_Isso é tão errado, tão errado... – Quinn murmurava baixinho enquanto dirigia. Fazia meia hora que eles haviam traído Emily. Não se sentia bem com isso, não era do feitio dele, mas quando ele e Quinn chegassem em Yale planejava assumir tudo. Ele sempre jogava limpo, acreditava que era por isso que fazia sucesso com as garotas (e algumas consideráveis horas de malhação também).
_Olhe, vou deixa-la em casa, ok? Entrarei em contato com a Emily e vou pra Tarrytown assim que meu pai sair do trabalho e vier me buscar – ele dizia olhando para os olhos dela, que tentava desviar, de vergonha – Ei, não se sinta culpada, não fez nada sozinha.
_Sam, o que a gente vai fazer? Eu não... – a voz dela falhou e ela levou a mão ao rosto.
_Eu não pretendo ficar longe de você mais nenhum minuto – ele falou, o sorriso fácil lutando para reconforta-la.
Ele a beijou no rosto e ela não falou nada, mas Quinn respirou fundo e ele entendeu que ela estava perturbada. Ela parou frente a um luxuosíssimo edifício na esquina da quinta avenida. A neve recomeçava a cair e as poucas pessoas que circulavam na rua andavam rápido e com as cabeças afundadas nos cachecóis, os olhos visíveis apenas por milímetros por baixo das toucas.
_Boa tarde, Jeff, como vai? – Quinn cumprimentou o manobrista com cortesia, enquanto outro tratava de pegar as malas de Sam e Quinn no porta-malas.
_E então...o que a gente vai falar pra sua mãe e o namorado dela? Que estamos juntos de novo? – Sam perguntou quando ela apertou o último andar daquele prédio.
Sam achara uma boa oportunidade de saber o que ela pensava. Ela parecia muito neurótica depois da transa deles e ele queria saber alguma posição sem se mostrar afobado demais.
_Não se preocupe com a minha mãe, ela adora você – Quinn falou sorrindo genuinamente. E ele sabia pela maneira que ela sorria, não apenas com os lábios, como com os olhos – De todos os caras que visitaram minha casa você foi com certeza o preferido dela... ela odiava o Puck. Foi um dos motivos de nunca termos assumido algo na escola. E ela ainda é meio ressabiada com isso dele ter mudado. Sobre o namorado dela...bem, tranquilo, ele só chega à noite com a filha pra comemorar o natal. É um homem muito ocupado, mas ele faz o que pode.
O elevador parou com um sonoro e elegante "triiiiim". O rapaz deixava as malas no canto do saguão de entrada do imenso apartamento quando ele escutou um gritinho agudo e viu de relance uma garota espalhafatosa jogando-se sobre Quinn.
_Quiiiiiiin irmãnzinhaaaaa eu tava MORTA de saudades, bebê – ela falava sem parar quando a loira olhava de Sam para ela com visível embaraço – Espera...esse é SAM EVANS?
_Sugar? – a boca de Sam caiu quando a garota lançou-se em cima dele, fazendo-o cambalear – AI MEU DEUS...PERA! Vocês dois voltaram?
Mal deu tempo de pensar quando a figura de Judy Fabray irrompeu da escadaria de mármore, correndo ao ver a filha. Ela estava muito diferente da Judy que Sam conhecera, uma recém separada acomodada as roupas que a deixavam pelo menos 40 anos mais velha do que realmente era. A senhora a sua frente passaria fácil por uma jovem de 30 e poucos anos. Usava cabelos brilhosos,longos e soltos até a metade das costas, e um vestido curto que batia pouco acima dos joelhos. Ela devia saber que ele apareceria por ali, pois não pareceu nenhum pouco surpresa depois de largar a filha de um longo abraço.
_Samuel, como vai? É muito bom vê-lo, querido – ela se aproximou e beijou as bochechas dele dos dois lados – Ficará para ceiar conosco? Isso é um convite.
_Ah, obrigado,aceitaria de bom grado, senhora Fabray, mas meu pai deve me pegar assim que sair do trabalho. Ele trabalha no Brooklyn e minha família está morando em Tarrytown.
