A Lenda
Primeira Parte
Deliriun
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, mas eu amo o Yuri mesmo assim XD... A musica 'No meu coração', também não, mas ela foi muito inspiradora para que esse capitulo saísse.
Capitulo 18: Chuva de Estrelas.
.I.
Jogou as malas num canto da sala e seguiu para o quarto, ouviu um barulho estranho, mas deu de ombros, provavelmente Fool ficara preso na mala de novo.
-Ah, como é bom estar em casa; Sora murmurou suspirando, enquanto jogava os braços para cima, alongando o corpo.
Os últimos dias no circo do Sr. Parker haviam sido incrivelmente compensadores, por um momento achou que fosse ter de passar aqueles dias no meio de um cabo de guerra entre os dois acrobatas, mas era bom saber que alguma coisa estava mudando e que pelo menos a infantilidade descontrolada, não estava mais assim tão 'descontrolada'.
Com um sorriso nos lábios seguiu para o banheiro, era melhor tomar um banho e descansar. Podia apostar que dali a algumas horas uma legião de garotas curiosas iriam invadir seu apartamento, querendo saber das novidades.
-o-o-o-o-o-
Estavam já algum tempo conversando na sala do empresário, quando ouviram um grito vindo dos corredores.
-Carlossssssssss;
-Ah não; ele murmurou abaixando a cabeça, constrangido.
-Suponho que seja novamente sua namorada; Sr. Kennedy comentou, vendo a porta ser escancarada pela loira que não parecia nem um pouco constrangida em interromper mais uma reunião.
-O que quer Sarah? –Carlos perguntou com uma veinha saltando na testa.
-Eles já chegaram; ela falou ofegando pela corrida.
-Quem? –ele perguntou arqueando a sobrancelha.
-Leon, Sora e Yuri; Sarah respondeu, gesticulando nervosamente.
-Chegaram de onde? –Sr. Kennedy perguntou com ar interessado.
-Quinta-feira Sora foi para o circo do Sr. Parker, passar um tempo e bem...; Carlos falou dando um suspiro cansado. –Parece que aqueles dois doidos foram atrás;
-Ah, foram? –o empresário idoso indagou, embora houvesse soado mais como uma afirmativa.
-...; Sarah assentiu. –Os vi chegarem de táxi agora de pouco; ela comentou.
-Me diz pelo menos, que eles não estavam tentando se matar? –Carlos perguntou, já imaginando a cena de Sora tentando separá-los, antes que acontecesse alguma coisa.
-Não, por mais incrível que pareça os dois estavam quietos; Sarah respondeu.
-E Sora? –Sr. Kennedy perguntou interessado. –Como estava?
-Normal, quero dizer, como sempre; Sarah falou dando de ombros, como se dissesse que não vira nada de diferente na garota.
-Uhn! Interessante; o empresário idoso murmurou, cruzando os dedos das mãos uns nos outros, com ar pensativo.
-Era só isso Sarah? –Carlos perguntou, lançando um olhar de soslaio ao empresário e vendo que ele tinha algo em mente.
-É; ela respondeu com um olhar inocente. –Agora já vou;
Antes que pudesse falar alguma coisa, a cantora já havia desaparecido porta afora. É, tem coisas que nem Freud explica; Carlos pensou.
-Carlos, estive pensando numa coisa; Sr. Kennedy começou.
-O que, senhor? –o brasileiro perguntou curioso.
-Que dia será mesmo o teste de Yuri e Leon? –ele perguntou.
-Segunda-feira; Carlos respondeu, sem entender o que isso tinha a ver.
-Uhn! Bom... Muito bom; Sr. Kennedy murmurou fitando-o com um olhar indecifrável. –Muito bom;
.II.
Jogou-se na cama, sentindo-se incrivelmente bem depois de um banho relaxante, ainda tinha que desfazer as malas, mas a preguiça estava sendo mais forte agora; ela pensou fechando os olhos.
A noite já caia lá fora, como sentia saudades de sua cama. Nada como estar em casa. Pelos seus cálculos, agora só faltavam dois dias e meio para o teste. Quem será que iria vencer? –Sora se perguntou.
