Capítulo 4 – Margaret

Quando se está sozinho em um local em que você nunca esteve antes e que te ameaça (soa hostil), não há muita coisa que possa te fazer acreditar que vai conseguir superar a crise de solidão. Naquele momento, meus passos eram firmes, e eu havia me decidido. Eu me entregava generosamente à tarefa de descobrimento, abrindo portas para uma aventura que se infiltrava no caminho traçado por mim. Não havia mais brecha para a descoberta de um passado esquecido, somente para a fuga. Fuga da realidade? Não, pois me cansara de ilusões e monstros. Eu estava fugindo da fuga, e cruzaria todos os portos para me manter afastada do não-objetivo. O subjetivo era infernal.

— E se não houver retorno?

Pois o retorno era estranhamente amargo. Pois o retorno era um buraco negro. — E se não houver retorno do buraco negro? O que haveria de acontecer para uma heroína despedaçada e sem armas? Os lotes clamavam pelo despertar e eu era um objeto incandescente.

— Você acredita na morte?

Tão incerta a minha morte. Tão simples era falar e falar. Tantos pensamentos e diálogos que se desconectavam de mim. Estava perdida. Placa a seguir: Sagan Street. Um cruzamento, a travessia por uma ponte largada na neblina. Até que um ser humano foi avistado. Uma ruiva, de vestido cinza e botas escuras, carregando uma mochila de viagem nas costas. Salvação.

— Por favor... — Um grito no vazio. O som não se propagou. Não alcançou os ouvidos da moça, que se ia na direção de seu compromisso, não captando meu pedido – minha chama por libertação. Ela não queria me encarar. Ou também estava fugindo?

Então voltei para mim.

Havia alguém ali, não muito distante, no entanto eu deixava tal alguém se distanciar! Como poderia ter chegado a esse ponto?

A loucura era lavada enquanto eu corria em busca da esperança. Meu coração pulava, elétrico e pulsante. Mesmo por trás da neblina ainda era possível encontrar força. Aquela mulher me ajudaria a sair dali, eu estava salva – não mais solitária.

— Espera — gritei o mais alto que pude, finalizando minha corrida quase tropeçando. — Eu preciso de ajuda.

A mulher se virou e eu pude ver sua aparência. Estava a poucos metros de mim, me sorriu enigmática e surpresa, seu cabelo curto e ruivo voando com o vento frio da manhã. Os olhos verdes se comprimiram, parecia estar pensando sobre o que eu queria com ela. Não devia ter mais de trinta anos, mas certamente era mais velha do que eu. Sorri debilmente e me aproximei mais um pouco, ajeitando algumas mechas de cabelo que estavam grudadas pelo suor em meu rosto.

— Eu estou procurando por um posto de gasolina. Vim de viagem com um amigo e o combustível do nosso carro acabou.

— Ah, entendo — ela disse. Sua voz era doce e soava gentil.

Havia um perfume estranho no ar que me atraía àquela moça. Queria abraçá-la e tocar seu rosto. Então me aproximei ainda mais. Ela parecia não me rejeitar.

— Há coisas que eu não poderia explicar —falei. — Algo absurdo que me ocorreu assim que cheguei aqui.

— O absurdo já faz parte de Silent Hill — falou ela de forma misteriosa. — Você não é daqui, é?

— North Ashfield — respondi.

— Estou indo para South Ashfield — ela disse, divertindo-se com a coincidência.

— Vai visitar algum parente?

A mulher deu alguns passos para trás e umedeceu os lábios com a língua, sorrindo para mim. Eu retribuí o sorriso

— Vou embora daqui, assim como todos os outros que vivem no outro lado da cidade.

Era intrigante saber que as pessoas estavam deixando Silent Hill. Por conta do status de ponto turístico, eu sempre achara que aquela era uma cidade receptiva. Não conseguia imaginar o porquê de tanto desejo em cobrir a região de vazio. O lugar me dava calafrios, porém, de alguma forma, eu acreditava que já havia passado bons momentos ali com meus verdadeiros pais. Em cada esquina eu podia sentir uma vibração vinda de alguma alma, uma vibração de uma felicidade disfarçada, escondida no subsolo. Mas ao mesmo tempo o céu insistia em fazer chover sofrimento por aquelas pessoas de rostos tristes e sobreviventes de uma guerra antiga. O que havia acontecido desde que eu partira? Qual era a origem da dor? Havia um centro incomum abaixo da realidade, ele me sugava e coletava de mim informações que eu nem mesmo sabia que existiam. Ele as personificava.

