Eis uma novidade: as cheerleaders treinariam com o time de futebol americano como forma de estimula-los para os jogos universitários que aconteceriam no final do outono. Era irritante que quanto mais Quinn quisesse se afastar de Sam, mais coincidências os aproximavam. Aquilo havia implicado nas frequentes visitas de Emily e sua horda de subordinadas no Yale Bowl, onde os atletas praticavam. Ela fazia questão de revezar a quadra com os outros tenistas entre os turnos para ter uma desculpa para sair da Cullman-Heyman Tennis Center e ir paparicar Sam, levando água, energético e outros suplementos atléticos de marcas importadas.
Biff McIntosh era o quarterback do time. Ele adorava ostentar aquele número 1 na camisa, era motivo de sua popularidade sempre em alta e ele se aproveitava disso como podia. Rondavam boatos que ele havia reprovado em várias disciplinas, mas a influência da família e as inquestionáveis habilidades no esporte o impulsionavam sempre para frente. Obviamente Quinn tinha sido facilmente sugada por todas essas facilidades, mas agora queria deixar isso no passado.
O técnico Kerr, um homem negro de barba e bigode com um olhar sisudo, havia alçado Sam ao título de quarterback reserva, mas ele treinava junto aos titulares, portanto era meio chato ele ver Biff dando em cima dela todo santo treino. Ela tinha consciência que Biff lembrava muito bem quem Sam era e as rebordosas dele aumentavam quando ele avistava o loiro. O atual quarterback de Yale também não permitia o mínimo gracejo de qualquer outro garoto do time para cima da ex-namorada, o que deixava Quinn possessa, porque havia uns caras totalmente gatinhos no time.
_LUUUUUUUCCYYY – ela ouviu a voz estridente de Emily ao longe, se aproximando quando Rosario a ajudava se alongar, ela revirou os olhos por dentro enquanto falsificava um sorriso a sua co-capitã, já imaginava o assunto que viria a seguir.
_Não me falou que as cheerleaders treinariam regularmente com o time de futebol – ela falou ajeitando a raquete de tênis na bolsa pendurada só de um lado.
_Eu esqueci, muita coisa na cabeça – mentiu ela, pensando que uma hora deveria bolar uma desculpa melhor.
_Ah, eu sei, o lance da festa... mas não se preocupe, mandei Vivian e Jenny resolverem tudo – ela olhou ao longe e acenou para Sam, que deu um tchauzinho tímido.
Quinn odiava quando ela fazia isso. Deixar o encargo delas nas mãos de outras, no caso as duas maiores capachos da universidade. Vivian Malone e Jennifer Morgan eram do clube feminista do qual Emily participava, simplesmente acatavam toda ordem da ruiva, concordavam com tudo que ela falasse e não tinham vontade própria. Haviam outras garotas que faziam o mesmo, mas estas eram de longe as mais trouxas. Stark as tratava na maior política pão e circo, dava migalhas como participações exclusivas nas festas das Kappas(a qual elas não faziam parte) e de vez em quando dava números de seus ex-ficantes classe D(de "drunk", pegou porque estava bêbada) para elas, se elas tivessem sorte. A maior parte do tempo ela falava mal das duas pelas costas, reclamava de como Vivian era gorda e como ela nunca teria ninguém e de como Jennifer não tinha talento algum pra nada. Quinn daria um jeito de esquematizar o que faltava assim que voltasse para a mansão Kappa, de jeito nenhum a festa da sua promoção ficaria nas mãos das minions de Emily.
_Vai demorar muito para eles terminarem? – a ruiva perguntou apontando para os garotos que treinavam passes mais ao fundo.
_Os reservas treinam depois dos titulares, creio que vai levar algum tempo, falei com o Josh – respondeu Rosario, já que Joshua Butler era um namoradinho dela que ficava na linha de defesa do time.