Passara os últimos dias fugindo de Pámela, que decidira obter algumas respostas de si a qualquer custo. Seja usando os gêmeos para lhe chantagearem, ou alguma coisa tirada praticamente da cartola como um coelho branco, para conseguir, mas como outros que já haviam tentando, não conseguiu.
Ouviu alguém bater na porta, suspirou pesadamente, pensou que fosse ainda ter alguns minutinhos antes do bombardeio de perguntas, mas era hora de enfrentar as amigas e conseguir não se contradizer e o pior, falar mais do que devida.
Sabia que Mia e Anna, acima de tudo, quando queriam, conseguiam lhe extorquir alguma coisa. Então, toda cautela era pouco agora.
-Já vai; Sora falou levantando-se.
Encaminhou-se até a porta a passos arrastados, mas quando a abriu, ficou ligeiramente de boca aberta.
-Senhorita Layla? –ela falou surpresa ao ver a antiga acrobata ali.
-Como vai Sora? –Layla perguntou com um olhar calmo.
-Bem, mas... Entre por favor; a acrobata murmurou, dando-lhe passagem.
-Espero não estar te atrapalhando; ela comentou vendo as malas ainda jogadas no chão.
-Não, faz tempo que cheguei; Sora comentou com um sorriso sem graça. –Mas sente-se, vou fazer um chá pra gente; ela falou indicando a mesa da cozinha, assim que seguiram para o cômodo.
-Como foi de viagem? –Layla perguntou como quem não quer nada.
-Bem; Sora respondeu levando um bule para baixo da torneira e enchendo-o de água. –Desculpe não ter falado com a senhorita, quando chegou; ela falou, lembrando-se que com toda aquela correria das apresentações no abrigo de animais, a viagem e ter de ficar no meio do fogo cruzado entre aqueles dois, não havia conseguido falar com ela.
-Não se preocupe, imagino que você esteve ocupada com coisas que requeriam demais sua atenção; ela comentou com um sorriso matreiro.
-Uhn! –a jovem murmurou com ar confuso, enquanto acendia o fogo. –De certa forma;
-Espero que eles não tenham te dado muito trabalho; Layla comentou.
-Quem? –Sora perguntou, voltando-se para ela, enquanto colocava dias xícaras na mesa.
-Leon e Yuri... Alias, não se fala em mais nada nos últimos dias, a não ser no repentino sumiço desses dois desde que você viajou. E conhecendo bem o Yuri do jeito que eu conheço, algo me disse que ele estaria ao menos, um quilometro perto de você; ela falou.
Deu um baixo suspiro, balançando a cabeça com ar de reprovação, antes de pegar um potinho no armário com o chá.
-Acho que ele e o jovem Leon ainda não perceberam que não sou eu, que vou decidir quem será o protagonista da Lenda; Sora falou.
-Uhn! –Layla murmurou com ar intrigado ao vê-la abordar esse assunto. –Porque diz isso?
-Essas coisas que eles vem fazendo ultimamente, parecem crianças brigando por causa de um doce; Sora falou gesticulando displicente, enquanto tirava a água do fogo e colocava o chá. –Não sou eu que vou escolher, não tem necessidade de ficar tentando se matar na minha frente, pra ver quem eu socorro primeiro, para saber se isso quer dizer algo ou não; ela falou em meio a um suspiro cansado.
-Acha mesmo que é por isso, Sora? –Layla perguntou com um fino sorriso nos lábios.
Algumas coisas poderiam estar diferentes, mas outras, talvez nunca mudassem; ela pensou, observando-a derramar o liquido fumegante nas xícaras.
-Como?
-Bem... Você acha mesmo que é por isso que eles fazem isso, digo, apenas para saber quem é um candidato em potencial a protagonista? –Layla indagou.
-Claro, porque mais seria? –Sora perguntou, sentando-se e fitando a antiga acrobata, esperando por uma resposta.
Pensou alguns minutos no que poderia responder, simplesmente não tinha como dizer a ela o que era evidente para todos que viviam ali. Até mesmo ela que chegara há poucos dias fora capaz de deduzir o porquê de tantas brigas infantis.
Deu um suspiro pesado, antes de levar a xícara de chá aos lábios. Era difícil simplesmente das uma resposta para ela, quando a mesma parecia não ter visto o obvio como os demais. Ou será que já vira e optara por manter-se 'em cima do muro'? –ela indagou-se intrigada.
