Ginny foi-se sentar na longa mesa dos Gryffindor, ao lado de Harry e em frente a Ron e Hermione, assim que entrou no salão e se despediu de Luna. A agitação era enorme no salão, onde os alunos excitados conversavam sobre as suas férias e se riam desta ou daquela peripécia enquanto que, na mesa dos professores, Dumbledore conversava ora com o professor Flitwick ora com o professor Snape. Ginny continuou a observar a mesa: à esquerda de Snape estava a professora Sprout, gesticulando com as suas mãos fortes à medida que falava com o Firenze, possivelmente apoiado, pensou a pequena ruiva, no chão com a sua metade cavalo ao contrário dos restantes colegas que se encontravam sentados nas respectivas cadeiras de carvalho. O lugar ao lado do centauro estava vazio, o que suscitou estranheza em Ginny:
- Vocês os três já repararam que está um lugar vazio ao lado de Firenze? – perguntou ela, canalizando a atenção dos três jovens para o misterioso lugar.
- Acham que é para Defesa Contra as Artes Negras? – pensou, Hermione – é que, caso for, porque não está ninguém lá sentado?
- Sim, é sem dúvida para DCAN – respondeu o Harry, depois de ter dado uma rápida vista de olhos pela respectiva mesa, concluindo que só faltava um professor para essa disciplina – é bem possível que não tenham conseguido arranjar alguém, com essa história de que é um lugar amaldiçoado…
- Sendo assim, o Snape seria o primeiro a candidatar-se para esse cargo, ocupando-o logo, dando pulos de alegria. Para ser sincera, pela cara dele, não me parece que esteja propriamente contente – argumentou, Ginny, observando a familiar cara sisuda e de poucos amigos do professor.
- Oh, até parece que vocês não conhecem o Snape – resmungou o Ron - aquela cara é só para fazer suspense, pondo tolos, como nós, a perder tempo em matutar se é ele ou não a dar as aulas. È claro que é ele, se não, porque estaria o lugar vazio se já estamos todos sentados há espera que a cerimónia de selecção comece, Dumbledore faça o discurso de praxe e nós possamos finalmente comer. De qualquer das formas, com ou sem professor de DCAN, só sei é que estou cheio de fome – concluiu, encostando-se nas costas da cadeira, olhando para a sua mesa ainda vazia, sem pratos, nem talheres e muito menos com comida. Ginny e Harry riram-se do revirar de olhos de Hermione, ao mesmo tempo que murmurava algo como "irritante e comilão".
Pouco tempo depois, as portas de entrada abriram-se e um grupo de novos estudantes, vestidos de negro, guiados pela professora McGonagall, entraram no salão e caminharam em direcção ao banquinho posto em frente à mesa dos professores, no qual um chapéu aparentemente velho e gasto se encontrava colocado por cima dele. Mal a divisão ficou em completo silêncio, o chapéu retoma à tradicional canção de boas vindas. No final, depois de todos aplaudirem, a professora McGonagall explica, de frente para os alunos, como vai decorrer a selecção, dando as habituais instruções e começando em seguida, a fazer a chamada. Quando a última aluna se sentou na mesa dos Slytherin e a professora arrumou o banco e o chapéu, Dumbledore ergueu-se da sua cadeira, agitando os braços para que todos se calassem, dando início ao seu habitual discurso:
- Bem-vindos a mais um novo ano em Hogwarts. Como devo avisar (e não é de mais recordar) é estritamente proibido entrar na Floresta Negra sem ordens superiores. Da mesma forma, existe uma lista de objectos mágicos não autorizados a serem usados nos corredores que o vosso encarregado Flynch fez questão de me lembrar. Para os interessados em vê-la, dirijam-se ao seu escritório.
Ginny e Ron trocaram um sorriso cúmplice ao se lembrarem dos gémeos que tanto gostavam de aborrecer e irritar Flynch com as suas loucas brincadeiras. "Que falta cá fazem", pensou Ginny.
- Como ficámos sem o nosso antigo professor de Defesa Contra as Artes Negras –prosseguiu, Dumbledore - essa disciplina irá ser-vos ensinada por …
Nesse instante, um barulho estridente de vidros partidos é ouvido em toda a sala, ao mesmo tempo que várias sombras caem do tecto no lugar outrora ocupado pelo chapéu seleccionador. Por momentos, todos ficaram pasmados ao olharem para a caricata figura de uma mulher com as pernas para o ar, fazendo descair a saia por cima da sua cabeça, não revelando a identidade de quem quer que fosse. À sua volta estavam malas de diferentes tamanhos, algumas abertas, com diversas roupas e acessórios estranhos espalhados ao longo do chão. Os murmúrios foram aumentando a sua sonoridade conforme o salão ia-se tornando mais agitado e os risos mais presentes. Ginny pensou se a mulher estaria viva, quando as pernas começaram a mover-se em direcção ao solo, e uma jovem figura de cabelo verde e despenteado, e com os olhos azuis, se sentou no chão, atarantada, olhando quer para as suas malas quer para as várias pessoas que a fitavam.
