Capítulo 3 – Ataques
Um estreito e comprido corredor, as paredes feitas de ferro já oxidado e cobertas de desenhos grotescos, como corpos sem cabeça e crianças enforcadas. A iluminação precária era feita por tochas dispostas dos dois lados, não muito longe uma das outras. Atrás de mim havia uma porta que me permitia voltar ao ponto de início – retornar à realidade. De sua fechadura pendia um molho com duas enormes chaves – uma manchada de sangue e a outra em seu estado normal. No final desse corredor havia uma outra porta: essa me levaria ao próximo estágio ou ao fim de minha odisséia. No centro do caminho um símbolo desenhado na parede esquerda se fazia presente: uma circunferência com mais três círculos dentro, que formavam uma espécie de triângulo de cabeça para baixo. O brilho laranja do símbolo podia ser visto de longe, mesmo ele estando entre duas tochas cujas chamas poderiam encobrir sua luz.
— Passado, presente e futuro — disse uma voz grave e invisível, que parecia existir somente para os meus ouvidos. Não senti vontade de respondê-la, já ouvira falar sobre esse símbolo em algum lugar de minha casa de memórias.
Eu tinha a aparência de uma menina de seis anos de idade e estava completamente nua – era uma criança à mercê do medo. Sentia um desejo incomum de me postar frente a frente do círculo laranja para sugar toda a energia que ele me oferecia. Com passos hesitantes, fui me aproximando para observá-lo mais de perto e, ao estar diante dele, veio-me uma sensação de fraqueza e minhas forças foram se esvaindo, causando-me um possível desmaio. Fechei os olhos, tentando me concentrar, mas estava caindo. Porém eu não perdia as forças, e sim ganhava mais poder – o símbolo era a fonte para a alimentação de minha mente, ele me entregava sua tinta, sincero e bondoso.
— O Disco do Sol — falou mais uma vez a voz, um pouco mais grave e austera do que antes. — Seus círculos representam as três camadas temporais.
Naquele momento, a ilusão era a realidade e o prazer minha esperança de sair do pesadelo. Eu e eu nos confrontávamos – a força que o Disco do Sol me passava contra minha covardia cinza de criança imatura. Mentalmente, eu conversava com os antepassados de mim – as sagradas sombras. Eram delas que partia aquela voz grave. Essas sombras buscavam me ensinar como executar o bem da humanidade com minhas próprias mãos e força. Falavam-me que eu poderia ser a salvadora do mundo se eu quisesse – eu levaria embora o pecado e a fome e traria apenas a paz eterna. Além disso, davam-me dicas de como proceder após a dor e o sofrimento pelos quais eu passaria. Sussurravam em meu ouvido que tudo era um teste para que eu pudesse ser considerada a salvação. Elas eram reais ou apenas frutos da minha imaginação?
— Nossa adorada criança — começou a voz. — Não sinta medo agora. Purificar-te-emos de todos os pecados, deves apenas permanecer parada e então sentirás a dor da misericórdia. Para dar início ao Ritual da Purificação, precisamos de uma Testemunha: o Mago!
Assim que a voz terminou de falar, o símbolo circular sumiu completamente. Bem à minha frente nasceu da parede uma válvula também laranja e meio enferrujada. Ela girava sozinha, seu movimento giratório e contínuo me causava ânsias de vômito. Porém não era apenas isso o que havia surgido – de dentro do ferro emergiu uma criatura bizarra, humanóide e rastejante, capaz de caminhar de quatro pela parede como uma aranha. Sua pele era fétida e enrugada, meio empalidecida, cheia de buracos e cicatrizes, e em alguns pontos de seu corpo sua carne havia se acumulado e formado um "bolo" de músculos. Sua cabeça vibrava como um sino que acabara de ser tocado e não possuía feições, era apenas uma pele lisa no formato de um crânio, com saliências no lugar dos olhos, bocas e nariz. Ele vestia uma espécie de avental, completamente ensangüentado, e botas de açougueiro. O monstro circundou algumas vezes a válvula e eu nada fazia a não ser olhá-lo. Assim que ele terminou de examiná-la, pôs-se ao lado direito dela, a cabeça vibrante apontando para o teto, e começou a girar o objeto com sua mão esquerda, de modo que a válvula dava meia volta impulsionada pelo monstro. De alguma forma eu me sentia protegida naquela situação – aquela coisa não me machucaria, estava ali para testemunhar e observar. Eu tinha que agradecer por sua presença e venerar sua força divina.
