Capítulo 1 – Origem
Há um conjunto de cidades que beiram uma montanha rochosa e rica em minérios no interior do Estado mais frio do país. São cidades pequenas, históricas e calmas, falando de forma generalizada. A mais visitada desse "arquipélago" chama-se Silent Hill, famosa por seus pontos turísticos um tanto românticos e pelos mistérios que se escondem em uma espessa neblina que se origina no Lago Toluca, um local considerado sagrado pelos nativos. Durante uma parte de minha infância, ouvi histórias sobre o lugar. As pessoas costumavam contar sobre bruxas e seitas satânicas que se faziam presentes naquela cidade coberta de segredos. Rituais, fogo, maldições e demônios... Eu sempre me interessei por essas coisas obscuras... Acho que é porque eu nasci e vivi em Silent Hill até os sete anos.
Fui criada pelos meus tios em North Ashfield porque meus pais morreram em um acidente de carro quanto eu tinha sete anos. Eu estava com eles, porém sobrevivi. Como bati forte com a cabeça, acabei perdendo parte da minha memória, portanto só me recordo de alguns acontecimentos do período anterior ao acidente – visões e imagens sem sentido que surgem como flashes, querendo fazer presença em mim. Até um certo ponto, eu não desejava ter meu passado revelado... Eu sei que pode soar estranho, mas eu tinha conforto e felicidade com meus tios e não queria perder-me no labirinto do tempo e espaço em busca de algo que não me traria bons sentimentos. Acho que eu amava meus pais, porém não tenho em mim aquela força e vontade de revê-los, muito menos saudades. Talvez isso seja uma conseqüência da perda de minha memória...
Quando fui adotada pelo irmão de meu pai, ele me registrou novamente, colocando seu sobrenome em mim. Assim, passei a me chamar Lanna Marine, filha de Ralph e Suzanne Marine. Considero-me filha deles, embora não corra em mim o mesmo sangue e eu nem os chame de "pai" e "mãe". Mas no meu mundo, o que importa é o sentir e não o ser. Eu sinto tudo e absorvo sentindo. Sou uma criadora de sentimentos – eles me perseguem e eu os roubo do ar, adaptando-os a mim.
Desde pequena mantenho o mesmo corte de cabelo – fio reto, descendo até um pouco abaixo dos ombros. Sou loira assim como minha tia Suzanne, mesmo não sendo filha dela. Meus olhos são verdes e há sardas em meu rosto e costas. Não acho que eu tenha sido uma criança tímida, dessas que têm vergonha de se aproximar ou de falar com os adultos. Era parte de minha rotina sentar-me com pessoas mais velhas e me entreter com assuntos de pessoas mais velhas! Por isso acho que minha personalidade foi logo sendo formada, sem atraso ou demora. Com dez anos, achava que me conhecia a ponto de escrever em um diário uma lista de sentimentos que podiam me descrever! Tão inocente, aquela imbecil que se sentava diante de uma luminária e punha-se a refletir sobre si mesma, viajando interiormente, atravessando as meninges da percepção. Tive muitos amigos, fiéis e divertidos, que me seguiram até os dias de segundo-grau. O mais importante deles se chamava Andrew. Eu o conheci assim que fui morar em North Ashfield – ele era meu vizinho. Conversávamos sempre que podíamos, ele me tratava com muito carinho, era atencioso e um perfeito confidente. Porém tudo pareceu desandar no meu aniversário de quinze anos, quando ele disse que gostava de mim. Eu não sentia isso por ele, nunca o havia visto como um namorado! Pode ter sido uma terrível resposta, mas não soube o que responder além de falar que o considerava meu irmão, de verdade! Consequentemente nos afastamos – ou melhor, ele se afastou de mim. Por vergonha, ou raiva. As pessoas quando não correspondidas tendem a se isolar, eu acho. O amor ou o gostar é uma planta capaz de florescer, tornando-se um campo de rosas; ou então se transformar em uma erva daninha, pronta para matar quem o está sentindo. Só voltamos a ser amigos como antes dois anos depois, ao entrarmos na fase adulta e ele perceber que fora algo imaturo não olhar mais para mim por eu não gostar dele... E desde então nunca mais nos separamos.
