Capitulo 6: Manhã Sem Fim.
I – Formas.
Olhou para baixo mais uma vez. A rede de segurança estava bem colocada no palco. Como Yuri e Leon estavam usando os ginásios, Sora pedira a Ken que preparasse os trapézios do palco.
O trapézio esférico já fora instalado por Ian, o mesmo trapézio usado na peça Freedown por ela e Laila. Respirou fundo, esse era o primeiro passo.
-Esta pronta? –A voz de Ken soou em seu ouvido.
Embora usasse as roupas comuns de treinamento, fora preso em seu ouvido um pequeno fone de tecnologia avançada que permitia que ela falasse e ouvisse normalmente, enquanto Ken lá em baixo estaria monitorando todo o treinamento.
Ken resolvera gravar as tentativas da jovem e com o laptop poder monitorar passo por passo e analisar as melhores performances, para que pudessem melhorá-las depois.
Aquela técnica teria de ser mais do que perfeita e eles trabalhariam juntos para que isso acontecesse.
-Estou; Sora respondeu.
Com um leve impulso ela começou a se balançar no trapézio...
-"Muitas coisas são diferentes agora"; Sora pensou, enquanto fazia uma espécie de aquecimento, apenas trocando de barras, sem fixar-se em uma técnica especifica. –"Quando comecei meu maior sonho era entrar no Kaleido Star e ser parceira da Srta Laila"; ela pensou, lembrando-se do que ocorrera no teste e depois nos bastidores.
Trocou novamente de barra, agora se concentrando em um ponto só...
-"Aquela época o Jovem Yuri me disse que eu não poderia ser a Julieta, mesmo insistindo em fazer a técnica eu sabia que faltava algo e ele estava certo"; ela concluiu.
Um giro de trezentos e sessenta graus no trapézio em espiral lhe deu a velocidade necessária para alcançar uma das barras que estava a cerca de quatro metros a sua frente.
-"Não existia um Romeo"; ela pensou, sentindo a face queimar, perdendo momentaneamente a concentração.
Escorregou da barra, deixando-se cair de costas sobre a rede de segurança.
-Você esta bem? –Ken perguntou preocupado, ela parecia tão concentrada, que achou estranho que ela tivesse perdido o tempo entre a troca das barras.
-Estou sim, só perdia a concentração; Sora respondeu, tornando a saltar para o trapézio.
-Imagino em que estava pensando; o jovem falou com um meio sorriso sugestivo.
-Sinceramente não faço idéia sobre o que você esta se referindo; ela rebateu, mantendo-se de costas para ele, pois sua face estava tão vermelha quanto os cabelos de Rosetta.
-Tem certeza; Ken insistiu. –Posso te lembrar o motivo, se quiser; ele sugeriu com falsa inocência.
-Não obrigada; Sora falou prontamente.
-Se você diz, não vou lhe desconcentrar; ele falou com um sorriso inocente. –Mas preste a atenção na velocidade que você emprega para fazer o giro, se você forçar de mais o corpo pra frente, querendo seguir os padrões do Fênix Dourado como base, vai perder o seu equilíbrio; Ken alertou.
-Entendi; ela respondeu, preparando-se para saltar novamente.
-o-o-o-o-
Suspirou pesadamente, tentara treinar, mas nada conseguira. Perdera completamente a concentração tentando colocar os pensamentos em ordem. Desceu do trapézio desistindo completamente de ficar ali.
Leon aproximou-se do banco em que deixara sua jaqueta, provavelmente estaria ventando lá fora e o caminho para os dormitórios poderia vir a lhe render uma gripe se abusasse. E agora o que menos precisava era de algo que atrapalhasse seu desempenho no teste.
Parou, franzindo o cenho ao ver um bonequinho em cima do banco.
-"O que será isso?"; Leon se perguntou, estranhamente o bonequinho parecia suar frio.
Leon levou o indicador na direção dele e o cutucou. Um barulhinho estranho foi emitido pelo bonequinho. Leon abaixou-se, até que os joelhos quase tocassem o chão para olhá-lo mais de perto.
