Capítulo 2 – Estrada

O ar frio era denso e cortante, mas eu mantinha a janela aberta, pois tudo estava muito pesado e tinha que ser renovado. O carro avançava solitário pela estrada, com faróis iluminando o nada. Naquela estrada, as almas eram os nossos guias.

Andrew dirigia com cautela, porém ligeiro – eu o avisara que queria chegar a Silent Hill o mais rápido possível. Eram quase três da manhã, meus tios provavelmente dormiam em sono profundo enquanto eu seguia meu vil destino.

— Quanto tempo falta? — perguntei com a voz sonolenta. Estava encolhida no banco do carona, cobrindo-me com um cobertor de lã.

— Não sei, nunca dirigi para lá — ele olhou para mim e percebeu que eu estava tremendo. — Veja como você está! Feche esse vidro antes que morra congelada.

— Não precisa. Dizem que a noite de Silent Hill é fria mesmo no verão. Quero me testar — dei um sorriso trêmulo. Meu queixo batia invariavelmente.

— Deixa de doideira!

Debruçando-se sobre mim, ele fechou a janela, voltando para a posição ereta em seguida. Sempre tão preocupado e amigo. Por que tinha que sofrer por minha causa? Quando o disse que ia para Silent Hill, ele demorou um pouco para concordar com a idéia, mas depois de um tempo de insistência ele sorriu e disse:

— Se é para o seu bem, eu te ajudo sim. Pode ir no meu carro, eu a levo até lá.

Combinamos que ele passaria na minha casa às três da manhã em ponto. Eu sairia pela porta da frente silenciosamente e entraria no carro. Meus tios, assim que soubessem que Andrew também estava desaparecido, associariam os dois desaparecimentos. No entanto isso não era um problema, seria até bom para eles saberem que eu não estava sozinha.

Não deixei bilhete algum informando meu destino. Acho que pela pressa acabei me esquecendo desse detalhe. Teria sido melhor se eles houvessem tido conhecimento que eu estava indo para Silent Hill? Bem, por um lado sim – chamariam a polícia e iriam atrás de mim naquela cidade. Mas eu não sabia para onde estava indo; para mim, Silent Hill era um lugar como todos outros. Tão tola.

— Deve ser difícil para você ter perdido as lembranças de uma época tão importante na sua vida... — Andrew disse isso sem olhar para mim, fixava-se na estrada dentro da penumbra. — Na minha infância eu fui muito feliz.

Infância, algo que eu parcialmente tive. Às vezes, quando vou dormir, me pego tentando quebrar os vitrais que só me deixam ver essa tão preciosa época de forma embaçada, sem foco. Sinto saudades de quem não vi e do que não sei se vivi; sinto falta da alegria e dos acontecimentos que preencheram meu tempo. Não gosto de me comportar como uma depressiva, porém não posso negar que as lágrimas estão sempre presentes em minhas madrugadas. Quando as dores me alcançam e é insuportável fechar os olhos, eu vou para a janela e me confesso ao céu, buscando respostas e ajuda. Como é viver uma vida enxertada de buracos? Os sonhos e os pesadelos se fundem nesses momentos de reflexão e eu vejo coisas que não saberia descrever em um papel. Figuras octogonais, geométricas, de muitas cabeças e braços. As bestas do corredor da morte, que me aguardam prontas para sugarem meu sangue e o devolverem à natureza. Elas me querem, babam por mim, têm olhos vermelhos que brilham e pulsam famintos no escuro. Eu me ajoelho e a dor me domina, e então elas se aproximam, os monstros! Prestes a me cortar a cabeça, somem com a brisa noturna, voltando para minha mente. E então eu choro.

— Não sei responder a essa pergunta, Andrew. Prefiro não entrar nesse assunto.

Se eu tivesse continuado, meus pensamentos me torturariam ainda mais quando eu me perguntasse sobre a felicidade, algo que ainda desejo muito desvendar, contudo sei que é impossível. A felicidade é a trilha definitiva para o paraíso, mas como encontrá-la?