-É, porque mais seria? –Layla murmurou vagamente, optando por mudar de assunto, por enquanto.
-o-o-o-o-o-
Embora o cansaço da viajem fosse relativamente grande, preferiu exorcizar seus pensamentos de outra forma. O corpo movia-se com suavidade entre as barraras, antes de saltar.
Os longos cabelos prateados moviam-se com igual graciosidade, em outros tempos o ambiente a sua volta seria o menos importante; Leon pensou lembrando-se que não foram raras as vezes que visara apenas à perfeição em vez de pensar que ao entrar no palco, não estava sozinho.
Passou as pernas pela barra, prendendo-as de forma que pudesse jogar o corpo para baixo e balançar-se tranquilamente. Por um momento lembrou-se do momento que Mia havia reunido todos para comunicar sobre o roteiro de Drácula.
Quase riu com esse pensamento, porque agora, com as roupas pretas de treinamento e de ponta cabeça no trapézio, parecia realmente um morcego, só faltavam às asas; ele pensou balançando a cabeça levemente para os lados.
Em outros tempos jamais se permitiria ter pensamentos 'cômicos' sobre si mesmo ou qualquer outra coisa. Outros tempos...
Mas apesar de tudo, aquela viagem fora realmente compensadora, muitas coisas haviam ficado claras agora. Pelo menos ainda lhe restavam dois dias inteiros. Agora só faltava criar a técnica que fosse digna de fazer parte da Lenda.
-o-o-o-o-o-
Já fazia algum tempo que estavam caminhando na beira da praia, mesmo com a noite chegando, não pretendiam voltar tão cedo para o Kaleido Star, fazia muito tempo que não paravam o que estavam fazendo para caminhar e conversar como agora.
-O que você acha disso tudo? –Anna perguntou, sentando-se na murada de pedra que formava um caminho até os dormitórios.
-Não sei; Mia murmurou, vendo alguns fios alaranjados, agora soltos das fitinhas, esvoaçarem com o vento noturno, regado a maresia.
-Sabe, às vezes eu acho que a Sora sabe de tudo o que esta acontecendo; ela comentou.
-Porque acha isso? –a escritora perguntou voltando-se para ela.
-Não sei, mas me diz, quando foi que nós nos afastamos tanto? –Anna perguntou, referindo-se ao fato de que já não ficavam mais tão juntas como no começo, o que as impedia de se conhecerem tão bem nessa nova fase, como antes.
-Quando nossos sonhos começaram a se realizar, mas cada um de uma forma; Mia respondeu sorrindo. –Mas entendo o que você quer dizer... Eu também queria saber o que a Sora esta pensando;
-Não é só isso; ela murmurou pegando uma conchinha na areia e tomando-a entre os dedos continuou. –Graças a Sora muitas coisas muraram aqui, eu só não queria que ao tentar ajudar mais alguém, ela acabasse tropeçando de novo e perdendo o rumo para o que realmente quer conquistar;
-Acha que isso pode acontecer? –Mia perguntou preocupada.
-Se tratando de Yuri e Leon, quando a Sora esta no meio, acho que ela não pensa muito para agir. É impossível saber o que pode acontecer quando esses três estão juntos;
-Eu confio na Sora, Anna; ela falou dando um baixo suspiro. –Acho que apesar de tudo, ela vai procurar fazer o melhor até o fim;
-...; Anna assentiu, embora temesse quantas ciosas fossem perdidas até chegar esse 'fim'.
.III.
O sol já estava nascendo quando deixou o apartamento para correr um pouco pela praia. Fazia bastante tempo que não fazia isso, então, era melhor aproveitar enquanto não tinha de treinar para a próxima peça.
A noite fora bastante interessante, passara longas horas conversando com Layla, desde coisas banais a lembranças de coisas vividas em baixo daquela lona repleta de sonhos.
O sol já estava alto quando parou em um quiosque na beira da praia para tomar uma água, antes de voltar.
-Nossa, que coincidência; ouviu uma voz conhecida falar atrás de si.
Virou-se, encontrando o olhar calmo e amigável de Marie. Nossa, quanto tempo não a via; Sora pensou sorrindo.