Quinn sorriu por dentro. Emily detestava esperar e ela tinha o ritual de banhar-se por pelo menos 1 hora com seus sais por vezes quando saia do treino, costume esse que irritava a algumas das estudantes das Kappas que queriam utilizar o sanitário para maiores necessidades, fazendo a garota levar algumas advertências.
_Ótimo, é o tempo exato de eu ir me trocar e tomar aquele banho – ela sorriu de orelha a orelha, com um olhar de quem ia a caça.
_Vamos lá, garotas – anunciou Quinn em alto e bom tom, colocando as mãos nos quadris, como habitualmente fazia – Quero todo mundo formando uma linha com um braço de distância uma da outra, a gente vai fazer a coreografia pré-pirâmide!
Ela notou que Sam a observava sentado do banco de reservas, com os braços cruzados, e então andou de um lado para o outro reparando a maneira que as garotas se ajeitavam, assim como a técnica Jane as ensinara. A técnica havia tido problemas com o filho internado pelas estripulias na escola, que resultaram em um braço quebrado, então estava tudo a cargo dela e de Rosario, que ficavam até tarde criando novos movimentos e fazendo combinações entre as líderes de torcida.
_Escuta, não vai ter aula pra Emily hoje de noite? – perguntou Quinn a Rosario, antes delas se dirigirem a frente das garotas
_Vai e eu acho bom ela ir, Sr. Brown não gosta muito dela...
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Já eram 10 horas quando Quinn dispensara Rosario do rendimento do dia, ela havia marcado uma escapulida com Josh e não parava de perguntar a Quinn se já haviam acabado. Elas possuíam as fichas de cada líder de torcida da treinadora, nos quais contavam desde o peso a características pessoais de personalidade. Estava exausta, pela manhã tinha ficado na aula de dança com Miss Marrie e, ao contrário do que ela esperava, não viveria enfurnada em estúdios de dança. Aparentemente ela deveria ter uma boa base teórica sobre a atividade, não a pergunte o porquê.
Era bom estar ali no vestiário feminino a sós com ela mesma. Se sentia mais a vontade para pensar. Ela tirou o uniforme azul royale e branco da faculdade, agora imundo das acrobacias, e colocou no saco de roupas sujas que trouxera dentro do bolsão que carregava. Tomaria um banho lá mesmo, sem a algazarra e fofocas conjuntas do banheiro coletivo da mansão. Todas as garotas se encontravam pelo menos por aquele horário lá, então queria seu precioso tempo com ela mesma. Tirou o celular do bolso e o posicionou em cima da parede do box, perto da saída, para ficar mais longe da água.
A água do chuveiro estava quente, do jeito que ela gostava para contrastar com o frio agradável do outono de New Haven. Ela agora lembrara que tinha deixado o carro do outro lado da faculdade, pela entrada principal, onde tinha ido as aulas pelo começo da tarde. Suspirou enquanto se enxaguava... mas que burrice! O ritmo desse ano era tão superior ao do ano passado que ela mal podia crer que tinha subido só para o próximo período e não pulado uns 2. Era de praxe ela estacionar e voltar cedo para casa e não enfrentar uma aula atrás da outra, a fazendo ir e voltar no carro para pegar livros e mais livros.
Escutou 2 batidas na porta e por reflexo colocou as mãos em X, cobrindo os seios e em um movimento rápido puxou a toalha, desligando o chuveiro. Ela segurou a respiração quando se recostou na parede lateral do box.
_Quinn? – a cabeça flutuante de Sam Evans apareceu no visor da porta assim que ela escutou a voz abafada do rapaz e suspirou aliviada.
Ela acenou para ele esperar. Mas que diabos? Onde ele andava com a cabeça de entrar assim em um vestiário feminino? Uma onda de raiva passou por sua mente, mas ela achou melhor se acalmar e foi contando até 10 enquanto se vestia o mais rápido que podia. Não queria de jeito nenhum que ele a encontrasse naqueles trajes e, pior, visse suas temidas cicatrizes. Tinha feito de tudo para Santana não notar quando ambas haviam transado, ela não transava nem a meia luz.
