Harry havia sido o primeiro a se levantar, por que, afinal, ele não havia dormido e queria logo fazer qualquer coisa. O que ele queria fazer hoje era se dirigir diretamente a Draco e agarrá-lo na frente de todo mundo. Mas é claro que ele não pode fazer isso em nenhuma circunstância. Muito menos hoje, no funeral da melhor amiga de Draco.

Mas o "quase beijo" não saiu da mente de Harry por um segundo que fosse.

Harry estava no banheiro. Ele já havia tomado banho e se vestido com uma camiseta azul, calça preta e um tênis. Ele não sabia o que os bruxos usam em funerais, então decidiu esperar por Ron para perguntar.

Agora ele estava sentado em uma das poltronas na sala comunal. Algumas garotas do último ano já estavam lá. Harry se perguntou como Draco estaria agora.

Ron, que havia acordado logo depois de Harry para ir à enfermaria, estava entrando pelo retrato com uma Hermione super feliz nos braços.

- Mione! – Harry se levantou para abraçar a amiga. – Você já tá curada?

- Já estou curada há muito tempo, Harry. Oh, como é bom estar de volta. – Ela disse assim que se soltou dos braços de Ron para abraçar Harry.

- Fico muito feliz que esteja bem. – Harry disse.

- Imagine o quanto eu estou feliz. – Disse Ron abraçando Hermione novamente.

Harry revirou os olhos para os dois, pensando em como teria que aturar aquilo daqui pra frente.

- Ron, não fique assim tão animado. É ótimo que eu tenha recebido alta, mas hoje é o funeral da Parkinson, lembra? Eu sei que você não gostava dela, mas não é momento para alegria. – Disse Hermione.

- Você tem razão. Desculpe-me, mas é que eu estou mesmo feliz com o seu retorno. – Ron fez um biquinho.

- Tudo bem, Ron. Tudo bem. – Ela encerrou a conversa.

XXXXXXXXX

Draco levou muito tempo para se levantar, por que, afinal, ele não havia dormido e estava muito cansado. Ainda mais hoje sendo o dia do funeral de Pansy. Ele queria poder pular essas formalidades. Quem precisa ver um ente querido ir embora? Isso é desnecessário.

Mas ele tinha que ir. Pela Pansy. Ela iria querer que ele fosse.

Draco foi ao banheiro e finalmente, depois de algum tempo, tomou um banho decente. Ele penteou lentamente os cabelos e vestiu novas roupas, uma camisa de botões preta juntamente com um casaco da mesma cor, calças escuras e um sapato formal.

Os Slytherins já estavam reunidos na sala comunal quando ele voltou. A maior parte deles discutindo o que vestir.

Draco se sentou próximo a grande lareira e ficou esperando pelo funeral.

Quase uma hora depois, o Professor Snape chegou e reuniu os alunos para partirem. O funeral será realizado numa área próxima a Hogsmeade, um local cercado por um campo de flores.

Enquanto caminhavam para fora do castelo, Draco se perguntava se seria isso que Pansy queria. Ser enterrada para sempre naquela porcaria de escola. Ela merecia mais, de verdade.

XXXXXXXXX

Na porta do colégio haviam várias carruagens esperando pelos alunos, as mesmas que os traziam todos os anos para o início das aulas. Mas dessa vez Draco reparou algo diferente. Normalmente elas eram puxadas por... Bem, por nada. Agora haviam criaturas estranhas, que Draco nunca tinha visto nem ouvido falar.

Outros alunos já estavam embarcando, mas Draco estava paralisado olhando para aquele animal.

De longe, Harry, que já havia chegado com a turma da Gryffindor, percebeu a cara de espanto de Draco.

- Professora, será que eu poderia ir em outra carruagem? – Ele perguntou para McGonagall.

- Não vejo nenhum motivo para isso, Senhor Potter.

- É o Malfoy. Olhe só como ele está confuso. Deixe-me ajuda-lo, por favor. – Harry disse apontando em direção a Draco.

- Eu irei permitir se você não for se meter em nenhum problema e apenas se o Professor Snape concordar.

- Sim, obrigado.

Harry deu um sorriso e se distanciou da Professora. É claro que Snape não permitiria que ele fosse junto com os Slytherins, mas Harry se lembrou de trazer sua capa.

- Malfoy.

- Potter. O que faz aqui? Sua carruagem é pra lá.

- Eu sei, mas eu vim te ajudar. Eu sei que você está vendo os Testrálios.

- Os o quê? Isso parece conversa daquela lunática.

- Os Testrálios, os que estão puxando as carruagens.

- Oh, você também pode vê-los. Nossa, por um instante achei que tinha enlouquecido.

- Não se preocupe, você não está louco. É só que a maioria das pessoas não consegue vê-los. Apenas aqueles que já viram a morte com os próprios olhos é que conseguem.

- Oh, então eu os vejo por que eu vi a Pansy morrendo. Preferiria continuar sem vê-los, foi um preço muito alto para se pagar.

- Eu sei, sinto muito.

- Não sinta. Já disse que você não deve sentir muito por uma coisa que não é culpa sua.

Os alunos já haviam entrado nas carruagens, apenas Harry e Draco estavam de fora.

- Sua carruagem fica pra lá, Potter. – Blaise gritou por cima da porta ao entrar.

- Eu sei. – Ele respondeu – Malfoy, será que eu posso ir com você? – Ele perguntou bem baixo.

- Snape não vai deixar.

- Ele não precisa saber.

- Mas... – Draco se calou por que logo entendeu. Ele apenas acenou com a cabeça concordando com Harry. – Tchau, Potter.

Harry se enfiou por baixo da capa sem ninguém perceber, e, apenas para Draco saber que ele ainda estava ali, caminhou com a mão no ombro do outro.

Draco entrou e mandou Blaise se afastar. Ainda bem que a carruagem estava um pouco vaga, apenas Zabini, duas garotas da mesma sala deles e Draco. Este último se sentou deixando uma sobra de espaço enorme para que Harry tivesse onde sentar, mesmo assim eles ainda ficaram com a lateral do corpo colada no outro.