-Oi! Bom dia! –ela a cumprimentou.
-Bom dia, Sora; Marie falou, sentando-se na cadeira que a garota lhe indicara. –Mas me diz, o que anda fazendo por aqui, ouvi rumores de que o Kaleido Star vai abrir a nova temporada com uma peça incrível, pensei que você estivesse treinando que nem doida como May; ela comentou.
-Não, ainda não; Sora respondeu sorrindo. -Alem do mais, alguns fatores me impedem de fazer isso no momento; ela falou passando a mão pelos cabelos de maneira um pouco nervosa demais.
-Ainda não tem o parceiro certo para a peça? –Marie perguntou curiosa.
-Não, eu disse para o Carlos que se tivesse de escolher o protagonista, teria de colocar outra pessoa no meu lugar; ela respondeu, lembrando-se desse pequeno 'grande' detalhe.
-Você fez o que? –ela perguntou chocada.
-...; Sora assentiu. –Eu... Simplesmente não podia escolher; ela sussurrou, abaixando a cabeça.
-Não podia escolher ou ainda não pode? –Marie perguntou casualmente.
-Não cabe a eu escolher; ela falou deixando os orbes correrem pela praia que aos poucos estavam sendo preenchidas por pessoas vindas de todas as partes.
-Imagino; a senhora murmurou com ar pensativo. –Estive pensando, faz tempo que não vai me visitar no ring, acho que você desaprendeu a andar de patins; ela falou com um sorriso matreiro.
-Fico imaginando se isso funciona com a May também? –Sora falou sorrindo, ao entender o que ela queria com isso.
-Sempre; Marie respondeu. –May é bastante geniosa, você a conhece. Sabe que ela faz de tudo para vencer quando esta disposta a chegar até o fim, mas acho que vai te fazer bem esfriar a cabeça um pouco, sei que para você patinar pode não dar a mesma sensação de liberdade que o trapézio lhe da, mas...; ela ponderou vendo que a acrobata estava com o olhar longe. –Sora;
-Uhn! –ela murmurou voltando-se para ela rapidamente.
-Você parecia longe; Marie comentou, arqueando levemente a sobrancelha.
-Desculpe, é que você me lembrou de uma coisa agora; Sora falou sorrindo. –Mas me diz, você esta indo para o ring agora?
-Estou; ela respondeu confusa.
-Se importa de eu lhe acompanhar?
-Não, mas em que esta pensando? –Marie perguntou vendo um brilho diferente tremeluzindo nos orbes chocolates.
-Nada não, só estava pensando numa coisa; Sora falou sorrindo, enquanto levantava.
-o-o-o-o-o-
Novamente os olhares corriam de um para outro, a expectativa era palpável entre todos ali que esperavam a qualquer momento ver aqueles dois rolando no chão tentando se matar, mas vê-los tomando café de maneira civilizada ali não era exatamente o que estavam imaginando que fosse acontecer.
-Pretende treinar aonde hoje? –Yuri perguntou, olhando atentamente para o jornal que tinha em mãos.
-No palco, quero ver como as acrobacias vão ficar sem rede; Leon respondeu levando uma xícara de café aos lábios, enquanto mantinha uma pequena revista em mãos. –E você?
-No ginásio que o Carlos deixou livre, parece que o pessoal já começou a treinar com algumas coisas que a Mia adiantou, então, é hora de correr contra o tempo, só temos mais um dia;
-...; ele assentiu silenciosamente.
Virou uma página da revista, vendo algo que lhe chamou a atenção. Passara quase a noite toda treinando, ou melhor, pendurado no trapézio enquanto o tempo passara, mas por mais incrível que parecesse não estava cansado e sim, precisando descarregar as energias.
-Só mais um dia; Leon falou jogando a revista em cima da mesa e levantando-se.
-Aonde vai? –Yuri perguntou arqueando a sobrancelha ao vê-lo se distanciar.
-Treinar; ele limitou-se a responder enquanto deixava o refeitório sob o olhar curioso de todos que ali estavam presentes.
.IV.
Já fazia algum tempo que não patinava, mas era bom sentir aquela leveza que o gelo lhe proporcionava quando a lamina prateada deslizava. Os cabelos rosados moviam-se a cada volta que dava naquele ring que fazia parte de sua história.