— Ele é Valtiel, o Anjo. Veio até aqui para assistir ao ritual.
Eu não sabia o que dizer. Por mais que não houvesse temores em mim, tinha dúvidas e ansiava por respostas às minhas perguntas. Achava melhor sair correndo até a porta seguinte e largar tudo para trás, porém meus pés estavam presos ao chão. Valtiel me atraía, eu queria tocar em sua carne podre, beijar-lhe o rosto e deixá-lo fazer o que quisesse comigo. Se o ritual consistia em apenas isso, estava pronta para começar e prosseguir com qualquer que fosse a missão a mim proposta.
A válvula que Valtiel girava sem parar era o tempo. Ele a rodava para o lado direito, fazendo com que dez anos se passassem em dez segundos. Olhei para mim mesma, meu corpo nu ia se desenvolvendo aos poucos. Seios cresciam, meu quadril se alargava e minhas pernas ganhavam comprimento. O tempo avançava rápido e só pararia quando meu corpo alcançasse o limite mínimo para o início da execução – uma criança não seria capaz de fazer o que eles queriam que eu fizesse. Para que o ato se tornasse fato, eu teria que estar com mente e corpo preparados. Quando Valtiel parou de girar a válvula, eu parecia ter dezessete anos.
— Agora, que surja aquele que purificar-te-á o sangue envenenado pela vida humana! Valtiel te fez pronta e este far-te-á sagrada e divina! O Ceifeiro das Almas!
A porta pela qual eu entrara se abriu com um estrondo. Eu, que olhava fixamente para Valtiel, me virei assustada para a origem do barulho. Fui tomada pelo pior de todos os medos, meu coração passou a bater forte e rapidamente – o incontrolável sentido do temor. Aquele que eu havia apenas ouvido falar de sua existência, uma figura história de Silent Hill; aquele comumente conhecido como Pyramid Head, cuja forma e roupa havia sido inspirada na figura sagrada do Anjo Valtiel. Ali estava ele, a alguns metros de mim, segurando sua gigantesca faca com a mão direita e com um objeto vermelho hexagonal que lembrava uma pirâmide no lugar da cabeça. Não contive o grito, tive que explodir todo o meu pavor. A voz grave passou a rir de meu medo, gozando da minha fragilidade perto da brutalidade daquele monstro. Era tudo por causa deles! Loucos! Jogaram-me no corredor da morte para sofrer e chorar... Por que faziam aquilo comigo quando tudo o que eu buscava era tão pouco?
— Mate-a! — gritou a voz em meio às suas próprias gargalhadas.
Uma canção começou a soar de um alto-falante inexistente. Um órgão e barulhos metálicos compunham a marcha fúnebre e mortal de Pyramid Head, que arrastava sua pesada faca no chão em passos lentos em direção a sua presa: eu. Nua, sem armas e completamente apavorada, tudo o que eu podia fazer era correr para a outra extremidade do corredor, deixando Valtiel e sua proteção para trás, ignorando as dificuldades que teria que enfrentar assim que atravessasse o portal. Enquanto corria para a porta, pensei em bloqueá-la do outro lado para impedir o monstro de continuar a me perseguir. Era o plano perfeito – se eu encontrasse algo muito pesado para tapar a passagem, eu o atrasaria, o que me permitiria sair correndo e encontrar a saída daquele mundo.
— Acalma-te, garota — falou a voz. Não podia dar atenção a ela, tinha que alcançar a porta o mais rápido possível. — Hoje não é teu dia de sorte!
