Era sexta quando as cheerios de Yale e os jogadores de futebol americano treinavam juntos. Também era o primeiro dia que Sam havia jogado como titular. Agora ele era o membro mais importante do time e a julgar pela reação do técnico Kerr e dos seus colegas jogadores, não tinha feito feio. Os rapazes o cercaram de tapinhas nas costas depois do fim do primeiro treino oficial.
Sam tirou o capacete e sorriu, o cabelo curto e loiro-cobre, agora sem tinturas para deixa-lo mais natural, estava mais suado que usualmente. Ele havia se esforçado para mostrar do que era capaz naquele treino, não queria que o odiassem por substituir Biff, que liderava o time a pelo menos três anos. Após uma curta conversa animadora com o técnico, ele rumou ao banheiro, os rapazes riam alto e zoavam uns aos outros enquanto banhavam. O atual quarterback titular notou que o amigo Blaine não dera sinal de vida o dia todo, talvez a rotina dele estivesse mais pesada que a de Sam, mas ele mal tinha visto o garoto no dormitório. Ao chegar, Blaine já dormia, ao sair ele já havia saído. Não entendia o porquê de tudo aquilo, mas talvez fosse só uma impressão.
Ele fora o último a sair do boxe, arrumava-se a passos de tartaruga, esperando Quinn terminar seja lá o que estivesse fazendo antes de acompanha-la ao carro. Provavelmente a técnica dela estivesse voltando semana que vem, então não seria nenhum suplício esperar uma velha amiga e acompanha-la em segurança.
_Boa noite, técnico, estou de saída – Sam informou ao homenzarrão negro que estudava as táticas do time numa mesinha da concentração.
_Boa noite, filho! Cuidado ao levar a namorada para o carro hoje, ouvi dizer que houve um ataque no campus... talvez sejam só boatos, sabe como essa gente é...
_Ela não é minha namor...
_Boa noite, amor! – um vulto ruivo agarrou Sam por trás, abraçando-o forte. – E boa noite, técnico Kerr – ela piscou para o homem – Espero que tenham tratado bem nosso novo quarterback.
_Emily, o que faz aqui? Já está tarde – Sam sorriu, meio sem-graça assim que Emily o puxou para um profundo beijo em frente ao treinador.
_Vim ver meu namorado em seu primeiro dia como titular – ela sorriu. – E vamos, não? Já está tarde e está especialmente frio esta noite.
Sam deu um último aceno ao técnico antes de sair, enquanto Emily se agarrava nele como um daqueles brinquedos antigos, Agarradinho Fofolete. Emily era uma boa namorada para ser sincero. Ela vibrava as vitorias dele, se inconformava com suas tristezas e sempre buscava o jeitinho dela para ve-lo feliz. Sam sorriu ao ver que a branquíssima pele da garota estava corada nas bochechas pelo frio inesperado que havia feito no final daquele dia e ela trajava apenas um vestido de crochê branco que eram pouco maiores que a barra da cintura e botas pretas brilhantes, que por sinal realçavam aqueles lindos olhos azuis-gelo. Ele tirou seu agasalho do time e colocou por cima dos ombros dela.
_Escutou dizer que tem um maníaco pelo campus? O técnico falou sobre um ataque semana passada, o que pode ter sido?
_Rosario e as meninas do Clube Feminista falaram algo sobre, mas nada concreto, acho que não passam de fofocas.
_Ems, é sério, já são quase meia noite e você tava me esperando um tempão aqui do lado de fora, é perigoso...
O rosto de Emily pareceu ficar ainda mais vermelho ao escutar aquelas palavras vindas de Sam. Ela escondeu o rosto no agasalho e olhou o namorado por cima dos olhos que agora brilhavam para ele.
Bem... adorável, pensou Sam, sorrindo pelo canto da boca.
_Agradeço pela preocupação, mas eu não poderia perder você jogar como titular pela primeira vez... é importante pra você – ela disse e levantou o queixo, olhando-o por cima, naquela conhecida atitude que muitos diriam pedante, mas agora Sam estava começando a achar que era mais como uma personagem criada por ela para que a temessem. Ele estava lendo O Príncipe de Maquiavel para as provas que viriam de Literatura Clássica. "Melhor ser temido que amado" era uma frase que ficara marcada desde que ele lera.
_Obrigado – ele sorriu e depositou um beijo nos lábios dela, que sorriu, emocionada, mordendo os lábios. Ele podia ter jurado que os olhos dela estavam marejados.
_Emily? – a doce voz de Quinn não parecia exatamente doce quando ela pronunciara o nome da amiga. – O que faz aqui a essa hora?
Quinn usava as mesmas botinhas de carmuça que deveriam ser patenteadas em seu nome. Por cima do vestido, o casaco das cheerleaders quebrava o look mulherzinha que ela tanto adorava.
_Lucy – Emily sorriu radiante ao ver a amiga e correu em direção dela, jogando os braços por volta da garota e beijando sua bochecha. – Viemos te levar até o carro.
_Ah, nossa, agora me sinto prestigiada pelo casal Samily me levar ao meu humilde carro – ela falou rindo para a ruiva, que sorriu junto, mas Sam podia notar uma ponta de amargura na voz dela.
Uma barulho alto demais quebrou o clima quando uma Harley Davidson preta parou exatamente em frente deles.
_Boa noite – ele se dirigiu ao pequeno grupo ali formado e depois a garota loira. – Vamos Quinn?
_Claro – Quinn pareceu conter um enorme sorriso, Sam podia dizer pela maneira que ela continha os lábios, contorcendo-os para cima. – Obrigada pelo gesto, pessoal. Não se preocupem, a técnica volta semana que vem e, Sam, ótimo jogo. – Ela recebeu um capacete preto e o pôs na cabeça enquanto o rapaz a ajudava a sentar-se na garupa.
