ALGUÉM COMO VOCÊ

CAPITULO DOIS

"Suspirou alto. Fechou os olhos, e sentiu sua cabeça latejar. Quanto mais tentava, menos diminuía. Sentia todos os seus reflexos mais rápidos. Como se tudo acontecesse numa velocidade maior. Fora a horrível sensação de que estava esquecendo de algo, deixando algo pra trás. Ele apareceu e lhe deu um calmante. Usava uma camisa azul que refletia furiosamente nos seus olhos. Prestou atenção nas suas expressões e mais uma vez se deixou admirar pelo rosto angelical e a boca feita para a luxúria. Sentiu uma vontade imensa de mordê-la. Seria ousado demais somente experimentar de novo aquela luxúria?"

Chase levantou o olhar para a mulher com quem conversava. Ela devia ter vinte anos, no máximo. E Chase sequer prestava atenção no que ela dizia. Percebeu que ela falava e falava, abria a boca, e ele não conseguia entender o que ela dizia.

Ela era loira, olhos azuis, tinha uma boca carnuda e vermelha, e sorria sempre, mostrando os dentes perfeitos. Ela ria, e tocava o braço de Chase, enquanto bebia de uma cerveja long neck.

Era um convite tentador. Ela inteira era um convite.

Chase sorriu, parecendo sonhador.

- Você está me ouvindo? – ela perguntou.

- Claro. – mentiu ele. Não fazia idéia do que ela tava falando.

- Então, ele disse pra mim como era a mulher mais linda que ele tinha visto...

Socorro!

- ... não que seja convencida, mas eu sou! – ela riu, infantil.

- É... – ai, Jesus, me tira daqui.

Ele olhou em volta, procurando Cameron. E pode ver melhor o ambiente onde ele estava. Devia estar num salão de festas. Só podia ser, já que aquele lugar era grande demais para uma sala de estar ou uma sala de jantar.

Pode ver ao fundo, uma enorme janela que dava para os fundos da casa, onde podia ver uma piscina iluminada por refletores. Tinha gente nadando e bebendo ao mesmo tempo.

Do outro lado da piscina, haviam enormes arcadas que davam para uma jardim. Explêndido! – Chase pensou. E essa mulher não cala a boca!

Ele esticou o pescoço para o outro lado, e finalmente viu Cameron. Estava conversando com uma mulher ruiva num elegante vestido tomara-que-caia. Era Sophie, a dona da casa. Quando Cameron lhe falou sobre ela, imaginou que seria uma mulher diferente, dada a festas mais sofisticadas, regada a caviar e champagne.

E ali naquela suntuosa mansão, havia pessoas bêbadas, góticos, motoqueiros, um homem só de cueca perambulando cantando pela casa e mulheres nuas nadando na piscina.

Não era bem glamour que estava instalado ali.

E ali estava ele e Cameron que usava um leve vestido verde, que contrastava com sua pele e seus olhos verdes. Ele sorriu. Ela estava linda. Mais solta e natural do que o normal.

- Então, gato... o que acha de gente dar uma volta?

Chase se virou ao ouvir a voz da jovem a sua frente.

- Dar... uma volta? – ele engasgou.

- Ééééeééée. – ela cantarolou. - Lá em cima é cheia de quartos...!

- Lá em cima? – ele ficou perdido. Não que não soubesse o que fazer. Sabia. Era só chegar e fazer o serviço. Mas... Cameron estava ali. Ele veio para se divertir... com ela. Não pra levar "lá pra cima" todas que se oferecerem.

Ele desviou sutilmente o olhar e trocou um olhar com Cameron. Ela sorriu.

Ele tentou mandar um sinal telepático para ela: "Socorro. Me tira daqui. Ela quer abusar do meu corpo"

Não que eu não quisesse. Eu quero. Não! Não quero!

Cameron percebeu um olhar estranho dele. Parecia desespero. Riu gostoso.

- Acho que meu acompanhante precisa de salvamento. – ela disse a Sophie.

- É bom mesmo. Se não, Tiffany vai jogar ele no chão, e realizar um selvagem... affair.

Cameron gargalhou e andou na direção de Chase. Ela parou um instante para admirá-lo.

Naquela noite, ele tinha caprichado. Normalmente ele fazia umas combinações estranhas de roupas, mas naquele dia, ele estava... descolado. Estava tão despojado que mal o reconheceu quando ele apareceu na sua porta.

Ele vestia jeans, um tênis surrado, uma camisa branca e um chapéu. Ele devia ter imaginado que Sophie deveria ter amigos que estavam na moda, então ele deve ter feito jus a tendência.

Ela se aproximou, e ele sorriu, aliviado.

- Oi, querida... – ele forçou, e Cameron estreitou a testa. – Esta é...

"Merda, qual o nome dela?"

- É... humm... – ele tentou.

- ... Tiffany.

- Isso, Tiffany! – ele riu. "Merda!"

- Allison. - Cameron estica a mão a cumprimentando. – Posso roubá-lo um pouquinho?

