"Malfoy, ela está morta."
Draco olhou para Harry como se ele tivesse enlouquecido.
"O que? Não, isso não é verdade."
Harry olhou diretamente nos olhos de Malfoy e recomeçou a chorar em silêncio.
"Eu... Sinto muito mesmo, Malfoy, mas é verdade. Ela não tem mais pulsação."
Draco desviou o olhar e abaixou a cabeça para ver Pansy melhor. Agora ele não fazia ideia do que fazer então simplesmente se jogou sobre o corpo da garota.
"Malfoy, nós precisamos contar isso pra alguém. Eu vou chamar o Dumbledore."
Harry se levantou, mas quando ia pegar sua mochila para ir até Dumbledore, Draco se desprendeu de Pansy e lhe puxou.
"Por favor, não vá."
"Mas nós precisamos avisar isso a alguém! Dumbledore precisa saber."
"Eu sei disso. Mas, por favor, não me deixe aqui sozinho numa situação dessas. Por favor!"
Draco estava implorando e puxando Harry para que ele ficasse. Harry se sentiu terrível com tudo aquilo então o máximo que pôde fazer foi dizer:
"Oh, Merlin, você tem razão, não posso te deixar aqui sozinho, eu sinto muito."
"Obrigado."
Harry se sentou ao lado de Draco, que agora novamente se jogava sobre Pansy.
"Malfoy, não faça isso. Deixe-a ir. Largue-a."
"Eu não posso! Ela morreu me odiando! Ela morreu por minha culpa! Isso é tudo culpa minha! Oh, Merlin!"
Draco soluçava alto e Harry o puxava para longe do corpo.
"Vamos Malfoy. Não foi culpa sua. Não foi você quem a matou!"
"Mas se não fosse por mim ela não teria vindo até aqui! É minha culpa!"
Harry colocou mais força e finalmente conseguiu remover Draco de cima de Pansy.
"Não foi culpa sua! Pare de dizer isso!"
Draco limpou as lágrimas dos olhos e se virou para Harry.
"Você não sabe disso, Potter! Você não estava aqui! Você não viu acontecer! Ela era minha amiga, ela me amava e olha só o que eu fiz com ela! Apesar de eu viver reclamando dela, ela era minha única amiga de verdade, a única que sempre ficava do meu lado! E agora por minha culpa ela está morta!"
Harry colocou cada mão em um ombro de Draco e fez com que eles ficassem cara a cara.
"Isso não é verdade, Draco. Eu estou aqui por você. Sei que não sou muita coisa, mas você pode contar comigo. E ela não morreu por sua causa, isso foi apenas uma infeliz coincidência. Você não teve culpa alguma."
Draco ficou espantado com o outro usando seu primeiro nome e por dizer palavras tão gentis a ele. Naquele momento, Draco não se importou com o fato de Harry ser inimigo mortal do Lorde das trevas, tudo o que importava era que Harry era agora alguém com quem ele podia contar e Draco não abriria mão disso por nada nesse mundo.
Draco abriu a boca e pronunciou "Obrigado", não saiu nenhum som, mas Harry entendeu perfeitamente o que ele disse.
Harry tirou as mãos dos ombros de Draco, mas não se afastou. Foi ai que aconteceu algo que Harry não esperava, Draco se inclinou para frente e o abraçou como se sua vida dependesse daquilo. Harry, apesar de espantado, retribuiu o abraço da mesma maneira.
Os dois ficaram assim por um bom tempo, ambos apreciando cada pedacinho daquilo. O cheiro do outro, o calor de seus corpos unidos, a respiração ofegante, o coração acelerado e a incrível felicidade momentânea que aquilo causou.
Mas eles logo lembraram que a realidade era muito assustadora para eles estarem tão felizes: Pansy estava morta.
Então Draco se afastou lentamente de Harry. Ambos estavam com o rosto muito vermelho.
"Nós temos que avisar Dumbledore.", Draco disse.
"Claro. Mas eu não vou te deixar sozinho."
"Eu não posso abandonar a Pansy."
"Não precisa."
"Mas como...?"
Antes que Draco terminasse a frase, Harry puxou a varinha e fechou os olhos. Ele se lembrou do abraço de Draco e pronunciou: "Expecto Patronum!". Uma luz branca saiu de sua varinha, seguida por um cervo que caminhou para longe dos garotos.
"Pra quê isso? Você acha que tem dementadores por aqui?"
"Não. Isso foi uma mensagem que eu enviei a Dumbledore. Nunca fiz isso, mas Hermione viu em algum livro e disse que era assim, então eu espero que funcione."
"Patronos servem para enviar mensagens? Dessa eu não sabia."
"Pois é..."
E agora eles esperaram.
Draco não se jogou novamente sobre Pansy, mas ele ficou ao seu lado o tempo inteiro, segurando sua mão. Harry ficou ao lado de ambos, querendo fazer alguma coisa para ajudar, mas reconhecendo que não havia nada que ele pudesse fazer.
Depois de alguns minutos eles viram alguns pares de varinhas se aproximando. Dumbledore vinha na frente, seguido por McGonagall, Lupin, Flitwick, Snape, Sprout e Filch, a não ser esse último, todos estavam com as varinhas iluminadas.
"Oh, não. Então é mesmo verdade.", disse a Professora McGonagall enquanto o grupo se aproximava.
Harry e Draco se levantaram para explicar o ocorrido.
Flitwick foi o primeiro a se aproximar do corpo. Ele tocou o pulso de Pansy da mesma forma que Harry havia feito. Então olhou para os outros e balançou a cabeça negativamente.
"Harry? O que aconteceu?", perguntou Lupin.
"Eu presumo que o Senhor Potter tenha uma boa explicação para isso.", disse Snape.
"E-eu...", dizia Harry.
"Não, Professor, ele não tem. Ele nem estava aqui quando isso aconteceu, ele só apareceu depois. Era eu quem estava aqui, então você poderia parar com esses insultos idiotas contra o Potter e, por favor, me escutar?", Draco ainda tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, mas ele conseguiu ser bastante grosseiro com Snape.
"Senhor Malfoy, eu peço que se acalme. Venha comigo, por favor. Vamos.", disse Dumbledore calmamente, "Eu sei que uma coisa terrível aconteceu, mas tenha calma, por favor."
"Não! Eu não vou com você! Eu tenho que dizer a todos o que aconteceu. Vocês têm que me escutar! Eu fui o único presente no momento que ela morreu!"
"Malfoy, se acalme... Dumbledore só quer ajudar...", disse Harry.
"Não! Se ele realmente quer ajudar, ele vai ouvir o que eu tenho a dizer. Todos vocês vão."
"Pois bem, Sr. Malfoy, se é isso o que quer, vá em frente, conte-nos o que aconteceu.", disse Dumbledore.