Sam cruzou os braços e comprimiu os olhos ao ver Quinn passar as duas mãos abraçando o rapaz.
_Sammy... está com frio? – ele não percebera o próprio rosto avermelhando-se até Emily o encarar com os olhinhos de cachorro recém-nascido. Mas nada que indicasse que ele estivesse com ciúmes.
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Quando Sam acordou no sábado pela manhã levou as mãos a cabeça. Ai. A cabeça do rapaz girava. Ele deitou novamente e sentiu uma mão fina e delicada por baixo dele, fazendo-o levantar automaticamente e sua cabeça deu mais uma volta de 360 graus. Ele segurou o rosto entre as mãos e olhou para os lados. Emily descansava angelicalmente ali e Sam reparou que ela estava completamente nua envolta em lençóis brancos que não escondiam muita coisa.
Sam olhou em volta a procura de suas roupas e meneou o corpo para fora da queen size de Emily. Ele se vestia da maneira mais silenciosa e rápida que conseguiu. Não lembrava de nada depois que chegara no Alchemy Nightclub.
Ele abriu a porta segurando o resto do molho para não baterem contra a porta, se esgueirando na ponta dos pés para fora. Fechou a porta da maneira mais sucinta que poderia e só então olhou o relógio. Cinco da manhã. O sol ainda se espreguiçava no céu meio arroxeado para qual ele observava pelos vidros retangulares no final do corredor.
O rapaz não lembrava de nada, mas ao relaxar no sofá da salinha luxuosa das Kappas checou a cabeça em busca de informações da noite anterior. Lembrava de ter ido a boate com a namorada e encontrado alguns conhecidos da faculdade mas antes... ele engoliu em seco quando lembrara de Quinn na garupa de uma Harley Davidson caríssima de um sujeito mal encarado. Arriscou dar uma olhada para ver se ela estava no quarto, mas a maçaneta girou inútil quando ele tentou abrir a porta. Bom, ela poderia estar dormindo, claro. Era a manhã de um final de semana, todos se divertiam, pelo amor de Deus! É se divertiam... uma dor pontuda percorreu a espinha dele, como se enfiassem uma agulha nas costas do jovem Senhor Evans.
Ele balançou a cabeça como se quisesse se livrar daqueles pensamentos e se concentrou em dar o fora dali. Teria que ir a pé para a faculdade, o que daria uns 15 minutos, se ele não desse a sorte de conseguir um ônibus. Ao abrir a porta, escutou o peculiar barulho da noite anterior, dessa vez mais forte devido a ressaca. E lá estava Quinn descendo da garupa do motoqueiro mau encarado, que desta vez tirara o capacete para e desçera da moto para falar com ela. Ele se manteve por trás da coluna de mármore, rezando para que a dupla não tivesse o visto.
Sam notou que ele era consideravelmente mais alto que ele. Não parecia assim tão mau encarado sem capacete, mas os olhos e cabelos do rapaz eram muito negros que, mesmo de longe, emanavam uma aura pesada. Quinn sorriu para ele, mas baixava os olhos, mordendo os lábios, ele sabia muito bem que sinal era aquele. Ela estava babando o sujeito. Sam não conseguia ler a expressão corporal do cara, ele permanecia impassível diante dela. Não sorria e muito menos fazia menção e os braços permaneciam cruzados o tempo inteiro. Ele não demonstrava a mínima abertura naquela conversa, ao contrário da outra saidinha a frente dele que brincava com os dedos por trás das costas.
_Bom diiiaa – ele resolvera sair de trás da coluna de mármore, com os braços abertos e um sorriso falsíssimo em direção a Quinn, que o olhou surpreso e mal retribuiu aquele afeto estranho.
Ele notou que os dois também vestiam a mesma roupa da noite anterior e engoliu em seco.
_Sam...o q...ah,Emily – Quinn respondeu retoricamente, azeda.
_Ah, acredito que não fomos apresentados ainda, sou Jason Scott – o motoqueiro se adiantou, quebrando o clima tenso entre aqueles dois e estendeu a mão – Artes Cênicas.
_Samuel Evans, calouro – ele respondeu, forçando um sorriso falso para o tal Jason Scott – E então, da onde conhece a Quinn?
Ele pode sentir Quinn fuzila-lo com o olhar, poderia apostar que ela pensava que tipo de cara ele era para se meter na vida dela e essas coisas. Ela não entendia e não sabia separar amizade de algo a mais, como ele.
_Somos Romeu e Julieta – ele respondeu com aquela voz passional de quem não tinha pressa pra nada – Estrelaremos a peça juntos no final do ano.
Sam cruzou os braços e olhou de Quinn para Jason em um minuto atordoante e percebeu que eles trocavam olhares, os quais ele não conseguiu interpretar.
_Bom – disse Jason cortando o climão – Eu vou indo para meu alojamento, se não se importarem ainda pretendo dormir um pouco – ele pegou o capacete acenando levemente com a cabeça para Sam e Quinn.
_Ei – se adiantou Sam, sorrindo nervoso de Quinn para Jason – Pode me dar uma carona, amigo? Aproveitamos para nos conhecermos melhor, afinal, amigo da Quinn é meu amigo! – ele falou esperando que aquilo não soasse tão falso quanto realmente era. Talvez eles realmente se conhecessem melhor, se desse sorte o cara era até gay, o que era muito comum naquele curso. Queria que Blaine estivesse ali para ele poder usar seu gaydar.
Quinn revirou os olhos antes de dar o tchau mais seco que ele havia ouvido da boca dela.
