MORGANA II
Desde o início, eu sabia que seria selecionada para uma das casas.
Até estudara sobre elas, a pedido da minha tia Viviane.
Mas não me identificara com nenhuma em especial.
A minha essência ia muito além das características específicas em cada uma das quatro e não seria uma seleção externa que me diria como eu era ou deveria ser.
Por isso, não me importei com a casa que eu iria...até que o estranho chapéu me fez uma pergunta mais estranha ainda:
"Para onde você quer ir?"
"O quê?" – eu fechei os olhos, para ouvir melhor aquele ser conversando dentro da minha mente.
"Você é inteligente, astuta e corajosa. Poderá se encaixar na Grifinória, na Corvinal ou na Sonserina".
Era só que o me faltava!
Por que um chapéu seletor se ele não conseguia decidir sozinho? É claro que eu era corajosa, inteligente e astuta! E muitas outras virtudes a mais! E defeitos...
"A sua vontade também é importante".
Então eu abri os olhos, e olhei diretamente para Arthur Pendragon. Ele também me olhava.
Na verdade, todos me olhavam! Eu estava no meio do salão principal da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts com um chapéu falante e indeciso na minha cabeça!
Inspirei profundamente e fechei os olhos de novo, sem refletir sobre o significado das palavras que surgiram em meu pensamento:
"Para algum lugar longe de Arthur Pendragon".
Eu só queria distância daquele que era o filho do assassino do meu pai.
E não demorou muito para que o chapéu finalmente se decidisse e exclamasse:
"Sonserina!"
Ouvi os aplausos fortes da mesa à minha direita, condecorada com uma bandeira em tons de verde e prata e a imagem de uma serpente.
Para a Deusa, a serpente representa o cordão que nos liga à origem, à capacidade de transformação e a feminilidade. É, talvez eu conseguisse me dar bem ali.
Levantei-me e ergui os ombros para Lancelot, numa tentativa de me desculpar.
Eu sabia o quanto ele queria que eu fosse para a Grifinória, mas eu não podia estar mais satisfeita por não pertencer a mesma casa de Arthur.
Ele piscou e sorriu, resignado.
Na mesa da Sonserina, fui surpreendida por muitos cumprimentos, sorrisos e olhares curiosos.
Sentei na ponta, ao lado de um jovem bem alto, que parecia ter por volta dos dezessete, e também levava ombreiras prateadas por cima da capa de couro verde.
"Seja bem vinda à Sonserina!" – ele disse, exibindo seu sorriso esguio e branco.
"Obrigada".
"E agora, daremos início ao momento mais esperado por todos vocês!" – exclamou Merlin.
"Não! Ele vai tingir a barba?"
À minha frente, uma menina estilosa parecia animada. Ela tinha mechas verde neón no seu cabelo castanho claro, o que me fez entender seu comentário.
"Vai sonhando, Eve!" – disse o garoto alto ao meu lado.
"Que comece o jantar!".
No mesmo segundo, maravilhosos pratos, contendo uma grande diversidade de alimentos, surgiram em todas as mesas.
E após um grito ensurdecedor de comemoração, todos os adolescentes começaram a comer rapidamente. Sem um agradecimento...sem nada?
Eu olhei a minha volta e até o Bispo de Camelot já mastigava.
Suspirei. Fechei os olhos, coloquei as mãos em concha ao redor do meu prato e fiz meu usual agradecimento.
Pelo visto, Avalon realmente me faria falta!
"E aí? Morgana, não é? – perguntou o garoto alto – Eu sou o Kay".
Eu sorri para ele, enquanto engolia o que parecia ser uma torta de abóbora, muito saborosa, por sinal.
"Então você vem de Avalon?"
Eu fiz que sim com a cabeça.
"Lá é legal?"
"É diferente..."
"O quê?"
Ele franziu a testa, indicando que eu falasse mais alto.
Pelo menos lá a gente não precisava falar gritando para conversar!
"É o meu lar! Aonde eu morei por dezoito anos! Então, acho que é mais do que legal!"
"É verdade que lá é só para meninas?"
A garota de cabelo verde tinha os olhos bem abertos e interessados.
"Sim".
"Uau! Deve ser um sonho não ter que conviver com essas criaturas insensíveis!"
"Ei, Eve! Eu estou aqui!"