"Ótimo, é o seguinte: Eu e Pansy tivemos uma briga e ela saiu correndo pra cá. Eu a segui, mas quando ela dobrou o corredor, tudo ficou silencioso e eu fiquei assustado. Quando eu dobrei o corredor atrás dela, ela estava paralisada de medo e dois vultos – comensais, eu acho – estavam apontando as varinhas pra ela. Ai veio a luz verde que a atingiu. Eu gritei por ela então os comensais foram embora. Eu caí no chão ao lado dela e o Potter chegou. Ele perguntou o que estava acontecendo e pegou o braço de Pansy. Então ele disse que... Ele disse que...", Draco não foi capaz de continuar pelo fluxo de lágrimas que escorriam por seu rosto, então Harry o ajudou.
"Então eu disse que ela estava morta, não tinha mais pulsação."
"A culpa foi minha!", gritou Draco.
"Não foi culpa sua, Malfoy.", disse Harry.
"Sinto muito ouvir isso. Sinto muito mesmo. E concordo com Harry, Malfoy não foi o culpado por isso.", foi o que Lupin conseguiu falar.
"Oh, Merlin, isso é terrível. Uma aluna foi morta dentro de Hogwarts, que horror!", disse McGonagall.
"Senhores Potter e Malfoy, eu entendo a dificuldade desse momento, mas eu vou ter que pedir que ambos me acompanhem. Draco, eu acredito na sua palavra e nós vamos fazer o possível para encontrar o culpado por isso, mas agora eu realmente preciso que venham comigo.", disse Dumbledore.
"Para onde irá levá-los, Senhor?", perguntou Flitwick.
"Vou levá-los à minha sala. Eu peço que os coordenadores de cada casa vão até as salas comunais e informem do ocorrido aos alunos, tentem fazer com que não entrem em pânico e avisem que é estritamente proibida a saída das salas comunais. Entendido?", informou Dumbledore.
McGonagall, Snape, Flitwick e Sprout seguiram cada um para a sala comunal de suas respectivas casas.
"Peço a você, Professor Lupin, que cuide do corpo. Leve-a até a enfermaria. Filch, ajude-o."
"O que vocês vão fazer com ela? Eu quero ficar ao lado dela!", disse Malfoy.
"Eu sei disso, Sr. Malfoy, mas infelizmente não é possível. Nós temos que tomar as devidas providências sobre isso, então o Senhor terá de vir comigo."
"Mas...", Draco iniciou a frase, mas não teve forças para continuar.
"Vamos, Malfoy. Você não pode fazer nada, vamos com Dumbledore.", disse Harry e pôs a mão sobre o ombro de Draco.
Draco acenou com a cabeça e eles seguiram Dumbledore até sua sala.
Chegando lá, Dumbledore pediu que os garotos se sentassem e os ofereceu chá. Ambos negaram.
"Eu insisto que aceitem. Isso vai acalmá-los e ajudar a diminuir a quantidade de álcool no sangue de vocês.", disse Dumbledore estendendo duas xícaras aos garotos.
"Senhor, como sabe...?", perguntou Harry.
"Como sei que beberam? Harry, meu garoto, eu sei de muitas coisas. Mas não se preocupem isso não vai influenciar em nada. Agora aceitem o chá."
Os garotos pegaram as xícaras.
"Professor, o que vai ser da Pansy agora?", perguntou Draco.
"Bem, Sr. Malfoy, a Senhorita Parkinson está morta. Não há nada que possamos fazer para mudar isso. Mas eu lhe asseguro de que vamos encontrar os culpados por isso."
"E se não encontrarem?"
"Nós iremos. Não se preocupe."
Eles terminaram o chá e entregaram as xícaras de volta a Dumbledore.
"Senhor, não acha que agora é muito perigoso ficar em Hogwarts? Quero dizer, bem, já que uma aluna foi atacada e outra foi morta?", perguntou Harry.
"Não. Hogwarts continua segura como sempre."
"Como pode dizer isso? Uma aluna morreu aqui! Chama isso de segurança?", gritou Draco.
"Acalme-se, Senhor Malfoy. Eu reconheço que nos últimos dias coisas terríveis aconteceram, mas eu vou me certificar de aumentar a segurança e tudo voltará a ser como era."
"Impossível. A Pansy não está mais aqui. Nunca vai voltar a ser o que era antes."
"Eu sinto muito, Malfoy.", sussurrou Harry.
"Não sinta muito, não foi sua culpa, não é? Mas foi minha culpa, então eu devo sentir muito."
"Não foi culpa sua."
"Isso mesmo, Draco. A culpa não foi sua, pare de se culpar. A Srtª Parkinson morreu por culpa das ações do Lorde das trevas. Você não tem nada a ver com isso.", disse Dumbledore.
Draco recomeçou a chorar quando reconheceu finalmente que o Lorde das trevas estava por trás disso. O homem para quem ele e sua família trabalham foi o responsável pela morte de sua melhor amiga. E Draco ainda deveria fazer um "serviço" para ele.
"Sinta-se a vontade para colocar esse sentimento para fora, Senhor Malfoy."
"Malfoy? Vai ficar tudo bem, ok? Eu não sei como, mas vai."
Draco se levantou repentinamente. Ele não aguentava mais ficar ali ouvindo aquelas besteiras. Ele queria sumir. Então ele caminhou até a porta.
"Aonde vai, Sr. Malfoy?"
"Vou para meu dormitório. Preciso ficar sozinho."
"Sinto muito, mas não posso deixá-lo ir. Você vai ter que dormir em um quarto separado hoje, por segurança. Vocês dois."
"Tá. Eu nem tenho mais forças pra discutir, então pode, por favor, me levar logo pra esse quarto?"
"Sim, claro. Acompanhem-me."
Dumbledore desceu as escadas, acompanhado dos outros dois. Eles seguiram pelo corredor à esquerda e pararam em frente a uma porta pequenina e gasta.
"É aqui? Nessa coisa velha?", perguntou Draco.
"Sim, Sr. Malfoy. É o que posso fazer no momento. Vocês vão ter que ficar aqui por que é mais próximo de onde eu estarei e se alguém se aproximar, eu saberei."
"Nós vamos dormir juntos?", perguntou Harry com o rosto vermelho.
"Não. A não ser que queiram.", os dois balançaram a cabeça muito rapidamente, "Então podem escolher esse ou o outro quarto adiante."
"Eu fico com esse.", disse Draco.
"Muito bem, então. Ai dentro tem tudo o que precisam. Se precisarem de mim ou de alguma coisa, é só chamar. Se for mais cômodo, usem o patrono."
"Tudo bem, Senhor.", disse Harry.
"Agora vão e não saiam do quarto desacompanhados. Pode ser perigoso."