- Espero não ter chegado muito atrasada, professor Dumbledore – disse ela, sorrindo alegremente assim que se levantou e reparou no director – esta não era a forma mais indicada de chegar, mas ia a jurar que tinha feito tudo certo para aparatar correctamente – concluiu com uma sonora gargalhada jovial, inclinando a sua cabeça para trás de modo a afastar o cabelo longo e esverdeado dos olhos; de seguida, recompôs-se e procurou numa malinha preta a varinha ("Graças a Deus, que não está perdida") e começou a arrumar as malas.
- Como estava a dizer – continuou, Dumbledore, quando os ânimos se acalmaram e a nova figura se sentou na cadeira vazia ao lado de Firenze, cumprimentando-o com uma palmada nas costas e um largo sorriso - este ano temos uma nova professora de Defesa Contra as Artes Negras. Por isso, dêem as boas vindas à professora Tonks.
Uma salva de palmas ecoou por todo o salão, enquanto Harry, Hermione e os irmãos Weasley trocaram olhares entre si, boquiabertos, afinal, nenhum deles tinha conhecimento de Tonks vir ensinar para Hogwarts, sendo a coisa menos provável de acontecer dado ser ela um membro da Ordem. Assim que o aplauso cessou e Tonks se libertou do tom escarlate da sua pele, Dumbledore concluiu o seu discurso:
- Agora que os avisos foram todos entregues, está na hora de iniciarmos o nosso banquete. Bom ano lectivo para todos.
Mal Dumbledore se sentou, todas as mesas foram cobertas por inúmeros pratos dos mais variados cozinhados. Ginny viu surgir à sua frente duas enormes travessas de barro: a primeira era composta por várias fatias de entrecosto assado, rodeado por pequenas batatas cozidas e tostadas em forno, mergulhadas num apetitoso molho de especiarias; a segunda libertava um delicioso cheiro a hamburgers, com ou sem queijo derretido, acompanhado por batatas fritas, colocadas ao lado numa taça branca. Ginny optou por um pedaço de cordon blue, que surgiu em frente ao Harry, e pelas batatas fritas dos hamburgers, as quais retirou com um bom punhado de vontade enchendo assim o prato.
"Aquele dom era realmente espantoso, pois qualquer que fosse a transformação nenhuma delas era igual à anterior", pensou Ginny, servindo-se de uma tigela pequena com um molho vermelho que ela supôs ser Ketchup.
O mês de Setembro passou bastante rápido e quando Ginny deu por si, já tinha chagado a Outubro, uma semana antes da festa de Halloween. Nesse período de tempo, não tinha tido nenhuma das suas visões, nem sentido aqueles sentimentos que tantas vezes a torturavam. Foi um período calmo em que ela apreciou bastante, pois já lhe bem bastava o que se havia passado nas férias de Verão.
Segurando entre os braços um bloco de folhas de pergaminho e uma pena, Ginny dirigia-se, conversando alegremente com Luna Lovegood, aos campos de Hogwarts, onde as equipas de Gryffindor e de Hufflepuff teriam a aula de Adivinhação juntos. Assim que se aproximaram dos seus colegas, Firenze aparece a galopar, vindo da Floresta Negra, segurando em cada mão dois sacos de pano castanhos.
- Bom dia – disse serenamente, mal pousou os sacos no chão, em frente aos alunos – hoje vamos dar capnomancia. Alguém sabe o que é? Não? Muitos dos grandes mistérios são nos revelados através do fumo, onde o passado e o futuro se misturam, dando força e sentido ao presente. É provável que muitos de vós não consigam vislumbrar nos primeiros tempos os grandes segredos. Desta forma, vamos começar por um exercício que, embora seja simples, é a base para que vocês estabeleçam uma boa relação com o elemento fogo. Trago nestes dois sacos folhas secas de amendoeira, colhidas nesta madrugada. Cada um de vocês virá buscar três punhados de folhas e acenderá uma fogueira. O exercício consiste em concentrarem-se no vosso fogo e pela vossa força interior conseguirem com que o fumo libertado se junte numa única linha de fumo, e não de forma dispersa pelo ar. Perceberam?, então venham buscar as folhas. Há para todos, não é preciso empurrarem-se uns aos outros.
- Estou cá com uma vontade e fazer isto… - murmurou ironicamente Ginny a Luna – não entendo porque é que desde o início do ano ele não pára de me pressionar para que faça as coisas bem. Até parece que sou … - interrompeu bruscamente, assim que reparou no olhar recriminador do centauro.
Depois de ter usado o encantamento Incendio para atear fogo às suas folhas, Ginny, sentada com as pernas cruzadas, fechou os olhos e tentou imaginar uma coluna de fumo negro subindo pelo ar. Ficou assim por instantes, até se fartar e discretamente abrir o olho direito na esperança de ver algum resultado, mas nada. As labaredas bruxuleavam enquanto libertavam várias manchas de fumo negro dispersamente pelo ar. Já com os dois olhos abertos, decidiu observar cada um dos seus colegas de forma a ver se fora só ela que não tinha conseguido manipular o fumo. Luna olhava distraidamente para a sua fogueira, provavelmente, pensou Ginny, pensando em tudo menos naquela aula, enquanto que outros alunos da sua equipa e dos Hufflepuff olhavam uns para os outros, sem conseguirem produzir qualquer efeito nos fumos libertados pelas suas fogueiras.
