ARTHUR

O que havia de errado com ela?

Ela era maluca ou algo parecido?

"Foi mal, Arthur" – desculpou-se Lancelot – "Eu...não sei o que houve. Acho que ela não percebeu, ou...estava nervosa. É a primeira vez que sai de Avalon".

"Ah, é? Coitada, deve ser difícil para uma sacerdotisa". – observou Guiny.

"Não tem importância, meu amigo. Está tudo bem".

Eu coloquei a mão sobre o ombro de Lancelot e depois, no sentamos os três juntos.

Na verdade, não estava tudo bem.

Eu sonhara com ela, duas noites atrás.

Sonhara com uma linda mulher de cabelos negros e olhos de safira, que eu desconhecia até aquele exato momento. No sonho, ela me entregava uma espada. Uma espada luminosa que era capaz de unir os dois mundos, o mundo dos vivos e dos mortos.

Eu segurei a espada e senti-me imortal. Mas quando me aproximei para agradecê-la, ela transformou-se em brumas na minha frente.

Havia me perguntado o que significaria tantas brumas, mas agora fazia todo o sentido!

Era Morgana, a filha da minha mãe de criação, Igraine. Havíamos sido irmãos de leite, mas ela fora levada por Viviane para a Escola de Bruxaria de Avalon, onde os estudos iniciavam bem cedo.

Quando a vi ali, senti meu coração disparar.

E fiquei ainda mais impressionado quando descobri que ela era a filha de Igraine, de quem eu ouvira falar durante toda a minha infância. Sentia como se já a conhecesse...

Pensei que ela também compartilharia da mesma alegria que eu pelo nosso reencontro, mas ela mal olhara na minha cara. Eu só queria entender...por que.

"Arthur, você precisava ter visto o que a Morgana disse ao Gawain!" – riu o Percival.

"Ora, também não é pra tanto!" – reclamou o Gawain.

"É sim! Você bem que mereceu! – disse o Lancelot - Pra ver se da próxima vez pensa duas vezes antes de dar as suas cantadas baratas na minha prima!"

"Isso é inveja! De todos vocês! Não sabem que quando as mulheres nos tratam mal é porque elas estão fazendo charminho? Na verdade, ela ficou caidinha por mim, isso sim!".

"Claro, claro! – riu Perci – "Falou o conhecedor do sexo feminino, não é, Art?"

Eu costumava me unir a Perci nas brincadeiras para zoar o Gawain, mas dessa vez meu bom humor fora rapidamente alterado.

Droga, Arthur! Não permita que uma desconhecida estrague a sua noite!

Porque era isso que ela era, afinal de contas, uma absoluta desconhecida.

"Sir Gawain, o rei dos melhores haréns de toda a Grã-Bretanha!" – eu exclamei e ri com todos os meus amigos.

Não havia nada melhor do que a sua amizade e alegria para me lembrar que os pequenos acontecimentos desagradáveis podiam ser rapidamente esquecidos.

Principalmente naquela noite, que a era a primeira do nosso sétimo e último ano em Hogwarts.

"Sabe, Arthur?" – chamou-me a doce voz ao meu lado.

"Sim, Guiny".

Eu sorri para ela ao encontrar aqueles doces e inocentes olhos verdes.

"Já pensou o que vai fazer depois que o ano acabar?"

"Que pergunta é essa, Guiny? O ano acabou de começar!"

"Sim, eu sei. Só fiquei curiosa" – ela deu de ombros.

Eu a conhecia bem para saber que alguma coisa a incomodava.

Éramos amigos desde o primeiro ano em Hogwarts e quando fizemos quinze anos, percebemos que havia algo além da amizade e começamos a namorar.

Mesmo assim, ela ainda não conseguia ser espontânea comigo. Parecia que temia a minha reação ou algo do tipo.

Eu coloquei o meu braço ao redor dos seus ombros.

"Guiny, o que foi? Sabe que pode me dizer qualquer coisa, não sabe?"

Ela sorriu, timidamente.

"É só que...este é o nosso último ano em Hogwarts e você ainda não me contou o que pretende fazer quando nos formarmos. E eu gostaria de saber".

"E você já tem algo em mente?" – eu revidei a pergunta, mais para fugir da minha resposta do que por qualquer outra coisa.

Por mais que a coragem fosse a maior virtude daqueles que pertenciam à Grifinória, eu temia o meu futuro no trono real. Mas eu jamais revelaria isso a ninguém, nem mesmo à Merlin!

"Ora, Arthur!" – ela exclamou, arregalando os olhos pra mim com uma leve decepção neles – "Eu já não lhe disse?"

"O quê?"

"Você não se lembra?" – seu tom exibia chateação.

"Aposto que tem haver com o Bispo de Camelot, não é?" – interviu Lancelot, que estava sentado do outro lado de Guiny.

Ela o olhou sorridente.

"Sim, Lance. Vou ser a nova dirigente do seu projeto caritativo" – ela explicou, mostrando-se orgulhosa.

"Uau! Parabéns!"

Eu pisquei para ele, agradecendo-o por salvar a minha pele.

Lancelot sempre fora mais observador do que eu, inclusive se tratando da minha namorada. Eles eram amigos há anos e eu gostava que as duas pessoas mais próximas a mim se dessem tão bem.

"É incrível que o Bispo tenha lhe convidado assim tão cedo". – continuou Lancelot – "Geralmente as dirigentes tem anos de prática religiosa, já são casadas, têm filhos..."

"Bom, eu não tenho nada disso, ainda. Mas o Bispo confia em mim e acha que eu faço um ótimo trabalho como monitora".