Dumbledore acompanhou cada um deles a um quarto e selou a porta. Talvez ele tenha colocado algum feitiço de proteção, mas os meninos não conseguiram ver.
Quando Draco entrou no quarto, percebeu que nem era assim tão ruim. Era amplo e limpo, com janelas grandes e cortinas compridas. Uma cama confortável estava exatamente no centro do quarto. Ainda havia comida sobre uma mesinha e um pijama sobre a cama.
Draco se despiu e pôs o pijama que ele reconheceu como um dos seus. Ele se sentou na cama. Estava com bastante fome agora, mas não conseguiria comer, então simplesmente ficou sentado lá, olhando para fora da janela.
O céu estava pontilhado de estrelas. A lua era apenas uma fina pincelada branca. Draco pensou em onde Pansy estaria agora e um novo choro o atingiu. Ele deitou a cabeça no travesseiro e deixou que as lágrimas caíssem.
Já havia se passado mais de uma hora e Harry não conseguia dormir. Ele se virava de um lado para o outro, mas o sono não o atingia. De vez em quando seus olhos ainda insistiam em chorar. Ele pensava na pobre da Pansy que morreu sem nem saber o que estava acontecendo. E ele pensava principalmente em Draco e em como o garoto estava reagindo a tudo aquilo. Se fosse um dos amigos de Harry, ele estaria arrasado, não conseguiria continuar a viver. Então Draco deveria estar sentindo algo parecido.
Então Harry teve que fazer alguma coisa. Eles não podiam deixar Draco sozinho numa hora dessas. Ele precisava de alguém. Harry se levantou da cama e calçou um chinelo. Respirou fundo antes de abrir calmamente a porta e espiar para ver se tinha alguém por lá. Não tinha.
Harry saiu e seguiu para o quarto de Draco. Ele não bateu na porta com medo dele estar dormindo e sem querer ser acordado, mas ele não estava. Apesar da escuridão, Harry pôde ver que Draco estava deitado na cama com a respiração fraca e com lágrimas escorrendo por seu rosto. Quando ele viu Harry, logo se sentou espantado.
"O que está fazendo aqui, Potter?"
"Eu não estou conseguindo dormir."
"E por que veio aqui?"
"Na verdade eu queria saber como você está. Não queria te deixar sozinho numa situação dessas, lembra?"
"Claro. Eu agradeço, mas você já fez o bastante. Eu gostaria de ficar sozinho agora."
"Não, Malfoy. Eu não vou te deixar sozinho. Se minha melhor amiga tivesse morrido, a última coisa que eu ia querer seria ficar sozinho. Eu vou ficar aqui com você."
"Eu não quero ficar sozinho."
"Ótimo. Eu lhe faço companhia, não sou tão ruim assim, não é?"
Draco deu um sorrisinho meio torto.
"Não, não é."
Harry ficou lá, em pé, observando Draco. Ele daria tudo para que aquele abraço se repetisse. Ele daria mais que tudo para eles fazerem mais coisas.
"Vai ficar só ai parado feito um idiota?", perguntou Draco.
"Não."
"Pode sentar aqui."
Draco se afastou e deixou um espaço na cama para Harry se sentar.
Harry ficou vermelho com as possibilidades que vieram na sua mente, mas ele logo afastou aquelas ideias.
Eles ficaram sentados lado a lado durante um bom tempo, sem dizer nada. Quando Harry foi começar a falar, Draco começou a chorar.
"Oh, não. Malfoy desculpe, eu não quis dizer nada..."
"Você não disse nada. É só que... Eu não consigo parar de pensar na Pansy e em como eu poderia ter salvado ela. Eu deveria ter feito alguma coisa! Eu estava com minha varinha e nem sequer a puxei!"
"Olha, Malfoy, eram dois comensais da morte. Você não teria chances contra eles. Não estou dizendo que você não é poderoso nem nada, mas é que eles iriam usar magia negra e você não teria chance."
"Mas se fosse pra salvar a Pansy, eu faria qualquer coisa. Qualquer coisa!"
"Eu sei que você faria, mas entenda que isso não foi sua culpa. Para de se culpar!"
"Eu não posso!"
Draco apoiou os cotovelos nos joelhos e encostou o rosto nas mãos.
Harry queria abraçá-lo, mas não sabia se deveria ou se Draco acharia aquilo um tanto quanto estranho. Mas Harry não se importou com o que Draco iria pensar e o fez mesmo assim.
Passou o braço em volta do pescoço do outro e o puxou para perto. Draco soltou o rosto e passou o braço em volta da cintura de Harry. Dessa vez eles não tinham nenhum motivo para se separar então o abraço foi mais duradouro.
"Eu não posso dizer que sei como está se sentindo, mas acredite em mim quando eu digo que estarei aqui por você, pra qualquer coisa que você precisar. Qualquer coisa mesmo.", sussurrou Harry bem no ouvido de Draco.
Aquele sussurro fez com que um arrepio percorresse o corpo de Draco.
"Obrigado. Muito obrigado mesmo.", sussurrou de volta causando o mesmo efeito no outro e o abraçando com mais força quando deixou as palavras saírem.
Eles se quer perceberam, mas já estavam naquela posição há meia hora. Harry finalmente se desprendeu de Draco. Eles se olharam e perceberam o quanto aquela situação era constrangedora e criaram alguma distância entre eles.
"Tem problema se eu dormir aqui? Bem, não na cama com você, eu posso dormir no chão?"
"No chão? Tem certeza?"
"Se você concordar. É que eu também não queria ficar sozinho. Tudo bem por você?"
"Claro, pode ficar."
"Ok, obrigado."
Harry foi para o chão e tentou se acomodar da melhor maneira que pôde, mas era frio e rígido.
Draco percebeu o desconforto do outro e jogou um cobertor e um travesseiro para ele.
"Valeu."
Harry estendeu o cobertor no chão e apoiou a cabeça no travesseiro. Agora estava melhor, mas ainda estava longe de ser algo confortável. Se não fosse por Draco, ele já teria voltado pro outro quarto há muito tempo.
Draco se deitou novamente e ficou observando Harry. "Por que ele está aqui, afinal? Ele não precisava ter vindo. Ele nem deveria estar envolvido nisso tudo. Oh, Merlin, por que ele tinha que fazer isso comigo? Eu nem sei mais o que está acontecendo comigo. Não que eu não esteja gostando dele estar aqui, mas isso está atrapalhando demais minha vida. Não, não é o Potter quem está me atrapalhando, é o Lorde das trevas. Se não fosse por esse maldito eu poderia ser feliz. Se não fosse por ele Pansy não teria morrido. E se não fosse por ele eu não teria que fazer algo tão terrível. Eu tenho que fazer alguma coisa sobre isso. Vou cumprir com o combinado anteriormente, pela minha família, mas vou me desprender desse desgraçado por completo depois disso. Não me importo com o que meu pai vai dizer, só não quero nenhuma ligação com ele. Farei isso pela Pansy. E por Harry Potter também..."