Aos dezoito anos, ingressei em uma faculdade de Jornalismo. Era um curso o qual eu me identificava bastante, pois era boa de escrever e falar em público. No decorrer do primeiro período, fui me viciando na comunicação de tal forma que não parava de pensar nas relações interpessoais. Eu queria que o subjetivo e o objetivo se unissem para criar uma maneira única de se comunicar. As palavras eram o início de meus planos, depois eu as passava oralmente, tocando os outros com meus pensamentos. Logo fiz amizade com professores, participava de palestras, redigia teses e conceitos explorando idéias, influenciada ao mesmo tempo pelo Jornalismo e pela Psicologia, outra arte que me encantava. O marketing nunca foi minha área, apesar de eu saber conduzir-me dentro dele. Estava completamente dentro do mundo universitário e tinha meus ideais como uma religião. Minha vida havia ganhado um rumo, eu estava pronta para embarcar na minha própria estrada. Contudo, no final desse mesmo ano, os sonhos e as dores começaram a aparecer.
Primeiro foi um pesadelo em uma noite quente de Outubro. Não lembro do que se tratava, só me recordo de acordar gritando alto, machucando minha garganta, sentindo uma dor intensa na cabeça e uma tonteira que fazia com que eu enxergasse o meu quarto como se estivesse dentro de um furacão. Eu suava frio e havia sangue em minhas unhas, que arranhavam a pele alva de meu braço, rasgando-me. Queria explodir, batia com a cabeça na parede a fim de fazer a dor parar, mas isso só piorava! A cada pulsar de meu sangue eu sentia um latejo que parecia a milésima gota de uma tortura chinesa. Meus tios acordaram assustados e correram para o meu quarto para saber o que estava acontecendo. Quando viram que eu não estava conseguindo falar por conta da dor, tio Ralph correu para a garagem e tirou o carro, voltando em seguida para me levar no colo até o automóvel. Eles me levaram até uma clínica, onde os médicos fizeram alguns exames e disseram que não havia nada de errado comigo, não existia nada que mostrasse a causa da dor. Eu estava louca?
Eu acho que meus tios não me contaram toda a verdade naquele dia. O médico passou um tempo conversando com eles em particular enquanto eu estava deitada na maca, sendo observada por uma enfermeira de aparência rude e cansada. Ela era morena e tinha os cabelos pretos presos em um coque que se escondia atrás do chapéu branco comum da profissão. Olheiras profundas rodeavam seus olhos e o olhar dela voava entre o inexistente e meu corpo inerte. Senti pena dela por uns instantes, até que meus tios entraram no quarto para me buscar e eu deixei de ter pena. Quando estava deixando a clínica, pude ler o nome dela em uma plaqueta presa ao bolso esquerdo de seu uniforme: Rachael Smith... Sei que pode soar insano, mas eu nunca esqueci o rosto dessa mulher. Conectei-me a ela como se nossas almas tivessem se interligado por uma corda invisível aos humanos e houvessem sido condenadas a caminharem juntas pelo mundo... Por toda a eternidade.
Minha rotina não chegou a mudar após o pequeno incidente. Tio Ralph comprou uns remédios e me fez tomá-los durante alguns meses; eu continuei estudando e fazendo tudo o que fazia antes. As dores de cabeça iam e vinham todos os dias; para tentar melhorar, eu pressionava meus indicadores em cada lado da cabeça e fazia uma massagem com movimentos circulares. Geralmente eu dormia enquanto estava nesse processo e, ao acordar, nunca lembrava dos meus sonhos. Quando completei dezenove anos houve uma pequena comemoração em minha casa – Andrew e alguns outros amigos compareceram, mais alguns parentes de tia Suzanne, gente com as quais eu não tinha muito contato, mas que mesmo assim faziam questão de aparecer todo ano em meus aniversários. Foi um dia normal. Nublado, como todos os outros.