_Querido, duvido que ele tenha conseguido sequer sair de casa nessa tempestade, vou mandar a Gabriela arrumar o quarto de hóspedes para você – disse Judy, batendo as mãos com elegância enquanto uma senhorinha latina adentrava o recinto com um sorriso contagiante no rosto.
_Andale, Andale,chico! – pelas aulas de espanhol meia-boca que o Sr. Schue ministrou ele pode entender perfeitamente que era levado ao quarto de hóspedes, a senhorinha continuava a empurra-lo quando chegaram ao banheiro e então o empurrou para dentro. Será que ele estava fedendo? Deu de ombros e achou melhor retirar as roupas enquanto a água esquentava e decidiu entrar assim que o vapor embaçou.
Sam não tinha pensado que estaria as vésperas de natal com Quinn e muito menos com a nova família dela. Aliás...dedutivelmente agora a loira e Sugar Motta eram irmãs postiças, o que significava também que Judy Fabray e o Sr. Motta estavam juntos. Não era o Sr. Motta casado? Ele só o vira umas duas vezes, doando coisas para o McKingley High...pensando bem nenhuma aliança a vista. Os Motta eram proprietários de lojas de móveis e Sugar havia comentado algo sobre a expansão de negócios para o ramo de imóveis algo como... Ei!
_A mãe da Sugar morreu quando ela era bebê... – definitivamente a voz de Quinn falou e Sam desembaçou o vidro com a mão para se deparar com o triste olhar da garota observando-o. – Quando Sugar nasceu, Al direcionou toda sua atenção a filha e aos negócios... ele só voltou a se interessar amorosamente por alguém quando pôs os olhos na minha mãe.
_Você tem algo a ver com meu pai ter conseguido emprego aqui – concluiu Sam, discretamente olhando por cima dos ombros da garota para se certificar que a governanta latina não estivesse por lá esbravejando palavras em espanhol, mas os olhos dele se depararam com a porta fechada.
_Sim – confirmou Quinn, seu olhar era vacilante e os olhos tremeram assim que ela mordeu os lábios daquele jeito que ela sempre fazia quando estava nervosa.
_Foi retórico...agora tudo faz sentido... por quê nunca me contou antes? – ele a observou com os olhos cerrados, a água caindo nos olhos.
_Tinha medo de que ficasse com raiva
_Raiva?
_Você é muito teimoso, não aceita ajuda... fiquei com medo de que achasse que eu estava duvidando da capacidade de vocês de se erguerem mas, Sam, eu conheci Steve e Stacy! Eu não podia deixa-los na mão! Dwight e Mary não aguentariam mais eles estavam exaustos e eu... – ela falava sem parar, o ritmo aumentando enquanto tudo saia incontrolavelmente da boca dela.
_Quinn...tá tudo bem – ele tentou dizer, o mais calmo possível e ela enfim pousou os aflitos olhos nos dele – Não tem o que te perdoar, você salvou a minha família... muito obrigado.
A preocupação nos olhos delas se desfez com um sorriso aliviado. Como ele poderia se zangar com aquilo? Quinn definitivamente tinha salvado os Evans de algo que ele não tinha ideia de como lidar mais. Ele voltara a escola e ao Glee Club e tinha seguido a vida porque agora tudo estava bem novamente. Ele sorriu para Quinn e só depois olhou para baixo e notou que o vapor no vidro estava se esvaindo. Quinn sorriu para ele em resposta e logo um sorriso maldoso tomou conta do rosto da garota.
_Eu tinha me preparado caso você não me perdoasse – e deixou o roupão cair entrando no box junto ao rapaz.
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Depois de uma animada meia noite na cobertura dos Motta, Sam achou melhor desligar o celular. Ele já tinha falado com a família e mandado mensagens desejando bons votos aos amigos com a velha desculpa do celular sem bateria. Tinha certeza que Emily passaria toda a madrugada tentando desesperadamente falar com ele e tudo ali estava bom demais pra ser verdade. Ele, Quinn e Sugar haviam cantado para Al e Judy, que até mesmo haviam improvisado um público com todos os empregados para aplaudi-los.