Gritei mais uma vez, dessa vez um grito agudo, e parei de correr. Como eu era estúpida! Burra! Imbecil! A porta estava trancada e eu havia largado a chave na fechadura da outra porta. Para recuperar o molho teria que por cima de Pyramid Head. Ele já havia ultrapassado Valtiel, que continuava a brincar com sua válvula laranja sem saber de sua própria existência. Não havia mais saída para mim, tinha que me entregar à morte e rezar para que eu não sofresse muito. Nunca achei que morreria de uma maneira tão sádica e dolorosa, ou que minha vida fosse terminar sem eu nem ao menos ter vivido. Todos os momentos que mais me emocionaram passaram diante de meus olhos, todas as felicidades que eu amei, as angústias que me causaram pranto, o sabor do veneno dos humanos em cada partícula de mim. Sedenta e incrédula, eu me entregava como havia nascido, jogando-me aos braços da escuridão perpétua. Só queria poder fechar os olhos e dormir como um feto, o dedo na boca e o cordão sendo minha fonte de suprimento, o cordão que era a linha tênue entre os paradoxos que sustentavam a esfera do meu mundo e a dimensão em que eu me encontrava.
Pyramid Head diante de mim, a faca pronta para me perfurar. Pyramid Head diante de mim, a faca cortando minhas entranhas. Pyramid Head diante de mim, a faca me despertando da realidade.
— Pai!
Levantei subitamente do banco, pingando de suor e medo. Apertava minhas mãos com tanta força que as unhas pareciam ferir minha pele. Minha respiração estava ofegante, não conseguia controlar o medo que me provocava espasmos e tremeliques. Batendo os dentes, olhei para os bancos da frente do carro – vazios. Andrew havia ido atrás de ajuda sem mim... Ou melhor, me fizera desmaiar para que eu não o impedisse de ir! Não devia ter seguido sozinho, nenhum de nós dois sabia que mistérios aquela cidade guardava em seus cantos obscuros!
Já parecia ter amanhecido, a neblina que cobria toda Silent Hill era tão densa que eu não era capaz de enxergar muito além de onde estava. Peguei um suéter preto de lã que estava na minha mala e o vesti, saltando do carro em seguida. Sozinha no meio da névoa, dei alguns passos e ultrapassei a placa de boas vindas. Abraçava a mim mesma para me esquentar e me proteger do frio matinal.
O silêncio era a minha única companhia naquela rua. O vento parecia arrastar com ele todas as almas e vidas, não havia nada atrás das camadas de neblina. Sentia-me solitária em um mundo de sofrimento. Queria poder correr para longe daquela cidade, pois eu segurava o peso de suas mortes em minhas mãos. Eu via, bem acima de mim, o sol mais cinza de todos, e de minha boca saía a esfera de luz que jamais purificaria a mão dos infiéis, reinando nas avenidas turvas de Silent Hill. Amaldiçoada, isolada, fantasma. Fora esse o destino trilhado para um lugar frequentemente visitado por turistas. Para onde fugiram aqueles que costumavam viver ali? Casas, lojas, prédios... Tudo fechado. Sem um sinal humano. As verdadeiras faces se escondiam por trás da névoa, mentiras cruas e frescas refestelando-se no escuro, encarando a vida e a morte em uma encruzilhada de questões. O dilema do meu passado era um grão de poeira, tão pouco perto da dor que atingia a tudo que ali vivia. Lamentos embalavam um réquiem de desespero junto ao ar, pairando sobre o nada, enfrentando o caos de viver. Eu era a sacerdotisa da luz, guiando os fracos à escadaria das ilusões, prendendo a mim mesma no poço sem fim por eles.
Segundo o mapa que Andrew me entregara, o carro parara de funcionar na entrada da cidade, um pouco depois do túnel que iniciava na estrada Bachman. O automóvel estava bem no meio da pista, mas mesmo assim não aparecera nenhuma outra pessoa para reclamar de sua posição que impedia a passagem. Andando vagamente, a procura de algum sinal humano, vi que havia um armazém do lado esquerdo da rua. Senti uma ponta de esperança – se era uma loja, o dono tinha que estar presente, ou ele perderia a mercadoria. Apressei o passo e segui quase que correndo para o lugar, sorrindo de uma forma que achei que não faria tão cedo.
