MORGANA

Depois de um longo dia de viagem, o sol se recolhia atrás da montanha.

Bem na linha do horizonte, eu consegui ver o enorme castelo de Hogwarts, com o qual sonhara nas últimas noites e que seria a minha morada pelo próximo ano.

Mesmo de longe, ele me parecia ser mais bonito e impressionante do que em todos os meus sonhos.

Respirei fundo, afaguei a crina de Mirra, a minha fiel companheira de quatro patas, e começamos a descer a enorme colina.

Sair de Avalon nunca fora a minha vontade, porém existia uma vontade soberana a de todas nós que sempre ditava o nosso destino: a vontade da Deusa.

Essa entidade sagrada, força da natureza, mãe de tudo que é vivo. A Deusa é a sabedoria que nos rege e eu jamais deveria questioná-la. Nunca havia feito durante os meus 20 anos de vida. Sempre confiara plenamente no que me fora guardado, mas agora, algo a respeito dessa mudança inquietava meu coração.

"Por quê? eu perguntara à minha tia Viviane "Por que ser transferida à Hogwarts se eu já me formei aqui? Se o meu destino é aqui, em Avalon? Não faz sentido, tia!"

"Nem sempre as decisões da Deusa fazem sentido, Morgana. Não racionalmente. Achei que você já estivesse cansada de saber disso. Desde o seu nascimento, na Cornualha, a Deusa me enviou uma mensagem sobre a sua missão neste mundo".

Sim, a minha missão. Por esta missão, minha mãe Igraine me levara à Avalon para ser educada por minha tia, a Senhora do Lago, fundadora e diretora da Escola de Bruxaria de Avalon.

"Pelo que eu sei, a minha missão é assumir Avalon, não é? Assumir o cargo de diretora da escola quando você não estiver mais no mundo dos vivos, não é, tia? Por que então eu devo sair de Avalon?"

"Ser uma sacerdotisa aqui dentro é fácil, Morgana. Lá fora é que as forças mundanas nos desafiam, nos colocam em campo de batalha, nos testam ao limite. Lá fora, e em Hogwarts, para onde a Deusa lhe chama neste momento. E se você ainda não consegue aceitar o seu destino com tranquilidade, é porque ainda há muito, muitíssimo o que aprender".

Eu sabia que ela estava certa, como sempre.

Por isso, espantei as brumas receosas que rodeavam meus pensamentos e transpassei os muros de Hogwarts como se fossem um grande portal.

Lá dentro, próximo ao que parecia ser o portão principal, havia um pequeno estábulo de pedras. Desci e amarrei a Mirra ao lado de alguns outros belíssimos cavalos de raça.

"Bem vinda ao seu novo lar, Mirra".

Ela olhou para os outros e depois me olhou, manhosa.

"Ok, Mirra. Eles podem até ser de raça, mas nenhum deles tem as suas belas tranças.

Eu a afaguei e então me aproximei do portão.

Muitas carruagens paravam na porta e meninos e meninas, de todas as idades, saiam de dentro dela. Eles usavam uniformes e capas de couro de várias cores.

Abraçavam-se e riam juntos, com muita alegria e saiam correndo para dentro do castelo.

Hogwarts era realmente uma construção incrível e muito mais sofisticada do que Avalon. Havia mais riqueza ali, esculturas esculpidas, vitrais pintados, até mesmo um enorme tapete de veludo vermelho indicando a passagem.

Eu andei sobre ele e subi a escadaria, tentando ignorar os olhares curiosos e desconfiados de algumas meninas. Será que havia algo errado com a minha capa de veludo roxa? Ou seriam as minhas tranças?

"Morgana!"

Reconheci imediatamente aquela voz e quando me virei para encontrar Lancelot, ele já me erguera em seus braços e me girava num abraço. Ai, que saudade eu tinha dele!

"Lancelot!" – eu exclamei, assim que ele me pôs no chão.

"Não acredito que você está aqui, prima!"

"Nem eu!"

Eu segurei as suas mãos nas minhas carinhosamente e admirei o seu belo sorriso e seus olhos de felino. Ele deixara o cabelo castanho crescer e estava lindo com uma ombreira de ferro por cima da capa de couro vermelho. Esse parecia ser o uniforme de parte dos alunos. Outros usavam capas verdes, azuis e amarelo-ouro.

