Subiu as longas escadas que a levavam para um andar superior. Tudo à sua volta era escuro e sombrio, apenas vislumbrava aquela luz de tom laranja no final das escadas. Começou a subir mais depressa enquanto sentia cada vez mais aquele sentimento de angústia ou de tristeza, não dava para entender. Finalmente alcançou a luz laranja, por momentos não conseguiu ver nada até começar a ouvir o som de ondas. Depois de piscar os olhos repetidas vezes conseguiu perceber onde se encontrava. A praia à sua volta era aparentemente deserta, o mar por sua vez era completamente límpido, podendo ver o seu interior e a areia extremamente clara. Enquanto observava o mar, sentiu que não estava sozinha. A alguns metros de distância dela encontrava-se mais alguém que ela não conseguia perceber quem era. Apenas se apercebeu que se movia em sua direcção...

Ginny acordou sobressaltada e encharcada em suor. Ainda era de madrugada, pois uma leve claridade entrava no seu quarto anunciando os primeiros raios de sol. Levantou-se e foi ver-se ao espelho. Reparou que tinha os olhos inchados de, provavelmente, ter estado chorar. Não percebia porque é que chorou, qual o significado do sonho e o mais estranho, quem era aquele Ser? Apenas se lembrava de ver uma luz laranja, de ouvir o barulho das ondas e de ver a silhueta de uma pessoa que ela não conseguiu perceber de quem era mas sabia que o sonho não foi só isto. Estava a esquecer-se de pormenores, mas não conseguia lembrar-se de mais nada. Bem queria lembrar-se, mas sempre que tentava recordar, parecia que mais se esquecia. O silêncio à sua volta mostrava que apenas ela estava acordada. O novo ano lectivo iria começar dentro de duas semanas e ela precisava de se controlar a si mesma, de controlar as suas emoções e de não chorar tanto! Decidiu lavar a cara e tomar o pequeno-almoço. Passou pelo quarto dos seus pais e dos seus irmãos, pé ante pé, para não fazer barulho.

"Tenho de levar o livro para Hogwarts, sempre dá para me distrair quando não tiver aulas. Nem posso crer que, aos 16 anos, vá levar um livro de romance... vou ser pela certa, motivo de gozo" pensava, enquanto comia.

A meditar sobre a vida Ginny?

Ah Harry, desculpa não te ouvi chegar...

Pois, eu reparei- disse sorrindo, enquanto preparava um pão com recheio de morango- Estavas a pensar sobre...?

Hogwarts... já falta pouco para começar o ano- respondeu enquanto observava o Harry sentar-se à mesa com ela.

Hoje devemos receber as cartas da escola com a lista dos livros e para a semana devemos ir comprá-los.

Ambos caíram num silêncio absoluto, apenas se ouvia o Harry a mastigar e o tiritar dos dedos da Ginny sobre a mesa.

Harry, alguma vez sentiste uma sensação de ansiedade ou de medo? Uma sensação que não és capaz de compreender e muito menos entender o porquê de estares a senti-lo?

Fico sempre ansioso e com medo de perder antes de um jogo de Quidditch, se é isso que queres saber, mas porquê?

Nada, nada – Ginny sentiu-se estúpida por lhe ter perguntado aquilo, mas queria tanto encontrar alguém que sentisse o que ela também sentia. Começaram a ouvir passos de alguém a descer as escadas e a aproximar-se da cozinha.

Bom dia a vocês os dois – disse Ron, bocejando e procurando algo para comer.

Bom dia- saudaram os restantes em uníssono.

'Tão muito calados vocês os dois, aconteceu alguma coisa? Fiz alguma coisa de mal?

Não Ron, não fizeste nada, 'tá descansado. Vou-me vestir, volto já- disse Ginny, saindo da cozinha e indo para o seu quarto.

A tua irmã está estranha, Ron... está mais calada.

Desde que começaram as férias, que ela tem andado assim. Pouco ou nada fala e uma noite, enquanto ia para o meu quarto, pareceu-me ouvi-la a chorar. Perguntei se ela estava bem, ela disse que sim e para a deixar dormir- respondeu o Ron encolhendo os ombros.

Quando Ginny acabou de se vestir, foi sentar-se no parapeito da janela do seu quarto. Podia ver o Harry e o Ron montados nas suas vassouras a tentar tirar a bola dos gémeos, enquanto estes fugiam deles em direcção a um arco, todos vestidos ainda de pijama. O sol das dez iluminava os campos em redor da sua casa. Conseguia observar os pássaros a levarem alimentos aos seus filhos, que piavam pedindo por mais. Começou a lembrar-se da conversa que teve com o Harry. Realmente ela não estava bem para lhe perguntar semelhante coisa pois as hipóteses de encontrar alguém com aquele sentimento e com aqueles sonhos eram mínimas. Sem dúvida que ela precisava de se distrair, de não pensar em coisas que não entendia e que não tinham explicação. "Tou a dar em doida" pensou enquanto via o George a dar piruetas no ar por ter atirado a bola por entre o arco.

