Quinn já havia espalhado inúmeros cartazes na faculdade anunciando sua tímida candidatura a presidência das Kappas. Tinha também começado uma pequena página sobre sua campanha no facebook, mas era difícil sem apoios notáveis como os que Stark tinha, ainda mais de todos os principais presidentes de fraternidade para quem ela tinha "trocado intimidades" e de favores que eram devidos a ela pelas presidentes de irmandades. Ela sabia que Maddie era a seu favor, e não de Emily, mas tinha de permanecer neutra como líder da irmandade, era questão de ética. Somava-se isso ao fato de que parecia uma tarefa um tanto complicada quando a fama de Emily tinha melhorado desde que ela havia começado a namorar Sam, "o adorável garoto que havia substituído Biff McIntosh". Até mesmo Vivian e Jenny haviam notado tal melhora, pois não se queixavam das ordens estilo megera há tempos. A loira bufou alto e olhou o relógio. Blaine estava atrasado a meia hora para a aula complementar de piano.

Ela escutou um toque na porta e girou a cabeça na esperança de que visse o capacete cheio de gel que Blaine adorava ostentar, mas a figura que a esperava na porta era seu parceiro de cena. Jason "Romeu" Scott estava parado a porta, com aquele olhar sombrio que ele cultivava. A noite anterior fora repleta de construções para os papeis de ambos, o rapaz parecia muito aplicado, havia pego ao menos três versões diferentes da obra de William Shakespeare. Mas algo nele a perturbava, não sabia se aquela aura era de tristeza ou algo mais obscuro. Um medo fino percorreu a espinha dela do cóccix até a linha do pescoço mas ela se obrigou a sorrir e parecer simpática com ele, ainda mais que ela podia ter jurado notar vestígio de ciúmes no episódio em que Sam conhecera o cara. Talvez ela pudesse brincar um pouco com aquilo.

_Oi, Fabray – Jason se aproximou – Posso? – perguntou ele se referindo ao banco do piano.

Quinn confirmou com a cabeça e esboçou um leve sorriso acolhedor.

_Sabe tocar o que? – ele perguntou, jogando a mochila no canto com a parede.

_Hmm talvez do-re-mi... – ela riu escondendo o rosto nas mãos – Pode sentar...

Jason assentiu e sentou-se ao lado dela, tomando uma pequena distância da garota. Ele observou os teclados do piano e depois olhou para ela.

_E você...sabe algo mais que do-re-mi? – ela prosseguiu e tocou as teclas pretas com os dedos vacilantes. Prosseguira a maior parte da noite escrevendo os personagens com ele no salão comunal, ele era extremamente calado e falava apenas o básico. Lembrava de ter se queixado várias vezes a Brittany e Santana como queria um homem que a ouvisse mais e falasse de menos, mas Jason já era um exagero.

A drop in the ocean

A change in the weather

I was praying

That you and me

Might end up together

It's like wishing for rain

As I stand in the desert

But I'm holding you

Closer than most

'Cause you are my heaven

A voz roupa ao estilo John Mayer saíra espantosamente da boca de Jason assim que ele tocara as primeiras teclas com precisão cirúrgica. Quinn podia sentir o coração derretendo a cada palavra da voz rouco-aveludada que saíra da boca do rapaz. Ele não parecia prestar atenção nos olhos marejados dela que o observavam com profunda surpresa. Como era possível se emocionar assim com uma música que se escutava pela primeira vez?

I don't wanna

Waste the weekend

If you don't love me

Pretend

A few more hours

Then it's time to go

As my train rolls down

The East coast

I wonder how

You'll keep warm

It's too late to cry

Too broken to move on

Ela não pensava exatamente no jovem que estava ali tocando aquela bela música. Na verdade, desde o primeiro parágrafo a sua mente traiçoeira a havia levado diretamente para um certo idiota que namorava uma de suas melhores amigas. Querendo atirar esses pensamentos para longe como frisbees, ela puxou o rosto do pianista que ali tocava e o beijou. O beijou como a muito tempo não beijava ninguém, puxando os lábios com urgência enquanto inclinava o corpo para cima do dele.

_Jason! – uma voz ecoou na porta da sala e as bocas dos dois se desgrudaram, provavelmente vermelhas em seus arredores pelas mordiscadas desajeitadas.

Quinn observou uma menina um tanto menor que ela levar as mãos a boca. Ela observou os dois com um olhar marcante antes de ir e a loira não lembrou de te-la visto pela universidade. Ela tinha cabelos castanhos claros, da mesma cor dos olhos, muito lisos e presos em um coque. Vestia uma roupa apertada de ginástica e carregava um bolsão como todos os atletas da faculdade. Escutou as marchas firmes da garota antes dela desaparecer pelo corredor.

Foi a primeira vez que ela viu o rosto de Jason exprimir uma reação. Refletia dor. Ele correu até a porta mas se segurou e deu meia volta, andando em círculos enquanto contorcia o rosto com um olhar choroso. De repente, a ponta de medo que tivera dele pareceu se esvair por completo, ele parecia um animal acuado naquela sala.