- Você acha que eles estão percebendo alguma coisa? – Harry perguntou ao ouvido de Draco em um som quase inaudível.

- Não. – Draco respondeu sem diminuir o tom de voz e disfarçou com uma tosse.

O caminho era curto, mas Harry tentou aproveitar a situação com a companhia de Draco. Ele sabia que o garoto deveria estar se sentindo péssimo e queria fazer o possível para ajudar.

Quando eles já estavam bem próximos, puderam ver a estrutura do local do enterro. Cadeiras se estendiam por um longo gramado, todas apontando para o centro, onde havia um pequeno palco e um caixão prateado, decorado com pequenos tons de verde. Estava muito bonito, talvez Pansy fosse gostar, afinal.

Quando eles começaram a descer das carruagens, Draco saiu por penúltimo, acompanhado de Harry que quase caia por ter pisado na capa. De alguma forma extraordinária Draco conseguiu salvá-lo.

- Potter, você poderia ter mais cuidado? – Draco disse tentando disfarçar.

- Desculpa.

- Acho que você já poderia tirar essa capa. Vai, tira logo. Aproveita que não tem ninguém olhando.

Harry estava quase saindo de baixo da capa, mas Zabini se aproximou de Draco.

- Está tudo bem, Draco? – Ele perguntou.

- Claro que sim. Não é da sua conta. Por que você não vai logo se sentar e me deixa em paz? – Draco disse sarcasticamente.

- Rude. – Blaise falou, mas se afastou em direção as cadeiras.

Harry tirou a capa bem rápido, implorando para que ninguém tivesse visto aquilo.

- Vai logo sentar com os outros Gryffindors e para de me causar problemas. – Draco disse já se afastando.

- Malfoy, eu não quero te causar problemas, mas quantas vezes eu vou ter que repetir que eu vou te fazer companhia?

- Potter, por que você insiste nesse assunto? Há pouco tempo você me odiava e agora não larga do meu pé. O que está acontecendo?

- Errr... É que eu... – Harry agradeceu por ter sido interrompido.

- Malfoy. Potter. Parem de ficar perdendo tempo e vão logo se sentar. – Snape disse e empurrou os dois em direção às cadeiras.

Draco não quis se sentar perto dos outros Slytherins, nem muito próximo ao palco. Ele escolheu uma cadeira na última fileira, apesar da distância, ele podia ver claramente o que acontecia lá na frente.

Harry se sentou ao seu lado sem hesitar. Ambos ficaram calados durante a maior parte do tempo.

Dumbledore foi quem abriu a cerimônia. Ele começou com um de seus famosos discursos sobre Pansy, mesmo sendo um pouco clichê, suas palavras foram emocionantes, elas tocaram a todos, principalmente aos pais de Pansy – que estavam sentados no palco – e Draco.

O próximo a falar foi o pai de Pansy. Ele estava vestido com um casaco preto e se levantou junto com a mulher para falar. Ela, que também vestia um casaco preto sobre um longo vestido da mesma cor e um chapéu que cobria grande parte de seu rosto, segurou a mão do homem a cada segundo em que ele falava.

Enquanto o pai de Pansy se pronunciava, Draco não estava mais conseguindo esconder a emoção. Lágrimas furtivas escorriam pelo seu rosto. Harry, percebendo o estado do outro, se inclinou para perto dele e segurou sua mão. Draco puxou a mão para longe imediatamente.

- Vai ficar tudo bem, Malfoy. – Harry disse e pegou na mão dele de novo.

Dessa vez Draco não resistiu e cedeu. Harry segurou sua mão com firmeza, depois de um tempo ele ficou fazendo pequenos círculos com o dedo indicador na mão de Draco, provavelmente sem perceber.

Quando o Sr. Parkinson terminou seu discurso, a Sra. Parkinson foi começar a falar, mas o fluxo de lágrimas era muito grande e ela não estava conseguindo falar nada.

- Querida, está tudo bem. Você não precisa falar. – Era o que o marido dela dizia.

- Não. E-eu quero falar. É minha Pansy, minha filha. – Ela tentava dizer, mas as lágrimas insistiram em voltar.

- Querida, por favor...

- Pansy, querida, me desculpe. Perdoe-me por tudo, por favor. Eu faria qualquer coisa pra te ter de volta, meu bem, eu juro que faria. Eu te amo, meu amor. Te amo muito. – A mulher estava praticamente em cima do caixão da filha. Apenas depois que o marido e Dumbledore a puxaram que ela parou de soluçar tão alto.

O coração de Draco parecia que havia sido arrancado do peito e substituído por um buraco vazio. Ele podia sentir um aperto no peito e a única coisa que conseguia fazer era chorar.

Dumbledore voltou a falar:

- Se há alguma pessoa que gostaria de falar alguma coisa, acredito que Pansy ficaria agradecida. – Mas como ninguém se pronunciou, ele continuou o funeral – Tudo bem, então...

Harry sentiu o toque agradável da mão de Draco se desprender dele. Draco correu em direção ao corpo de Pansy.

- Eu quero falar. – Draco disse quando chegou ao lado do caixão.

Como o caixão estava aberto, ele pôde ver o rosto de Pansy. Ele segurou a mão dela e acariciou seus cabelos.

Mas, assim como a Sra. Parkinson, Draco tinha muitas lágrimas escorrendo pelo rosto e não estava conseguindo fazer as palavras saírem.

- Draco, meu rapaz, você não precisa... – Dumbledore tentava acalmá-lo.

- Não! – Quanto mais ele tentava, mais lágrimas escorriam. – Eu vou conseguir!

Draco respirou fundo e levantou a cabeça para a multidão. Ele viu cada grupo de pessoas e percebeu que nas primeiras fileiras se encontravam os pais de alguns alunos.

Lucius e Narcisa encaravam-no com um olhar que expressava calma, mas aquilo só fez com que Draco entrasse num desespero ainda maior.

A única coisa que fez Draco se acalmar foram na verdade duas. Os olhos de Harry. A luz que ele irradiava fazia com que Draco se sentisse em paz.

Harry deu um aceno de cabeça para ele e disse algo que Draco entendeu como "Vá em frente, você consegue".