— Estranhos acontecimentos repelem as pessoas de boa conduta e... — ela fez uma pausa enquanto pensava na palavra certa para dizer. — digamos, normais, daqui. Por que quis visitar uma cidade falida? — perguntou ela, pondo-se a caminhar novamente. Eu a segui.

— Motivos pessoais — nós andávamos e conversávamos, como duas amigas que se dirigiam a um bar para se divertir e se relacionar.

— Mesmo assim é estranho você ter vindo para esse lado. Não ouviu nos noticiários que essa parte foi completamente isolada? Não há mais ninguém morando aqui, nem mesmo o comércio funciona.

Aquilo me pegou de surpresa. Meu conhecimento sobre a cidade não era muito vasto, não sabia que era dividida por dois lados e que um deles estava completamente vazio! Andrew e eu pegamos a estrada que acreditávamos ser a que todas as pessoas que iam para Silent Hill pegavam. Não era a estrada principal, porém nos pareceu ser a mais rápida, tranqüila e segura, já que viajaríamos de madrugada.

— O que quer dizer? — perguntei, com expressão confusa. — Então, o que está fazendo aqui? Tomando um ar fresco?

O olhar que ela me lançou transpareceu que ela não havia gostado do meu comentário irônico. Resolvi que não daria uma de engraçadinha outra vez com aquela mulher cujo nome eu nem sabia.

— Existe um ônibus que nos deixa em uma avenida que circunda o Lago Toluca, fazendo uma conexão entre os dois lados — começou ela a me responder, olhando diretamente para frente. Andávamos pelo meio da rua sem medo de sermos atropeladas, pois os únicos carros fora das garagens estavam velhos demais para funcionar e cobertos de fuligens. — A única coisa que ainda funciona nessa parte é um hospital que está beirando a falência. Minha prima é enfermeira nesse hospital e não vê a hora de deixar o emprego. Estou indo até lá buscá-la para ir comigo a South Ashfield.

— É estranho um hospital ainda estar em funcionamento se não há ninguém para ser tratado — eu disse, mais uma vez irônica. Aquela cidade estava começando a me soar engraçada.

— Acontece que só há dois hospitais na cidade inteira, e somente o Hospital Alchemilla atende a todos os "tipos" de pacientes — disse ela, frisando oralmente a palavra "tipos".

Antes que eu pudesse perguntá-la o que significava esse comentário inusitado, comecei a sentir uma forte dor na cabeça e comecei a pressionar as mãos sobre meu rosto. A dor era tão forte que chegava a ser insuportável, obrigava-me a lançar-me ao chão e gritar e gritar inconscientemente. O mundo ao meu redor girava, enquanto alguém tentava me ajudar a levantar. Eu tremia toda e via figuras rastejantes se aproximando, seres humanos com a pele ensangüentada que se arrastavam até mim, com garras enormes e sujas. Os dentes ficavam a mostra a cada berro que as pessoas davam, gritos piores do que os meus e que me faziam gritar mais ainda.

De repente, vi que a mulher desistira de me ajudar e se preparava para correr para longe de mim. Ela passou por entre dois monstros sem nem ao menos notá-los. Suplicante, ergui minha mão direita e balbuciei algumas palavras, pedindo-a que voltasse para me socorrer.

— Leve-me... leve-me com você...

E depois disso não enxerguei mais nada. Só fui acordar já de frente para os portões do Hospital Alchemilla, apoiada nos ombros daquela mulher que não havia me deixado para trás, embora quase o tivesse feito.

— Você veio delirando por todo o percurso, achei que não ia agüentar mais seu peso. Ainda bem que acordou.

— Me desculpe, é que eu estou meio doente e às vezes entro em crise...