"Você chegou agora?" – ele perguntou.

"Sim, eu acabei de entrar".

Ele olhou ao redor.

"E Viviane? Ela não veio com você?"

"Não, ela me disse que eu precisava aprender a sair do Lago sozinha".

"Se tivesse me dito, eu teria ido busca-la".

"Acho que era exatamente isso que ela não pretendia. Não conhece a sua mãe?".

Os dois rimos juntos e ele me abraçou mais uma vez.

Um grupo de meninas vestidas de branco passou por nós pelos degraus e nos olharam com certo estranhamento, mas eu não me importei nem um pouco estando naquele abraço tão caloroso.

"E a sua bagagem?"

"Merlin enviou uma carruagem para busca-las. Aliás, eu preciso falar com ele! Pode me mostrar a sua sala?"

"Claro, Morgana! Vou te mostrar a escola inteira! Venha! – ele pegou a minha mão e correu degraus acima – Você vai adorar isso daqui! Precisa conhecer Arthur, Guiny...

"Arthur?"

Só de ouvir aquele nome, meu sangue gelou e impulsivamente, eu parei de subir.

Ele também parou e virou-se para me olhar.

"Sim, Arthur Pendragon. Seu irmão".

"Ele não é meu irmão, Lancelot".

Odiava ser relacionada a esse tal de Arthur. Ouvira falar tanto do famoso príncipe da Grã-Bretanha que era incrível ainda não tê-lo conhecido.

"Sim, pode não ser consanguíneo. Mas foram criados pela mesma mãe e isso torna vocês dois...".

"Então eu e você também somos irmãos? Ora, ambos somos filhos de criação de ninguém mais e ninguém menos que a Senhora do Lago!"

Ele riu e, pela terceira vez, me envolveu num abraço.

"Graças à Deusa, prima! E eu não me importo nem um pouco se você me chamar de irmão. Não poderia ter escolhido ninguém melhor para ocupar esse posto!"

Ele beijou o topo da minha cabeça e eu senti alguns tijolos do meu coração sendo desmoronados por aquelas palavras.

Não gostava nem um pouco que Lancelot me visse como uma irmã.

Havíamos crescido juntos, como os melhores amigos, correndo pelas pedras, pelas cavernas de Avalon, tomando banho de rio e comendo frutas em cima das árvores. E quando ele veio para Hogwarts, há cada mês, eu ansiava por suas visitas. Preparava-lhe os pratos que ele mais gostava, colhia as suas flores preferidas e colocava os meus melhores vestidos. Tudo para recebê-lo, para agradá-lo, para que ele olhasse para mim de um jeito especial.

Não como uma irmã!

"Venha, vamos para o salão principal, prima-irmã!"

Ele me levou para cima e eu tentei ignorar aquele sentimento de decepção.

Tinha muito ainda o que acontecer na minha primeira noite em Hogwarts.

Passamos por diversos portais e corredores repletos de gente até chegarmos ao salão. Ele era imenso!

Quatro mesas retangulares se estendiam pelo salão em seu comprimento e em cima de cada uma delas, havia pendurada a bandeira de cada "casa".

Ainda era estranho para mim que houvesse esse tipo de divisões numa escola. Em Avalon, apesar de ser apenas para meninas, sempre fomos tratadas com igualdade e respeitadas em nossas diferenças.

À frente, havia uma mesa numa espécie de palco, com adultos sentados. Deviam ser os professores. A mesa estava toda enfeitada por candelabros dourados e a mais fina porcelana.

Havia uma cadeira mais alta no centro com o encosto de madeira talhada que devia pertencer ao Merlin, o diretor. Ela estava vazia.

À direita da cadeira de Merlin, um senhor de idade analisou-me com certa desconfiança no olhar. Ele vestia uma batina eclesiástica nos tons de branco, preto e vermelho. Provavelmente, tratava-se do Bispo de Camelot, que Viviane me contara ter uma posição importante em Hogwarts.

Eu abaixei a cabeça num cumprimento educado, tentando demonstrar meu respeito. Ganhar a confiança dos membros de Hogwarts fazia parte da minha missão ali. Mas ele apenas desviou o olhar e fingiu que não havia notado.

Lancelot segurou a minha mão e caminhamos por entre as mesas até a mesa da Grifinória. Sua bandeira era vermelho-carmim e amarelo com um brasão no centro que tinha a imagem de um leão valente rugindo. Não me espantava que a coragem fosse a "casa" de Lancelot.