- Pansy, ao contrário do que muitos pensam, era uma pessoa maravilhosa. Ela sempre esteve ao meu lado quando precisei. Ela era a única pessoa com quem eu realmente podia contar e... – Draco respirou fundo mais uma vez – Ela era uma ótima pessoa.

Lágrimas pesadas escorreram de seus olhos.

- Eu sei que eu não a tratei como ela merecia e vou me arrepender pelo resto de minha vida por isso, mas acreditem em mim quando eu digo que eu a amava. Eu ainda a amo. Não como um homem ama uma mulher, mas como um garoto ama a melhor amiga que ele já teve.

Draco olhou para o lado e viu a mãe de Pansy olhando para ele. Ela estava enxugando os olhos com um lencinho, quando percebeu que ele havia parado de falar, ela se inclinou para frente e moveu os lábios de uma maneira que poderia ser considerada como um sorriso.

- Eu estava lá no momento que ela se foi. Até pouco tempo atrás eu estava me culpando pelo que aconteceu. Eu sei que parte da culpa vai ser pra sempre minha, por não ter feito nada para ajudar, por ter sido fraco e não ter movido um músculo tamanho era o meu medo. Mesmo com o restinho de culpa que eu ainda carrego, eu sei que ela não morreu por minha causa. Eu teria feito qualquer coisa para salvá-la, mas não havia nada que eu pudesse ter feito. Quando aqueles desgraçados apareceram já era tarde demais. Mas eu vou prometer uma coisa à Pansy e a todos vocês: Eles não irão escapar tão facilmente, eu irei fazer o possível e o impossível para vingar a morte dela. Todos eles irão pagar pelo que fizeram.

Draco se inclinou sobre Pansy e deu um beijo em sua testa.

- Eu te amo, Pansy. – Draco disse baixinho.

Quando ele terminou, a maioria das pessoas presentes tinham lágrimas nos olhos. A Sra. Parkinson caminhou até ele e o abraçou apertado.

- Obrigada, querido. Você não faz ideia de como suas palavras foram belas. Muito obrigada. – A mulher disse por entre as lágrimas.

Draco a abraçou de volta e sussurrou um "Não precisa agradecer".

Ela o soltou e voltou a sentar ao lado do marido, que também deu um pequeno sorriso para Draco enquanto este caminhava de volta a seu lugar.

- Foi um discurso maravilhoso, Malfoy. – Harry disse assim que o outro se sentou.

- Foi uma droga, mas foi o melhor que eu pude fazer.

- Foi maravilhoso – Harry repetiu – Você vai mesmo vingar a morte dela? Quero dizer, vai mesmo fazer o possível para fazer com que os culpados paguem por isso?

- Claro. Eu devo isso a ela, não é?

- Acho que sim. Eu vou ajudar você.

- Não preciso de sua ajuda, Potter – Foi o que ele disse. "Eu iria adorar se você me ajudasse", era o que ele queria dizer.

O resto do funeral passou depressa. No final, quando já estavam colocando o caixão de Pansy na cova, rosas foram conjuradas para cada um dos presentes e, antes de ser coberto por terra, foram jogadas sobre ele.

Harry ficou ao lado de Draco em todos os momentos, mesmo quando eles estavam bem próximos dos Malfoys.

- Potter... Você se importaria de ir... Bem, você não quer voltar... – Draco tentava falar quando eles já estavam voltando para as carruagens.

- Voltar com você? – Harry ajudou – É claro. Mas eu pensei que você não quisesse minha companhia.

- Isso foi errado de minha parte, me desculpe. Eu... Gosto de ficar com você. – Draco se esforçou para dizer aquelas palavras e ficou instantaneamente vermelho.

- Eu também. – Harry disse também vermelho – Malfoy, sobre ontem...

- Por favor, vamos esquecer aquilo. Por favor.

- Mas...

- Draco, querido. – Narcisa estava se aproximando acompanhada de Lucius.

Harry já ia se afastando, mas Draco segurou seu braço, implorando com o olhar para que ele ficasse.

Talvez aquilo fosse um ato de rebeldia de Draco, querer ser visto por seus pais ao lado de Harry.

- Olá, mãe. – Draco disse – Pai.

- Olá Draco. – O pai respondeu.

Harry queria se enfiar em um buraco. O que diabos ele estava fazendo ali? Ao lado de Lucius e Narcisa Malfoy?

- Draco, o que ele faz aqui? – Perguntou a mulher apontando para Harry.

- Acredito que vocês saibam quem ele é.

- É claro que sabemos quem ele é. Não seja tolo. O que queremos saber é o que ele faz aqui. – Disse Lucius.

- Olá Sr. Malfoy. Sra. Malfoy. – Harry acenou para eles.

- Olá. – Narcisa respondeu secamente. Lucius apenas balançou a cabeça.

- Ele está me fazendo companhia. Algum problema? – Draco falou em tom de desafio.

- Draco, que diabos... Você sabe que... – O marido foi interrompido pela mulher, que lhe deu uma cotovelada.

- Hm, hm. Draco, espero que você esteja passando bem depois de tudo isso. E espero sinceramente que você saiba exatamente o que está fazendo.

- Estou ótimo, mãe. Potter está me ajudando bastante. Não se preocupe comigo. – Dessa vez seu tom foi mais desafiador.

- Está? Que ótimo. – Ela disse constrangida – Aquele foi um ótimo discurso.

- Obrigada, mãe. Agora desculpem, mas nós temos que partir.

- Tudo bem, meu filho. – Narcisa se aproximou e deu um abraço no filho – Nós mandaremos uma coruja logo. Mantenha-se a salvo. Tome cuidado.

- Eu irei, mãe. Tchau.

- Até logo. – Lucius falou, sem olhar para o filho. Narcisa acenou. Harry nem disse nada.

Quando já estavam distantes o bastante, Harry se atreveu a falar.

- Por que fez aquilo? Eu não precisava ter ficado lá.

- Me desculpe, mas é que pelo menos eles foram logo embora.

- Tudo bem, tudo bem.

- Agora entra logo embaixo dessa capa antes que alguém descubra algo.