"Potter? Está acordado?", perguntou Draco bem baixo.
"Sim. O que foi?"
"Nada, só queria saber se você estava conseguindo dormir."
"Não estou. E você?"
"Também não."
Harry, apesar de se virar a cada trinta segundos, estava com a coluna dolorida do chão duro.
"Quer parar de se mexer tanto? Já está me irritando."
"Desculpa, Malfoy, mas esse chão não é nada confortável."
"Agora você me fez ter pena de você."
"Não foi minha intenção."
"Eu sei, mas mesmo assim você me fez. Quer saber? Sai desse chão."
"Hã?"
"Se levanta. Anda logo.", Draco disse e se levantou também.
"Por quê?"
"Fui eu quem quis companhia. Eu devo ficar no chão."
"Mas fui eu quem invadiu seu quarto. E eu não vou te deixar dormir no chão."
"Vai. Para de reclamar e sai logo daí."
"Não! Malfoy..."
Draco puxou o travesseiro da cabeça de Harry e agora empurrava o garoto para longe.
"Droga, Malfoy. Eu não vou te deixar dormir no chão."
Mas Draco já estava se acomodando. Jogou um cobertor no chão e pegou outro para se cobrir. Assim que se deitou percebeu o quanto aquilo era ruim e como tinha feito uma péssima troca.
"Viu como é horrível?"
"Não é nada de mais. Eu aguento."
"Ah é? Não dou nem cinco minutos.", disse Harry e se sentou na cama para esperar pela desistência de Draco.
Não passaram nem três. Logo Draco se levantou.
"Não disse?"
"Tudo bem. O chão é horrível. Eu vou acabar com minha coluna, com meu bumbum e com a minha pele se eu passar mais um segundo ai."
"Sem problemas, eu fico com o chão.", e foi deslizando da cama para o chão.
"Não, Potter. Já disse que não vou te deixar ficar com o chão."
"Então o que faremos?"
"Vamos dormir na cama."
Harry ficou muito, mas muito vermelho mesmo. Ele não queria dormir no chão, mas dormir ao lado de Malfoy seria muito constrangedor. E a cama era de solteiro, não iriam caber os dois ali.
"Malfoy, não tem como. É uma cama muito pequena."
"Você sabe que magia existe, né?"
"Claro."
Draco puxou a varinha e pronunciou: "Engorgio!". A cama se expandiu e agora os dois podiam dormir lá confortavelmente.
"Viu? Ficou perfeito agora."
"Ótimo. Perfeito."
Harry esperou que Draco se deitasse primeiro e depois se acomodou ao seu lado. Eles ficaram de costa um para o outro, com vergonha demais para se encararem.
"Bem, isso é constrangedor...", disse Draco.
"Com certeza."
Draco se virou para Harry. O outro nem percebeu, mas Draco o observou por bastante tempo, até finalmente adormecer. Harry também pegou no sono e teve o mesmo sonho com as lindas paisagens e Draco Malfoy.
Draco teve um sonho estranho.
Ele estava deitado em uma cama enorme, ao seu lado estava alguém que ele amava. Ele sentia uma vontade gigantesca de abraçar, beijar e tocar Harry, mas alguma coisa o impedia e o puxava para longe.
De repente a cama se desfez e, apesar das tentativas de Draco fazê-lo ficar, Harry foi levado por uma figura pálida.
Lorde Voldemort segurava facilmente o Harry de Draco nas mãos, como se o garoto não pesasse nada. Ao lado do Lorde das trevas estava Pansy Parkinson. Draco sentiu uma imensa felicidade ao vê-la.
"Pansy, você está bem. Eu queria dizer que eu sinto muito... Eu deveria ter te ajudado... Sinto muito, Pansy...", Draco falou e sua voz saiu estranha, diferente da real.
Pansy balançou a cabeça e não olhou mais para Draco. Voldemort ergueu Harry como um prêmio e o apertou em suas mãos, fazendo-o gritar.
"Pare com isso! Solte-o!", gritou Draco.
Mas o Lorde das trevas pareceu não escutar, apertou Harry com mais força e o garoto desmaiou. Pansy ria ao seu lado.
O homem pálido se virou para a garota muito mais baixa do que ele, pôs a mão em sua boca, fazendo-a parar de rir e arregalar os olhos. Então ele soltou o corpo de Harry e segurou a garota da mesma forma que havia feito com ele, só que desta vez ele colocou muita força e o corpo de Pansy se partiu. Nenhum sangue jorrou, mas seu último grito foi aterrorizante.
Draco estava paralisado. Isso não poderia estar acontecendo. Não de novo.
Ele correu para perto do corpo imóvel de Harry e tentou movê-lo, mas Harry acordou, olhou para ele e disse:
"O que está fazendo aqui? Vá embora! Eu lhe disse para ir embora, aqui é muito perigoso!"
"Eu não posso deixar você morrer! Eu não cometerei o mesmo erro que cometi com a Pansy. Eu vou te proteger!"
"Por que você está fazendo isso, Draco? Vá embora!"
"Estou fazendo isso por que... Não é óbvio, Harry? Eu vou te proteger com a minha vida se necessário!"
"Draco, você tem que ir. Eu jurei que iria te proteger e é isso que estou fazendo."
"Mas Harry... Você não pode!"
"Vá embora. Já é tarde demais."
Voldemort voltou para perto deles. Agora que Draco reparou, ele era um gigante comparado ao Voldemort original. Ele puxou Harry com um braço e empurrou Draco com o outro.
"Vá embora. Salve sua vida.", Harry conseguiu dizer por entre os enormes dedos de Voldemort que envolviam o seu corpo.
"NÃO!"
Draco se levantou e correu na direção de Harry. Quando chegou bem perto, ele saltou para alcançar o garoto e o puxou para baixo.
"Eu não vou te deixar fazer isso."
"Draco, vá embora. Salve sua vida enquanto há tempo."
"Não, Harry! Você não percebe? Eu não vou te deixar. Nunca! Eu te amo demais para isso."
"Eu também te amo, Draco."
Draco se aproximou e agarrou Harry, ele tentou tocar cada pedacinho dele. Harry se acomodou melhor e o beijou. Seus lábios eram quentes e macios.
Voldemort riu alto por aquela cena e disse:
"Esperava mais de você. De vocês dois. AVADA KEDAVRA!"
A luz verde saiu de sua varinha e atingiu ambos ao mesmo tempo.
Draco gritou e se sentou na cama. Seu corpo estava muito suado e ele estava ofegante.