-Que coisa é você? –ele perguntou para si mesmo, sem esperar uma possível resposta vinda do bonequinho.
-Se você pode me ver, quer dizer então que você é uma das pessoas escolhidas para ser a futura estrela do Kaleido Star; Fool falou, abrindo os braços.
Assustado-se com Fool, Leon afastou-se rapidamente. Nesse momento o ginásio ficou numa completa penumbra, apenas uma tênue luz acendeu-se na escuridão, vinda das mãos do espírito do palco onde um globo cristalizado se materializara.
-O que é você? – o acrobata de madeixas prateadas perguntou com cautela.
-Sou Fool, o Espírito do Palco; ele respondeu. –E você agora, tem um desafio com o destino;
II – Mudanças.
Ken colocou a mão sobre a boca para evitar que mais um bocejo saísse. Sentiu os olhos pesarem e o corpo ficar cansado de estar tanto tempo naquela mesma posição, sentando em uma das cadeiras do auditório com o laptop no colo e a seu lado um suporte com uma filmadora, que registrava os movimentos da jovem e automaticamente passava para o computador.
-Sora, já são quase quatro horas da manhã; ele avisou, assustado ao mirar o relógio e ver que passaram a noite toda ali. –Não quer fazer uma pausa?
-Nossa como o tempo passou; Sora falou assustada, não imaginara que o tempo poderia passar tão rápido. –Ken se não se importar queria treinar mais um pouco; ela falou, sentando-se um momento sobre o trapézio.
-Tudo bem, mas não se exceda é só o primeiro dia ainda; ele falou, enquanto levantava-se momentaneamente e fazia um alongamento, ouvindo as costas estalarem. Tornou a sentar-se voltando as gravações. –"A cada nova tentativa a técnica esta tomando forma, é surpreendente como ela consegue ser tão rápida pra aperfeiçoá-la";
Embora a Fênix de Fogo seguisse os princípios do Fênix Dourado de Laila, era evidente a diferença, os sentimentos que a técnica almejava demonstrar eram seu diferencial.
Ela não usava só o corpo nas acrobacias para a troca do trapézio, usava também os braços e as pernas. As mão moviam-se delicadamente pelo ar, como se fosse capaz de tocar as nuvens, era tão relaxante vê-la atuar daquela forma, que lhe dava paz; ele pensou.
Lembrou-se que uma vez perguntara a Sora só por curiosidade, se ela não aceitara concorrer o papel de Julieta com Mei, porque já sabia que ganharia, mas se surpreendeu com a resposta.
-Na verdade não; ela respondeu, quando ele lhe perguntara.
-Porque diz isso? Até o Fênix Dourado da Laila você já executou, ser a Julieta não seria grande desafio; ele argumentou.
-Entenda Ken, existem Julietas e Julietas no mundo; ela falou surpreendendo-o com o ar sério que respondia.
-Como assim?
-Existem Julietas que amam seus Romeos. Julietas egoístas que querem brilhar sozinhas, mais do que qualquer estrela no céu. Julietas que dariam o mundo por um sorriso de seu Romeo e Julietas que não tem um Romeo; ela explicou.
-Ahn! E você, se encaixa em qual dessas Julietas? –ele perguntou curioso.
-Não sei; ela respondeu simplesmente.
-Como? –Ken perguntou espantado.
-Eu amo o palco como a Julieta ama o seu Romeo, quero brilhar como uma estrela, mas não ao preço da dor dos outros, se temos que brilhar que seja, todos juntos. Eu daria o mundo só para merecer o sorriso de cada pessoa que entra no Kaleido Star para recuperar seus sonhos e aprender a sonhar, mas no fim, não sei se esse é o caminho certo a seguir, ou criar um espetáculo sem competições é mesmo possível, mas enquanto puder, vou sempre seguir em frente; ela completou.
-"Realmente, somente aquele que conseguir competir com esse palco de igual para igual, vai conseguir conquistá-la; ele pensou.
-o-o-o-o-
Yuri jogou as chaves do carro sobre a mesinha de centro. Suspirou pesadamente, tentara treinar, mas depois do que ficara sabendo sobre a decisão de Sora de deixar o papel principal se tivesse de escolher entre eles, lhe perturbara de mais.