Ele ficou diante de um grupo de alunos da nossa idade, que rapidamente parou de conversar e rir alegremente e me olharam, surpresos. Os meninos se vestiam como ele, de capa vermelha e ombreiras de ferro prateados ou acobreados.

"Pessoal, atenção aqui!" – anunciou o Lancelot e então pigarreou e estendeu o braço para mim, como se eu fosse uma atração de algum ritual de magia. Eu senti meu rosto esquentar - "Eu quero apresentar a vocês a minha prima, Morgana do Lago!"

Todos eles riram e bateram palmas. E então começaram a falar todos juntos e ao mesmo tempo e eu comecei a me dar conta de que um ambiente permeado pelo sexo masculino podia ser bem mais eufórico e confuso. Definitivamente, mais barulhento!

"Este é Percival, nosso melhor arqueiro, Gaheris, Boors, o mais estudioso de nós. Deixa esse livro, Boors, as aulas só começam amanhã! Este é...".

Lancelot foi me apresentando aos meninos, que riam e brincavam entre si.

"E este é o irmão do Gaheris, o..."

"Eu posso me apresentar sozinho, Lance! Se me permite... - disse o jovem de cabelos e olhos escuros, estendendo a mão para mim. Eu a aceitei – "Eu sou Gawain, muito prazer. Não é todos os dias que vemos uma sacerdotisa, mas você é com certeza a mais bonita que já vimos".

Outra leva de gargalhadas inundaram o salão e Lancelot colocou a mão sobre o meu ombro, como se estivesse me protegendo.

"Cala a boca, Gawain!"

"O que foi, Lance? Geralmente elas são muito magras e tem a cara pintada, mas a sua prima é totalmente diferente!"

"Pois para lhe provar o contrário, Gawain" – eu interrompi o falatório e não deixei de sorrir interiormente ao observar o silêncio que se fez quando eu comecei – "Eu o convido para fazer uma visita a Avalon e verá com os próprios olhos como nós somos. Isso, se não acabar perdido no meio das brumas!"

Foi a vez de todos rirem novamente e alguns empurraram e socaram Gawain com uma delicadeza de dar dó.

"Uau, Lance! Eu gostei dela!" exclamou o mais alto, Percival.

"Eu também!"- foi a vez do Boors, que tirou os óculos e sorriu – Tem um ótimo senso de humor".

"Obrigado a todos!" – exclamou o Lancelot, sorridente – "O bom humor e a beleza são de família, não é, prima?"

"Claro, primo!" – eu o cutuquei – "A sinceridade e a modéstia também."

Todos riram mais uma vez.

Uma daquelas meninas que vestia branco por baixo da capa vermelha aproximou-se. Ela levava um enorme crucifixo no pescoço.

"Olá, meninos!"

"Oh, olá, Guiny". – eu ouvi Lancelot dizer, com a voz levemente controlada.

Ela tinha belos cabelos loiros que ondulavam nas pontas e olhos verdes e tímidos.

"Você viu o Arthur por aí?" ela perguntou, com seus lábios em forma de coração. Ela era realmente muito bonita.

"Não...quer dizer, eu o vi mais cedo no saguão, mas ãh...agora... eu não sei onde ele está".

Eu franzi as sobrancelhas para o Lancelot. Jamais em todos aqueles anos eu o vira se embaralhar com as palavras daquele jeito! E por que ele de repente ficara tenso e estava ajeitando a armadura insistentemente, sem parar de olhá-la?

"Hum...ok". – disse a jovem loira, olhando-o timidamente.

E eu não estava gostando nada daquilo.

Quando ela me olhou, desconfiada, eu me esforcei em meu melhor sorriso e estendi a mão para ela.

"Olá, eu sou Morgana do Lago".

"Oh, desculpe. – disse o Lancelot, acordando do que parecia ser um devaneio – Guiny, esta é Morgana, minha prima, de Avalon. E esta é Guinevere, nossa amiga".

Ela apertou a minha mão e sorriu gentilmente.

"Muito prazer, Morgana. Eu já ouvi falar muito de você".

"Ah, é? Que engraçado, eu não me lembro de ter ouvido sobre você".

Esgueirei-me de uma cotovelada do meu primo, que também iniciou uma crise de tosses. O que havia com ele para se importar tanto assim com ela?