Ao seu lado Harry acordava assustado.
"O que foi Malfoy? Está tudo bem?"
"Sim, eu estou bem. Foi só um pesadelo, me desculpe."
"Não precisa se desculpar. Foi com a Pansy, não foi?"
"É... Foi com ela, sim. Bem, ela participou..."
"Como assim? Como foi esse pesadelo?"
"Eu não quero falar sobre isso, ok? Pode voltar a dormir."
"Tudo bem, você que sabe."
Harry não conseguiu voltar a dormir. Draco também não.
Draco passou a noite inteira pensando no significado daquele sonho. Pansy morrendo novamente fez com que ele derramasse mais lágrimas. Mas tinha Voldemort. O que aquilo significava? No sonho Harry queria dar sua vida por ele. Draco dizendo que o amava e o beijando. Os dois morrendo juntos daquela maneira. Aquele sem dúvida foi o melhor e o pior sonho que Draco já teve, ele ainda tentava saber como isso era possível.
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O dia amanheceu triste e silencioso em Hogwarts. Harry e Draco ainda dormiam um ao lado do outro. Quer dizer, eles estavam deitados um ao lado do outro, por que depois que Draco teve um pesadelo, nenhum dos dois conseguiu voltar a dormir.
"Potter? Tá acordado?"
"Faz tempo."
"Eu também. Não consegui voltar a dormir. Eu acho melhor você voltar pro seu quarto agora, antes que Dumbledore apareça por aqui. Não quero te expulsar nem nada, mas é melhor você ir para evitar perguntas."
"Claro. Já estou indo."
Harry se desenrolou e deslizou para fora da cama, calçou os chinelos e caminhou até a porta.
"Potter?"
Harry se virou para Draco.
"Sim?"
"Obrigado. Por tudo... Quer dizer... Você sabe. Por ter passado a noite aqui. Por estar me apoiando num momento desses. Significa muito pra mim."
"Não precisa agradecer, Malfoy. Afinal, amigos são pra essas coisas."
Harry deu um sorriso e saiu pela porta.
Draco ficou lá sentado com um pequeno sorriso. O garoto logo se levantou para se aprontar. Era um domingo, então não haveria aulas, mas Draco queria sair do quarto, queria fazer alguma coisa.
Ele se arrumou em muito menos tempo do que normalmente faria. Vestiu a mesma roupa que estava usando na noite passada.
Pouco tempo depois, Dumbledore entrou no quarto e encontrou Draco sentado na cama com as mãos cobrindo o rosto.
"Bom dia, Sr. Malfoy. Como está se sentindo hoje?", foi a primeira pergunta do diretor.
"Bom dia, diretor. Estou me sentindo bem. Já posso voltar para minha sala comunal?"
"Certamente. Mas eu gostaria que você e o Sr. Potter me acompanhassem para o Grande Salão. Eu darei algumas explicações e todos os alunos devem estar presentes."
"Tudo bem. Errr, Diretor? A família de Pansy já sabe sobre o que aconteceu?"
"Sim. Eu já enviei uma coruja avisando-os e pedi que eles viessem até aqui."
"Oh."
"Agora, se você já estiver pronto, podemos ir?"
"Sim."
Eles passaram no quarto de Harry e o chamaram então os três foram para o Grande Salão.
Todos os alunos já haviam sido acompanhados por professores e agora aguardavam o pronunciamento de Dumbledore.
Harry nem teve a oportunidade de se despedir de Draco, pois alguns Slytherins o arrastaram para sua mesa.
Harry correu para a mesa de Gryffindor e logo reconheceu Ron.
O ruivo correu para perto dele.
"Harry! Oh, Merlin, ainda bem que você está bem! Nós ficamos tão preocupados! Você está bem, né?"
"Claro, Ron. Eu estou ótimo. E a Mione?"
"Ela ficou arrasada quando Lupin entrou com o corpo de Parkinson. Ela passou a noite chorando."
"Eu só posso imaginar como ela está se sentindo."
Eles se juntaram aos outros e muitos olhares se voltaram para Harry.
"Então é verdade, Harry? Você estava lá quando aconteceu?", perguntou Seamus.
"Não. Eu apareci depois, quando eu cheguei ela já estava morta."
"Se o Harry estivesse lá, ela teria sobrevivido. Harry a teria salvo.", foram as primeiras palavras que Harry ouviu de Ginny depois de algum tempo.
"Não diga isso, Ginny. Eu não sei o que teria feito se estivesse lá."
"Eu concordo com ela, você teria ao menos ajudado.", disse Neville.
Dumbledore apareceu interrompendo as conversas dos alunos.
"Acredito que todos já saibam que uma infeliz situação ocorreu. A aluna Pansy Parkinson, Slytherin do sexto ano, foi assassinada ontem à noite. Nós ainda não temos informações sobre os possíveis assassinos, mas aurores já foram chamados para investigar a situação. Esse caso foi uma fatalidade, uma tragédia. Os seus parentes já estão sendo informados sobre o que aconteceu e naturalmente ficarão muito preocupados. No momento o que podemos fazer é lamentar por nossa querida aluna e lembrar-se dela da melhor maneira possível. Como uma boa aluna, uma boa amiga, uma boa filha..."
Dumbledore fez uma pausa e ergueu uma taça.
"Proponho um brinde á memória de Pansy Parkinson."
Todos os alunos ergueram copos e taças.
"À Pansy Parkinson.", eles repetiram e todos tomaram um gole da bebida.
"Amanhã as aulas serão suspensas para a realização do velório da Srtª Parkinson. Quanto às medidas de segurança: Todos os alunos devem estar em seus dormitórios antes das oito horas da noite. Ninguém deve andar pelo corredor sem a permissão e acompanhamento de um Professor ou funcionário responsável do colégio. Não será mais permitida a saída de alunos para as redondezas do colégio..."
Dumbledore continuou, mas a mente de Draco estava em outro lugar e ele não conseguiu entender o restante das palavras.
Draco estava cabisbaixo, sentindo uma vontade enorme de chorar, mas ele não podia fazer isso na frente dos seus "amigos".
Ele manteve a mente em Pansy e nas memórias boas que ele tinha dela. Lembrou-se da primeira vez que falou com ela, no segundo dia de aula. Ela era um pouco tímida, mas mesmo assim foi falar com Draco. Ela perguntou: "Você é Draco Malfoy?", e Draco respondeu que sim, "Eu sou Pansy Parkinson, muito prazer". Ela estava com as bochechas vermelhas e aquilo encantou Draco. Eles viraram amigos facilmente. Depois de alguns anos, Draco estava ficando enjoado de ter ela sempre por perto e passou a tratá-la mal, mas ela fingia que nem se importava, apesar de que – Draco soube por boatos – havia noites que ela passava em claro, chorando.
