Hermione assustou-se com a reacção da amiga e, mais ainda, com o facto de esta estar a chorar
Hermione assustou-se com a reacção da amiga e, mais ainda, com o facto de esta estar a chorar.
Ai, Ginny! Tem mais cuid... Ginny, que tens? Que se passa?
Nada, não te preocupes. Estou bem, 'brigada – respondeu ela limpando as lágrimas – Apenas me dói a cabeça e estou um pouco zonza. A sério, não é nada.
Na realidade, ela sentia-se cansada, ou melhor, extremamente fraca. Doía-lhe não o corpo mas sim a alma, ou pelo menos julgava que assim fosse.
Mesmo que assim seja, não é motivo para chorares...
Não tenho nada, Hermione – respondeu com toda a firmeza que conseguiu encontrar – é apenas uma parva dor de cabeça! Promete-me que não contarás nada aos meus irmãos. Não quero que me considerem mais fraca do que já acham.
Mas Ginny... oh, 'tá bem, eu não lhes digo nada. Mas fica sabendo que a próxima vez que te vir assim, eles ficarão a saber. Mas por agora apanhemos esta tralha toda.
Ginny não respondeu e, com a ajuda de Hermione, agachou-se e começou a apanhar os materiais de Hogwarts pondo-os na respectiva sacola. Colocou o seu vestido de novo no saco. Reparou, uma vez mais, que ao tocar nele, a cor vermelha ficou mais brilhante. Desta vez, ela tinha a certeza que ao tocar no vestido algo acontecia mas, de qualquer das formas, era irrelevante para o momento.
Eram por volta das quatro horas da tarde pois uma leve e fresca brisa levantara-se e o sol não se encontrava tão quente como antes, iluminando o caminho até à loja de Quidditch em tons amarelo-torrado e vermelho. Ao entrar na loja, as raparigas foram saudadas por um dos gémeos:
- Aleluia! Despacharam-se finalmente – gritou o Fred – compraram a loja toda ou nem por isso?
Ambas sorriram mas não responderam. Ginny retirou o troco do seu vestido do bolso e entregou-o ao Fred, mas este recusou de imediato – "Nem pensar, agora é teu! Gasta-o como quiseres. Olha, na minha loja por exemplo". Ela sorriu, voltou a pôr o dinheiro no bolso e abraçou o irmão que, atrapalhado e sem saber o que fazer, limitou-se a dar-lhe palmadinhas nas costas.
O jantar dessa noite correra bastante bem. Mr. Weasley falava com Harry sobre curiosidades Muggles enquanto Fred e George entretiam a restante família. Já na sobremesa, semifrio de chocolate acompanhado de chá de menta, Ginny e Ron riam-se de uma partida que os gémeos pregaram à mãe, da qual consistia numa chávena enfeitiçada que ao aproximar-se da boca largava um som de porcelana a partir-se enquanto a asa da mesma estremecia, simulando uma queda. Com o susto, Mrs. Weasley abrira muito os olhos, repreendendo de seguida os gémeos. Contudo, não conseguiu esconder um sorriso.
Depois de Ginny e a mãe terem levantado a mesa com uns feitiços domésticos, foram-se sentar nos sofás, juntamente com o Harry e o resto da família. Durante, aproximadamente uma hora, conversaram e riram-se das histórias que Mr. Weasley contava sobre os colegas do emprego, mas o cansaço e a vontade de dormir antigiram e apoderaram-se de cada um. Por isso, por volta das onze horas, já toda a família e o Harry dirigiam-se aos respectivos quartos em busca de uma boa noite de sono e descanso.
Já se tinham passado duas horas e Ginny continuava acordada na sua cama, a pensar sobre o que se passara nessa tarde. As imagens das rosas negras, do pulso a sangrar e da luz branca não faziam o mínimo sentido dado que não conseguia encontrar nexo entre elas. Não seria grave se fossem apenas as visões que a atormentassem mas tal não acontecia. Não obstante, também sentira certas emoções e sentimentos. Sentimentos esses que eram dolorosos, tristes e melancólicos…. E ela bem sabia disso! Ela conseguia senti-los como se se tratasse de um presságio ou de uma premonição. Mas será que era isso? "Não pode ser verdade, eu não posso e nem tenho capacidade de prever coisas! Se assim fosse, não estaria à rasca com a disciplina de Adivinhação", pensou revoltada. Ela lembrava-se perfeitamente da forma como o Firenze leccionava a sua matéria e da maneira como ele obrigava-a a tomar atenção às aulas, sem deixá-la conversar com os seus colegas um minuto que fosse. Mas sobretudo na forma exigente e maçadora que era tratada por ele. Para não falar dos olhares repreensivos que ele lhe lançava quando a apanhava distraída nos seus pensamentos.