— Tudo bem — ele voltou-se para mim e sorriu. Eu o olhei nos olhos por um tempo até que ele se virou novamente para frente.

— Obrigada por ter vindo, Andrew.

A gratidão que sentia por ele não foi totalmente passada por causa das palavras vagas e leves. Eu queria ter mostrado mais, muito mais, sendo que não encontrei uma forma. Agora eu sei que um beijo teria representado todos os meus sentimentos. Tão tarde, tão tarde, tão tarde. Por que assim? Então eu digo outra vez, sozinha, deitada em meu canto dessa clínica: obrigada. Sinto muito, Andrew...

Uma casa de dois andares e vermelha, muitos quartos na parte de cima e uma sala imensa e sem móveis ou repartições embaixo. Havia uma luz amarelada que entrava por inúmeros janelões que envolviam a sala do térreo; uma luz que deixava claro que lá fora o sol estava indo dormir. Eu descia as escadas circulares e observava um casal parado no meio do grande salão, um de frente para o outro. A mulher tinha cabelos curtos e loiros e usava brincos cor-de-rubi. Vestia uma túnica negra com um símbolo laranja desenhado na parte frontal, na altura do peito – um símbolo redondo que eu não conseguia enxergar os detalhes por estar distante dela. Tal símbolo brilhava descomunalmente e aborrecia o homem, que toda hora olhava para ele com cara emburrada. Esse homem parecia ter quase cinqüenta anos, tinha cabelos e barba grisalha. Usava um terno que o dava um ar de homem de negócios – formal e intelectual, com óculos de grau que bloqueavam seu verdadeiro olhar.

Ao alcançar o primeiro andar, depois de descer todo o lance de escadas, fui me aproximando bem devagar de onde eles estavam. Não conversavam e pouco se encaravam. A mulher parecia querer sair dali o mais rápido possível, tinha um compromisso com a vida e com Deus. O homem era a força que a mantinha presa ao chão de pedra fria. De repente, percebi que havia linhas de coloração avermelhada pairando no ar; linhas de costurar, formando círculos e se desenrolando em seguida. Havia também uma música, um piano tocava sozinho em seu canto, embalando uma canção fúnebre, mas que se encaixava com a ocasião. Eu queria tirar algum dos dois para dançar, ou sair fazendo passos de balé clássico para chamar-lhes a atenção. Desejava, e como desejava, que percebessem a minha presença e olhassem para mim, que me chamassem para a roda e me incluíssem no mundo deles. Porém eles só viam um ao outro e nada além. Ela, tão religiosa, gostava de deixar a janta pronta e ir para a igreja rezar para o mundo melhor que estava por vir; ele fazia cálculos em uma máquina de escrever que também estava naquele salão, jogada ao léu, perto do "piano-fantasma". A canção era minha para eles ouvirem, outrora eu estivera ali. Lanna tocava o piano, porém ninguém a via. Eu era um fantasma e eles dois não tinham a quantidade certa de sensibilidade para me tocar. Constatando isso, agachei-me e envolvi os joelhos com meus braços pequenos de uma criança que beirava os seis anos. Chorei em silêncio, guardando toda a dor para mim. Uma voz me chamava ao longe, mas eu não queria atendê-la porque não desejava sair daquele mundo. Aos poucos a voz foi gritando meu nome mais alto, eu me negava a respondê-la, o casal dançava, dançava a valsa da morte, eu me recusava a atendê-la, a voz chamava, as lágrimas caíam, ações, mil ações. Quem era eu?

— Lanna!!! Lanna!!! — Andrew me balançava, eu gemia e um suor gélido escorria da minha testa. Eu sussurrava palavras impossíveis de serem entendidas; não fazia questão de despertar do sonho, queria mais, mais sofrimento!

— Lanna, acorda!!! O que tá acontecendo?