No caminho de volta, Harry se surpreendeu pela atitude de Draco de se aproximar dele. Eles voltaram todo o caminho de mãos dadas.

XXXXXXXXXXXXXX

O dia foi longo para todos os alunos, mas em especial para Harry e Draco.

Quando Harry voltou a se juntar aos Gryffindors foi recebido com uma enorme quantidade de perguntas sobre seu paradeiro. "Onde estava Harry?" "Eu não o vi durante o funeral." "Que demora pra aparecer, hein cara.", mas ele foi sincero com todos eles "Eu estava com o Malfoy" foi a resposta para todas as perguntas. Apesar do choque que causava, ele achou melhor assim.

Draco estava se sentindo mal desde que acordou. O dia, fora a parte de Harry, tinha sido o pior de sua vida. Seus pais aparecendo e Draco estupidamente os desafiando havia sido a pior parte.

XXXXXXXXXXXXXX

Duas semanas e quatro dias depois.

Era sexta-feira, hora do almoço. Os alunos foram levados pelos monitores ao Grande Salão. Hoje não havia o habitual murmúrio de todos os dias.

Draco estava tentando se forçar a comer, mas parecia que a comida tinha virado pedra e ele estava tendo uma dificuldade enorme em colocá-la para dentro.

Harry estava um pouco conflitado. Passaram-se duas semanas do enterro de Pansy e desde esse dia Draco e ele não se encontraram mais, a não ser nas aulas conjuntas. Será que Draco havia se irritado com Harry? Se cansado dele?

- Hermione, não me canso em dizer como é bom tê-la de volta. – Luna apareceu se sentando entre Ron e Harry.

- Obrigada Luna, é ótimo estar de volta. – Hermione respondeu.

- Certamente. Olá meninos. Ginny. – Luna completou olhando em volta.

- Olá. – Os outros responderam enquanto Neville se engasgava.

- Harry, eu queria falar com você.

- Claro Luna, pode falar. – Harry disse.

- Bem, eu gostaria que fosse em particular.

- Oh, tudo bem.

Eles se afastaram para a ponta da mesa onde não havia ninguém.

- Harry, como andam as coisas com o Draco?

- Você quer me perguntar sobre isso? Luna, sem ofensas, mas não acho que seja uma boa hora pro Draco pensar ou fazer alguma coisa sobre isso.

- Você está enganado, Harry. É principalmente nesse momento que ele precisa de seu suporte.

- Mas ele está sofrendo. Ele não quer pensar sobre... Seja lá o que isso for.

- Sobre amor. É claro que ele quer. Acredite em mim.

- Luna...

- Harry, por favor, faça o que estou dizendo. Por favor.

- Tudo bem, mas o que você quer que eu faça? Que eu vá correndo em direção a ele dizendo que eu o amo?

- Não.

- Então o que? Ah, eu queria lhe fazer essa pergunta: Como assim você sabe que ele "gosta" de mim pela maneira como ele me olha?

- Acho que você pode descobrir isso. Vire-se.

Harry virou o rosto e viu um olhar sonhador nos olhos cinzentos de Draco. Tudo bem, talvez – só talvez – Luna estivesse certa.

- Ok. Mas o que quer que eu faça?

- Eu tenho uma ideia. Hoje, depois da aula, você vai para a floresta e o chama pra alimentar os Testrálios que ele agora pode ver. Que tal?

- Ele nunca iria aceitar, eu nem mesmo tenho uma desculpa pra isso.

- Me usa como desculpa.

- Como isso seria possível?

- Diz que eu te chamei para alimentar os Testrálios e diz que você não queria ir sozinho com essa "Lunática".

- Mas eu nunca te chamaria de Lunática.

- Eu sei, mas ele não precisa saber disso.

- Eu não sei, Luna...

- Ah, Harry, por favor.

- Tudo bem, tudo bem.

Luna deu saltinhos de felicidade depois que eles combinaram tudo e caminhou de volta para sua mesa.

- O que a Luna queria? – Para a surpresa de Harry foi Neville quem perguntou.

- Ela queria que eu fosse alimentar os Testrálios com ela, ajuda-la a sair do castelo sem ninguém perceber.

- Só você... E ela? – Neville arregalou os olhos.

- Você não vai né? Harry, você sabe que é contra as regras. – Hermione se sobressaltou.

- Eu sei Hermione, mas ela precisa de mim, não posso deixa-la na mão.

- Mas Harry...

- Não precisa se preocupar, nada vai acontecer.

Draco olhava para a mesa da Gryffindor enquanto tinha vários pensamentos aleatórios. "O que Luna fazia direto ao pé de Harry?" "O que será que esse Gryffindors conversam tanto?" "Será que Harry estava zangado com ele? Eles não se falam direito há algum tempo." "Oh, Merlin."

XXXXXXXXX

- Malfoy, posso falar com você? – Harry perguntou depois da última aula do dia.

Merlin, como era bom ouvir aquela voz.

- Claro, o que você quer? – Malfoy respondeu.

- Bem, eu... – Harry estava muito envergonhado, mesmo que isso não fosse um encontro de verdade, ele nunca tinha chamado ninguém pra sair. – Você não gostaria de ir alimentar alguns Testrálios?

Quase que Draco dizia sim sem hesitar só para ficar perto de Harry, mas se lembrou de que isso seria estranho e depois ele reparou na parte dos Testrálios.

- Alimentar Testrálios? E por que eu iria querer fazer isso?

- Eu não sei, só achei que seria divertido. Luna me chamou para ir com ela e...

O que? Só Harry e aquela lunática? De maneira alguma.

- Tudo bem, eu vou. – Draco falou antes mesmo de Harry terminar a frase.

- Sério? Brilhante! Eu passo na sua sala comunal daqui a pouco. Esteja pronto.

- Mas como assim? Nós vamos simplesmente sair andando pra fora do castelo?

- Esqueceu sobre a capa?

- Claro que não, mas não tem como caber nós três embaixo dela.

- Há um jeito pra tudo, Malfoy.

E Harry se afastou.

Malfoy reparou que mais ninguém falava o nome "Malfoy" da maneira que Harry falava. Quando o nome saia da boca do moreno parecia mais doce, mais suave.