Aproximou-se da janela abrindo momentaneamente as persianas. A noite já despontava e as estrelas já começavam a brilhar. Voltou-se para trás mirando a poltrona central.
-"Quatro anos"; ele pensou, lembrando-se da primeira e ultima vez que a vira entrar por aquela porta e sentar-se exatamente ali.
-Queria ter estado ali pra você, da mesma forma que você sempre esteve pra mim; a voz da jovem ecoou em sua mente. -Agora nunca saberemos se poderia ou não ser diferente; ela completou com um doce sorriso. -Não estou desistindo, considere isso apenas uma retirada estratégica; Sora falou com um sorriso enigmático. -Espero que quando nos encontrarmos novamente, nos encontremos como amigos, pois sei que vai lutar por ele, da mesma forma que eu; ela falou, referindo-se a posse do Kaleido Star.
-"Que poder é esse que você tem de mudar a vida das pessoas, hein, Sora?"; ele se perguntou, com um meio sorriso nos lábios.
Afastou-se da janela indo em direção ao quarto. Precisava de um banho, única forma de relaxar e espantar aqueles pensamentos.
Entrou no banheiro e lançou um olhar demorado para o espelho, quando seu olhar deteve-se em um ponto atrás de si. Uma pequena mesa onde havia colocado o roupão que vestiria. Em cima da mesa estava uma espécie de bonequinho, semelhante a um pierrô.
Yuri virou em direção ao bonequinho aproximando-se com cautela, franziu o cenho notando que ele parecia suar frio.
-O que é isso? –ele se perguntou, cutucando o bonequinho.
-Se você pode me ver, quer dizer que você é uma das pessoas escolhidas para ser a futura estrela do Kaleido Star; Fool falou.
-Estrela? Eu devo estar ficando louco de vez, estou ouvindo essa coisa falar; ele falou consigo mesmo. –Melhor tomar um banho logo;
-Hei garoto, estou falando com você; Fool gritou, sendo ignorado novamente por Yuri.
-Puff; Yuri resmungou, enquanto jogava as roupas em um cesto e entrava em baixo da água.
-"Vai ser mais difícil do que eu imaginava"; Fool pensou, desaparecendo em seguida.
III – Chegadas.
Já era madrugada quando as duas acabavam de sair do portão de desembarque do aeroporto de Cape Mary. Uma das jovens não cabia em si de tanta euforia.
-Vamos logo Laila, se não vamos chegar quando o teste estiver no fim; Kate falou impaciente, arrastando sua mala pelo meio do aeroporto.
-Seja paciente; a ex-acrobata falou, a viagem toda fora assim. Com Kate reclamando o quanto o avião era lento e que chegariam no Kaleido Star no termino do teste.
Ainda lembrava-se de quando Carlos ligara avisando do projeto de comemoração dos vinte anos do Kaleido Star e pediu a ajuda das duas para a coordenação do projeto. Sem contar que ele lhes dissera que tinha uma surpresa, o que contribuiu para Kate não lhe dar um momento de silencio.
-Laila, você conhece o Carlos há mais tempo que eu, me diga, você sabe o que ele esta tramando, não? –ela perguntou, enquanto saiam do aeroporto e ela acenava freneticamente com o braço para chamar um táxi.
-Não Kate. Pela milésima vez, não sei; Laila suspirou pesadamente. Não sabia ao certo, mas fazia idéia, já que o ex-chefe lhe dissera que tudo estava relacionado ao pequeno 'duelo' travado entre os dois acrobatas do Kaleido Star e que estava gerando algumas historias interessantes, porem, havia mais coisas das quais ele não quis comentar por telefone.
-Para onde Srtas? –o taxista perguntou, após colocar as malas das duas dentro do porta-malas.
-Condomínio Hamilton; Laila respondeu.
-...; O taxista assentiu, sabia que aquele era um dos condomínios mais famosos de São Francisco. Não levariam muito tempo para chegarem até lá.
