe.

Mas já era tarde. Um novo jorro engoliu o general e seus soldados.