Em Março do outro ano eu passei por outra crise: dessa vez mais longa e violenta. Sonhava que eu estava no quarto de um casarão e chorando alto, muito alto. Devia ter uns cinco ou seis anos. Havia gritos vindos do andar debaixo, a cada palavra eu me encolhia mais na parede fria que me rodeava com suas garras afiadas. De repente, eu vi sombras avançando contra mim; elas vestiam capuzes triangulares, algumas caíam de joelhos e se dobravam no chão, contorcendo-se e gritando. Sangue escorria das paredes, o ar cheirava a ferro enferrujado e casulos humanos pendiam do teto; casulos que envolviam seres humanóides e cheirando a putrefação. Eu gritava mais e mais, contudo as pessoas que brigavam lá embaixo não me ouviam, e as sombras não paravam de vir na minha direção. Logo me tocariam com suas mãos de dedos longos e podres. Quando eu vi que não havia mais saída, ergui-me emanando uma aura poderosa e intensa, um brilho descomunal tomava conta de todo meu corpo, e me dirigi até elas, fazendo-as sofrerem a cada passo meu. As sombras não gostavam de mim, elas eram demoníacas, escravas da terra dos imperfeitos e abandonados. Eu era a marcha branca, a luz-guia, que as faria voltar para a fossa. Então eu já não era mais criança, e sim uma adulta com um bebê no colo... Um bebê ensangüentado e que comia meu braço com seus dentes pontiagudos... Até que acordei, mais uma vez berrando de dor. Antes mesmo que meus tios alcançassem meu quarto vi tudo rodar e caí no chão, enxergando apenas a escuridão.
Cheiro de éter, simetria de pureza, toque leve e sem manchas. A clínica – havia retornado para a clínica. Minha visão embaçada não me deixava ver muita coisa, apenas uma silhueta sentada não muito longe de minha maca. Alguns minutos depois pude constatar que era minha tia, que descansava com a cabeça encostada no próprio ombro e a boca aberta... Devia estar cansada. Não fazia idéia de quanto tempo ficara desmaiada, portanto seria injusto da minha parte acordá-la de um descanso. Mantive minha postura de paciente e coloquei-me a estudar o teto sobre mim. Imaginei que ali havia constelações. Estrelas que formariam o que eu desejasse... Naquele momento eu não sabia qual desenho apareceria, já que o que eu vinha buscando era apenas a paz interna, algo impossível de ser desenhado.
— Lanna! — minha tia havia acordado e agora estava ao meu lado, segurando minha mão e verificando minha temperatura. — Que bom que acordou! Seu tio estava tão preocupado! Ele foi para casa porque tem que trabalhar logo mais. Vai ficar contente em saber que você acordou.
— Por quanto tempo eu fiquei desmaiada?
— Bem, quando nós chegamos ao seu quarto, você estava caída no chão, tremendo toda e com os olhos fechados — ela falava pausadamente, escolhendo as palavras. Parecia aflita, não queria me contar tudo o que havia acontecido. — Ralph a levou até o carro e nós viemos correndo para cá. Os médicos acharam que era melhor te aplicar um sedativo para você dormir. Acho que não queriam que tivesse um sono muito... — a voz dela foi diminuindo até sumir, deixando clara a intenção de esconder de mim a verdade.
— Não queriam que eu tivesse um sono o quê, tia? — insisti, tentando extrair dela a maior quantidade de informações sobre meu estado. — Por que tanta cautela para me contar o que anda havendo comigo? Tem a ver com o acidente de quando eu tinha sete anos?
Ela chegou a abrir a boca no intuito de dizer algo, porém recuou em passos cambaleantes. Eu olhei bem fundo em seus olhos azuis e me prendi naquele brilho vertiginoso, que não existia e me iludia e me fazia voltar, voltar, voltar... Estava com tanto sono, minha vista cansada pesava. Cedi ao desejo, aos sonhos, fechei-me novamente. Até quando isso ia durar?
...Eternidade. Algo que nunca termina. O infinito me aguardava no fim da estrada escura e nebulosa, um lago sagrado inundado de corpos sedentos por paz. Eu poderia ser mais um deles se continuasse a caminhar pela corda bamba do provável. Contudo, tinha a meu favor algo que vinha me tomando desde que eu começara a sentir as dores: uma coragem, tão forte que apagava todo o cinza da minha personalidade. Estava deixando de ser covarde para entrar de vez na guerra. Já era hora de descobrir meu passado, minhas origens, desvendar todas as coisas. Meus tios não me ajudavam. Durante aquele ano inteiro eles nada falaram a respeito do período anterior ao acidente que causou minha perda de memória. Era óbvio que havia uma ligação plausível entre as duas coisas, teria que achar as respostas sozinha.