Também lhe passou pela cabeça que tanto as imagens como as emoções estivessem relacionadas. Sim, isso seria muito mais credível e, para ela, mais lógico. A angústia, medo e, consequentemente, a tristeza eram sentimentos que já sentia há bastante tempo mas a dor e revolta eram "novidade" para ela, se assim os pudesse chamar. Relacionou todas essas emoções com a imagem de ela a chorar. As outras duas visões, rosas negras e luz branca, não poderiam fazê-la sentir aquilo.
Eram quatro e meia da manhã quando Ginny adormeceu profundamente, acordando apenas por volta do meio-dia, quando a Mrs. Weasley entrou no seu quarto, abriu as cortinas amarelas e de riscas azuis, deixando que o sol iluminasse a cara de Ginny, obrigando-a a puxar o lençol para cima do rosto, e saiu dizendo que o almoço estaria pronto dentro de minutos.
Ginny e mais o Harry e a restante família levantaram-se na primeira manhã de Setembro bastante cedo e igualmente atarefados. Enquanto uns se vestiam ou arrumavam coisas que se esqueceram de na véspera colocar nas malas, outros preparavam o pequeno-almoço à pressa e ainda de pijama. Esta azáfama habitual no dia de regresso à escola era já uma tradição de todos os anos, apesar de, ao longos dos tempos, a família Weasley não ter tantos membros inscritos na escola como o Bill, o Charlie, o Percy e até mesmo os gémeos.
Só depois de Mr. Weasley ter acabado de arrumar a última mala num dos Fords enfeitiçados que o Ministérios da Magia autorizava, é que partiram todos rumo a King's Cross onde Hermione os aguardava.
Depois de lá terem chegado e passado a barreira que os separava do mundo dos muggles, Mr. e Mrs. Weasley começaram a dar os seus habituais avisos e recomendações à medida que se despediam. Avisos esses, que tinham uma especial atenção para o trio, Harry, Ron e Hermione.
- Vocês vejam se se portam bem este ano, ouviram? Não quero receber cartas de Dumbledore a avisar que se andam a meter em assuntos que não vos dizem respeito – alertava Mrs. Weasley, os três companheiros, trocando olhares com cada um deles – E, claro, porta-te bem também, Ginny. Este aviso também serve para ti – Ginny assentiu silenciosamente com a cabeça, se o aviso fosse só esse… - Ah, e Ron, por favor, cuida da tua irmã. Toma conta dela – concluiu a mãe Weasley, deixando a filha corada. "A sensível e pequena Ginny", pensou ela com sarcasmo e desviando o olhar para o chão.
- Molly, vê se te despachas porque o comboio parte daqui a seis minutos! – avisou Mr. Weasley.
- Ok, Arthur. Fred. George. Ajudem-nos a carregar com as malas.
- Claro, os escravos de serviço estão sempre prontos a trabalhar – resmungou o Fred.
Assim que todos ajudaram os gémeos a colocar as malas, Arthur e Molly despediram-se à pressa começando por Ginny e Ron enquanto os gémeos murmuravam algo ao ouvido de Harry, que assentia com a cabeça, em sinal de concordância.
- Rápido, meninos, o comboio vai começar a andar – gritou Mrs. Weasley assim que ouviu o comboio a apitar e a largar fumo pela chaminé.
Os quatro amigos entraram no comboio, acenaram com as suas mãos em sinal de despedida aos restantes Weasleys e começaram a procurar uma carruagem minimamente vazia assim que as portas se fecharam e o comboio entrou em movimento.
Caminharam por entre várias carruagens, passando por inúmeras cabines, e cada uma delas parecia ter mais alunos que a anterior.
- Como é possível estar tão cheio? – espantou-se o Ron, ao fim da quarta carruagem – O primeiro que encontrar um metro quadrado livre para nós avisa os outros – disse ele, com sarcasmo e sem paciência. Este simples comentário foi o suficiente para que Ginny e Hermione desatassem a rir.