"Claro que ele acha, Guiny! Você é a melhor e mais bonita monitora de Catecismo que já existiu em toda a Hogwarts!"

Eu a abracei e beijei sua bochecha para fazê-la esquecer o meu erro. Ela ficou bem envergonhada e corada, ainda mais bonita do que antes.

"Eu sou a primeira monitora de Catecismo, Arthur!" – ela riu e correspondeu ao meu abraço.

"Por isso mesmo!".

Rimos juntos e o som da corneta inundou as paredes do salão.

Merlin entrou, com a suas usuais vestes verde musgo e a barba cada vez mais branca. Todos os alunos e professores levantaram e esperaram que ele chegasse a sua cadeira.

"Vamos, Merlinzinho, eu estou faminto!" – cochichou Gawain.

"Terá que aguentar ainda a seleção dos alunos novos, cara" – riu Perci.

"Ah, não! Qual será o gosto desse seu livro, Boors?"

Mas eu não saberia se Gawain comeria ou não o livro.

Ao lado de Merlin, caminhava a sacerdotisa dos meus sonhos.

Ela não se parecia nada com Igraine, que costumava ser serena e humilde.

Morgana caminhava como se fosse uma rainha e olhava a todos de cima, com um certo ar de superioridade e arrogância. Nisso, parecia muito mais com sua tia Viviane do Lago.

Merlin indicou uma cadeira na ponta das mesas dos professores para ela sentar e foi para o seu lugar.

"Boa noite, queridos alunos!" – ele exclamou, erguendo os braços para o alto e elevando a luminosidade da sala – "É com imensa alegria que eu abro as portas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts para mais um ano de estudos e trabalho! Quero dar as boas vindas a todos os professores, que vocês..."

E enquanto Merlin fazia o usual discurso de início de ano, eu tentava me concentrar em alguma coisa que não fossem aqueles olhos azuis, reluzindo por todo o salão.

E aqueles cabelos negros amarrados numa trança que contrastavam com a pele branca e alva.

E aquele vestido de veludo roxo que se assentava perfeitamente ao corpo, que devia ser ainda mais maravilhoso sem nada cobrindo-o.

Arthur! O que há com você?

Ela podia até ser bonita, mas não fazia justiça a todos os bons elogios que Merlin e Lancelot faziam dela o tempo inteiro.

De repente, aquelas duas safiras brilharam para mim.

Eu pensei em desviar meu olhar, mas fiquei surpreso com a forma como as suas pupilas dilataram sobre o azul.

E as suas faces coraram num tom rosado perfeito...

E os seus lábios vermelhos se entreabriram num segundo...

Estaria assustada?

Mas com a mesma rapidez, ela desviou o olhar.

E não voltou a olhar-me até o fim do discurso de Merlin e de todos os alunos levantarem para aplaudir.

Eu me juntei aos aplausos.

Não fazia o menor sentido ela estar assustada.

Se há poucos minutos atrás, caminhava pela sala como se fosse não apenas a senhora do lago, mas também do Sol, da Lua e de todo o Universo.

Iniciou-se, então, a seleção dos alunos novos pelo Chapéu Seletor.

Aqueles pequenos adolescentes de onze anos com espinhas, olhos arregalados e medo de serem selecionados para onde não deviam, aproximaram-se conforme seus nomes iam sendo chamados.

Eu mesmo tivera medo quando chegara a minha vez, mas pedi muito para o chapéu que eu fosse para a casa a que meu pai pertencera. Um futuro rei não poderia pertencer à outra, ou poderia?

O pequeno Galahad, filho da professora Helena, abriu um sorriso imenso quando o chapéu mal lhe tocou a cabeça e pronunciou: "Grifinória!".

Todos bateram palmas e ele correu para se juntar a nós, orgulhoso e feliz.

"Valeu, cara!" exclamou Gawain, bagunçando os cabelos no menino.

Mas nem a dor o fez perder aquele sorriso de entusiasmo.

"Bem vindo, Galahad". – eu o abracei.

Ele era um garoto especial, com a pureza e coragem de poucos. E eu tinha a certeza de que seria um grande homem, algum dia.

"Com licença".

Merlin se levantou, quando o chapéu terminou de selecionar todos os alunos novos.

"Temos ainda uma aluna para fazer a seleção. – ele apontou para Morgana, que se pôs de pé – "A do Lago é uma aluna transferida da Escola de Magia de Avalon e não apenas vai cursar algumas matérias do sétimo ano. Também será a minha monitora nas aulas de Magia Druida. Eu estou ficando velho, se não perceberam, e até ando tropeçando pelas escadas da escola..."

"Não será porque elas se movem?" – riu Gawain – "Mas eu tropeçaria em todas se pudesse ter uma bruxinha dessas como assistente..."

"Cala a boca, Gawain!"

"Ei, calma aí, Art! Eu só estou dizendo...".

Meu coração estava acelerado quando observei Morgana caminhar até a cadeira e colocar o chapéu seletor no topo de cabeça.

Ela parecia muito tranquila, apesar de compenetrada. Por um momento, fechou os olhos, enquanto o capuz se movia de um lado para o outro.

E de repente, abriu aqueles olhos azuis e...olhou para mim?

"Com a coragem da minha prima, aposto que ela será uma Grifinória das fortes".

Mas Lance não poderia estar mais enganado.

No segundo seguinte, eu compreendi o motivo de toda aquela antipatia de Morgana em relação a mim. Compreendi a sua arrogância e soberba, compreendi porque a sua rejeição a um simples cumprimento me deixara tão perturbado.

Pois o chapéu seletor exclamou em alto e bom som: "Sonserina!"