Ele foi um idiota com ela. A garota que sempre o amou. Não que ele deveria ter desenvolvido sentimentos românticos por ela, mas deveria pelo menos ter lhe dado um pouco mais de valor, afinal, ela era a única amiga verdadeira de Draco.
Ele deixou escapar uma lágrima tímida, mas logo enxugou os olhos e ergueu a cabeça. Ele deveria ser forte.
Ele conseguiu acompanhar as últimas palavras de Dumbledore.
"...Peço que não desobedeçam essas instruções. Elas são apenas para sua segurança, mas quem for contra elas, serei obrigado a retirar pontos de sua casa. E isso é tudo. Amanhã, todos reunidos para o funeral. Será realizado pela manhã. Obrigado."
Quando Dumbledore terminou, levou algum tempo para os alunos recomeçarem as conversas. Eles estavam assustados com tudo aquilo.
Draco reparou que havia um homem e uma mulher sentados com os professores. Apesar de não poder ver seus rostos, Draco deduziu que eram os pais de Pansy.
A mulher estava vestida com um longo e elegante vestido preto. Um chapéu pontudo cobria seus cabelos e ela tinha um lenço nas mãos, para enxugar as lágrimas, que eram muitas. O homem ainda estava com seu casaco, ele abraçava a mulher, mas ela se afastava e chorava sozinha. Ambos pareciam desolados, muito tristes para fazer alguma coisa.
Draco teve vontade de ir até eles, mas o que iria dizer? "Sinto muito por não ter salvado sua filha"? Ou "Espero que vocês me perdoem por não ter feito nada"? Claro que não. Draco se conteve em não ir e se forçou a enfiar um pouco de suco garganta abaixo.
Harry olhava para Malfoy e não sabia o que fazer. Ele queria estar ao lado dele, para lhe dar conforto e o ajudar com o que fosse possível, mas não poderia fazer isso na frente de tanta gente. Draco não iria aprovar.
"Harry, você quer ir à enfermaria ver Hermione? Eu falei com o Lupin e ele disse que estaria tudo bem se a gente quiser ir lá. Contanto que seja cedo e que vá um grupo grande de pessoas.", disse Ron.
"Claro que eu quero vê-la. Todo mundo vai?"
"Sim."
"Será que não tem problema se eu for, Ron? Por causa da Ginny?", perguntou Harry baixinho no ouvido de Ron.
"Claro que não. Ela já parou com aquilo, não é Ginny?", disse Ron alto e todos ouviram.
"Aquilo o que, Ron? Parar de falar com o Harry?"
"Claro. O que mais poderia ser?"
"Olha, Harry, eu não vou mais ficar te ignorando, mas não pense que por isso tudo vai voltar a ser como era. Eu ainda tenho muito ressentimento por você."
"Mas Ginny, eu já pedi desculpas. O que mais você quer que eu faça?"
"No momento, nada. Mas eu agradeceria se você parasse de falar sobre isso, por que só está me fazendo ficar com raiva. Então, por favor, cale a boca."
"Ok, se é o que você quer."
Um curto silêncio predominou na mesa. Harry queria sair dali, queria ver Malfoy e ficar com ele, mas sabia que não poderia fazer aquilo tão cedo.
"Vamos? Todos acabaram?", perguntou Ron.
Todos eles foram caminhando para fora do salão. Harry não conseguia tirar os olhos de um Draco triste e calado. Luna apareceu e perguntou se poderia acompanhá-los.
Eles chegaram à ala hospitalar e viram Hermione sentada na cama com uma pilha de livros ao lado, bebendo alguma coisa.
"Harry! Você está bem!", foi a primeira coisa que ela disse quando se levantou e deu um abraço apertado em Harry.
"Hermione, não faça isso. Você tem que descansar.", disse Harry, mesmo assim a abraçou de volta.
"Ah, eu já estou ótima. O que está me fazendo mal é ficar aqui nesse hospital.", ela se soltou de Harry e deu um curto abraço em cada um do grupo, deixando Ron por último para beijá-lo.
Ron retribuiu o beijo, mas ficou vermelho.
"Hermione, olha quantas pessoas estão aqui!"
"Não se preocupe com isso, Ron. O amor de vocês é lindo para se esconder.", disse Luna e deu uma olhadinha para Harry.
"Vamos pessoal, sentem-se.", disse Hermione oferecendo algumas cadeiras.
Eles se sentaram próximos uns aos outros.
Passaram quase toda a manhã com Hermione, tentando distraí-la um pouco. Então Neville finalmente disse que eles deveriam ir.
Eles se levantaram, mas Hermione chamou Harry e Ron para uma última palavra.
"Harry, nós conversamos e decidimos que te devemos desculpas, por causa do Malfoy.", disse a garota.
"É Harry, se você acha que ele é uma boa companhia, você deve ter seus motivos. Nós confiamos em você.", completou Ron.
"Obrigado, gente. Mas eu também devo desculpa a vocês. Eu não deveria ter saído daquele jeito, me desculpem, por favor."
"Oh, Harry. Não precisa se desculpar.", disse Hermione e puxou ele e Ron para um abraço.
Harry e Ron retribuíram o abraço.
"Eu fiquei preocupado com vocês quando Parkinson... Vocês sabem. Eu não sabia se estavam bem. Ainda bem que estão. Eu nunca me perdoaria se alguma coisa tivesse acontecido com vocês, ainda mais depois de uma briga..."
"Nós também estávamos preocupados com você, Harry.", disse Ron.
"Estávamos mesmo. Agora vão. Não quero que fique tarde. Vão. Até logo.", disse Hermione e deu um beijinho na bochecha de Harry e um selinho em Ron, depois se deitou na cama.
"Tchau Mione.", disse Harry.
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Depois que todos os alunos terminaram de comer, os monitores-chefes acompanharam todos de volta à sala comunal. Draco foi andando lentamente no fim da fila dos Slytherins. Zabini, Crabbe e Goyle estavam a poucos minutos falando sobre Pansy e de como eles iriam sentir falta dela. O que era engraçado, por que até ontem eles não demonstravam nenhum sentimento por ela, mas agora lamentavam sua morte.
Eles passaram o dia trancados nas masmorras. Ninguém fazia nada, eles simplesmente estavam jazendo lá.
De vez em quando alguma pessoa se levantava e começava a falar sobre coisas que Pansy fez. Na maioria das vezes eram situações boas ou engraçadas.
Draco estava se irritando com aquilo. Grande parte daquelas pessoas se quer falava com a garota e agora eles faziam parecer que eram seus melhores amigos.
"Uma vez nós estávamos na dedos-de-mel e ela tinha esquecido o dinheiro... A louca quis que eu escondesse doces na minha mochila, mas eu fiquei negando... Hahaha, foi muito engraçado na hora..."