— Olá? — disse assim que alcancei o armazém. Era uma loja modesta e pequena, com portas e janelas de vidro viradas para a rua. A luz interna não estava acesa, não conseguia enxergar o vendedor. No entanto eu ouvia ruídos, como se alguém estivesse mexendo em algum plástico. — Posso entrar?
Sem mais demoras, empurrei a porta. Um cheiro de podridão invadiu minhas narinas e senti minha vista arder. Havia alguma coisa ácida sendo espirrada ali, algo que me faria desmaiar caso eu ficasse muito tempo fechada na loja. Tapei o nariz e a boca com a mão esquerda e entrei de vez na loja.. Era um armazém bem pequeno, havia um balcão do lado esquerdo da entrada e algumas prateleiras estavam dispostas uma na frente da outra na área que se estendia ao lado direito. Era possível escutar um barulho de movimentação humana que vinha da parte de trás da terceira – e última – prateleira. Como eu havia pensado, o vendedor ou vendedora da loja estava presente e poderia me dizer onde ficava o posto de gasolina mais próximo!
— Com licença, desculpe-me ter entrado assim sem nem saber se a loja está funcionando — comecei a falar. Achei que o local estava fechado por causa da falta de mercadorias nas prateleiras. — É que eu não sou da cidade e gostaria de algumas informações. Você poderia me ajudar...?
Meus olhos começaram a arder com mais intensidade e o cheiro putrefeito ficou mais forte. A pessoa que estava se mexendo surgiu de trás da prateleira e eu pude ver que não era um ser humano...
[A inconsciência reage em mim e sinto que me jogar da janela não foi uma boa idéia, pois o vento se tornou um daqueles monstros. Se há alguém lendo o que escrevo, tome cuidado agora... Caminhos sem fim são minhas palavras e eu sei que não me compreendes. Porém é dessa forma que sinto que devo me exprimir para você, expectador de mim.
Havia um ar de coisa naquilo que se erguia, belo e tímido – semimorto (ser da escuridão). Aquilo negava sua própria existência com a podridão de seu estado; um monstro, ferido e fétido, com fome de sofrimento alheio. Senti um arrepio que caminhou por todo o meu corpo, juntei as mãos sobre o rosto para não ver o que não queria ver, pois enxergar internamente me machucava. No entanto, era pior ficar de olhos fechados, pois dessa forma cegava meus cinco sentidos e me coisificava, perdendo a essência do humano. Não tinha tempo para pensar em besteiras, a figura se aproximava cambaleante. Sua pele era pálida e gosmenta, como se um líquido plastificasse aquele corpo de aparência feminina.
— Hora de acordar, Lanna — a voz de mim falou. Eu me virei e recuei. Tinha medo de mim.
Um espaço se fez entre eu e a criatura e não havia mais uma comunicação direta. Sagrados lábios se contorciam e rezavam qualquer prece para nosso contato enquanto nos afastávamos. Estávamos descendo as escadarias à languidez eterna, cada vez mais perto de um porão infiltrado de gemidos infernais. O porão dos mortos que me aguardava ansiosamente. O ar cinzento nos envolvia, remoendo-se numa equação de múltiplas incógnitas. Esculpiu-se ali um tal de momento, algo intranscendente que não buscava – e nem desejava – ultrapassar os muros que bloqueavam minhas estradas. Havia medo da morte e do que viria a seguir. Tudo se atribuía a mim, pois o monstro era incapaz de sentir – apenas sofria. Aquela mulher-coisa. A cada gemido seu um líquido verde e ácido escorria de sua boca torta e sem dentes, corroendo o chão e a própria pele do monstro. Ela chorava. Suas lágrimas poderiam me purificar da sofreguidão, jamais havia achado que esbarraria com tanto amor inverso logo no início de uma jornada errante. Então, quando eu me aflorava para a vida negra de ser coisa, propriedades de outras coisas surgiram por detrás das estantes. Um exército de monstros vinha à minha direção para me jogar ácido verde e letal. E eu me desesperei de verdade pela primeira vez.