"Foco, Draco. Foco."

Afinal, ele ainda tinha que se preparar para a noite mais perfeita que viveria.

XXXXXXXXXXXXXXXXXX

Harry correu para seu dormitório, enfiou a mão dentro do malão, retirou a capa. Correu para o banheiro e tomou um banho rápido. Depois colocou a capa e saiu da torre da grifinória implorando para que ninguém percebesse sua ausência.

Luna já estava esperando por ele no final das escadas. Como a menina tinha conseguido sair de seu dormitório despercebida? Bem, ela é inteligente, deve ter dado um jeito.

- Oi, Luna.

- Olá. Onde está o Draco?

- Ainda vou busca-lo. Vamos?

Eles desceram para as masmorras, Harry deu três batidas no retrato e se afastou.

Quem atendeu à porta foi um garoto alto usando um distintivo de monitor-chefe. Nem sinal de Draco.

- Quem está ai? – Ele perguntou – Eu sei que tem alguém ai. Se você não aparecer eu vou chamar o Professor Snape.

- Oh, por favor, você não tem nada melhor pra fazer? – Draco apareceu e empurrou o outro para o lado.

- Aonde você pensa que vai? – O monitor segurou o braço de Draco, Harry se segurou para não ir até lá espanca-lo – Você não pode sair sozinho.

- E quem você pensa que é? Largue-me imediatamente.

- Eu sou monitor-chefe e você tem que me obedecer.

- Se eu fosse você, eu calaria a boca e soltaria o meu braço. É o que você deveria fazer, ou você prefere sofrer com as consequências?

- Consequências? Olha, quer saber? Vá. Mas se você for pegue ou coisa assim, será você quem pagará.

- Oh, agora sim você me deu medo.

Draco saiu batendo a porta atrás de si.

Harry tocou o braço dele para provar que estava ali. Draco tentou se enfiar em baixo da capa, mas era muito complicado.

- Potter, você já pensou em alargar esse troço aqui? Que tal um "Engorgio"?

- Eu já tentei, mas parece que magia não faz efeito nessa capa. Nós vamos ter que se virar assim mesmo.

Eles caminharam lentamente e desconfortavelmente para fora da escola. Os corpos de Harry e Draco estavam tão próximos que poderiam ser considerados um só. E ainda assim, os pés deles ficavam a mostra, mas pelo menos os corredores estavam vazios.

- Faz muito calor aqui embaixo. – Harry falou tentando distanciar os pensamentos que ele estava tendo.

Somente quando já estavam bem distantes do colégio e próximos a floresta foi que tiraram a capa.

- Liberdade. Finalmente. Mais um segundo ai embaixo e minha coluna se partiria. – Draco disse enquanto alongava o corpo.

E que corpo – Pensou Harry – Torso bem definido, pernas e braços da proporção certa, olhos cinzentos sedutores e a boca, ah a boca, Harry queria arrancar um pedaço dela para ele.

- Errr... Luna. – Harry tentava afastar aqueles pensamentos novamente – Luna, onde estão os Testrálios?

- Eles estão um pouco mais a frente, dentro da floresta. Eu posso ouvi-los.

- Você pode ouvi-los? Como? – Draco quis saber.

- Ah, meu pai me ensinou a ter um ouvido aguçado. Comer feijão com caramelo ajuda também. Eu tenho um pouco se você quiser.

- Não, não. Eu passo, obrigado. – Eca.

Luna caminhou na frente. Draco estremeceu um pouco ao entrar na floresta, aquele lugar lhe trazia más lembranças.

Harry percebeu e se aproximou para segurar na mão dele.

- Está tudo bem? – Harry perguntou.

- Claro que sim.

Apesar da resposta mentirosa Draco aceitou a mão de Harry de bom grado.

- Aqui estão eles. Venham ver! – Luna gritou de uma clareira à frente.

Havia pelo menos sete deles no local. O que chamava mais atenção era um filhote que estava apoiado a outro Testrálio, provavelmente sua mãe.

- Pegue. Alimente-o. – Luna disse e estendeu um pedaço de carne para Draco.

"Por que eu faria isso? Não vejo motivo para alimentar essas criaturas horríveis que só podem ser vistas por desafortunados que presenciaram a morte."

- Não, eu não vou tocar nisso ai.

- Ah, Malfoy, deixa de besteira. É legal, confia em mim. – Harry se meteu na conversa.

- Tudo bem, mas só por que você pediu. – Draco falou essa última parte inconscientemente e nem viu o outro ficar vermelho.

Ele pegou o pedaço de carne, estava frio. Estendeu a mão em direção ao filhote.

- Aqui, criatura. – Draco se aproximava lentamente – Pegue, é gostoso.

O animal chegou perto de Draco e farejou a comida. Draco lançou a carne aos pés dele, que cheirou e engoliu a comida imediatamente. Até que os animais não eram assim tão horrendos.

- Uau, que fome. Você quer mais? – Draco pegou mais um pedaço com Luna e jogou para o filhote.

Harry foi alimentar a mão do filhote. E Luna distribuiu pedaços para outros.

- Você já se acostumou com ele, não é? – Harry perguntou.

- É. Eles não são tão ruins, até que têm seu charme. – Draco admitiu.

Luna, que queria deixa-los sozinhos, decidiu sair.

- Pessoal, tem outro bando para aquele lado. Vocês ficam aqui que eu vou lá. – Ela entregou metade da comida para eles.

- Mas você não pode ir sozinha. – Foi Draco quem falou.

- Não se preocupe, eu ficarei bem.

- Luna, eu acho melhor nós não nos separarmos. – Harry disse.

- Você não viu o que aconteceu com a Granger, ou pior, com a Pansy? Quer que o mesmo aconteça com você? – Completou Draco.

- Mas eu vou estar aqui perto. Nada vai acontecer, não se preocupem.

- Não sei não. Mas se é o que você quer. – Draco deu de ombros – Mas, por favor, pelo menos tome cuidado.

- Eu vou, prometo. Vejo vocês daqui a pouco.

A garota saiu deixando Harry e Draco sob um silêncio constrangedor.