Meus olhos se abriram de repente. Primeiro somente o silêncio se fez presente e, em seguida, veio um grito agudo de medo e pavor. Eu estava vendo monstros por todos os lados, monstros gigantescos, de pernas finas e marcadas por espetos. Queriam me tirar do carro, por isso o balançavam muito, a ponto de o levantarem aos céus com seus longos braços e ameaçarem jogá-lo de volta para o chão. Os monstros não tinham cabeça, eram como gravetos de quase cinco metros com braços e pernas finas e apavorantes.. Andrew não conseguia vê-los, parecia atento apenas a me fazer parar de gritar. Mas como eu pararia se aquelas criaturas queriam nos matar e depois nos dilacerar? Eles balançavam o carro lá no alto, eu tremia em convulsão, sem forças para controlar o medo que me tomava conta. Sentia dores agudas que faziam com que minha cabeça se quebrasse em mil pedaços e depois voltasse à forma original. Tudo só foi desaparecer quando bati os olhos em uma placa de estrada iluminada por luminárias que dizia:

Bem-vindo a Silent Hill.

Havíamos chegado à minha origem, estávamos no ponto de partida para a minha busca secreta e urgente. O que estava acontecendo comigo agora que o primeiro passo do meu plano se cumprira? Por que entregar-me às ilusões e às dores? Eu só tinha que me concentrar na procura de mim e deixar de lado os devaneios. Então, os "monstros-graveto" desceram o carro e o depositaram no chão e depois foram embora em direção ao horizonte nebuloso. A dor não sumiu completamente, mas perdeu intensidade. Andrew continuava me gritando e me balançando, enquanto eu sonhava acordada. Despertei de vez em sobressalto e acabei batendo minha cabeça na parte de cima do carro.

— Você está bem?! — ele estava apavorado, era possível decifrar isso em sua expressão. Talvez estivera pensando que eu fosse morrer de tanto gritar.

— Eu acho que sim... — respondi, massageando a área onde havia batido com a cabeça. — Chegamos, então?

— É o que parece...

Nossos olhares seguiram juntos para a placa, cujas letras bruxuleavam na madrugada fria. Senti um frio na espinha e uma certa ânsia de começar. Estava tão perto de me descobrir que não parecia verdade. Queria sair daquele carro o mais rápido possível e começar a perguntar a todos se já haviam ouvido falar de uma garotinha chamada Lanna que perdera os pais em um acidente de carro há doze anos. Poderia não ser fácil como eu estava achando, talvez eu tivesse que passar dias em Silent Hill até ter coletado todas as informações que precisava para entender o que diziam meus sonhos. Já tinha em mente o meu destino depois dali: uma clínica e depois um consultório psicológico. O futuro era promissor e não havia nada que pudesse me fazer desistir das minhas idéias.

— O que aconteceu com você, Lanna? — Andrew me perguntou, mais serenamente.

— Eu estava tendo um sonho ruim... — Respondi, meio envergonhada por ter agido como criança na frente dele.

— Um pesadelo? Como foi? Estava tão assustada!

— Não me lembro bem — era mentira. Lembrava de cada detalhe do sonho: do ar amarelado, da música, do casal intocável e dos monstros...

Andrew tirou o cinto de segurança e virou-se para o banco de trás, pegando uma bolsa média de viagem. Ele abriu um bolso pequeno na parte da frente e dali tirou um mapa dobrado em quatro. Mostrando o mapa para mim, ele disse:

— Vou deixar com você, é o mapa da cidade.

Ao perceber minha expressão de desentendimento, ele acrescentou:

— O carro parou de funcionar, parece que acabou a gasolina.

— Mas isso é impossível — disse eu, arqueando as sobrancelhas. Não havia como a gasolina ter acabado em tão pouco tempo, nós havíamos abastecido o carro antes de deixarmos North Ashfield.

— Eu sei que é, mas não há nenhum outro problema. O painel indica que não tem mais combustível.

— Andrew, quando foi a última vez que você fez uma manutenção nesse carro? Achei que estava tudo certo com ele.

— E estava! — ele também estava desorientado, tão surpreso quanto eu. — Pode ser algum outro problema, mas eu não entendo praticamente nada de mecânica. Por isso estou indo procurar um posto de gasolina ou uma oficina. Deve ter algum dos dois por perto, essa cidade nem é tão grande assim.

