Eu decidi dizer que eu nunca fui o tal
Era mais jogo se eu tentasse
fazer charme de intelectual
Acontece que ela se importava. Só que os 57 segundos que ela demorou para dizer isso foram os melhores da minha vida. E só por isso que eu ainda pensava naquele beijo. Por isso e porque a minha cara ainda ardia quando Pads e Wortmail voltaram às cinco da manhã para o dormitório que dividíamos com Frank Longbottom.
- Ouch. Cara, isso foi um tapa? Porque se foi a Meadowes que fez isso com você, se prepare que o Remus vai te arrebentar ainda mais.
- Não, Sirius. Foi a Evans.
- É sério que a mão dela é pesada assim?
Resmunguei uns palavrões, fechando a cortina ao redor de minha cama em busca de privacidade ou ser deixado em paz e, pela primeira vez em seis anos, Sirius Black calou a boca e me deixou quieto. Vai ver é por isso que algumas pessoas insistem que somos um casal: nos entendemos sem precisar de muitas palavras. Sem falar que ele já havia me perdoado pela briga. Provavelmente.
Ano passado, quando todos estavamos tentando decidir o que fazer no resto de nossas vidas, Remus demorou uma eternidade decidindo até optar por Defesa Contra as Artes das Trevas. Com tudo que estava acontecendo com o doido do Voldemort e todo o resto, eu decidi que faria o que desse pra ser auror. Sirius? Ele só queria irritar a familia de um jeito que estudasse pouco: unindo o útil ao agradável, decidiu se preparar para trabalhar com trouxas - ele adora aquelas motos mesmo. Peter não tinha ideia do que queria fazer, então simplesmente se matriculou em todas as matérias que nós estavamos. Exceto as que coincidiam, aí ele preferia ir com a minoria.
E é por isso que, duas horas mais tarde, nós nos separamos: Remus e eu fomos para a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas e Sirius e Peter seguiram para Adivinhação.
- Eu ouvi boatos... - Começou Moony, parecendo hesitante enquanto caminhavamos apressados. Ele estava abatido, pálido e isso significava que Dorcas iria grudar nele feito chiclete assim que nós encontrassemos com ela. E ele me jura que são só amigos. Tá. E eu sou um boneco ruivo assassino e planejo matar todos que cruzarem o meu caminho na próxima noite.
- Em outras palavras: Sirius te contou. - Interrompi, rolando os olhos enquanto empurrava os óculos de volta ao lugar deles.
- É, foi mais ou menos isso. - Ele concordou com um sorriso divertido. - Mas ele disse que você e a Lily... Bom, fizeram algo além de se ignorar mutuamente.
- Ela me deu uma detenção.
- E?
- E eu tive de limpar a sala dos troféus.
- E?
- E me torturou durante quinze minutos, me deixando na mesma sala que ela sem permitir que a tocasse.
- E?
- É verdade que ela faz isso o tempo todo, mas não foi legal.
- James, estamos perdendo tempo aqui. Se não notou, estou muito interessado em saber como a mão dela foi parar na sua cara.
- Você é curioso demais para um cara tão certinho, Moony.
- Não ligo se não quiser falar...
- Eu não resisti. Eu a beijei por durante exatos 57 segundos, ela retribuiu e pensei que ela estava gostando. Até o momento em que ela ficou louca e se afastou como se eu tivesse... Sei lá, herpes. E só aí meteu a mão na minha cara. Satisfeito?
Em resposta, meu amigo ficou em silêncio. Era óbvio que estava achando a história engraçada. Quer saber? Eu não acho engraçado. Foi a minha cara que ficou vermelha, foi a minha garota que me rejeitou pela décima primeira vez esse ano. Tem um limite de foras que meu ego aguenta, sabia? E eu juro que não sou veado por estar falando isso.
- Prongs, eu estava pensando... Talvez você não faça o tipo de Lily.
- É mesmo? Eu não notei nas 11 vezes que ela me dispensou sem pensar duas vezes, Moony. Obrigado por me avisar. - Resmunguei de mau humor, fingindo não notar o ar de riso que o Lupin tinha. Era óbvio que todos se divertiam com minha desgraça. Primeiro os óculos. Agora a ruiva. O que tinha de tão engraçado ver eu me ferrando? Quer dizer, eu sou um ótimo amigo. Acho.
- Eu quis dizer que você não faz agora. Sabe, talvez ela goste de caras mais intelectuais.
- Remus, se você estiver dizendo que você gosta da Evans, eu vou quebrar a sua cara.
- O quê? - E dessa vez, ele realmente gargalhou. Eu deixei escapar um suspiro de alivio, mas isso durou muito pouco. Ainda não entendi qual a dele. Acabar com todas as minhas esperanças de uma vez? - Lily está com dificuldades em Transfiguração.
- E daí?
- Você tem um Excede Expectativas. Ela tem um Aceitável. Que eu saiba, sua nota é melhor que a dela. Na verdade, McGonagall só deixou ela fazer os NIEM's porque acha que ela pode melhorar um bocado. E adivinha só? Ela não está melhorando.