- Ah, claro, tem imensa graça – resmungou ele.
Por fim encontraram uma carruagem com apenas dois alunos do segundo ano dos Ravenclaw numa cabine e outros três de Hufflepuff, noutra cabine. Ao dirigirem-se para a última cabine, que se encontrava vazia, passaram pelo grupo de alunos de Hufflepuff que pararam de falar para observar a Ginny e Hermione que ainda continuavam a rir.
- Estava a ver que não encontrávamos. É a primeira vez que isto nos acontece, não é? – perguntou o Ron assim que se sentou e arrumou a mala – Vocês importam-se de parar de rir? Ginny e Hermione voltaram a ter outro ataque de riso.
Ginny, com a cabeça encostada ao vidro da janela, observava o final do dia à medida que o céu escurecia e o comboio prosseguia o seu caminho. Uma vez por outra, conversava com Harry ou ria-se das discussões entre Ron e Hermione.
Estava a observar o primeiro ponto brilhante que aparecera no céu, tentando lembrar-se se seria o planeta Vénus que ela tanto gostava ou uma estrela com base no que a professora de astronomia lhe havia dito no 2º ano, quando foi interrompida pelo som de passos após o barulho da porta da carruagem ter-se fechado. Pareceu-lhe que fora a única a ouvir os passos pois Ron e Harry discutiam o último jogo de Quidditch entre Chudley Canons e Braga Brommfleet enquanto Hermione lia o livro de Transfiguração – 7º Grau.
Os passos continuavam a ouvir-se, quem quer que fosse dirigia-se à cabine de Ginny. Ela fitou a porta, esperando pacientemente, até que uma mão se agarrou à ombreira da porta e dois rapazes entraram para dentro do compartimento.
- Neville! Dean! – gritou Ginny, desviando a atenção de todos para quem tinha acabado de chegar.
- Ah, estão aqui! Eu e o Dean andámos a procurá-los por todo o lado – disse o Neville com cansaço na voz.
- Pensámos que não tinham apanhado o comboio – acrescentou o Dean com um sorriso satisfeito.
Neville e Dean, tal como Harry e Ron, cresceram muito nessas férias de Verão. Provavelmente, Dean era o mais baixo de todos mas o suficiente para ser mais alto que Ginny. Todos diziam que ela saíra muita parecida com a sua mãe, desde a altura até à cara redonda, dando-lhe um ar meigo, gentil e maternal.
- Entrem, sentem-se aqui connosco – convidou o Ron, indicando o assento livre entre ele e Harry e outro entre Ginny e Hermione.
A viagem continuou animada, não só pelas conversas e gargalhadas como pela alegria que todos sentiam ao chegar mais uma vez à escola. A dada altura da viagem e, como era habitual, Ron e Hermione tiveram que se ausentar, durante cerca de uma hora, devido à responsabilidade que aceitaram assim que colocaram o crachá de Prefeito – assistir à reunião de Prefeitos relativamente ao inicio do
período escolar e revistar as cabines do comboio e os seus ocupantes.
O céu escureceu por completo mal o último raio de sol desapareceu. Por sua vez, o tempo ficou mais frio, apesar de o céu estar limpo e sem nuvens, o que permitia ver claramente as estrelas, podendo-se descansar os olhos nas belas constelações que todas elas criavam qual puzzle gigante. E era precisamente isso que Ginny observava depois de se abstrair mental ou espiritualmente das conversas em seu redor, mesmo continuando a ouvir, inconscientemente e sem prestar atenção, algumas palavras soltas dos amigos como se estes estivessem a quilómetros de distância sendo só possível ouvir uns murmúrios.
"São lindas as formas como as estrelas se agrupam – pensou ela – milhões de pontos de luzes…
- Ginny!
» … numa única tinta preta. E aquele contraste… aquele contraste dessas mesmas luzes com o negro da noite e o silêncio acolhedor em que só se ouve o cantar das cigarras e dos grilos é algo de mágico. Acho que até é mais mágico que a própria magia que aprendo na escola…
- Ginny!, não me ouves?
» E todos estes sentimentos que estão a despertar em mim são inigualáveis. Ali está a Ursa Menor, a apontar para o norte, se não me engano. E aquela é a Cassiopeia com o seu inconfundível formato em forma de "W". E adiante está… uma flor, será? Sim, parece que é isso… uma rosa? Rosa??" – o coração de Ginny parou com o choque. A rosa!