Pouco tempo depois do meu nonagésimo aniversário, chamei Andrew para um passeio pelo parque arborizado de North Ashfield para refrescar a mente deitada na grama sobre carvalhos. Eu conversaria com ele sobre um plano que montara na noite anterior, algo arriscado e perigoso. Se eu conseguisse convencê-lo, ele seria meu cúmplice naquela loucura. Andrew era um ano mais velho do que eu, portanto já tinha vinte anos, era branco e tinha cabelos escuros e lisos. Suas feições eram fortes e expressivas, olhos grandes e azuis sob sobrancelhas grossas e escuras. Estava deixando a barba crescer, mas esta ainda estava meio rala, por fazer. Era alto e tinha um corpo saudável por conta dos esportes que praticava com freqüência. Bonito e educado, um marido perfeito para qualquer mulher daquela cidade. Infelizmente ele ainda não havia deixado de gostar de mim e nunca aceitava nenhum pedido de namoro ou nem mesmo fazia um. Eu tinha meus casos não muito sérios com poucos rapazes da faculdade, mas não o deixava tomar conhecimento disso; sabia que ele poderia se afastar de novo, tinha medo dos sentimentos dele não o deixarem agir como um adulto normal faria. Acho que por causa dele eu nunca namorei sério com ninguém... O tempo todo eu pensava só nele, na forma a qual ele me trataria caso eu o dissesse que estava namorando ou gostando de alguéMm. Acabei me prendendo completamente por causa disso e não construindo uma cadeia de relacionamentos decente.
Andrew havia preparado uma cesta de lanches e eu levara uma toalha para montarmos uma espécie de piquenique. Conversamos sobre muitas coisas, eu o falei de meus pesadelos sádicos e bizarros e das dores que me atormentavam. Fui trilhando esse caminho até chegar ao ponto que eu queria: Silent Hill – a cidade onde eu vivi com meus pais.
— Andrew, o que você sabe sobre Silent Hill? — ele franziu o cenho enquanto pensava na minha pergunta. Eu sabia que passava pela cabeça dele todas as histórias e lendas urbanas, todos os medos e terrores; já eu, sempre que tentava recordar-me da cidade, via apenas manchas negras e sentia-me dentro de todas as histórias que contavam sobre o local.
— Nada demais, só o que você já deve ter ouvido. "A cidade amaldiçoada", "A cidade da névoa", coisas do tipo — ele apoiou o cotovelo na grama e deitou-se de lado, olhando para mim. — Por quê?
Eu devia contar-lhe a verdade? Ele me ajudaria? Talvez, por gostar de mim, ele fosse me ajudar. No entanto eu não devia me aproveitar dos sentimentos dele para algo que só traria benefícios para mim. Mas um impulso me tomou e eu pus pra fora tudo o que estava guardando, um desabafo profundo e reconfortante.
— Meus tios nunca me falaram nada sobre o tempo em que meus pais eram vivos. Poucas foram as vezes em que eles me mostraram fotos dos dois. Eu nunca me importei com isso, já que a minha memória não me permitia sentir saudades dele — eu ia falando enquanto ele prestava muita atenção em cada palavra minha, concordando com o que eu dizia. — Mas ultimamente eu tenho visto tanta coisa que estou confusa... Eu quero descobrir a verdade, Andrew! Tio Ralph trabalha o dia inteiro, chega em casa e vai dormir. Tia Suzanne também não gosta quando eu a pergunto sobre Silent Hill. Por quê? Qual é o segredo que eles tanto escondem de mim? Até mesmo quando eu fui examinada por médicos eles preferiram não me contar a causa das dores de cabeça! Eu sei que é por causa do acidente, talvez minha memória esteja voltando aos poucos, entende?
— E o que você pretende fazer?
Respirei fundo. Olhei nos olhos dele, sabia que ele tentaria me parar ou dizer que eu não podia fazer isso. Mas estava decidido. Ou ele me ajudaria, ou se calaria e esperaria acontecer.
— Vou fugir para Silent Hill amanhã de madrugada. Você viria comigo?
A carta estava na mesa, só faltava saber se ele a pegaria ou não.