— Vá embora! — eu gritei.
Retirando-me da loja, atravessei a rua com passos trôpegos e me joguei contra o muro da calçada oposta. Surgiam mais e mais monstros de carne podre que gritavam lamúrias demoníacas como um canto da morte. O muro outrora frio esquentava minhas costas suadas. Tudo se desvanecia. Somente o carro estava seguro, porém do auto-rádio saía estática que me enlouquecia... Que me adormecia...
— Mãe... Vá embora...
Tudo parecia tão rápido e ao mesmo tempo em câmera lenta...
Agora me sento trêmula e hesitante, pois estou sedada. Rachael veio ao quarto e me aplicou remédios sem que eu a pedisse. Escrever me conforta e me provoca espasmos de vida nova. No entanto me perco em tantos buracos negros quando escrevo...
Por exemplo, quando descobrir a verdadeira razão de ser? Pois ser por ser não vale o ser, já que prejudica uma razão previamente existente. E na verdade não há verdade alguma, apenas busca por uma realidade. E quantos vão se perder na trilha pela existência verbalizada? Logicamente há seguidores dessa tal odisséia que reúne tribos e seitas – todos em busca de um ouro falsificado... E no íntimo, o pior de todos é aquele que se sente apto a rabiscar uma parede recentemente pintada. Principalmente quando tal parede representa signos do passado (dor de cabeça). Eu tentei. Acabei descobrindo que há falhas em mim que não pretendo revelar. Sou o tal ouro que não é ouro de verdade. Bebo água de um poço da morte feito como oferenda aos deuses romanos, o poço das verdades não ditas e dos pensamentos fugitivos. Sagrados e santos carregam meus sonhos pela boca, enquanto sento-me em um divã para ler figuras pejorativas. Só vou parar quando Rachael parar de me olhar... Ou quando o remédio fizer efeito...
...acho que... preciso descansar de uma noite mal dormida... quem sabe amanhã os monstros não me atacam de novo? Porque, naquele momento, tudo parecia tão lento...
...e ao mesmo tempo em câmera lenta, mil sirenes soavam junto a uma sinfonia metálica. Em um lapso de consciência, levantei-me depressa e me dirigi ao automóvel – aquele carro teria que ligar nem que eu tivesse que usar meu sangue como combustível!
Porém Andrew estava certo, não havia gasolina. Por mais que eu virasse a chave, o carro não saía do lugar. Os monstros avançavam contra mim, sentindo-me. Deixando todo o medo de lado e tomando um gole de uma coragem vinda de não sei onde, pensei rapidamente em um plano para fugir daquele ninho de coisas ácidas. Tinha que derrubar alguns deles abrindo a porta do carro bruscamente e sair correndo, despistando os outros. Não eram muitos, as coisas não gostavam da presença umas das outras, já que soltavam ácido contra elas mesmas. E de repente, aproximando-se tortuosamente, um monstro encostou seu corpo no vidro do carro. Aquela figura asquerosa e pálida despertava-me lembranças de alguém que havia sido apagado de minha memória – uma mulher que frequentemente aparecia em meus sonhos, sofrendo em seu canto, chorando sua essência falsa e sem alma. Nos sonhos, tal mulher queria me conquistar com seu sofrer, provocar-me compaixão. Buscava deter-me em seu amor inexistente para apoiar seus desejos insanos... Eu era apenas uma criança... A criatura era como eu via a mulher dos sonhos, feminina, emitindo sofrimento para persuadir uma aproximação. Por isso as lágrimas do monstro eram ácidas, inverdades.
— Eu sou a Mãe Sagrada e você deve se abrigar em meus braços e se entregar às minhas vontades.
A voz gutural era minha e dela incorporada no monstro. Eu falava ao mesmo tempo em que ouvia. Na verdade, eu repetia, submissa e castanha. Quem era aquela mulher? Forçava minha mente, mas não conseguia formar uma imagem dela. Apenas falas e conversas, sentimentos de fanatismo por algo que eu nunca soubera o que era... Eu tentava apanhar todos os resquícios que meu cérebro liberava de meu passado perdido, do que fora minha vida, porém não conseguia.