"Se a varinha serviu, Kay..."
Ele se virou para mim.
"E essa criatura insuportável é a Evelyn".
"Eve!" – ela o corrigiu.
"Ok, Eve!"
"Eu conheci a Senhora do Lago, certa vez" – disse Eve, virando-se para mim – "Viviane, não é? Por acaso você é filha dela?"
"Não. Eu sou sua sobrinha, na verdade."
"Nossa, vocês se parecem tanto!"
"Deve ser porque as duas são sacerdotisas – explicou Kay, e piscou para mim – E muito gatas, também".
Eu apenas revirei os olhos.
Começava a achar que Evelyn tinha razão em relação ao gênero masculino. Todos tão indelicados com comentários apelativos.
Eu tinha impressão que Lancelot era o único que se diferenciava...e Arthur...
Ele parecia se divertir muito com seus amigos e a sua namorada na mesa da Grifinória.
Não, Arthur era pior, assim como o seu pai.
Não importava se fosse o futuro rei da Grã-Bretanha, ou se o seu sorriso iluminasse o salão, se o seu cabelo dourado caísse perfeitamente sobre o rosto másculo e se seus olhos âmbar olhassem diretamente para mim.
Morgana!
Eu rapidamente desviei o olhar e coloquei uma batata na boca.
"E lá, em Avalon, - disse Kay, redirecionando minha atenção - Vocês fazem mesmo sacrifício de animais?"
O quê?
Eu engasguei. Do que ele estava falando? Que absurdo era aquele?
"Claro que não!"
"Calma! Só perguntei porque...já ouvi de alguns clérigos..."
"Deve ser só um boato, Kay" – disse Evelyn.
Eu senti meu estômago revirar. Como pessoas que nem sabiam o que era Avalon podiam fazer comentários tão maldosos?
E logo os membros da Igreja, aqueles que deviam ser os mais tolerantes entre todos!
Eu olhei para o frango assado ao meu lado, já despedaçado pelas mãos vorazes e famintas dos seres humanos.
"Bom, eu não sei o que dizem os boatos. Mas se esse frango tivesse nascido em Avalon, ele estaria nesse momento vivinho e feliz ciscando pela granja. E não nessa bandeja, matando a fome de todos vocês".
E no silêncio constrangedor que se seguiu à minha volta, eu me levantei e caminhei para fora do salão.
Eu corria entre as pedras buscando ajuda.
Sabia que o meu pai estava sendo atacado. Eu o via!
Via cada golpe e as suas forças se esvaindo.
Via o sangue jorrando em seu rosto bonito em cada lance de espada.
Via o homem que o matava impiedosamente.
"Pai!" – eu gritava, as lágrimas escorrendo pela visão.
Eu estava em Avalon, do outro lado do Lago, e tinha apenas sete anos. O que poderia fazer além de chorar?
E quando a espada atravessou seu coração, eu vi que o homem que o matara não era Uther.
Não, Uther não era assim tão jovem, Uther não tinha os olhos âmbar, Uther não chorava...não...
"Não!"
Eu arquejei e finalmente despertei.
"Morgana? Tudo bem?"
Era a voz de Evelyn, a menina de cabelos verdes. Ela acendera a sua varinha ao lado da minha cama.
Eu estava no dormitório das meninas, na ala da Sonserina, em Hogwarts...e tudo não passara de um horrível pesadelo.
"Tudo. Agora sim" – eu suspirei, limpando as lágrimas.
"Com o que você sonhou?"
Que o meu pai era morto...por Arthur Pendragon.
"Nada demais. Foi só um..."
"Pesadelo".
"Sim".
Eu já havia sonhado diversas vezes com essa cena, após a noite em que tudo verdadeiramente acontecera.
Vira meu pai morrer diversas vezes pelas mãos de Uther. Vira o seu sangue, sentira a dor da espada cortante, mas nunca...nunca a imagem do assassino se modificara.
"Isso vai te fazer sentir melhor".
Evelyn me estendeu um frasco que continha um líquido floral e tranquilizante. Eu a cheirei.
"Lavanda, não é?"
"De acordo com a Herbologia, ela ajuda a acalmar os nervos e a relaxar".
"Com certeza. Obrigada, eu já me sinto melhor".