Abri a boca para perguntá-la sobre os monstros rastejantes, mas decidi não falar nada sobre aquilo. Poderia ser só mais um dos meus delírios.

— Você ainda não me disse seu nome, moça — falou a outra, prendendo seus cabelos ruivos com um elástico. Como estava um pouco mais perto dela pude ver que seu rosto era meio sardento.

— Eu me chamo Lanna.

— E eu Judy — ela disse. — Judy Garland.

Juntas, abrimos o portãozinho de ferro que dava para o pátio do hospital e seguimos para a porta de entrada. Entramos na sala de espera, onde havia o balcão da recepção – sem uma recepcionista. Somente espíritos sofredores eram parte daquele local. Havia uma iluminação tênue e cinzenta que entrava por um janelão ao lado da porta pela qual passamos. O silêncio, quase mortal, era cortante e me dava calafrios; nunca estivera em um hospital fantasma antes.

— Minha prima falou que estaria me esperando logo na entrada — falou Judy. — É estranho ela não estar aqui...

Passando pela recepção, fiz uma curva à esquerda e vi que havia uma porta dupla no meio do corredor. Para chegar até a outra ala era preciso passar por ela; porém estava trancada. Havia telefones públicos dispostos na parede e, por uns instantes, senti que não estava tudo acabado – tinha uma maneira de eu me comunicar com meus tios e pedir ajuda. Mas, para completar minha falta de sorte, nenhum dos aparelhos funcionava. Todos mudos.

Eu me lembro de respirar fundo naquele momento e pensar se valeria à pena ficar esperando por uma mulher que eu nem conhecia. Meu amigo Andrew estava lá fora, tentando achar ajuda, enquanto eu permaneceria estática fazendo companhia a uma estranha. No entanto, quando eu havia caído, ela pensara duas vezes antes de me dar as costas. Talvez fosse melhor ficar um tempo na sala de espera, aguardando ao lado dela, até que sua prima aparecesse e eu pudesse continuar o que nem mesmo sabia se havia iniciado.

Cansada por ter corrido demais, larguei meu corpo contra a porta dupla, arrastando as costas até sentar-me no chão. Poderia cantar uma canção para passar o tempo, ou forçar-me a lembrar de alguma coisa da minha infância, sendo que se fizesse isso correria o risco de alguma coisa bizarra acontecer. Deixando os pensamentos de lados, tirei o suéter preto – já não estava mais frio como antes –, deixando-o sobre o chão, ao meu lado.

Não muito tempo se passara quando Judy me gritou lá da sala de espera. Ela havia encontrado uma porta aberta e decidira procurar pela prima no hospital. Era melhor do que ficar parada vendo o tempo correr lenta e vagamente. Então a segui.

Com muita surpresa, descobrimos que não era apenas aquela parte do hospital que estava deserta – em todo o primeiro andar não encontramos nenhuma pessoa. No centro daquele corredor havia a ala da escadaria e os banheiros, como constatamos no mapa que estava preso em um quadro na recepção. No entanto, duas portas duplas bloqueavam nosso caminho até tal ala – a que eu havia encontrado e mais uma do outro lado do corredor, trancada assim como a primeira. Não havia outro jeito: teríamos que pegar o elevador. Não estava com medo, só me senti apreensiva ao entrar naquele pequeno quadrado que não devia ter passado por uma manutenção há um bom tempo.

— Uma vez minha prima me disse que havia uma sala para os enfermeiros no segundo andar — falou Judy, apertando o botão. — Então é pra lá que nós vamos.

Mas nós nunca chegamos ao segundo andar...