Tiffany arregalou os olhos.

- E se... eu disser que não? – ela ameaçou.

"Legal! Briga de lama!"

Cameron estreitou a testa novamente. "Como é que é?"

- Me desculpe... Tiffany, certo? – ela pediu confirmação com Chase.

Chase arregalou os olhos e confirmou, sorrindo.

- Robert... – ela disse enfaticamente para demonstrar intimidade. Chase segurou o riso. -... é meu acompanhante.

E ela sorriu, orgulhosa.

Tiffany fechou a cara, dando um olhar violentamente vil para Cameron. Chase achou que as duas iriam sair no tapa ali mesmo.

Cameron pegou Chase pela mão e o puxou para a pista de dança.

- Cameron! – ele exclamou impressionado. – Achei que você ia rolar com ela no chão.

- Não me rebaixaria a tanto.

- Que bom que está aqui para me defender das interesseiras. – ele fez um biquinho.

Cameron riu, balançando os quadris.

- Vai, Chase, entra no ritmo! – ela exclamou, e Chase a olhou como se ela estivesse louca.

- Acho que preciso estar muito bêbado pra isso. – ele riu.

- Então, vem. Vamos beber. – ela o guiou até o bar. – É o seguinte... quando você escutar uma campainha, você tem que beber um copo de tequila.

- O quê? – ele arregalou os olhos.

- Quando você ouvir a campainha, você tem que...

- Eu entendi, eu entendi... mas por quê?

Ela se aproximou do balcão, onde um jovem sorridente lhe perguntou qual era o pedid0.

- Duas cervejas e duas tequilas. – ela se virou para Chase. – Não há por que. É regra da festa.

O bartender lhe entregou as bebidas, e Cameron esticou a Chase uma lata de cerveja.

- Toma! Acho que isso você conhece.

Ele riu.

- Oi, meu amor. – ele sorriu, e virou a lata, bebendo até terminar numa golada só.

- Nossa! Você está me assustando!

- Deve ser de família. – ele disse, e Cameron o entregou outra lata, que ele começou a beber em seguida.

- Calma, ainda tem mais lá dentro.

- Vamos conversar lá fora. – ele disse, abrindo um sorriso. – Aqui mal posso me ouvir.

- Espere! – Cameron se aproximou do bar e pegou mais duas cervejas. – Pra manter seu nível equilibrado.

Chase gargalhou.

- Obrigado. – ele apontou para um canto, e Cameron viu que ele direcionava a piscina.

- Tem certeza? – o lugar tava lotado demais. "E tinha gente fazendo strip-tease lá!"

- O caminho da felicidade!

Cameron levantou as sobrancelhas.

- Como é? – "o que ele pensa que está fazendo?"

- Depois da piscina tem um jardim, Cameron. – ele se defendeu. – Que mente poluída!

- Hey! Eu não pensei em nada!

- Tenho certeza.

Eles, munidos de cerveja e tequila, tiveram que desviar de um certo número de pessoas espremidas no salão.

Eles atravessaram a piscina lotada, e caminharam até o oposto da multidão. Chase, enfim, entrou no jardim que ele tinha admirado e pode ver a vegetação, as flores e sentir o aroma.

- Que lindo! – Cameron disse encantada.

Infelizmente não estava vazio. As varias mesinhas espalhadas ali estavam cheias. Amigos rindo, bebendo e se divertindo, longe da musica e do falatório.

Chase apontou um banco de madeira, encostado numa parede com relva, e Cameron se sentou.

Chase achou que ali poderiam conversar. Que barulho nenhum incomodava. Mas uma campainha altíssima tocou.

Cameron latiu, e Chase gargalhou vendo todo mundo fazer o mesmo. Enquanto ela bebia a tequila, ela deu um chute na canela dele.

- Ai! – ele gritou.

- Você não latiu.

- Achei que você tava me zoando.

- Pois é, não estava.

Ele ainda ria.

- Late de novo! – ele pediu, fazendo graça.

- Filho da...

- Não xinga minha mãe. Ela era alcoólatra, não puta.

Chase olhou para os lados, e fez um barulho irreconhecível.

- Eu não ouvi. – ela reclamou.

- Eu lati.

- Mas eu não ouvi.

- Ah, Cameron... isso é... vergonhoso.

- Então ta. – ela pegou outro copo de tequila, quando um garçom passou. – Vai! Me fala da sua irmã.

- Ela mora em Sidney. – ele engoliu mais cerveja. - É casada e tem 3 filhos.

- Três? – se espantou.

- Adam, Scott e Jane. Trigêmeos.

- Uau!

- Outra coisa genética. – ele bebeu e chacoalhou a cabeça. – Álcool, câncer e gêmeos.

- Não entendo como você pode levar isso... na brincadeira.

- Não é engraçado, Cam, é trágico. Ou eu vou morrer de câncer, ou de cirrose.

- Chase...