Sim, um de seus maiores desafios fora ali, sobre aquele gelo. Quando passara a entender suas limitações e os primeiros passos para contorná-la. Deu mais uma volta, sem buscar fazer acrobacias ou movimentos muito rápidos, por enquanto estava apenas reconhecendo o gelo, deixando que ele lhe reconhecesse, para que ambos, em harmonia fizessem a grande magia acontecer.
Era estranho pensar que tudo aquilo acontecia pelos sentimentos que tinham, cada espetáculo, cada cena, cada emoção. Tudo estava interligado. Quando Marie lhe falara sobre a diferença do trapézio e do gelo, isso lhe chamou a atenção.
Liberdade! Sim, também conseguia sentir-se livre deslizando pelo gelo à medida que a velocidade aumentava, tanto quanto no palco, como se voasse em vez de tocar a superfície fria.
Queria passar essa sensação para os outros, fazê-los lembrar que nada acontecia por acaso e tudo tinha um principio, não queria uma fênix perfeita, apenas teórica e cheia de técnicas, queria uma fênix cujas asas incendiassem os céus com seus sentimentos, que fossem capaz de aquecer os corações mais frios.
Será utopia demais? –Sora se perguntou fazendo um rápido movimento para virar-se para a direita quando sentiu as costas chocarem-se contra alguma coisa.
-Que coincidência; ouviu uma voz forte atrás de si e quase escorregou.
-Jovem-...;
-Dança comigo? –ele perguntou, embora tenha soado mais como uma afirmativa, pois sem esperar uma resposta, puxava-a consigo pela pista.
Sentiu o corpo enrijecer de tensão quando os braços do acrobata enlaçaram sua cintura, fazendo-a encostar-se completamente nele e ambos deslizassem pelo gelo.
-Faz tempo que esta patinando aqui? –Leon perguntou depois de alguns segundos de silencio.
-...; negou com um aceno, enquanto em sincrônica, as laminas prateadas dançavam sobre o cristal, à medida que a velocidade das voltas aumentava. –Não muito;
-Mais uma coincidência, então; Leon comentou segurando-lhe uma das mãos e com um rápido movimento, fê-la virar-se de frente para si. –Cheguei agora de pouco também; ele comentou.
-Ahn! Jovem Leon...; Sora comentou, sentindo a face aquecer-se levemente, não estava acostumada com aquele 'novo' Leon.
-Quando cheguei, você parecia longe; Leon começou fitando-a de maneira indecifrável. –Em que estava pensando? -ele perguntou, puxando a mão da jovem para mais perto de si, até que ela enlaçasse seu pescoço, enquanto com a mão livre, envolvia-lhe a cintura, fazendo-a se aproximar mais.
-Estava apenas exorcizando alguns pensamentos; a jovem murmurou desviando o olhar.
-Exorcizando? –ele perguntou arqueando levemente a sobrancelha, descrente daquilo que ouvia.
-Porque a surpresa? –ela indagou vendo que ele não parecia convencido quanto a sua resposta.
-Não sei...; Leon deu de ombros. –Mas não consigo imaginar você perturbada com alguma coisa; ele falou francamente.
-Ninguém é perfeito, muito menos eu; Sora respondeu sorrindo diante da confusão que via nos orbes violeta.
-Estou inclinado a discordar; ele falou calmamente.
-Sinto muito, mas não pretendo fazer nada para mudar sua opinião; ela brincou à medida que davam mais uma volta livre no ring. –E você?
-O que? –Leon perguntou ainda indagando-se sobre a veracidade daquilo que ela falava.
Infelizmente não conseguia mesmo vê-la perturbada com algo. Se bem que...; ele ponderou por um momento lembrando-se que a primeira vez que a irritara de verdade, se não fosse Mia e Ken, teria levado uma bela surra da acrobata, mas isso era passado. Ou independente de qualquer coisa, ela também tinha seus momentos? –ele se indagou.
-O que esta fazendo aqui? –Sora perguntou chamando-lhe a atenção.
-Dançando com você; ele respondeu como se fosse a coisa mais obvia do mundo.