Draco estava com um frio na barriga, ele sentia como se várias criaturinhas estivessem passeando por dentro dele.

Harry ruborizava a cada vez que tentava falar qualquer coisa.

O filhote que Draco havia alimentado agora estava aos seus pés, provavelmente querendo mais comida. Draco não deu, mas fez carinho nele.

- Esse carinha é insistente. – Foi o que Harry conseguiu falar.

Draco concordou, mas não conseguiu reunir palavras suficientes para dar uma resposta.

Ele tinha que falar alguma coisa. Qualquer coisa que fosse. Ele não conseguiria ficar muito mais tempo ao lado de Harry sem dizer nada.

- Ei Potter, que tal um jogo?

- Claro. Que jogo?

Draco cogitou a possibilidade de parar por ai, todos os seus sentidos lhe diziam para não ir em frente, mas o desejo de prosseguir era muito grande, então ele continuou.

There's a place in the sun

(Há um lugar ao sol)

For anyone who has

(para qualquer um que tenha)

The will to chase one

(a força de correr atrás)

And I think I've found mine

(e eu acho que encontrei o meu)

Yes, I do believe

(sim, eu acredito)

I have found mine

(que eu encontrei o meu)

So

(então)

- Primeiro você tem que fechar os olhos.

- E?

- Feche os olhos. Vai.

- Tudo bem, fechei. E agora?

- Agora você pensa em alguém que você admira fisicamente.

- O que?!

- Vai em frente.

Harry sentiu um frio na barriga, mas fez o que foi dito e pensou em alguém que ele admirava fisicamente. Draco Malfoy foi o único que veio a sua mente.

- Pronto. E agora? Eu te digo em quem eu pensei?

- Não. Agora você cala a boca e deixa eu te beijar.

Close your eyes

(Feche seus olhos)

And think of someone

(e pense em alguém)

You physically admire

(que você admira fisicamente)

And let me kiss you

(e me deixe te beijar)

Let me kiss you

(me deixe te beijar)

Draco fechou os olhos com tanta força que ele começou a ver pontinhos de luz e lutou contra a ansiedade.

Harry nem teve tempo de abrir os olhos. Quando se deu conta, Draco já estava selando seus lábios. O espanto foi tão grande que Harry quase se esquecia de retribuir o beijo, mas ainda deu tempo.

Magia não é suficiente para descrever aquele momento.

Harry era uma mistura de felicidade exagerada e espanto. Draco estava tão nervoso, que suas mãos estavam suando, ele também estava espantado com a reciprocidade de Harry.

Os lábios deles pareciam ser feitos um para o outro, como chave e fechadura. Perfeitos unidos, mas inúteis separados.

Harry podia sentir o gosto de Draco, era uma mistura de pasta de dente de hortelã e creme de morango. Draco sentia o gosto de Harry, era em maior parte de pimenta. A combinação desses sabores tornava o beijo elétrico.

Say would you let me cry

(Me diga, você me deixaria chorar)

On your shoulder

(No seu ombro?)

I've heard that you'll try

(Ouvi dizer que você tentaria)

Anything twice

(Qualquer coisa duas vezes)

Agora os pedaços de carne que estavam na mão de Harry já jaziam no chão, ele puxava Draco pela cintura. Draco passava a mão gentilmente no cabelo bagunçado de Harry e ao mesmo tempo tentava fazer com que ele se aproximasse.

But then you open your eyes

(Mas então você abre seus olhos)

And you see someone

(e você vê alguém)

That you physically despise

(que você despreza fisicamente)

But my heart is open

(mas o meu coração está aberto)

My heart is open to you

(Meu coração está aberto para você)

Somente quando eles estavam sem ar foi que se soltaram.

Draco foi o primeiro a falar, ofegante.

- Mas então você abre os olhos e vê alguém que você despreza fisicamente.

- O quê? – Harry falou, mais como um gemido.

- Desculpe-me. Eu não deveria ter feito isso, foi um erro. Eu já vou embora. Não precisa me acompanhar, não se preocupe, eu vou sozinho. Se eu for pegue não vou culpar nem você nem a Luna. Vai ficar tudo bem. Perdoe-me.

Harry ainda estava de queixo caído pela atitude de Draco. Ele tinha que falar alguma coisa logo ou Draco iria embora.

"Fale alguma coisa. Qualquer coisa. Pelas barbas de Merlin, abre essa boca!"

- Draco...

- Desculpe-me, me perdoe. Foi minha culpa.

Draco já estava se afastando.

- Draco.

- "Draco"? Desde quando você me chama de Draco?

- Desde agora. Você pode me chamar de Harry também, quer dizer, se quiser.

- Olha, eu sinto muito.

Dessa vez ele se afastou bastante, teria ido mais longe se Harry não tivesse o puxado pelo braço.

- Não vá embora, por favor.

- Me largue. Eu tenho que ir embora. Eu cometi um erro e estou arrependido por isso. Desculpe.

- Pare de pedir desculpas.

- Potter, me largue agora! Eu já disse que sinto muito! Eu não consegui evitar, mas foi um erro.

- Não foi um erro. Não foi!

- Foi um erro sim! E eu já disse que sinto muito, já pedi desculpas. O que mais você quer que eu faça? – Draco estava tão exaltado que passou a gritar.

- Você pode começar parando de histeria e me escutar. Sabe qual foi a pessoa que eu pensei quando você disse "admira fisicamente"?

Draco estava com a cabeça baixa e não disse nada.

- Você, Draco. Eu pensei em você.

- Isso não é verdade. Você está mentindo.

- E por que eu faria isso?

- Por que você tem pena de mim. É isso, e eu só percebi agora. Como sou estúpido. Por que mais o "menino-que-sobreviveu" iria fazer amizade comigo? Por pena, somente por isso. – Draco tentava esconder, mas algumas lágrimas escorriam de seu rosto.

- Você sabe que isso não é verdade. Pare de dizer besteiras.

- Se não é verdade, então qual é o motivo?

- Você. – Harry disse sem hesitar – Apenas sua companhia já vale a pena. Apesar de que agora mais do que a sua companhia seria excelente. – Harry se permitiu um sorrisinho.