-Ainda me pergunto que tipo de técnica a Sora esta planejando para esse espetáculo; Kate começou, lembrando-se da performance da jovem na peça do Lago dos Cisnes.
-Deve ser algo realmente novo; Laila falou num murmúrio vago. –Algo me diz que muitas coisas vão acontecer nesse teste;
-Eu estou falando, você sabe de algo e não quer me contar; Kate falou ficando emburrada.
-Não sei mesmo, mas digamos que seja apenas um pressentimento; Laila falou com o olhar vago. –"Se não estou enganada muitas coisas vão mudar, só espero que pelo menos ela saiba o que fazer agora"; ela concluiu em pensamentos.
-o-o-o-o-
-Sora, são quase seis da manhã, vamos fazer uma pausa; Ken falou, levantando-se.
-Esta bem; ela respondeu, caindo de costas na rede e saltando para o chão.
-Lembrei de algo; ele começou, enquanto lhe entregava uma garrafa de água e uma toalha.
-O que? –ela perguntou, deixando-se cair em uma das poltronas, enquanto ele começava a revisar o material.
-Laila e Kate chegam hoje; ele respondeu.
-O QUE? –ela gritou, cuspindo de uma vez o gole de água que tomara. Tossiu aflita por sentir a água entrar em seu canal respiratório.
-Calma, respira fundo; Ken falou, dando-lhe alguns tapas nas costas.
-Ahn! Você estava falando exatamente sobre o que mesmo, Ken? –Sora perguntou casualmente, tentando não parecer nervosa.
-Laila e Kate chegam hoje, parece que o Carlos pediu que a Kate ajudasse a Mia com a coordenação das apresentações e a Laila vinha junto pra ajudar com o elenco; Ken respondeu, sem notar que a jovem perdera temporariamente a cor da face.
-"A Srta Laila também veio"; ela pensou, enxugando a testa com a toalha.
-Vai contar a ela? –Ken perguntou, tirando-lhe de seus pensamentos.
-Sobre?
-...; Ken arqueou a sobrancelha.
-É melhor deixarmos esse assunto quieto, Ken; ela pediu, abaixando a cabeça. –Vai ser melhor assim;
-Eu não acho, mas é você quem decide; Ken deu de ombros. –Mas mudando de assunto, já tem idéia de quem é que te mandou as rosas? –ele perguntou interessando.
-Não, porque? –ela perguntou curiosa. –Sabe de alguma coisa que por acaso não esta querendo me contar, Ken? –Sora perguntou, voltando-se pra ele com um olhar enigmático.
-Eu, imagina; ele respondeu com um sorriso sem graça.
-Ken; Sora falou em tom de aviso.
-É sério, não faço idéia de quem esta te mandando flores; ele respondeu evasivo. –Mas porque não pergunta; Ken sugeriu.
-Pra quem?- Sora perguntou curiosa.
-...; Ele abriu um largo sorriso, fazendo a jovem corar furiosamente.
-A não, lá vem você com isso de novo; ela falou, levantando-se e indo para o trapézio.
-Nada me impede de tentar; ele respondeu. –Quem sabe eu ainda te faço mudar de idéia e insistir mais nisso;
-Desista; Sora falou saltando.
-Pensei que essa palavra não estivesse no seu dicionário; ele provocou.
-Eu não disse que não estava, eu apenas não a uso com freqüência; Sora falou, tornando a saltar, agora com mais empenho.
-"Como eu queria te contar que é ele que te mandou as rosas"; ele pensou, dando um suspiro resignado.
Lembrou-se da primeira vez que a jovem tocara naquele assunto consigo e pedira sua opinião. Não negava que ficara surpreso, ou talvez não imaginasse que exatamente aquilo que suspeitara estivesse realmente certo, mas a verdade é que no final, ele era o único a saber sobre as verdadeiras escolhas da jovem, eram amigos e sempre confiaram um no outro.
Quando começara a namorar Isabel, recebera o total apoio de Sora, o que serviu para aumentar os laços de amizade que os uniam. Agora era sua vez de ajudá-la a não desistir daquilo. Não se perdoaria se ela fizesse tal coisa.
Continua...