Morgana, controle-se!

Só porque Lancelot olhava tão encantado para ela, não queria dizer que ele tivesse sentimentos por ela. Apesar de que ele nunca me olhara dessa forma, nem um milímetro perto disso!

"Bem, seja bem vinda, Morgana. Espero que goste de Hogwarts. Essa escola é muito especial.

E ela era tão gentil que eu mal conseguia encontrar motivos para desgostar dela.

"Obrigada, Guinevere. Tenho certeza que sim".

"Oh, é Arthur!"

Meu sangue gelou novamente e quando me virei para a porta do salão, compreendi finalmente todo o meu pressentimento ruim em relação a Arthur Pendragon.

Ali, entrando no salão principal e sendo recepcionado por muitos alunos, eu não via apenas um belo rapaz alto e forte, de cabelos dourados e sorriso brilhante.

Eu vi também as mesmas feições do homem mais odiado por mim na face da Terra: Uther Pendragon.

Arthur era filho de Uther, eu sabia, mas não fazia ideia de que eles pudessem ser tão semelhantes. E não era apenas a aparência física, mas os gestos, os movimentos, tudo só me fazia ver o Uther na minha frente.

Aquele homem cruel e perverso que matara o meu pai, enganara a minha mãe e deixara o seu filho – Arthur - para ela criar. Até hoje, as fortes cenas de sofrimento não saiam da minha cabeça, me perseguiam nos sonhos.

E lá estava ele, a sua cópia! Mais jovem e bonito, talvez, mas igual a ele!

A bela loira de branco correu para abraça-lo e lhe deu um beijo na boca.

Eu tive a certeza de que iria vomitar.

Pela Deusa, Morgana! Você não deve desmaiar agora! Você é uma sacerdotisa, é mais forte do que tudo isso!

Inspirei profundamente. Uma, duas, três vezes e quando abri os olhos, ele estava vindo até nós, olhando para mim.

Senti meu coração disparar.

"Art, aonde você estava?" – perguntou Gawain, passando o braço por cima do ombro de Arthur, enquanto do outro lado dele estava Guiny, a sua provável namorada.

Foquei meu olhar em sua roupa, para não ter que olhar para ele. Ele também usava a capa de couro vermelha, mas a suas ombreiras eram douradas e levava no pescoço um cordão com o brasão real como pingente: uma coroa rodeada por folhas de ouro. O brasão de Uther.

"Dando uma volta à cavalo. Estava com saudade dessas montanhas".

A sua voz, no entanto, devia ser a única coisa que o diferenciava de Uther. Uther tinha a voz grave e rouca, enquanto a voz de Arthur soava extremamente musical. Bom, devia ser apenas uma impressão.

"Aliás" – ele continuou – "Havia uma appaloosa fantástica no estábulo, malhada, meio geniosa. Sabem de quem é?"

"É minha." – eu disse e finalmente encontrei os seus olhos...âmbar. Outra coisa diferente de Uther que eu não havia percebido.

Meu coração acelerou. Seu olhar brilhante e surpreendido me deixava ainda mais nervosa e eu rapidamente desviei o meu e continuei.

"Mas ela não é uma appaloosa pura, é misturada. E não é geniosa, apenas com quem ela não gosta".

"Você está brincando!" – exclamou Gawain, assustando-me com a sua repentina explosão – "Além de tudo, você também sabe montar, Morgana?"

"Morgana?" – os olhos de Arthur brilharam – "A sacerdotisa?"

"Sim, Arthur" – explicou Lancelot – "Esta é a Morgana do Lago, minha prima e sacerdotisa de Avalon".

"Não posso acreditar! – ele riu - Finalmente eu posso conhecer a famosa sacerdotisa! – e estendeu a sua mão para mim - É um prazer, Morgana. Sou Arthur Pendragon".

Eu sei quem você é.

E como a última coisa que eu faria seria apertar a sua mão, eu não olhei para ele e para mais ninguém. Apoiei minha mão sobre o braço de Lancelot e lhe disse, educadamente, mas num volume que todos pudessem ouvir.

"Eu vou procurar o Merlin. Com licença".

E assim, dei meia volta e caminhei. Só parei quando me encontrava fora do salão principal, fora da vista de todos e principalmente, fora da vista daqueles olhos âmbar do filho de Uther.