- Impossível. Ninguém gosta da minha companhia. Agora me largue. Eu tenho que ir.

- Eu não vou deixar você ir, Draco. Nunca. Eu preciso de você. Fique comigo, por favor.

Harry prendeu Draco entre uma árvore e o seu próprio corpo. Draco mostrou uma mínima resistência, mas assim que Harry o abraçou, ele se rendeu.

- Harry.

Seus lábios pareciam ser polos opostos de um imã, eles se atraiam naturalmente.

Dessa vez o beijo foi mais intenso, ambos sabiam o que estavam fazendo, ninguém foi pegue de surpresa.

A sensação era a melhor da vida deles. Ninguém nunca havia tocado neles daquela maneira. Nenhuma das várias namoradas de Draco. Nenhuma das pessoas de que Harry já havia se aproximado. Ninguém.

Aquilo meio que assustava a ambos. Um medo que crescia a cada momento. Medo de perder o outro por qualquer motivo que fosse. Esse medo fazia com que eles desejassem ainda mais um ao outro.

Logo os beijos não estavam sendo suficientes para suprir esse desejo.

Eles tentavam agarrar qualquer parte do outro que estivesse disponível.

Draco enfiou a mão por baixo da camisa de Harry, assim ele podia sentir a pele de suas costas o máximo possível. Harry o imitou, mas pela frente, ele sentia a respiração de Draco por toda a extensão de seu braço.

Draco soltou os lábios de Harry por um instante, só para atacar sua nuca. Aquilo fez todos os pelos de Harry se erriçarem.

Oh, Merlin.

Harry puxou Draco novamente para seus lábios. Draco por sua vez estava começando a desabotoar a camisa de Harry.

Infelizmente Luna chamou a atenção deles. Não que eles tivessem percebido, mas ela já estava lá fazia tempo.

- Sinto muito em interromper, mas nós temos que ir.

Eles se entreolharam constrangidos.

- Oh, Merlin. – Draco tentou se recompor.

- Não se preocupe, Draco. Eu já imaginava isso. – Luna falou sorridente.

- Isso o que? Nós não estávamos fazendo nada.

Ela o encarou com um olhar de "Tem certeza?".

- Tudo bem, tudo bem. Nós estávamos sim fazendo alguma coisa, mas se você disser isso pra alguma pessoa eu juro que mato você.

- Hey, Draco, não há necessidade de trata-la assim. Ela não vai falar nada, não é Luna? – Harry interveio.

- Claro que não. Eu nunca faria nada para prejudicar vocês, fiquem tranquilos.

- É, acho que você não faria. Desculpe-me. – Draco falou muito constrangido.

- Sem problemas. – Luna sorriu novamente.

Luna disse que eles deveriam voltar por que estava quase anoitecendo e, se eles ficassem na floresta durante a noite, muitos animais estranhos de que Harry e Draco nunca ouviram falar apareceriam.

- E eu acho melhor a gente ir logo. Vocês podem continuar o que quer que isso seja depois. – Ela terminou.

- Tudo bem, vamos. – Draco concordou.

Eles voltaram a se espremer embaixo da capa, mas dessa vez Harry e Draco não pararam de trocar olhares furtivos. Luna revirou os olhos para a cena.

Antes de entrarem no castelo, foram surpreendidos pela presença de Filch, que estava bloqueando a passagem.

Eles se esgueiraram rapidamente para não serem percebidos.

- Ele irá perceber os nossos pés, não há como entrar. – Luna observou.

- Obrigado, Senhorita óbvio. É claro que não há como entrar. O que nós vamos fazer agora? Ficar aqui esperando que ele vá embora?

Nesse momento Filch se sentou no chão, abriu um pacote e retirou alguns sanduíches. Ele chamou por Madame Nora e começou a acariciar a gata.

- É, acho que essa não é uma opção. Pelo visto ele vai montar guarda aqui. – Harry falou.

- E agora?

- Eu tenho uma ideia. – Luna falou e olhou diretamente para Harry.

- O que foi? – Harry falou em tom defensivo.

- Pode parecer um pouco engraçado, mas... Um de vocês pega o outro no braço.

- E de que isso vai adiantar? – Harry perguntou, logo achando estranha a proposição de Luna.

- É, nada a ver. Pegar no braço? Por favor, né. – Draco completou.

- Mas é que assim não vão ficar pés a mostra e ai nós poderemos passar.

- Mas pegar no braço, Luna? Você não tem uma ideia melhor? – Harry defendeu seu ponto de vista.

- Não. É isso ou nada. – Ela falou séria.

Harry e Draco se entreolharam. Os dois com medo de dar o próximo passo.

- Ok, eu levo você. – Harry disse finalmente.

- Excelente. Andem logo com isso. – Luna comemorou.

Harry foi se aproximando para pegar Draco no colo, mas o outro se afastou quase fazendo a capa cair.

- Uou, quem disse que eu concordei com isso? Vocês realmente acham que eu vou me prestar ao papel de ser carregado no colo? É lógico que não. – Draco virou a cara.

- Ah, vamos Draco. É o único jeito. – Harry tentou incentivar.

Draco estava apenas balançando a cabeça, ainda negando.

- Tudo bem, se você não quer, não posso fazer nada. Só nos restam duas opções: Ou você me carrega, ou eu carrego a Luna. E como eu sei que você não vai me levar de jeito nenhum: Luna, se me permite.

Harry se virou para Luna e se agachou para pegá-la no colo.

- Espera ai, eu também não concordei com isso. – Draco interrompeu de novo.

Harry largou Luna.

- Draco, pelas barbas de Merlin, nós temos que sair logo daqui. Qual é o problema de eu carregar a Luna?

- Harry, querido, eu não vou deixar você carregar outra pessoa que não seja eu. Então como não me restam alternativas: Pode me levar. Pelo menos nós estamos invisíveis.

- Own, que fofo. Mas só para informação, Draco, você não precisa sentir ciúmes de mim. De maneira alguma, não há com o que se preocupar. – Luna disse enquanto Harry pegava Draco no colo.

- Eu não estou com ciúmes. Malfoys não conhecem esse sentimento.

