Eu não escrevi Deltora Quest. A série e todos os personagens pertencem a Emily Rodda.

Pessoal, eu adoraria se quem lesse enviasse umas reviews, para que eu saiba no que posso melhorar! Obrigada!

Capítulo 6

O Escritório do Rei

Depois que Jasmine foi embora, Lief levou algum tempo até ele conseguir controlar a mistura de euforia, por saber que Jasmine não amava Dain, e de raiva pela maneira como ele a tratava. Porém logo seus pensamentos migraram para o Cinturão de Deltora.

Se Dain estava usando o cinturão, ele estava protegido, pelo menos até certo ponto, de algum tipo de domínio do Senhor das Sombras, ou ao menos teria meios de resistir. O topázio poderia clarear sua mente. Aliás, o topázio poderia ajudá-lo inclusive a lidar com toda a pressão do cargo, ao menos de maneira mais racional. Por outro lado, ele estava usando o cinturão havia pouco tempo, talvez ainda não tivesse a intimidade que Lief tinha adquirido com o objeto. "Que besteira," corrigiu-se Lief, "ele é o rei, a relação entre ele e o cinturão é muito mais intensa do que qualquer coisa que eu tenha experimentado." Ainda assim, foi procurar o livro d'O Cinturão de Deltora, que havia jogado no fundo de uma gaveta durante a limpeza da ferraria. Folheou algumas partes aleatoriamente até que se concentrou num parágrafo no final do livro:

"Cada pedra encerra a própria magia, mas juntas as sete criam um encantamento que é muito mais poderoso do que a soma das partes. Somente o cinturão de Deltora, completo como quando foi fabricado por Adin e usado por um de seus legítimos herdeiro, tem o poder de derrotar o inimigo."

Não havia nada de realmente novo naquele trecho, mesmo assim as palavras persistiram na cabeça de Lief por alguns instantes. Será que poderia haver algo de errado com o cinturão? Não, ele mesmo havia colocado cada pedra no cinturão, havia sentido o poder delas. Ele olhou de novo para o livro.

"... completo como quando foi fabricado por Adin..."

Será que havia alguma coisa que não sabiam que deveria ter sido feita após reunir as pedras? Mas o cinturão havia brilhado para Dain, se o herdeiro fora reconhecido, o objeto só podia estar completo.

Lief continuou pensando no assunto no outro dia. Tentou conversar com um cliente que apareceu e saber um pouco sobre o que as pessoas estavam pensando sobre o novo governo, mas o homem se esquivou de todas as perguntas. Lief então se lembrou de que supostamente era um grande amigo do rei, ninguém iria querer falar mal de Dain na sua frente. À tarde, então, foi discretamente ao mercado e ficou entreouvindo conversas, escutando sussurros atrás das bancas dos comerciantes. A capa que sua mãe lhe fizera, que o deixava quase invisível, foi muito útil. À noite, quando voltou para casa, sabia que Jasmine tinha razão. As decisões que Dain vinha tomando não combinava com o que sonharam para o dia em que Deltora estivesse livre. O ferreiro percebeu com um arrepio que muitas vezes chegavam a lembrar as leis do período de domínio do Senhor das Sombras. E o povo já começava a mostrar desagrado com isso.

Concluiu que, portanto, só lhe restava atender ao pedido de Jasmine. Na manhã seguinte, colocou sua melhor roupa _ ou seja, a única que ainda não estava encardida pelo trabalho na ferraria _ e caminhou até o palácio.

O rapaz não conhecia os guardas que estavam na entrada, mas quando se apresentou, eles se mostraram muito felizes em conhecer o herói nacional pessoalmente. Mesmo assim só o deixaram entrar após uma revista, embora ele não estivesse armado.

Um terceiro guarda o conduziu para dentro do palácio e escoltou-o até uma sala no segundo andar. A porta era guardada por mais dois guardas. Depois que o guia de Lief expôs a situação, um deles bateu na porta e esperou para ouvir lá de dentro a ordem para que entrasse. Passou alguns minutos dentro do aposento e saiu para autorizar a entrada de Lief.

O escritório de Dain era espantosamente vazio, embora os poucos móveis fossem luxuosos. Havia apenas uma grande escrivaninha, e atrás dela uma enorme cadeira de braços forrada com veludo vermelho. À frente, uma única cadeira simples de madeira.

Ao vê-lo entrar, Dain levantou-se para recebê-lo. Lief não deixou de reparar que usava o Cinturão de modo bem visível. A imagem do objeto fez seu coração disparar.

_Lief, que bom ver você! _ o rei saudou-o _ Me desculpe por não ter ido visitá-lo. Tenho tido muito trabalho desde que assumi o trono.