Escuro. Parado no meio do nada. O elevador não funcionava mais, estávamos entre o primeiro e o segundo andar. Judy apertava o botão de segurança e gritava em aparente desespero. Logicamente estava amedrontada, já que vira que havia possibilidades de aquele prédio ter sido abandonado e, caso isso fosse verdade, findaríamos nossas vidas naquela caixa. Já eu apenas sorria. Não, não de felicidade, óbvio. Era só que naquele momento eu me senti habituada com as peças que aquela cidade gostava de pregar. De alguma forma, eu sabia que não era a primeira vez que ficava presa naquele mesmo elevador. Logo ele voltaria a funcionar, era algo rotineiro alguém passar umas poucas horas preso dentro dele

Judy se encontrava realmente furiosa, batia sem parar na porta e seus gritos de certa forma me incomodavam. Também estava com raiva de eu não estar ajudando-a a conseguir ajuda, como se aquilo fosse atrair alguém. Eu sentira, assim que pisei na sala de espera, que não haveria ninguém para nós ali dentro, apenas uma sombra de tristeza e instantes passados que não queriam deixar o presente. Uma atmosfera pesada e também lânguida se espalhava junto à névoa naquele prédio, tomando conta de cada sala, acordando as almas daqueles que ali haviam morrido sem paz. Foi então que, quando eu já havia me entregado a uma tranqüilidade e aceitado ficar esperando a boa vontade das engrenagens, essa atmosfera negra e sombria decidiu mostrar suas forças.

— O que foi isso? — perguntou Judy, referindo-se a um som metálico vindo do lado de fora.

— Não deve ser nada demais — falei, tentando tranqüilizá-la. Mas não consegui fingir, minha voz saíra trêmula.

O som se repetiu mais três vezes, como se alguma coisa metálica e pesada tivesse se arrastando na parte de cima do elevador. Nós olhávamos para o alto, apreensivas e com medo do que poderia acontecer. Foi na quarta vez que a corda que segurava aquela coisa se partiu e nós começamos a cair em alta velocidade. Não houve tempo para gritar ou para desmaiar de tanto medo, pois em menos de dois segundos atingimos o solo, intactas e sem nenhum ferimento. Alguma coisa amortecera a queda do elevador no último segundo, impedindo nossa morte.

Eu estava tonta e pingando de suor. Judy colocou a mão na boca, mas não conseguiu evitar: encostou-se na parede e começou a vomitar.

— Calma, Judy, vai ficar tudo bem. A gente vai conseguir sair daqui.

Assim que terminei de falar, a porta do elevador se abriu e nós demos de cara com um corredor mal iluminado e uma porta a poucos passos ao norte. As paredes ali pareciam ser de metal, eram cinza e de aparência aterrorizante. Fazia muito frio e foi só então que me dei conta de que esquecera o suéter lá em cima, perto da porta.

— Estamos no porão do hospital? — perguntei.

— Parece que sim... — respondeu Judy, limpando a boca. Seu rosto estava pálido e sem vida. Seus olhos verdes haviam perdido todo o brilho e a vivacidade de outrora.

Mas não havia acabado ainda, mais estava por vir. Uma sirene soou ao longe, como um sinal de alguma fábrica antiga, e nós ouvimos gritos femininos vindo do outro lado da porta. Pela primeira vez eu presenciaria o despertar daquela cidade, adormecida há tanto tempo, desde as eras em que pagãos faziam ritos em volta do lago de Silent Hill.

O ambiente tornou-se hostil e eu senti calafrios assim que percebi que alguma coisa estranha estava para acontecer. A sirene era como um aviso que precedia o tormento que se tornaria real. Estávamos entrando dentro de um sonho, de um pesadelo, cujas paredes eram manchadas de sangue e grades ocupavam o lugar das portas e janelas. Tudo inteiramente enferrujado, ferro e metal se espalhavam pela minha vista em uma coloração avermelhada. A iluminação era feita por uma tocha que pendia do teto. Sentia cheiro de sangue e havia mesmo algumas gotas do líquido vermelho já coagulado em várias partes do chão e do teto. Eu encarava aquela transformação consciente de que não era um sonho, porém sabia que tudo aquilo estava muito além dos limites que eu conhecia do real e do irreal. Algo demoníaco se movia pelos cantos, farejando as presas fáceis de colocar medo. Era tudo como naquele pesadelo que tive com os dois grandes monstros, no corredor do Disco do Sol. E Valtiel estava ali, naquele hospital alternativo, escondido nas sombras. Eu não fazia questão de encontrá-lo, já estava ciente de que ele não me faria mal algum. Eu voltava, de pouco em pouco, para uma turva e desconhecida realidade que eu já havia habitado naquela Silent Hill de doze anos atrás. Não era a minha primeira vez no mundo dos sonhos, sendo que, dessa vez, era uma outra pessoa quem o regia.