- De novo aquele olhar... Cameron, não, okay? Pensei que tinha vindo aqui pra me... ocupar, certo?

- Certo. – ela disse, suspirando.

A campainha tocou de novo. Desta vez, Chase entrou na brincadeira e latiu. Junto com Cameron e com todos os outros convidados.

Os dois viraram a tequila pra dentro, e riram, em seguida.

- Tá, confesso. – ele disse. – Gostei disso.

- Sabia que ia gostar.

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Cameron estava encostada na parede do salão de festas olhando para a pista de dança quando Chase se aproximou:

- Cam, tem um cara dando em cima de mim, que ta me deixando sem graça.

Ela riu.

- O que você disse pra ele?

- Eu não disse nada. Eu só fui... gentil.

- Ele deve ter gostado da sua... – ela olhou para as calças dele e ele percebeu: -... gentileza.

- Não me zoa, Cameron. – ele olhou para os lados, parecendo preocupado. – É que ele me olha estranho.

- Deixa de ser homofóbico, Chase.

- Eu não sou homofóbico. Eu trato todo o tipo de pessoa, só que esse cara tá me assustando.

- Relaxa! – ela disse rindo.

Ele olhou para o lado e se desesperou.

- Ele tá vindo pra cá, Cameron. – ela seguiu o olhar dele e viu o homem enorme, olhando para Chase como se ele fosse um pedaço de bife. – Faça alguma coisa!

- Eu?

- Sei lá. Me esconde!

- Tenho uma idéia! – ela exclamou e o puxou para um beijo.

Chase foi pego de surpresa, mas pensou: "Boa idéia! O cara vai desistir de mim!"

Mas Chase acabou se esquecendo do motivo que fizera Cameron beijá-lo. Acabou se deixando levar pelo gosto, pelo sabor da boca dela.

O homem enorme vendo aquele tórrido beijo, desistiu.

- Macho de merda! – exclamou.

Cameron também se deixou levar pelo beijo. E não fazia idéia de como aquele beijo era bom.

Já tinha beijado Chase antes, claro, mas... daquela noite sobre Crystal Meth, ela lembrava e não lembrava de muita coisa. Era um borrão confuso na sua cabeça. E o beijo de Chase era um risco apagado naquele borrão.

E aquela noite nem tinha sido a tanto tempo assim. "Tinha sido a quanto tempo? Três semanas?"

Para um beijo só de aparência, estava bem exagerado. Quando Cameron se deu conta que tinha colocado a própria língua misturada com a de Chase, é que ela percebeu que era melhor parar ali.

Ela se afastou, e Chase segurou a respiração sem tirar os olhos dos dela.

- Obrigado. – mal saiu da sua garganta.

- É, ele foi embora. – ela murmurou.

- Vou buscar outra cerveja. – ele tinha que quebrar o gelo. Não conseguia saber quem estava mais embaraçado ali. Ele ou ela.

- Também quero. – ela pediu.

Ele confirmou e saiu.

Cameron passou a mão no pescoço, sentindo a umidade. Estava com calor. "Deus, que beijo!"

Chase, enquanto aguardava o bartender voltar com as cervejas e a tequila, ficou pensando no que tinha acontecido.

Tudo bem, tinham fingido aquele beijo. Mas chegou um momento ali que não era mais fingimento. Ela sabia disso. Sabia que da parte dele houve mais. Ela deve ter sentido que ele tinha se empolgado. Assim como ela se empolgou.

"Merda, o que ela vai pensar agora?"

Cameron, em um canto do salão, ainda sentia o lábio inchado pelo beijo. Chacoalhou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento. Ela e Chase trabalhavam juntos, eram amigos. Então de onde vinha aquela vontade doente de levar ele pra cama de novo? Era o álcool. Só podia ser o álcool. Assim como naquele vez foi o Crystal Meth.

Sophie chegou ao seu lado.

- Allison, o que pensou que estava fazendo?

Cameron não entendeu.

- Por que não me disse que ele era seu namorado?

- E não é.

- Mas você estava aos beijos com esse cara. Não é típico de você beijar qualquer um.

- Ele não é qualquer um.

- Ah, não?

Como explicar a ela? Explicar sobre o beijo? Sobre o cara que paquerava Chase? Explicar que ela já tinha passado dos beijos com ele?

Resolveu simplificar.

- Nós trabalhamos juntos. Foi só... um beijo.

- Ele é lindo. – Sophie elogiou.

- É, ele é lindo. Lindo e... um cara decente.

- Então, Alli. Você não tem ninguém a tanto tempo. Por que não se dá um chance?

Camoron suspirou alto. Eu não sei, Shophie, não sei!

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N/A: Roubei a idéia do latido e da tequila do seriado "Two and Half Man". Não sei bem qual é o episodio, mas é da 1ª temporada.

Ah, deixei o Chase meio J.D. do "Scrubs". Quando ele pensou "Legal! Briga de lama!", eu juro que imaginei a cena, com Chase assistindo.

Obrigado pelas rewiews!