Serrou os orbes levemente, vendo um fino sorriso surgir nos lábios dele, agora era ela a descrente quanto aos motivos dele para estar ali.
-O que foi? –Leon perguntou de maneira inocente.
-Nada; ela resmungou, desviando o olhar um momento.
-Sabe, estive pensando numa coisa; ele começou apoiando o queixo suavemente sobre o ombro dela, fazendo-a estremecer com um contato tão intimo, ou pelo menos que não fazia parte de um roteiro escrito por Mia.
-No que? –Sora perguntou num sussurro tremulo.
-Que já tenho a resposta para aquela sua pergunta; ele continuou calmamente.
-Já? –ela perguntou com a voz ainda mais tremula.
-...; Leon assentiu silenciosamente.
Sentiu o coração disparar à medida que a velocidade aumentava, as voltas tornaram-se mais precisas e mal notaram quando algumas lascas de gelo soltavam-se do chão tamanha a velocidade que empregavam nos movimentos.
Voltou-se para a jovem, encontrou o olhar indecifrável dela sobre si, porém algo dentro de si lhe fazia ter a certeza de que, de alguma forma sabia o que ela estava pensando.
-Então? –Sora perguntou.
Será que descobrira mesmo, ou poderia ser um blefe? Não, Leon não era dado a jogar dessa forma, mas...; ela ponderou confusa.
Não sabia o que era, mas sentia alguma coisa de diferente no ar, que faziam seus pensamentos serem obliterados pouco a pouco. Sentiu o corpo ser puxado para mais perto do dele, até ambos moldarem-se com perfeição, como se houvessem sido feitos para estarem ali. Juntos!
-Salte; ouviu uma voz sussurrar em seu ouvido.
Voltou-se para Leon, mas ele parecia olhar para os lados, buscando por algo.
-Salte;
-Disse algo? – Leon perguntou voltando-se para ela, vendo que aquela voz que ouvia não vinha de longe.
-Não; Sora respondeu confusa.
Será que ele ouvira?
-Salte;
Fitou-o por alguns instantes, não sabia ao certo o que estava acontecendo naquele momento, mas sentia-se livre. Conseguia ali desfrutar daquela liberdade que tinha no palco quando atuava, saltando de um trapézio a outro.
Fechou os olhos por um momento, descansando a cabeça sobre o ombro dele. Não tinha as respostas para aquilo, alias, era algo novo para si também.
-Salte;
-Salte; ela sussurrou.
-O que? –Leon perguntou ao ouvir a voz dela quase num sussurro.
-Quando eu disser, salte; Sora respondeu, sem se afastar.
Ele assentiu, aos poucos a velocidade foi aumentando, até que do nada, ouviu a voz dela chamando sua atenção. Não teve tempo de pensar, nem cogitar a possibilidade do que poderia explicar aquilo, apenas saltou.
Sem hesitar, sem temer. Como se estivesse de braços abertos em frente a um abismo, prestes a cair. Sem cordas. Sem grilhões. Sem correntes. Sem nada a lhe prender. Apenas sentia aquela liberdade.
Com o forte impulso, as laminas deixaram de tocar o chão, erguendo-os velozmente da superfície como se uma força maior as impulsionasse para cima.
Afastou-se parcialmente dele, com a força do próprio corpo, usou-o de apoio para erguer-se, segurou com força a mão dele e momentos depois, sentia o corpo subir e inclinar-se para o lado, girando num eixo imaginário, apenas com ele de apoio.
Viu-o abrir os olhos, confuso com o que estava acontecendo. Já sentira aquilo antes, fora aquela mesma sensação de estar voando, quando executara com Layla a técnica fantástica, mas alguma coisa era diferente. Como isso acontecera? –ela se perguntou.
Era como se o gelo tomasse cores e fragmentos coloridos se soltassem das laminas caiando sobre o chão como uma chuva de estrelas, enquanto eles, esquecidos do mundo, apenas sentiam o corpo flutuar, como se mãos mágicas os carregassem pelo ar.
-Nossa!
Viraram-se na direção da voz e foi como se um balde de água fria fosse jogado sobre ambos. O corpo tornou-se mais pesado e o baque contra o gelo foi eminente.