— Pretende sair sozinho? — nunca. Ele não sairia daquele carro sem mim. — Quer sair andando pelas ruas de uma cidade que nunca visitou às cinco da manhã?

— Não só pretendo como irei — convicto do que falava, ele abriu a porta do carro e saltou. Não seria deixada para trás, era perigoso demais para ambos ficar separado.

Inconformada com a decisão dele, também desci do carro. Eu estava vestindo uma blusa de pano fino e calça jeans, sem nenhum agasalho extra – dessa forma, não estava preparada para o frio que me tomou assim que saltei. Estávamos no meio de uma estrada dupla, literalmente na entrada de Silent Hill. Atrás de nós havia um túnel tão escuro que era impossível enxergar seu início. Tudo era tão sinistro e obscuro, calafrios tomavam conta do meu corpo, fazendo-me tremer. Havia uma neblina incomum que não possibilitava uma visão muito além do campo iluminado pelos faróis do carro. Além da névoa, a madrugada era sombria em demasia, sem estrelas ou lua.

— Lanna, você tem que voltar pro carro! — ele veio até mim, pegando minha mão com o intuito de me levar de volta ao automóvel.

— Não vou ficar te esperando voltar, Andrew. Isso não! E por que o mapa tem que ficar comigo e não com você, que vai sair por aí se aventurando por uma cidade desconhecida?

— Eu tenho uma cópia, fiz questão de comprar dois na loja de turismo — respondeu ele, tirando do bolso de sua calça jeans um mapa idêntico ao meu.

Ele se aproximou mais de mim, de modo que eu ouvia sua respiração. Tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. Mais um passo e eu teria cedido aos seus sentimentos, teria me entregado sem saber se gostava dele ou não. Andrew era um amigo presente, uma companhia confiável e uma pessoa a qual eu tinha um carinho enorme. Não havia como saber que me arrependeria no futuro pela ação não concluída naquele instante, por isso recuei um pouco, afastando-o ainda mais da geleira que me envolvia. Percebendo meu afastamento, ele pousou suas mãos em meus ombros e disse, quase sussurrando:

— Não ache que vou fazer algo que sei que você não quer.

— Não, não é isso, Andrew. Eu...

— Eu te entendo — ele sorria, eu me perdia em seus olhos, azuis como a noite. — Se realmente se importa comigo, se gosta mesmo de mim como amiga, volte para o carro. Não tem como saber se o que contam é verdade ou mentira, mas eu concordo que essa neblina esconde muita coisa assustadora. É tudo muito inseguro, perigoso. Se é pra acontecer alguma coisa, que seja comigo; você ainda tem o seu passado pra descobrir.

— Não adianta vir com esses discursos, Andrew, isso aqui não é um filme de heroísmos! Eu não vou ficar sentada esperando enquanto você pode estar correndo perigo! Não faz parte da minha personalidade.

Ele largou os braços sobre o corpo e abaixou a cabeça, vencido. Eu o acompanharia por todas aquelas ruas, encontraria com ele um meio de fazer o carro andar novamente. Logo seria dia e nós poderíamos começar nossa busca – não sem antes descansarmos em um motel.

— Obrigada mais uma vez, Andrew.

Eu passei por ele, que continuava na mesma posição de derrota aparente. Dirigia-me ao carro para pegar um casaco na minha mala, não agüentava mais de frio. Ouvi alguns passos apressados atrás de mim e um pedido de desculpas, e logo em seguida a escuridão cobriu meus olhos. Eu vi sinais de fogo e de gelo, uma fusão de verdades e mentiras, além dos seguidores da cruz em chamas. Meu corpo caiu sobre o chão, desacordado. Ao meu lado estava Andrew, ainda com o punho esquerdo no ar, hesitante. Em dúvida se havia feito a coisa certa ou não, me pegou no colo e levou-me de volta ao carro, colocando-me deitada no banco de trás. A estrada a sua frente o levaria a um labirinto de ilusões transformadas em monstros. Ele seria capaz de vencer o próprio passado?