E surpreendentemente não havia mais monstro algum. A mágica cumprira seu papel e apagara tudo com uma borracha do reino das fadas. Tudo estava tão silencioso e calmo como antes, apenas eu era viva naquela rua. O que acontecera? Estava ainda sonhando? Saltei do carro e comecei a correr, tentando apagar os últimos acontecimentos da minha mente.
A névoa era mais uma vez minha única companheira, transpassando minha face e atravessando minha mente, penetrando em meu passado antes de mim mesma, personificando meus pesadelos e desejos. Quantas coisas mais aquele mundo seria capaz de criar? A resposta era vaga, assim como o ar que me rodeava enquanto eu corria para longe da Mãe Sagrada. Minha respiração falhava aos poucos enquanto eu ia perdendo o fôlego. Não agüentava mais correr, nem mesmo me lembrava por quantas ruas passara. Teria que achar alguma placa como ponto de referência para me encontrar no mapa, já que havia me perdido na cidade. Mesmo vendo que os monstros haviam sumido, estava dominada por uma sensação de perseguição que não queria me deixar. Minha cabeça pulsava informações indistintas, o onírico se fundia com o real. As coisas eram reais?!
Com as mãos nos joelhos, eu bufava e respirava de maneira rápida e incorreta. Meu cabelo estava completamente bagunçado, os fios apontando para todas as direções, e eu era capaz de sentir as veias pulsarem fortemente pelo meu corpo. Não sabia como retomar minha busca por informação e também não tinha coragem para voltar ao carro. Onde estava Andrew? Será que algum monstro o havia matado? Não, impossível. Monstros não existiam, eu estava ficando louca. Tudo não passara de uma criação da minha cabeça. Só mais um sonho, como todos os outros.
Voltei a andar normalmente, caminhando por uma rua bordada por casas dos dois lados. Tudo era tão cinza e solitário, o vento uivava e a neblina continuava densa. Era estranho não haver ninguém por perto, as casas pareciam tão vazias. Eu sentia algo nostálgico ao ver as casas, lembranças turvas que me despertavam dores. Não suportava mais mini-flashes passando pelos meus olhos, queria a coisa concreta antes que eu gritasse por informação. Estava tão fraca... Meu corpo clamava por descanso, por que eu insistia em me movimentar? Ceder era perigoso, um monstro poderia aparecer... Mas... Por que não?
Então me aproximei da varanda de uma das casas e sentei-me em um dos degraus do lance de quatro escadas que levavam até a soleira da porta. Percebi que estava tremendo. De frio, medo, solidão, ansiedade. Tanta coisa que me dominava que não era possível distinguir o que era mais forte. Desviando minha atenção para o que era necessário, passei a pensar no que estava acontecendo e a imaginar o que viria a acontecer caso eu continuasse a perambular sozinha pelas ruas de Silent Hill. Andrew não podia ter desaparecido, não estava nos planos. Deixar-me esperando no carro também não fora uma boa idéia, ainda por cima me obrigando a tal coisa utilizando a violência. Eu só queria, naquele momento, ir para casa e me desculpar com meus tios por ter saído sem avisar. Era tudo o que eu desejava. Sendo que não havia maneiras de realizar meu desejo se eu permanecesse parada, delirando à beira da frustração. Tinha que retornar ao centro da rua e manter meu caminho pelo asfalto, atravessando a névoa e tudo mais que me aguardava além dela. O fim daquela rua não estava muito longe, logo apareceria uma placa e eu poderia anotar minha posição no mapa. E então eu seguiria para uma delegacia. Por mais que parecesse que a cidade havia sido abandonada pela vida humana, ainda tinha esperanças de encontrar alguma ajuda. Ou eu me entregaria para uma morte lenta e sem graça naquele ar prateado e infeliz. Não estava pronta para morrer ainda, nem tinha vontade. Nenhum monstro ou uma lembrança inútil me faria parar agora. Tinha que prosseguir. Urgentemente.