Algum garoto que Draco nunca havia reparado estava falando enquanto os outros ouviam.
"Vocês querem calar a boca?", gritou Malfoy se levantando de um pulo da cadeira, "A maioria aqui nem falava com ela e agora todo mundo age como se ela fosse a melhor pessoa do mundo! Que droga!"
"Calma ai Malfoy, a gente só tá se lembrando da garota. Pra que essa reclamação?", perguntou Zabini.
"Vocês não eram amigos dela! Parem de fingir, seus idiotas! Ela se foi, não há nada que possamos fazer sobre isso. Calem a boca e continuem com suas vidas!"
"Malfoy, você está sendo muito idiota.", reclamou Zabini.
"Eu não estou sendo idiota, Zabini! Só quero que vocês parem de fingir. Ninguém se importava com ela quando ela ainda estava aqui, mas agora que ela se foi é como se ela tivesse virado a melhor pessoa do mundo?"
"E quem é você pra falar isso? Você vivia desprezando a garota. Ela vivia no seu pé e você só sabia chutar ela pra longe.", disse o garoto desconhecido que estava falando sobre Pansy há pouco tempo.
"Eu sei o que eu fiz! Eu errei com ela, ok? Mas isso não quer dizer que eu não gostava dela. Sabe quais foram as últimas palavras que ela ouviu? Claro que não, nenhum de vocês estavam lá. As palavras foram: Eu te amo mesmo, Pansy. E fui eu quem disse isso. Mas vocês nunca vão entender, não é seus idiotas?"
A sala toda ficou em silêncio.
"Eu tenho uma pergunta pra todos vocês, em especial para meus supostos amigos: Se eu não fosse um Malfoy, algum de vocês teria falado comigo? Teria se aproximado de mim?"
Ninguém respondeu.
"É claro que não. Todos vocês são imbecis interesseiros! Mas a Pansy era diferente. Ela gostava de mim por quem eu sou, não por causa de uma porcaria de nome. Ela era minha amiga, a melhor de todas, e agora está morta."
Draco deixou escapar algumas lágrimas, mas não deu importância em limpá-las.
"Draco, eu sinto muito...", foi o que Crabbe disse ao se aproximar.
"Ah, cala a boca."
Draco saiu de perto de todos e subiu para seu dormitório. Ele se deitou em sua cama, pôs um travesseiro no rosto e deixou as lágrimas caírem.
Um segundo depois Zabini, Crabbe e Goyle apareceram.
"As pessoas não acharam nada legal aquilo que você fez, Malfoy.", disse Blaise.
"E você acha que eu me importo? Eu quero é que eles explodam! São mesmo uns idiotas!"
"Draco, por favor, não faça isso. Eles são pessoas legais...", disse Goyle.
"Pessoas legais? Eles são um bando de cretinos! Mas querem saber? Eu não tô nem ai. Não preciso deles. Não preciso de ninguém."
Afinal ainda havia Potter.
"Vão embora, por favor. Saiam daqui!", ele jogou um travesseiro e acertou de leve no estômago de Zabini.
"Tá. Se é o que você quer... Mas a sua imagem vai ficar horrível depois desse showzinho...", disse Zabini.
"Quem se importa? Só quero que vocês me deixem sozinho. Vão logo embora!"
Zabini apenas deu de ombros e saiu do dormitório. Crabbe e Goyle nem se mexeram.
"Saiam, seus idiotas!"
"A gente quer dizer que...", começou Goyle.
"A gente não se importa com o seu sobrenome...", ajudou Crabbe.
"A gente ia ser seu amigo de qualquer jeito.", terminou Goyle.
"Ok, ok. Eu acredito em vocês, seus brutamontes. Agora me deixem sozinho, ok?"
Eles saíram de imediato.
Draco se levantou para pegar o travesseiro e o repôs na cabeça, mas dessa vez ele não queria chorar. Mas também não queria fazer mais nada, então ficou deitado lá durante toda a manhã.
Na hora do almoço, Goyle e Crabbe o chamaram para ir comer, mas Draco negou e permaneceu na cama.
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"Cadê o Draco?", pensava Harry enquanto se sentava ao lado de Ron no Grande Salão, "Será que ele não vai aparecer? Ele deve estar arrasado com tudo isso, coitado. Ele tá precisando de apoio de alguém. Eu devia estar lá com ele..."
"...tomara que seja verdade. O que acha, Harry?", falava Ron enquanto Harry devaneava.
Harry nem se mexeu.
"Harry! Você nem tá me escutando!"
"Oh, desculpa. Eu tava pensando em outra coisa. O que você disse?"
"A Hermione talvez saia de lá amanhã, as feridas delas já estão saradas. Pelo menos foi o que ela disse. O que acha?"
"Torço pra que seja verdade."
Harry terminou de engolir a comida e se levantou da mesa.
"Aonde você vai?", perguntou Ron com a boca cheia.
"Errr... Vou só voltar pro dormitório... Não tô me sentindo muito bem. Te encontro lá, ok?"
"Ok."
Harry não pretendia ficar no dormitório. O que ele queria era ver Draco e saber como o garoto estava. Ele saiu do Grande Salão e subiu as escadas em direção à Torre de Gryffindor.
Como não tinha nenhum aluno lá, foi fácil para Harry entrar, colocar um amontoado de almofadas na sua cama para parecer com ele, fechar as cortinas da cama, pegar sua capa da invisibilidade e sair.
O garoto foi em direção ás masmorras. Ainda estava um pouco apreensivo por estar fazendo o mesmo caminho da noite passada, mas seguiu em frente. "Pelo Draco", ele pensou.
Quando chegou á porta do dormitório hesitou por um momento, mas deu três batidas no retrato.
Passou bastante tempo e ninguém veio. Harry começou a pensar se Draco não estaria em outro lugar, mas mesmo assim arriscou por chamar seu nome.
Alguns segundos depois, Draco apareceu. Harry deu um largo sorriso ao vê-lo, mas logo se arrependeu de tê-lo feito. Aquele não se parecia com Draco Malfoy. Era apenas um ser com o rosto pálido e feições tristes que observava Harry em silêncio.
"O que quer?", a voz de Draco estava cansada e pesarosa.
"Só vim te ver. Saber como está."
"Tô bem. Tô ótimo. Maravilhoso. Só isso?"
"Você não tá bem, e nem tente negar. E não, não é só isso. Eu vou te fazer companhia de novo."
"Oh, não. Potter, por favor, vai logo embora. Eu quero ficar sozinho. Por favor."
"Malfoy, nós já discutimos isso e decidimos que ficar sozinho não é uma boa opção. Deixe-me te fazer companhia."