_E então? – ela falou, saindo com o bolsão pendurado no ombro -_Vestiário feminino? Sério? – e o pegou pelo braço, olhando de um lado pro outro enquanto saia apagando as luzes do vestiário e fechava o local. Todas as líderes de times tinham uma cópia da chave e eram responsáveis pela organização do horário de cada equipe ali. Era tudo organizado em escalas e horários que deveriam ser seguidas a mão de ferro.
_Ei, ei, calma – ela levantou as palmas das mãos em sinal de paz ao mesmo tempo que ela o empurrava para longe dos vestiários - _Notei que as cheerleaders já tinham ido e como só tinha sobrado você e a Cruz aqui, achei que era perigoso você voltar sozinha. Quer dizer, Josh falou que estava esperando ela então ela saiu e você não... e seu carro ficou longe também.
Aquilo fez o coração dela derreter. Afinal já eram quase 11 horas da noite, a quanto tempo ele estivera a esperando ali? Ela observou que ele já estava banhado e vestia calças simples de moletom com uma camisa azul de algodão e um grande Y marcado com mascote da faculdade, o bulldog Handsome Dan, no meio. Ele ficava muito bem com aquele azul, ela pontuou. Espera aí o carro dela?
_Meu carro? Como sabe que era meu carro? – ela cruzou os braços e parou para olhar para ele.
_Ah, ele chama atenção, não é? Eu não tenho carro, então vim caminhando da aula, um new beetle vermelho e a placa...
_OK, agora estou com medo, está me stalkeando?
Sam sorriu e os lábios dele ficaram maiores ainda, ela achava aquilo extremamente sexy.
_Lembra quando te tiraram das ferragens? A gente correu pro local do acidente, a primeira coisa que eu fiz foi olhar a placa para checar se não era uma confusão...gravei desde a época em que íamos ao Breadstix, por favor, não julgue um garoto de colegial que tinha o primeiro amor da vida dele.
Ela fez um bico e fez um grande esforço interno para se manter séria e não começar a olha-lo com um grande sorriso bobo enquanto caminhavam até a entrada principal. Ela não daria o braço a torcer, mas tinha ficado encantada com o gesto dele. Significava que não só ele estava observando como ela ficava em um traje de cheerleader, quando nem Biff ou Rosario se importaram com a segurança dela. Caminharam em silêncio tendo conversas forçadas e constrangedoras sobre o clima quando chegaram ao carro.
_Então está entregue – ele falou – ajeitando o próprio bolsão nos musculosos ombros.
Ela sorriu docemente para ele e por impulso, ficou na ponta dos pés e beijou acidentalmente o canto da boca dele quando este virou bruscamente o rosto.
_Er...obrigada – ela falou sem graça, encarando o chão, morta de vergonha enquanto tocava discretamente os lábios com o dedo indicador e o médio - _Me deixa te levar no Durfee Hall, é lá que você tá, né?
_Bem...
_Só quero retribuir o favor – ela se adiantou.
Sam concordou e pôs os dois bolsões na mala. Quinn engoliu em seco aquela bola fora enquanto colocava o cinto e Sam tomava o assento do passageiro.
Ao percorrer o pequeno percurso (nem tão pequeno assim a pé) até o dormitório dele enquanto All of Me, de John Legend, tocava na rádio.
_Obrigado por ter me trazido – Sam falou, olhando para os olhos dela, os quais ela tratava logo de desviar dele, mas concordou com a cabeça.
_Não, imagina, eu quem agradeço, você fez um gesto realmente lindo, Sam, eu apreciei muito.
Ele sorriu para ela e eles ficaram balançando devagar a cabeça um pro outro em movimentos curtos por uns segundos, quando Sam achou melhor sair e pegar o bolsão dele.
_Boa noite, Quinn, me manda um whatsapp pra dizer que você chegou bem, tá? Fica com Deus.
Quinn sorriu e o agradeceu mais uma vez mas, antes de dar ré, ela pode ver claramente um Peugeout conversível branco saindo em disparada pela rua.