Eu inspirei o aroma mais uma vez e devolvi o frasco a ela.
Então me levantei e comecei a me vestir. Só me sentiria melhor de fato quando saísse de dentro daquelas quatro paredes e conseguisse respirar ar puro. Ali, me sentia sufocada.
"Morgana".
"Desculpe, Evelyn. Mas eu preciso dar uma volta".
"Tudo bem. Eu só queria que soubesse que eu realmente nunca acreditei nessa história de sacrifício de animais. Nem de magia negra ou qualquer outra mentira que espalham sobre Avalon".
Eu sorri para ela. Era realmente reconfortante encontrar uma pessoa autêntica ali.
"Eu sei que não, não se preocupe".
"O Kay é um idiota".
"Disso eu não tenho dúvidas".
Nós rimos juntas.
"Desculpe se eu não me junto a você para um passeio noturno, mas preciso dormir. E cuidado com os fantasmas! Eles adoram se lamuriar nas masmorras!"
Mesmo quando o assunto era fantasmagórico, Evelyn era divertida! Tive a sensação de que poderíamos ser boas amigas. E de que ela seria uma boa sacerdotisa, se tivesse tido a chance.
Eu coloquei minha capa de veludo roxo e saí da sala comunal da Sonserina.
Eram quatro e meia da manhã e fazia frio nas masmorras, mas o vento me ajudava a desanuviar a energia concentrada e sufocante.
Quando alcancei os estábulos, Mirra balançou a calda e a cabeça, feliz em me ver.
"Vamos dar um passeio, garota? O que é isso?"
Uma manta de lã vermelha cobria o tronco de Mirra. Os outros cavalos também levavam mantas ou peles grossas sobre o corpo.
"Bom, eu não sei quem foi, mas me lembre de agradecê-lo por mantê-la aquecida!"
Eu montei em Mirra e saí em disparada pelos portões de Hogwarts.
Ah! Como era bom sentir a brisa no rosto! Como era bom sentir-me livre!
Eu havia ficado apenas algumas horas dentro daqueles muros, mas parecia muito mais que isso!
Os muros estão dentro de você, Morgana... – soprou o vento.
Isso podia ser verdade.
Derrube cada pedra, cada tijolo de sua alma, e mesmo dentro de uma prisão física, serás a mulher mais livre e leve do mundo...
Eu fechei meus olhos e inspirei o orvalho da noite, a luz da manhã que começava a clarear o topo das colinas...clareando...clareando...
Até que o sol despontou e aqueceu a terra, aqueceu Hogwarts.
Eu me virei para o enorme castelo. Quem disse que seria fácil? Quem disse que seria simples? Não era isso que a Deusa queria, afinal? Que eu enfrentasse as dificuldades da vida mundana? Que eu me tornasse sacerdotisa fora das ruínas de Avalon?
Pois era isso que eu seria! Decidi para mim mesma que eu me esforçaria, que seria feliz em Hogwarts, pelo tempo que aqui passasse.
"Pelo menos, vamos tentar, não é, Mirra?"
Tentar e conseguir.
Desci à colina a galopes rápidos, em direção à escola e levei um susto quando quase me choquei a algo. Ou alguém.
Puxei o pelo de Mirra e ela se ergueu nas patas traseiras, relinchando pelo susto.
"Droga!" eu o ouvi o dono do outro cavalo reclamar.
Meu coração disparou. Era ele. Arthur Pendragon.
O rapaz acalmou o seu frísio galês com facilidade.
"Hey, hey... – eu sussurrei para Mirra, tentando acalmá-la também, mas não me controlei – Ei! Como você sobe a colina desse jeito? Podíamos ter caído!".
Os olhos de Arthur brilharam pra mim, e não de alegria.
Isso, Pendragon, mostre o seu verdadeiro eu.
"Me desculpe, sacerdotisa" – ele disse e eu tive a impressão que abafava uma risada – "Não foi a minha intenção colidir com você".
"Com certeza, a minha também não".
Eu rodopiei com Mirra, que ainda estava agitada, relinchando levemente.
Antes que eu percebesse, ele já estava bem perto e acariciava a crina da minha égua.
"Sh...boa garota..."
Inesperadamente, ela pareceu se acalmar diante do afago dele em seu focinho. Somente por isso, eu não desviei.