Ficou sentada até ao meio-dia, quando a sua mãe já havia preparado o almoço e a chamara para ir comer.

Durante o almoço Mr. Weasley lia o Profeta Diário enquanto Mrs. Weasley tentava convencer o Harry a comer mais lasagna. George e Fred competiam com Ron, a ver quem comia mais depressa e Ginny observava cada um com um sorriso. Não havia dúvida que tinha uma família espectacular onde mostravam amor uns pelos outros. Até mesmo o Percy, que já não vivia lá em casa pois arranjara uma ao pé do Ministério da Magia, tendo aquele feitio mais sério e mal-humorado, não deixava de ser amado pela restante família. Estava a pensar em Percy quando ouviu uma noticia que a trouxe imediatamente à realidade:

Parece que mataram mais dois aurors – lia Mr. Weasley – "Dois aurors, John MacRiver e Alicia Freibol, foram mortos na passada quarta-feira por três devoradores da morte. Ambos os corpos foram encontrados numa casa-de-banho pública por um Muggle de nome Paul Serpans, que ouvira gritos e barulhos fora do normal e decidira averiguar. Cornelius Fudge, ministro da magia, garante ao Profeta Diário que se está a fazer de tudo para que os culpados sejam encontrados e postos em AzKaban".

É uma pena, John e Alicia eram excelentes aurors mas contra três devoradores da morte... – suspirou.

Mas já apanharam algum devorador da morte, pai? – perguntou o George levando mais um pedaço de lasagna à boca.

Sim, acho que já apanharam pelo menos quatro. Mas todos eles recusam-se a revelar onde o Quem Nós Sabemos se encontra.

Dizendo isto, Mr. Weasley voltou para a sua leitura. Mrs. Weasley fizera duas taças de leite creme e scones com recheio de framboesa e banana para sobremesa. Giny optou pelo leite creme e foi quando se servia que apareceram três corujas com envelopes amarrados às pernas, com o nome de Ginny, Harry e Ron escritos a tinta verde-esmeralda que reconheceu logo como pertencentes a Hogwarts. Uma coruja castanha e com asas cinzentas aproximou-se de Ginny que lhe retirou o envelope. Mal a coruja saiu pela janela, orgulhosa por ter feito com sucesso o seu trabalho, Ginny abriu o envelope e retirou lá de dentro o pergaminho dos livros novos. Estava a pensar se o novo livro de adivinhação era mais interessante que o do ano anterior quando se assustou com o Ron a gritar.

Fato de gala como material adicional e obrigatório? Não me digam que vai haver mais outro baile!

Ah o nosso irmãozinho preferido vai a mais um baile – gozou o George, apertando as bochechas ao irmão.

Como ele está crescido! – disse o Fred fingindo chorar.

Calem-se vocês os dois!

Onde raio viste isso? – perguntou o Harry.

No outro lado do pergaminho.

Ginny virou o pergaminho e realmente estava escrito o que o Ron dissera, a seguir ao material normal a levar como os novos ingredientes para poções.

"Material Adicional e Obrigatório

Um fato de Gala de cor e forma à escolha do aluno."

Ginny recordou o baile do torneio dos Três Feiticeiros quando aceitara ser acompanhante de Neville. Riu-se para si mesma ao lembrar-se das pisadelas a que estava sujeita e dos pedidos de desculpas que aceitava, quando dançava com ele.

A nossa irmã gostou da ideia do baile...

Reparem no sorriso ao canto da boca...

Ohh, calem-se vocês os dois – ordenou aos gémeos que fingiram estar ofendidos.

Então meninos! Bem, já que receberam as listas dos novos materiais... acho que podemos ir na próxima semana à Diagon-Al. Que achas Arthur? – perguntou Mrs. Weasley ao marido. Este distraidamente acenou com a mão sem retirar os olhos do jornal.

Depois de ter ajudado a mãe a arrumar e limpar a mesa, Ginny foi jogar com os seus irmãos e Harry ao tal jogo em cima das vassouras que ela antes do almoço estava a observar. Fartou-se de rir com as diabruras dos gémeos e ficou muito contente por ter conseguido atirar a bola seis vezes por dentro do arco. O facto de estar entretida fê-la esquecer-se dos problemas e do mau estar que sentia. Divertidos, ficaram a jogar até ao jantar.