Al parecia ser um homem muito generoso, todos seus empregados o tratavam com muita cordialidade e eram tratados do mesmo modo. Ele havia permitido que os funcionários comemorassem com uma ceia tão farta quanto a dele e suas famílias ali estavam presentes. Sam achou justo agradece-lo pela oportunidade dada ao pai. Era meio embaraçoso ter dependido de Quinn, a quem ele tratou tão friamente assim que o pai conseguira o emprego.
_Vem, Sam, acho que tá na hora da gente dormir – Quinn falou, pegando o rapaz pela mão assim que eles haviam se despedido de todos.
_Ei, o quarto de hóspedes fica pra lá – falou ele, apontando para o sentido oposto.
_Eu sei – ela falou olhando de soslaio para ele – mas eu quero te mostrar algo – e continuaram a subir as escadas rumando a direção esquerda.
Era o quarto dela. Quantos quartos tinha aquela cobertura afinal? Ele se perguntou enquanto adentrava, sendo puxado pela mão. O quarto dela tinha papel de parede florido e ostentava várias prateleiras com troféus e medalhas com o nome dela defendendo a honra das cheerios. Havia um par de pompons em vermelho e branco pendurados na parede logo acima da cama e na parede oposta um grande mural com fotos das várias fases da vida de Quinn. Ela bebê, Lucy Caboosey... as fotos da fase "McKingley High" entretanto parecia ser a mais cheia e animada de todas. Haviam uma dupla de fotos dela com Finn e Sam sorriu com tristeza quando notou asas e auréolas desenhadas com caneta piloto. Puck também estava lá, mas com chifrinhos e tridentes desenhados nele fazendo careta. Ele jurava ter visto os mesmos adornos em fotos onde Rachel Berry tinha saído. Brittany e Santana tinha vários desenhos de corações em várias cores ao redor delas. Ele esperava profundamente que aquilo significasse que ela era Brittana Shipper e não alguma referência a Quinntana.
Os imãs que prendiam as fotografias no mural magnético eram grandes para sustenta-los e Sam também notou que haviam anotações por algumas fotos. Havia uma sessão reservada especialmente para Beth. Fotos delas duas no dia do parto, engatinhando, em pé, com Puck, Shelby. Sam sabia que para sempre ela se arrependeria de ter dado a garota para a doação. Perder Beth com certeza fora pior que a separação de seus pais.
_Não tem nenhuma foto minha – ele notou, desapontado – Por quê?
_Você sabe que a gente começou a namorar visando tirar vantagem um do outro – ela falou, sem tirar os olhos de uma foto dela encarnando Lucy Caboosey – Nessa época eu não me importei em prolongar aquele namoro por interesse. Talvez por isso eu tenha traído você.
Sam engoliu em seco. Faziam anos. E ainda doía igual.
_Quando eu tentei voltar com você, com a ilusão de ter Beth de volta, mais uma vez com algum interesse, você me rejeitou e correu atrás da Mercedes. Aliás, ela, Brittany, Santana...
_Onde quer chegar com isso?
_É que eu não sei por que eu ainda gosto de você. Eu não sei por que ter ao menos uma foto sua ali naquele mural doía tanto a ponto de eu nunca querer colocar uma foto sua lá.
_Não precisa entender nada – ele a virou para ele e a segurou pelos ombros – A gente só tem que esquecer tudo e recomeçar do zero.
_Esse é o ponto, Sam, a gente não pode. Depois que voltarmos as aulas, você vai ter que voltar para a Emily – ela falou e ele percebeu que ela estava a ponto de chorar – Eu sou amiga dela, como vamos assumir algo eu e você estando nessa condição? Fora que as eleições estão aí, já não é algo vazio, Sam, é minha vida profissional em jogo e eu não sou rica quanto a Emily. Eu não posso exigir nada do Al, não tenho esse direito e ainda o Jason...
Sam fechou os lábios e a abraçou forte, beijando a testa dela logo em seguida.
_Só não vamos pensar nisso, pelo menos hoje, ta? A gente vai arranjar um jeito...
_Eu amo você, Sam Evans, não pense que não é verdade porque eu nunca te falei isso – ela disse, olhando profundamente nos olhos dele e o abraçou. E então ele sentiu – e viu - um brilhante anel apertar os quadris dele. E sorriu aliviado, porque agora tinha certeza de que era verdade.