Quando me virei para ver se Judy estava bem, constatei que ela sumira. Nem ao menos percebi quando ela fugira, talvez tivesse escapado pelo elevador assim que ouviu a sirene. Bem, não adiantava reclamar naquele momento, eu sabia disso. Havia medo, porém também uma sede crescente da verdade se instalava na minha mente, uma singela vontade de desvendar os segredos mais obscuros e virgens daquela cidade. Estava novamente sozinha.

Primeiro resolvi tentar abrir a porta diante de mim, que parecia proteger uma mulher – afinal, quem gritara quando a sirene soou? Então comecei a me dirigir na direção daquele quarto, era ali onde vivia o centro da energia oculta que se propagava através do ar negro que a cidade respirava. Gerânios de sangue começaram a brotar por entre fendas das grades nas paredes, era um aviso que eu não devia me aproximar. Mas eu não tinha medo, queria e queria demais, todo o cinza de mim havia derretido junto com uma inocência que eu não mais suportava. Naquele instante preciso e definido, pela primeira e talvez última vez de mim, eu era objetiva e heroína, e estava no topo de uma cadeia; abaixo de mim se encontravam os demônios dos eles e elas.

Ah, como eu achei que seria fácil. Girar a maçaneta e entrar... Não pensara na possibilidade de haver coisas que guardariam aquela entrada para o mal maior. Quando faltavam poucos passos para que eu tocasse a porta, ouvi passos vindos do meu lado esquerdo. Não tive nem tempo de virar o rosto quando fui atingida em cheio por um cano, que bateu violentamente em meu braço, fazendo-o doer de forma pulsante. Havia quatro enfermeiras assassinas naquele porão, seus rostos deformados, como bolhas gelatinosas, e a pele cheia de feridas sangrentas. O uniforme branco e manchado daquelas coisas era vulgar e elas exibindo um corpo cheio de curvas acentuadas. As quatro partiam para cima de mim, duas delas segurando bisturis e as outras enormes canos. Recuei alguns passos e tentei fugir de um ataque em massa, porém uma delas conseguiu agarrar minha perna e cortou minha coxa direita com seu bisturi afiado, rasgando minha calça jeans. Eu gritava e chorava, todo o meu fervor e coragem fora embora... Sentia medo e solidão. Sucumbiria naquele porão encarnado e me tornaria um daqueles monstros. Tudo se perdera, não havia retorno.

Uma segunda enfermeira se aproximou de mim e cortou minha outra perna, a esquerda; dessa vez um corte profundo. O sangue começou a jorrar e eu senti uma dor aguda vinda do local. Tentei estancar o sangue com as mãos, mas foi impossível, pois elas me agarraram e me tacaram contra a parede. Comecei a enxergar tudo embaçado e as dores nas duas pernas, agora completamente ensangüentadas, faziam com que eu ultrapassasse a barreira da razão – o inconsciente queria acordar de qualquer jeito! Foi então que uma das enfermeiras começou a gemer insanamente, deixando as outras perturbadas. Minha cabeça rodopiava e eu não sabia mais o que era real... Mas me lembro de tê-lo visto se aproximar rastejando pela parede, com sua cabeça vibrante. Pouco a pouco, todas as enfermeiras passaram a gemer de pavor e respeito por aquele que havia chegado. Eu consegui me livrar delas e desencostei da parede, me afastando daqueles seres nojentos e infernais. Estava mancando de uma das pernas, logo vi que o sangue ainda não havia parado de escorrer – fios de líquido vermelho descendo pelo jeans já todo manchado. Rapidamente rasguei um pedaço da minha camiseta e amarrei contra a perna para estancá-lo, não era muito. Bem, apesar de tudo, eu estava num hospital, devia haver remédios para aquilo em alguma sala e mais tarde eu teria tempo de encontrá-los.