"Você não usa rédeas?" – ele perguntou.
"Você não gostaria de ter amarras ao redor do seu pescoço, não é?"
Ele me olhou, surpreso, erguendo as suas sobrancelhas.
Pela Deusa, como coisas tão óbvias podiam ainda surpreender tantas pessoas nesse mundo?
"Ela é linda" – ele disse, como se fosse um grande entendedor de cavalos – "Um belo animal, ótimo para cavalgadas longas".
Eu teria revirado os meus olhos se não visse a manta que cobria o cavalo que ele montava. Era da mesma cor o tecido que cobria Mirra quando a encontrei no estábulo. Será que Arthur havia se preocupado e...
"Lance me disse que você é uma garota que adora cavalgar".
"Ele disse?"
"Só não esperava encontra-la tão cedo no alto dessa colina. O sol mal acabou de nascer".
E eu de morrer! Quer dizer, se ficar mais dois minutos conversando com você!
"O que te trouxe aqui?"
Eu me encontrei respondendo antes de chegar à conclusão que a minha vida não era da conta dele. De ninguém.
"Eu provavelmente sufocaria se ficasse mais dez segundos naquelas masmorras horríveis!".
Eu estava falando sério, mas ele achou graça e riu.
"O que é tão engraçado?" – eu bufei.
"Nada. Não é engraçado, é curioso. Curioso como às vezes eu sinto exatamente a mesma coisa, Morgana".
A forma doce com a qual ele dissera meu nome me fez baixar a guarda, instintivamente.
Observei como seus cabelos dourados, bagunçados pelo vento, cobriam parcialmente os olhos âmbar que tanto haviam perturbado meu sono. Seu sorriso era incrivelmente bonito, de admiração ou algo parecido. Um sorriso que não me era estranho, que me fazia recordar algo bom do passado, apesar de eu não fazer ideia do quê.
E foi só quando a sua mão esbarrou na minha, por cima da pelugem de Mirra, que eu acordei para a realidade.
Morgana! O que você está fazendo? Este é Arthur Pendragon!
Eu não sabia se ele havia me tocado deliberadamente – isso não importava! Mas me afastei de qualquer maneira. Girei com Mirra e impulsionei-me para retornar a Hogwarts.
"Ei, espera!" – eu o ouvi exclamar.
Pensei duas vezes se deveria retornar ou não. A minha vontade era sair dali o mais rápido possível, fugir daquelas sensações conflitantes, fugir daquele Arthur que não parecia ser tão ruim assim. Quando na verdade, eu devia odiá-lo!
E foi exatamente por isso que eu me virei e galopei novamente até ele.
"O que você quer, Pendragon?"
"Que você me diga o que eu te fiz para não merecer se tratado com a mesma dignidade com a qual você trata os seus cavalos?"
Rá!
Porque o seu pai matou o meu não seria motivo suficiente? Ou eu deveria acrescentar a lista que você roubou a minha mãe de mim quando foi entregue a ela para ser criado?
"Você quer mesmo saber?" – eu cruzei os braços, decidida.
"Estou ansioso, Morgana do Lago".
Ainda por cima, era pretencioso! Ah, maldito príncipe da Grã-Bretanha!
Eu inspirei fundo e fiquei bem séria.
"Pra começar, Arthur Pendragon, eu não sou sua amiga. Eu sou prima de Lancelot e não é por causa disso, ou porque fomos irmãos de leite, que devemos nos obrigar a conversar ou a gostar um do outro. Eu não gosto de você. Na verdade, eu o odeio! Assim como odiei o seu pai e toda essa medíocre realeza que governa a Grã-Bretanha".
Os olhos dele agora estavam arregalados e a boca semi-aberta, exatamente como eu pretendia.
"Eu estou aqui unicamente para trabalhar com o Merlin e para completar o meu último ano escolar, antes de retornar a Avalon e, se a Deusa quiser, nunca mais olhar pra sua cara. Então, se você não me deixar em paz, eu sei muito bem como tornar a sua vidinha real numa vida infernal. Entendeu?"
Eu não esperei a sua resposta – se é que ele tinha alguma - para sair em disparada montanha abaixo. Agora sim eu tinha a certeza de que Arthur Pendragon sabia do que eu era capaz e não voltaria a me importunar.