_Sem problemas, Dain, eu compreendo. E é bom ver você também.

_Mas o que te traz aqui? _ o rei indicou-lhe a cadeira simples e dirigiu-se para seu assento atrás da mesa _ Decidiu aceitar a proposta para ser meu conselheiro?

Lief tinha se esquecido completamente da oferta.

_Na verdade não, me desculpe. Por ora estou feliz na ferraria. _ disse, contando uma pequena mentira _ Vim para saber de você, meu amigo! Como você tem passado?

_ Jasmine andou falando sobre mim com você? _ Dain riu da expressão de Lief _ Eu sei que ela ainda estava furiosa comigo quando foi visitá-lo esses dias.

Lief sentiu-se constrangido.

_Ela estava preocupada. Disse que você estava ficando muito estressado com tanto trabalho.

_É verdade, eu passei por uns dias ruins. Sabe, não é fácil se tornar rei assim de repente. _ concordou com uma expressão cansada _ São muitos compromissos, muitas responsabilidades. Mas já estou muito melhor. Com a ajuda de Jasmine, é claro. _ ele abriu um sorriso _ Nós fizemos as pazes e ela tem me dado todo o apoio.

_ Fico feliz com isso. _ Lief torceu para sua alegria não soar muito falsa.

_Sabe, _ continuou Dain _ eu sempre soube que Jasmine aceitou meu pedido de casamento sob pressão, e não por amor. Mas cada vez tenho mais esperanças de que ela está aos poucos se apaixonando por mim. _ Terminou a frase com um largo sorriso.

Lief fez mais um esforço para responder naturalmente.

_ Tenho certeza que vocês ainda vão ser muito felizes juntos. E o reino? As coisas estão mais tranquilas agora que já passaram as primeiras semanas?

_ Ah, não, não tem sido nada fácil! O Senhor das Sombras deixou o reino em uma situação muito frágil, isso me obriga ser mais rígido do que gostaria, especialmente com as contas reais. Veja, os deltoranos escravizados na Terra das Sombras, por exemplo, mal posso dormir com essa lembrança, mas não temos condições de resgatá-los no momento. É arriscado demais e pode inclusive ser uma ameaça à liberdade de Deltora. É algo que precisa ser muito bem planejado.

_ Compreendo. _ Lief teve de admitir que os argumentos de Dain eram bastante sensatos.

O rei então desandou a expor suas motivações para outros tantos atos seus que Jasmine e até o povo de Del vinham questionando. Era como se suspeitasse que era justamente para saber sobre isso que Lief fora até ali e quisesse poupá-lo do constrangimento de perguntar. Ao final de meia hora, Lief simplesmente não podia negar a coerência do ponto de vista do rei. Impostos, prisões, decretos aparentemente absurdos, tudo afinal visava à segurança do reino num delicado momento de transição. Poder-se-ia mesmo dizer que ele estava sendo injustiçado por tantas críticas. Por outro lado, as explicações eram tantas, que Lief não pode deixar de achar suspeita essa necessidade de se justificar. Preferiu porém guardar esse detalhe para si próprio.

_ Realmente, Dain, você teve suas razões para tomar as decisões que tomou. Entenda, vim aqui como seu amigo, para ajuda-lo, não para cobrar explicações do rei. Mas acredito que seria importante você mostrar a todos os súditos os argumentos que apresentou aqui para mim. Por que não realizar um pronunciamento, ou criar alguma espécie de assembleia pública, para esclarecer todas essas coisas.

_ Sim, você tem razão, Lief. _ ele respondeu pensativo _ Não tenho tido muito tempo, mas tentarei providenciar algo assim. Tem certeza de que não quer ser meu conselheiro?

_ Ah, Dain, eu realmente sinto muito, mas realmente não posso aceitar esse seu pedido. Uma coisa é vir aqui e dar sugestões a um amigo. Outra é um cargo dessa importância. Eu não estou preparado.

_ Bom, não posso obrigá-lo, mas novamente peço que pense com carinho.

_ Está certo, assim o farei.

Eles se despediram com um abraço. Isso fez com que Lief esbarrasse no cinturão. Ele teria imaginado que se isso acontecesse, outra daquelas ondas de cobiça o percorreria. Mas não foi isso que aconteceu. Não houve a emoção esperada. Não houve a sensação de calor, do poder emanado pelas pedras. Por um instante ele não entendeu, mas quando já estava fora do escritório real, um arrepio percorreu a espinha do garoto. Aquilo só podia significar uma coisa: havia algo muito errado com o Cinturão de Deltora.