"Que droga Potter! Como você quer me fazer companhia? Quer que eu te deixe entrar na minha sala comunal? Os outros Slytherins me matariam."
"Tá bom, não precisa me deixar entrar. Vem comigo."
"Ir com você? Está louco? Como você chegou aqui, afinal? Não é contra as regras?"
"Claro que é. Mas eu tenho isso."
Harry estendeu as mãos e mostrou a capa para Draco.
"E o que diabos é isso?"
"Capa de invisibilidade."
"Você só pode estar brincando."
Os olhos de Draco brilharam e ele puxou a capa para ver. Ele chegou a dar um pequeno sorriso que fez com que Harry se animasse.
"Claro que não. É de verdade. Experimente."
Draco jogou a capa por cima da cabeça e logo Harry já não o via.
"Uau. Isso é demais! Caramba!", Harry escutou a voz de Draco passeando ao seu redor, "Não tá me vendo mesmo?"
"Não. Ei, não me deixe aqui plantado. Se algum aluno me vir aqui, já era."
Harry só viu uma mão o puxando e no segundo seguinte ele estava cara a cara com Draco. O espaço debaixo da capa era muito limitado, então eles estavam super próximos um do outro.
"Melhor assim, Potter?"
"Errr... Sim."
"Vamos então."
"Pra onde?"
"Ah, sei lá, Potter. A ideia foi sua, não foi? Me tirar daqui?"
"É, mas... Aonde você quer ir?"
"Apenas vamos. Não importa aonde."
Harry estava com uma sensação estranha.
Eles caminharam pelo corredor escuro, não tinha ninguém por perto e agora a sensação estranha crescia dentro de Harry.
"Sério, Malfoy, onde estamos indo?"
"Quer calar a boca? Você vai ver quando chegarmos lá."
Os passos deles eram lentos, como a capa era pequena para os dois, eles tiveram que caminhar com os corpos colados.
Harry já estava sufocando ali embaixo. Mal sabia ele que acontecia o mesmo com Draco.
Eles pararam em frente à porta de saída das masmorras, mas alunos começaram a entrar, então eles ficaram parados encostados na parede.
"Tem certeza de que eles não podem nos ver?", Draco perguntou muito baixo no ouvido de Harry.
"Claro que sim. Agora cala a boca.", Harry respondeu reprimindo o calafrio que subiu pela sua nuca.
Eles estavam imóveis. Cara a cara. Ambos com a respiração acelerada.
Draco olhou naquelas íris verdes novamente. Parecia um tipo de feitiço, algo que o prendia com uma força extraordinária.
Os alunos pararam de entrar. Harry e Draco nem se deram conta. Tudo o que eles podiam ver no momento era um ao outro.
Seus rostos começaram a se aproximar. De uma forma inexplicável eles sabiam o que estavam fazendo, mas não conseguiam parar. Ambos com medo da repreensão do outro, mas era o que eles mais queriam, então seguiram em frente.
Quanto mais se aproximavam, mais a capa deslizava da cabeça deles.
Agora eles estavam praticamente se tocando e a capa estava jogada no chão.
Seus olhos estavam bem abertos até o momento, mas no instante em que eles sentiram o calor que irradiava do outro, os olhos se fecharam.
Quase.
"Hm, hm. O que significa isso, Senhores?"
Draco deu um impulso para trás incrivelmente forte, fazendo com que Harry batesse a cabeça na parede.
"Desculpa.", Draco disse.
Eles não conseguiam nem olhar para o rosto do outro, tamanha era a vergonha.
"Respondam minha pergunta. O que significa isso?", era Snape e ele não parecia nada feliz.
Ambos estavam de cabeça baixa. Harry alisava sua cabeça onde havia batido na parede.
"Nada, professor.", disse Draco, ainda olhando para o chão.
"É a última vez que vou repetir. O que significa isso?"
"É minha culpa. Eu chamei o Malfoy. Pode tirar pontos de mim, eu não me importo.", Harry disse enquanto levantava a cabeça e encarava Snape nos olhos.
"Tirar pontos? Você vai levar detenção por isso. Sr. Malfoy volte para a sala comunal agora.", Draco abriu a boca para reclamar, "Não quero ouvir nenhuma palavra. Vá logo. E você, Sr. Potter, eu vou lhe acompanhar para seu dormitório e a partir de amanhã terá detenção por duas semanas comigo. Todo dia após as aulas. E menos cinquenta pontos para Gryffindor."
"Mas professor, eu também estava aqui... Não é justo...", disse Draco, mas foi interrompido.
"Eu já mandei você voltar para sua sala comunal. Não me obrigue a levá-lo até lá."
Draco obedeceu e acelerou o passo para acompanhar os outros Slytherins. Antes de partir ele falou para Harry sem som: "Me desculpe."
"Venha Sr. Potter."
Harry abaixou e pegou a capa. Ele acompanhou Snape até sua sala comunal.
"Não esqueça: Amanhã após a aula, detenção.", foram as últimas palavras antes de Snape se virar e ir embora, deixando Harry plantado em frente ao retrato da Mulher Gorda.
Ele disse a senha e entrou.
Ron apareceu do seu lado perguntando onde ele estava, mas Harry nem estava escutando. O garoto subiu para seu dormitório, jogou as almofadas de lado e lançou um abaffiato na cama.
Harry só conseguia ver o rosto de Draco. Não importava o quanto ele tentasse parar, mas o rosto do garoto insistia em voltar a aparecer.
"Foi quase um beijo.", pensava Harry, "Ele nem se afastou, ele se aproximou. Será que ele queria mesmo que aquilo acontecesse? Oh, Merlin!"
Harry se virou na cama e jogou o travesseiro na cabeça. Mesmo que ele não fosse conseguir dormir, o que mais ele poderia fazer? Ficou a noite inteira se remexendo na cama e voltando àquele momento lindo.
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Draco entrou apressadamente na sala comunal. Empurrou pelo menos cinco pessoas para passar logo pelo retrato.
"Merda, merda.", ele pensava, "Por que eu fui fazer aquilo? Bosta! Agora o desgraçado do Potter não vai mais querer falar comigo. Eu não presto pra nada, não é mesmo? Droga!"
Ele foi para seu quarto e se jogou na cama com o travesseiro cobrindo o rosto.
Ele sentia as lágrimas descendo.
"Não faço nada direito. Nada. Como é que eu posso estragar tudo todas as vezes? E ainda me aparece o Snape pra piorar a situação. Eu devia só ficar deitado aqui pra sempre, pelo menos assim eu não faço nada estúpido."
Draco passou a noite assim, se perguntando por que ele fazia tantas burrices e mal sabendo que para Harry aquele tinha sido o melhor momento de sua vida.
Mas logo ele iria descobrir.