Deixando as enfermeiras temerosas e agora fracas de lado, passei por elas e aproveitei pra pisar em uma que estava deitada no chão, gemendo incontrolavelmente. Pisei em cima de seu rosto sem feições, sentindo aquela bolha facial estourar em uma poça de sangue e miolos. Com o pé todo sujo, entrei no quarto cuja missão daqueles monstros era protegê-lo. E, para minha surpresa, lá havia um ser humano.

Era uma sala grande, o qual haviam improvisado para parecer um dos quartos que devia haver nos andares superiores. Ali dentro aquele mundo escuro e enferrujado não existia, tudo parecia normal e até mesmo iluminado, pois uma lamparina estava acesa. Havia uma cama no centro do local e ao lado dela uma mesa de cabeceira. Não pude notar se havia alguém na cama, minha vista estava embaçada. Porém notei uma forma avermelhada no canto direito, logo ao lado da porta. Aproximei-me daquilo e constatei que era uma mulher vestida com o uniforme de enfermeira daquele hospital – a habitual roupa branca mais um casaquinho vermelho. A mulher era loira e parecia estar escrevendo. Não conseguia enxergar seu rosto, ela estava de costas para mim.

— Olá? — chamei, sem obter resposta.

Quem era aquela moça? Eu sentia algo triste. Mas não vinha dela, existia mais alguém ali? Por que eu sentia tanto frio? Ah, acho que tomei remédios de novo... Aquela moça não era Rachael... Ou era? Bem, não importa... Eu só me lembro que não tive tempo de vê-la mais de perto, a força me jogou para longe. Alguma coisa ergueu-se daquela cama, que eu achara que estava vazia, e se projetou contra mim, empurrando-me para longe do quarto. Senti um tufão bater contra meu peito e fui arremessada no ar, atravessando paredes invisíveis e retornando para o ponto inicial: a caixa metálica – o mais novo comunicador entre os dois mundos? O pesadelo se fora e o elevador voltara a funcionar. O hospital era só um hospital vazio e não cheio de enfermeiras assassinas ou pintado de sangue. Nem mesmo fazia frio. Nunca mais eu voltaria àquele porão, alguma coisa terrível dormia lá... Talvez o próprio demônio. Tinha pena daquela moça que devia ser obrigada a cuidar daquele enfermo de outro mundo. Fora aquela coisa que criara o paraíso dos pesadelos? Quem sabe...

Eu saí do elevador e vi que estava no primeiro andar. Passei pelo corredor, olhando pelos janelões – lá fora estava a mesma coisa: neblina e solidão. Eu dava passos firmes, minha perna não doía e nem mais sangrava. Agora, tinha que sair daquele hospital e voltar para minha trilha pré-definida. Também não me importava onde aquela mulher, Judy, estava; ela me largara sozinha em um momento em que ninguém gostaria de estar só. Mas eu conseguira passar por aquilo melhor do que eu esperava. Não é que eu não estivesse impressionada com tudo o que acontecera, mas já me sentia habituada àquela outra realidade. Eu sentiria medo e vazio caso tudo acontecesse de novo, no entanto não ficaria chocada com as gotas de sangue e com os monstros que poderiam aparecer. Eu era parte daquilo.

Quando já estava na sala de espera, lembrei-me do suéter que esquecera no corredor à esquerda e voltei lá para pegá-lo, já que poderia sentir frio mais tarde. Ele estava no mesmo lugar onde o deixara, ninguém o havia tocado ou o encontrado.

— Falsas esperanças — pronunciei para mim mesma, sorrindo. Não havia ninguém para mim no hospital... Talvez não houvesse ninguém na cidade inteira...

No entanto, alguém estivera naquele local. Embaixo de onde o suéter estava, havia uma fotografia bem velha, já amarelada.

— O que é isso?

Era a foto de uma garotinha de uns cinco anos abraçada com uma mulher de meia-idade. A garotinha era loira como eu e se parecia muito comigo quando criança... Meu coração batia mais forte, eu reconhecia aquela mulher. Ela não era uma desconhecida. Quase não suportei a ansiedade que me tomou atonitamente assim que eu virei a foto: no verso dela havia uma mensagem; um pequeno bilhete... (desmaio)...

Nunca se esqueça de mim, Lanna.

Assinado: Margaret.

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