Tentou segurá-la o mais perto de si, mas não conseguiu impedir o choque mais forte. Baterem com força contra o gelo, como se agora o corpo de ambos houvesse voltado a pesar três vezes mais.
-Sora; Leon chamou, sentindo a mão da jovem segurar-se fortemente em si. Ouviu-a dar um fraco gemido ao tentar se mover e as costas estalarem um pouco. -Você esta bem?
-Acho que sobrevivo; ela murmurou.
-Vocês se machucaram? –vozes preocupadas os alertaram de que não estavam mais sozinhos.
-Não, estamos bem; Leon falou levantando-se cuidadosamente e erguendo a jovem consigo, que a cada movimento fazia uma careta de dor.
-Sora; Rosseta falou aflita, quase subindo na guarda de proteção do ring, para ver melhor, já que as meninas pareciam manter uma distancia estratégica, só May e Marie haviam entrado no ring.
Pelo visto não havia sido a única a resolver visitar o ring aquele dia; Sora pensou vendo May se aproximar com as roupas de treinamento.
-Sora; May falou parando em frente a eles.
-Esta tudo bem; ela respondeu quase num sussurro, apoiando-se no braço de Leon para manter-se em pé.
-É melhor sairmos; ele falou mantendo-a segura entre seus braços.
-O que foi aquilo? -May perguntou curiosa esquecendo momentaneamente a preocupação e dando vazão a curiosidade.
Quando decidira ir ao ring com as garotas não pensou que fossem presenciar algo tão surreal como aquilo. Será que fazia parte de uma técnica nova? O protagonista já havia sido escolhido? Ou o que mais a acrobata estava escondendo? –ela se indagou.
-Nada; Leon respondeu em tom frio.
Estava mais preocupado em saber se a jovem de melenas rosadas estava bem do que ficar respondendo perguntas de um bando de inconvenientes; ele pensou seguindo para o vestiário.
-Eu estou bem, Jovem Leon; Sora falou assim que ele lhe ajudou a sentar-se num banco, usado para vestir os patins.
-Mesmo assim, não vou de deixar até ter certeza de que não há problema algum; ele falou taxativo.
Suspirou pesadamente, sentindo-se um pouco zonza, abaixou-se para soltar os cadarços dos patins, quando recuou sentindo as costas estalarem novamente.
-Sora; Leon chamou em tom preocupado, vendo a face da jovem contrair-se.
-Não foi nada, já passou; ela sussurrou erguendo a mão, tentando tranqüiliza-lo, porém não foi muito convincente.
Aproximou-se parando em frente a ela e ignorando seus protestos, abaixou-se.
-Jovem Le-...;
-É melhor não abusar; ele murmurou, desamarrando os fios brancos, ate solta-los completamente.
Assentiu silenciosamente, vendo que em poucos minutos já estava sem os patins.
-É bom ver um médico antes de voltar; Leon falou enquanto a ajudava a colocar os tênis.
-Não foi nada, logo vai passar; Sora falou com há voz um pouco tremula quando o viu voltar-se para si, com os orbes violetas brilhando intensamente.
-Não foi uma sugestão; ele falou em tom sério, dando a entender que ela iria ver um médico antes de voltar e isso não seria discutível.
-Hei! Eu-...;
-Pronto; Leon falou levantando-se e estendendo-lhe a mão.
Hesitou por um momento, não estava acostumada com toda essa atenção, alias, não gostava nem um pouco das pessoas se preocupando demais consigo.
-Obrigada; ela balbuciou, sentindo a mão dele fechar-se sobre a sua e levantou-se.
Uma nova careta de dor formou-se em sua face, fora só um tombo, não deveria estar doendo tanto; Sora pensou começando a se preocupar.
-O que foi? –ele perguntou preocupado.
-Nada, não se preocupe, esta tudo bem; Sora respondeu sorrindo, porém engoliu em seco quando viu-o abaixar-se e sussurrar em seu ouvido.
-Não adianta mocinha, você vai ao médico de qualquer jeito;
-...; assentiu preferindo não contrariar.
O que aconteceu com o antigo 'Jovem Leon'? Porque esse estava começando a lhe assustar; ela pensou, deixando-se levar para fora do centro de patinação.
-o-o-o-o-o-
-O que foi aquilo? –Rosetta perguntou assim que May se aproximou.