_Desculpe, Fabray, eu não queria...

Se tinha uma coisa que Quinn não era, era burra. Pegava no ar as fofoquinhas que existiam pela irmandade e pelo Glee Club, lembrava constantemente das chantagens que fazia para boicotar Rachel de se aproximar de Finn em seus anos de colegial. Bons tempos. Sem dúvida, a garota baixinha da roupa de ginástica era o motivo pelo qual o pródigo Jason Scott devia ter voltado de uma bolsa super-concorrida direto do centro do mundo, New York City.

_Fabray, eu vi como você olha para o Evans e como ele olha pra você, eu sei reconhecer aquele olhar – ele confirmou, visivelmente perturbado e sem conseguir encara-la.

Aquilo era até um pouco constrangedor, um homenzarrão daquele naquele estado em frente a uma linda garota como ela. Quinn tocou o braço dele com cautela, temendo que a aura sombria se manifestasse em forma de violência, mas Jason aceitou os toques carinhosos dela pelo braço dele.

_Jason, tá tudo bem, se acalma – ela falou com a voz maternal, agora levando a outra mão pelas costas largas dele, podia sentir os músculos dele se flexionando pelas costas. Ui.

_Amy Davis – ele anunciou depois de Quinn larga-lo e prontamente se recompôs limpando o rosto molhado – Só o que precisa saber é que minha namorada me traiu com um dos meus melhores amigos – ele completou com angústia.

_Foi por ela que você voltou – concluiu Quinn, retoricamente, sem precisar olhar o rapaz para confirmar o óbvio – Não vai dar outra chance a ela? Jase, isso parece estar te matando por dentro – ela falou carinhosamente, mas só o que recebeu foi um olhar duro. Parecia haver muito mais por trás daqueles olhos negros entristecidos.

_Eu sempre fui apaixonado por ela, desde que a conheci, e ela aceitou namorar comigo e me trair com o ex... por quê? – ele não mais olhava, fixou os olhos na porta, como se esperasse que a garota aparecesse ali de repente explicando os pros e contras do incidente.

Quinn sentiu a boca ficar seca. Mas... é sério, Deus? Não era como se aquela história não lhe fosse familiar. Jason parecia ser um cara fenomenal, devia ter sido um namorado perfeito... assim como Sam. Ele não merecia ser traído... assim como Sam. Mas ao menos Amy estava ali, provavelmente para lutar por ele de volta... diferente dela, que nada havia feito para consertar as coisas, além de mentir e reatar com o ex pensando, mais uma vez, no próprio umbigo. Ela não era melhor que Amy, que com certeza a estava odiando agora, como ela odiou Santana por trazer a verdade a tona. Do que ela lembrava, só tentara voltar com ele uma vez, com uma proposta ridícula de formar família... mais uma vez olhando para as próprias vantagens e seu objetivo era Beth e não ele.

_Jason... no que eu posso te ajudar?

Ele permaneceu em silêncio e a encarou por poucos segundos antes de desviar os olhos.

_Não jogou uma bolsa super-concorrida fora para não dar uma segunda chance para uma garota que deve ter ralado para ser aceita na mais disputada universidade da Ivy League – Quinn se surpreendeu com a imperatividade da sua voz, mas isso fez Jason a encarar esperando que ela lhe guiasse para alguma saída.

_Não quero parecer tão leviano – Quinn pode sentir a sinceridade na voz dele – As pessoas não dão credibilidade para o que é fácil demais, ela sabia que eu era apaixonado por ela e não pensou em mim quanto me traiu em um nível tão baixo. Talvez se tivesse sido mais sádico e bad boy ela teria me dado mais valor. Dizem que um pai ama sempre ao filho mais problemático, não é? Porque ele precisa amar dobrado para aceitar todos os problemas que aquele traz a ele e aquilo dispersa a atenção dos outros filhos... não sei se tem a ver mas acho que seguem a mesma lógica. Faz sentido para mim.

Um dia difícil para tantos tapas de luva sem o tão honrado Romeu se dar conta daquilo. Quinn se remexeu inquieta.

_Isso vai parecer colegial e infantil mas...

_Quer que eu finja ser sua namorada – Quinn completou, privando-o de mais aquela vergonha e ela viu o rosto do rapaz ruborizar – Ok, certo... mas por que eu?

_ Porque você não tem que mentir e dizer que está louca por mim. Porque eu não vou assediar você. Porque eu amo a Amy. Porque é o mais cômodo e fácil para ambos e... porque você já ama Samuel Evans – ele falou sem rodeios, atingindo a desavisada Quinn em cheio nas cicatrizes que ela já considerava fechadas.

_Eu não amo...

Jason apenas a olhou, com as mãos nos bolsos, e ela se calou, com um nó na garganta. Aquela verdade parecia surtir mais efeito que as outras ditas aquela noite. Doeu? Doeu. Mas ela apenas sorriu e aceitou o acordo que seu "namorado" havia proposto. Mas ela tinha mais algumas ressalvas a serem feitas.