Eu encarei Moony como se ele fosse maluco por um segundo longo demais. Ele tinha de estar me zoando. Como raios ele tinha obtido tanta informação? É óbvio que eu perguntei. E ele respondeu com um vago "direto da fonte". E eu só entendi quando já estavamos dentro da sala e ele estava protegido por sua adorada Dorcas - às vezes eu detesto tanto essa garota. Remus estava me ajudando de um jeito que ele sabia que Lily não perdoaria: me contando segredos. Ele ia estar mais ferrado que eu quando ela descobrisse. Só que eu não estava ligando.
A aula foi chata e é tudo que tenho a dizer sobre ela. Nós nem aprendemos alguma coisa útil, só teoria sobre maldições imperdoáveis. Todos teriamos ganhado mais tendo mais uma hora de sono. Até mesmo eu e tenha em mente que eu arrumei um pretexto pra passar algumas horas perto de certa ruiva. A manhã passou tão lenta que na aula de Feitiços até dormi um pouco. O almoço estava em seu devido lugar quando finalmente chegamos no Salão Principal para aprecia-lo e meu alvo lia um livro - qual a novidade? - até eu me aproximar.
- Nenhuma palavra, Potter. - Tá, ela deve ter algum radar que apita anunciando minha presença num raio de 50 metros. Ou alguma coisa do tipo. Porque eu posso lhe jurar que ela não ergueu a cabeça. Eu teria notado se ela estivesse me encarando, vamos lá.
- Tem certeza? Porque eu pretendia te ajudar com uma coisa.
- Mais dos seus talentos?
- Com certeza.
Olha, eu sei que sou um idiota e minha abordagem é sutil feito um elefante. Mas eu estou desesperado, certo? Sem falar que esta é a primeira vez que a Evans cora por minha causa e eu posso ver isso claramente: as sardas ficam um pouco mais evidentes e um tom avermelhado cobre suas bochechas. Ela fica ainda mais bonita desse jeito e torna muito, muito mais dificil olhar nos olhos dela. Verdes, cara. Quem tem olhos verdes desse jeito?
- Estou esperando, James.
- Bom... Eu ouvi dizer que você está precisando de ajuda. Sabe, em Transfiguração. - Ela me analisou por um segundo ou dois antes de concordar com a cabeça de leve, sinalizando que havia entendido. Tomei como um encorajamento para que continuasse antes que a minha voz e coragem resolvessem sumir. E eu ainda me digo um maroto. Que vergonha, Prongs. - Eu pensei em te ajudar um pouco com isso.
Eu posso ter ficado maluco ou estar alucinando, mas posso jurar que ela estava sorrindo pra mim. Um sorriso pequeno, sem exibir os dentes e... Cara, ela está me torturando! Não há outra explicação. Vai ver eu ingeri algum alucenogeno nas últimas vinte quatro horas e a porra do efeito só começou agora - mas eu não me lembro disso.
- Sabe, James, eu realmente não entendo você. - E ela finalmente ergueu os olhos do livro (Poções muy potentes. Esse livro é um nojo, apenas para constar) para me encarar. - Mas eu topo com uma condição: eu não vou sair com você.
Doze vezes. DOZE! E eu nem precisei convida-la pra levar um fora dessa vez. Não vou ser dramático e dizer que meu mundo caiu. Não caiu. Mas pela primeira vez desde que eu me descobri gostando de Lilían Evans, eu pensei em desistir. Quer dizer, ela não é a única garota do mundo, é? E só porque eu estou gostando dela, nós somos perfeitos um pro outro - e não, não é porque ela é de leão e eu tenho 16. Ela não é de leão - nós não precisamos ficar juntos. Existem umas dois bilhões de pessoas no planeta, metade é mulher. Eu posso muito bem tentar uma outra, não é? E, levando em conta a droga do rumo das coisas, tem até a outra metade disponivel... Começo a desconfiar da minha própria sexualidade notando que pareço gay demais.
É isso. Vou desistir de Lily Evans e retirar minha oferta de auxílio acadêmico com o pouco de dignidade que me resta. E aí vou tentar dominar o mundo.
- Ei, Evans, eu só quero te ajudar com transfiguração. Mas você deveria mesmo considerar isso uma oportunidade para conseguir comida de graça.
Vamos dar um mérito a ideia de Remus: ele viu um meio de fazer com que eu e Lily ficassemos no mesmo ambiente por algum tempo e sem um motivo realmente bom para brigar. O que ele não previu é que a minha concentração próximo a ruiva era próxima a zero. Ainda mais quando eu estava tentando tirar o máximo de proveito da situação: já segurara a mão dela pra ajudar a agitar a varinha, já ficara perto demais sem que ela percebesse... Enfim. Depois que eu transformei um jarro de flores em um gatinho quando queria um bule de chá, devo dizer que minha carreira como professor teve uma morte precoce. Em luto por ela, eu e a ruiva ficamos calados por um tempo (ou talvez fosse só a estranheza da situação).
- Você é um fiasco. - Ela comentou com um ar de riso, sem a intenção de me ofender. Ofendeu, diga-se de passagem. Eu não sou bom como o marketing que o inútil do Lupin fez pra mim, mas também não sou ruim. Eu até consegui um EE nos NOM's e McGonagall me aceitou na turma dos NIEM's, não foi? Quem é que está pendurada, Lilían Evans? Não é o James Potter, posso assegurar.
- Só não estou me concentrando. - Resmunguei de mal humor, afastando-me dela na direção oposta da sala vazia.
- Se eu sair com você, vai se concentrar um pouquinho mais, Potter?