-Não sei, Leon não quis falar; ela respondeu com ar pensativo.
-Será que a Sora esta bem? –Marion perguntou preocupada.
-Vou ver, eles devem ter ido ao vestiário; May avisou, afastando-se para a outra extremidade.
-o-o-o-o-o-
Saíram do ring com passos lentos, olhou de soslaio a jovem a seu lado e notou que os passo dela eram mais calculados que o normal. Sora evitava fazer movimentos muito rápidos.
Chamou um táxi e antes que ela pudesse protestar, já a ajudava a entrar.
-Hospital Cape Marie; ele avisou ao taxista.
-Jovem Leon, já disse que esta tudo bem; ela falou tentando não remexer-se demais no acento.
-E eu também já disse que vamos ver um médico primeiro; Leon respondeu voltando-se para ela.
-...; Sora assentiu silenciosamente.
Sentia os olhos pesados e estava mais casada que o habitual, jamais pensou que fosse inconscientemente fazer tanto esforço. Mas não conseguia entender como aquilo tudo acontecera.
Não fora a única a ouvir aquela voz, será que era Fool? Mas se fosse, Leon também tinha ouvido. Será que ele também podia ver o espírito do palco? –ela se indagou confusa.
Lembrava-se de ter perguntado ao espírito do palco uma vez porque Layla só estava o vendo naquele momento e ele lhe respondeu que só naquele momento ela fora escolhida, por estar pronta, antes não.
O que quer dizer que tudo tem um tempo, mas então Leon podia ver Fool, porque ele não dissera nada? –Sora se perguntou, para em seguida balançar a cabeça levemente para os lados. Não duvidava que se isso houvesse acontecido, ele teria tido uma reação igual ou pior que a sua quando viu o espírito do palco a primeira vez.
Primeiro a idéia de que ele é só parte do cenário... Depois, vem a hora que se torna cética, achando que esta vendo coisas. Então, ele se apresenta como o espírito do palco, ai entra em pânico e tenta joga-lo dentro do forno.
Definitivamente não conseguia imaginar Leon fazendo essas coisas. Bem... Pelo menos se ele pudesse ver o espírito do palco, poderia deixar Fool passar uma temporada na casa de Leon, assim não precisaria se preocupar quando fosse tomar banho; ela pensou abafando o riso.
-O que? –Leon perguntou, arqueando a sobrancelha, curioso.
-Nada, estava só pensando; Sora respondeu gesticulando casualmente.
É, queria ser uma abelhinha para ver os maus bocados que Fool passaria na mão do acrobata.
-Chegamos; o taxista avisou.
-o-o-o-o-o-
Olhou para todos os lados e não encontrou nenhum dos dois. Estranho; ela pensou andando pelo vestiário.
Os patins estavam no lugar, tudo estava em ordem. Tirou os patins e foi até a portaria, quem sabe alguém pudesse tê-los visto sair.
-May, esta procurando alguma coisa? –Matt perguntou, enquanto pregava alguns cartazes no painel de entrada.
-Você por acaso viu a Sora ou o Leon? –ela perguntou para o garoto que trabalhava ali a um bom tempo, então, ele saberia reconhecer os dois.
-Os vi pegando um táxi há poucos minutos; ele falou voltando-se para ela.
-Táxi? –May perguntou surpresa. –Sabe para onde eles foram?
-Não, mas quando passaram por mim ele estava falando de irem ver um médico, ele parecia bem preocupado; Matt respondeu.
-Será que aconteceu alguma coisa com a Sora? –May se perguntou, voltou-se para ele rapidamente. –Obrigada; ela falou antes de sair correndo.
Precisava ver o que estava acontecendo, não entendia como aquela queda poderia ter sido, mas para Leon demonstrar preocupação, era porque algo estava errado. Muito errada...
Continua...
Domo pessoal
Um ano depois quase XD estou de volta. Como disse antes pra vocês, nem sempre consigo escrever vários capítulos e ir atualizando rápido, mas acho que o próximo não demora a chegar, tudo depende da minha inspiração. Agora para Equilibriun, faltam só dois capítulos, cheios de revelações e muitas surpresas.
Espero q gostem.
Até a próxima e um forte abraço...
Dama 9