«« Rosas negras e a luz branca. Ela a chorar. O pulso esquerdo ensanguentado »»
As imagens. Outra vez as imagens!
- GINNY!!
Ginny sobressaltou-se com o grito do seu nome, batendo com a cabeça no vidro e fazendo desaparecer as imagens por completo, tão depressa quanto elas lhe apareceram. Esfregando a cabeça por causa da dor, ergueu-a lentamente em direcção à entrada da cabine, de onde o som surgira. Ron tinha voltado e estava agarrado às ombreiras da entrada com ambas as mãos, fitando-a com um largo sorriso.
- Estavas completamente nas nuvens. Fartámos de te chamar. Começa a preparar-te e a vestir-te porque estamos mesmo quase a chegar – ordenou-lhe.
Nesse instante apareceu Hermione por detrás dele, com um ar cansado. Ron apercebeu-se da presença da amiga e deu um passo para o lado, encostando-se à ombreira da porta e abrindo um espaço livre. Hermione hesitou por breves instantes a passar por ele, mas deu um passo em frente determinada. Ambos ficaram bastante próximos, o que causou um certo constrangimento entre os dois, obrigando-os a trocar um breve e rápido olhar e corando violentamente. Por fim, lá conseguiram desenvencilhar e cada um dirigiu-se ao seu lugar. Ginny e Harry trocaram um sorriso cúmplice pois foram os únicos que repararam no ocorrido. Dean estava distraidamente a vestir o manto preto enquanto Neville tentava desesperadamente colocar a gravata vermelha e amarela dos Gryffindor, que teimava em ficar presa nos botões do manto.
O comboio desacelerou gradualmente à medida que as luzes da estação se aproximavam, até que parou e soltou um som semelhante a um longo suspiro, libertando uma última golfada de fumo. As portas das carruagens abriram-se e vários estudantes começaram a sair. Os primeiros a saírem da carruagem de Ginny foram os alunos de Ravenclaw, seguidos dos de Hufflepuff. Por fim, saíram os seis amigos. Dean e Neville afastaram-se do grupo para irem procurar Seamus Finnigan.
- É verdade, Harry, o que é que os meus irmãos te disseram na estação de King's Cross? – perguntou Ron baixinho, tentado movimentar-se por entre a multidão de alunos.
- Ah, isso. Disseram-me que assim que descobrissem mais alguma coisa da Ordem nos avisariam. Respondeu o amigo, sério e novamente baixinho de forma a que só eles os quatro ouvissem.
Ron encolheu os ombros e juntos continuaram a caminhar rumo às diligências. A meio do caminho, Ginny viu Luna Lovegood perto de uma das diligências. Despedindo-se à pressa do trio, dirigiu-se apressadamente a Luna, gritando pelo seu nome. Luna não a ouvira de início, sendo necessário que Ginny gritasse uma quarta vez. Assim que descobriu quem a chamava, parou e sorriu a Ginny, que tentava passar por entre a multidão. Com a pressa, a pequena ruiva nem se deu conta de que ia de encontro a um rapaz de cabelos loiros.
Depois do encontrão, Ginny desequilibrou-se mas conseguiu manter-se em pé. Apenas deixou cair a sua mala no chão.
- Desculpe – pediu, atrapalhada e desajeitadamente, ainda a olhar para mala tombada no chão.
- Para a próxima vê por onde andas, Weasley – respondeu-lhe uma voz sarcástica e monocórdica – Que tal começares a fazer alguma coisa de útil, como por exemplo, tomar atenção ao caminho?
Ginny, apercebendo-se de quem era, fitou-lhe os olhos azul acinzentados e respirou fundo. Apanhou a sua mala, murmurando um "Poupa-me…" e desviou-se dele, continuando a andar mais cuidadosamente rumo à Luna.
Pelo caminho, Ginny pensou no encontro de há minutos. Mas deu mais atenção sobretudo aos olhos. Aqueles olhos meio azuis meio acinzentados, tão incomuns e tão envolventes. "Que estupidez estar a pensar nisso. São olhos normais", pensou revoltada consigo mesma, abanando a cabeça como se quisesse apagar aquelas recordações. Mas depressa se esqueceu de todo o ocorrido assim que se aproximou de Luna, abraçando-a e cumprimentando-a alegremente.
Ambas entraram na diligência que automaticamente começou a andar em direcção a Hogwarts.