- Claro que não. – Harry disse próximo ao ouvido dele, mas foi com um leve sarcasmo.

- Cala a boca, Potter. – Draco disse vermelho.

Harry se inclinou e beijou Draco, que quase lhe dava um soco.

- Tá louco?

Eles caminharam o mais silenciosamente possível para dentro do castelo, desviando de Filch e Madame Nora.

A gata insistiu em seguir o cheiro deles, o que deixou Filch curioso.

- O que foi, querida? Está sentindo alguma coisa? – Ele perguntou.

A gata se esticou em direção aos garotos.

- Harry, você está segurando bem ele? – Luna perguntou o mais baixo que pôde.

- Sim, por quê?

- Por que a gente vai ter que correr.

Luna puxou Harry, que quase se caia, mas de algum jeito Draco lhe deu equilíbrio.

- Calma ai, Luna! – Draco deixou escapar um grito, mas eles já estavam distantes o bastante para não serem ouvidos.

- Desculpem, foi o único jeito. Filch iria nos ver. Agora vamos logo antes que eles nos alcancem.

Eles continuaram a caminhar e foram deixar Luna em sua sala comunal.

- Obrigada. Espero que vocês dois sejam sempre assim de agora em diante. – Ela se despediu com um beijinho na bochecha de cada um. – Tchau, Harry. Tchau, Draco.

Draco – que ainda estava nos braços de Harry – incrivelmente não se incomodou com o ato da garota. Ele estava começando a ver algo de bom nela.

Eles foram caminhando escadaria abaixo.

- Errr, Potter, você percebeu que a Luna já foi?

- Sim.

- Percebeu que agora tem bastante espaço aqui embaixo?

- Sim.

- Então por que diabos você não me solta?

- Por que eu não quero.

- O que? Por que não? Você realmente enlouqueceu.

- Eu falei sério quando disse que nunca deixaria você ir. Eu nunca mais vou soltar você.

- Ok, agora você exagerou. Pode me colocar no chão agora, não tem mais graça. Me põe no chão!

- Nunca.

- Ah, pelo amor! O que você está fazendo? Me larga!

Draco se debatia nos braços de Harry. Harry não estava se importando, um sorriso malicioso se formava em seu rosto, logo ele estava gargalhando.

- Tá rindo de quê? Seu maldito!

- Nada, nada. – Harry tentava controlar a risada em vão. – É só que eu imaginei isso tantas vezes, mas nunca terminava assim.

- Você imaginou o que? Você estava tendo fantasias em me carregar no colo?

- Não, nada disso. É que eu... Ah, deixa pra lá.

- Potter, olha a situação em que eu me encontro. Se você não falar, eu vou te dá um avada kedavra.

- Ok, ok. É só que... Bem, Draco, eu imaginei esse momento, sabe. Mas nunca pensei que você fosse dar o primeiro passo. Eu não sabia se você sentia o mesmo que eu.

- E o que é que você sente exatamente, Potter?

- Ah, você sabe.

- Não sei, não. E olha, não vai ficando todo animadinho só por que eu te beijei não, viu? Aquilo não foi nada de mais.

Harry imaginou que Draco estava apenas sendo relutante, mas mesmo assim aquelas palavras deram uma pontada em seu coração. Ele pôs Draco no chão.

- Quer dizer que foi só isso pra você? Um beijo? – Agora ele estava na altura do olhar de Draco.

- É claro. O que mais seria?

- Não sei. Eu deve pedir desculpas, então. Acho que fiz o que não deveria, fui longe demais. Você quer que eu vá embora não é?

- Eu não disse isso.

- Mas é o que está nas entrelinhas, Draco. Se é que você ainda quer que eu te chame assim.

- É claro que eu quero. – Draco ficou confuso por um instante – Harry, o que você está dizendo?

- Estou tentando entender suas palavras. Se aquilo foi só um beijo, eu não deveria estar dizendo essas coisa pra você. Oh, Merlin, eu entendi tudo errado.

- Mas como assim? Eu apenas disse a verdade, aquilo foi só um beijo. – Quanto mais Draco falava aquilo, mais o coração de Harry doía no peito – Um beijo muito bom, por sinal.

- Espera, o que? Você gostou?

- Claro que sim. – Draco tentou esfregar o rosto para retirar a vermelhidão – Você não?

- É óbvio que eu gostei. Foi o melhor da minha vida. Bem, quer dizer... É, eu gostei.

Eles continuaram a caminhada, um sem olhar para o outro.

Só depois de algum tempo Draco percebeu que o que ele tinha dito poderia ser interpretado de outra maneira.

- Ei, Harry, eu não quis dizer desse jeito, sabe.

- Como assim? Você disse que foi só um beijo, nada mais que isso.

- É, mas eu falei literalmente. Por que realmente foi só um beijo, mas eu não quis dizer que não significou nada pra mim ou coisa assim.

- Quer dizer que está tudo bem por você se eu nunca mais te deixar ir?

- Eu também não disse isso.

- Quer dizer que você quer que eu vá embora.

- Diabos, não.

- Preferia que você escolhesse uma opção, mas, bem, isso é suficiente pra mim, pelo menos por enquanto.

Harry pegou Draco nos braço novamente e deu outro beijo nele.

- Eu sei que você só está confuso, então acho que eu devo mudar sua opinião o mais rápido possível. – Harry cochichou no ouvido de Draco – E só pra constar, você não tem mais como me impedir. Eu nunca vou deixar você ir embora. – E outro beijo foi roubado.

- Errr... Harry, eu acho que você vai precisar de mais do que isso pra me convencer. – Draco tinha um sorriso lindo no rosto.

- Bem, então acho melhor eu continuar.

Harry dexou o corpo de Draco deslizar um pouco para cima dele e no próximo segundo eles estavam no chão, encostados na paredea. Tão colados que era impossível dizer de quem era o que.

E assim eles passaram o finalzinho da tarde e boa parte da noite: Embaixo da capa da invisibilidade, trocando beijos e torcendo para que ninguém aparecesse.

Harry tinha certeza que Draco já tinha escolhido uma opção, mas isso não era nem de longe um motivo para parar.