- Não se distraiam, voltem a fechar os olhos e concentrem-se. Oiçam a vossa voz interior - ordenou Firenze, fitando ginny. « Fala como se fosse fácil » resmungou mentalmente ela, prendendo o seu cabelo num rabo de cavalo e soltando um suspiro.
De volta com as pernas cruzadas e os olhos fechados, respirou fundo e inclinou a cabeça para trás, deixando cair o seu cabelo atado para trás dos ombros enquanto tentava visualizar no campo negro da sua visão a fogueira que tinha à sua frente.
Começou por imaginar a fogueira à sua frente, com as suas chamas incandescentes a desaparecerem no ar. Lentamente visualizou as diversas manchas de fumo a concentrarem-se numa única coluna ascendente. Enquanto imaginava a sua fogueira, começou a sentir a sua pulsação acelerada, à medida que suores frios percorriam o seu corpo. Não aguentando mais, abriu os olhos e só viu negro à sua volta, com excepção da única fonte de luz que tinha diante de si, a sua fogueira. Estava completamente sozinha. Os seus colegas, Firenze e os campos de Hogwarts tinham desaparecido e só se encontrava ela e a fogueira naquela imensidão negra.
- Nasceste como Malfoy e vais morrer como um Malfoy. Vais te tornar naquilo que já te está destinado, quer tu queiras, quer não. Não podes desapontar o nosso mestre Voldemort. Nem eu te deixaria fazer isso, Draco, não te permitiria.
Draco, agachado ao pé da lareira, virou a cabeça para o lado, não aguentando olhar para a cara disforme do seu pai, entre as cinzas e as brasas vermelhas.
- Sim, pai – murmurou – vai-te agora embora, estou a começar a ouvir gente a aproximar-se – mentiu.
- Nasceste para aquilo que vais ser, Draco. Lembra-te disso – alertou Lucius Malfoy, enquanto a sua cara se desvanecia e as brasas arrefeciam, perdendo a sua tonalidade avermelhada.
Draco levantou-se resmungando por entre dentes, enquanto aliava as pernas que já lhe doíam por estarem tanto tempo dobradas. «Mas quem é que ele pensa que é, para decidir o que quer que seja por mim?», pensou com raiva, deixando-se cair no sofá verde da sala comum dos Slytherin, «não me importo de fazer parte do plano, mas não tenho que me tornar num deles». Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás.
Se esse ano em Hogwarts for tal e qual como foi este Verão, estava bem tramado, pensou Draco, antes de adormecer profundamente, sem se importar em ir ao resto das aulas nesse dia.
Ginny fixou a sua atenção nas chamas e viu, finalmente, a coluna de fumo à sua frente. Aproximou-se da fogueira, sem desviar o olhar, e, assustada, levantou a sua mão direita, evitando ao máximo tremê-la, de modo a tocar no fumo. Sentiu-o quente, à medida que este passava por entre os seus dedos. Ficou enternecida ao ver semelhante coisa, até que recuou num salto, tal foi o susto que um estalido no meio das chamas lhe provocou. Á sua frente, a coluna de fumo começara a formar imagens, ao principio difusas, mas gradualmente mais nítidas, de um vestido. Vestido esse, igual ao que ela comprou na Diagon-Al. Mas havia qualquer coisa de errado naquele vestido. Parecia que tinha sido rasgado. Diversos cortes apareciam por todo o vestido, incidindo-se sobretudo na parte esquerda dele. Ginny de repente recordou-se da imagem dos cortes no pulso esquerdo e das emoções de dor, tristeza e revolta que sentira quando estava com Hermione a caminho da loja de Quidditch. Começou a sentir-se enjoada e com tonturas, e uma lágrima decidiu prepotentemente descer pelo seu rosto, reflectindo uma minúscula fogueirinha. O fumo começou a rodeá-la espiralmente, elevando-a no ar. Fechou os olhos, libertando mais lágrimas, enquanto o enjoo e as tonturas iam aumentando de intensidade, e diversos tremores descontrolados tomavam-lhe posse do seu corpo.
- Mrs. Weasley, acorde. Ah, já está a tomar consciência.
Ginny abriu os olhos e viu Firenze à sua frente, olhando-a assustadamente enquanto a segurava pelos ombros.
- Como é que se sente?
Ginny não teve tempo para responder pois assim que se sentou, inclinou-se para o seu lado esquerdo, longe do centauro, e vomitou os sconnes que comera ao pequeno- almoço. Quando se sentiu melhor é que reparou que atrás de Firenze estavam os seus colegas, uns com rosto preocupado, outros olhavam por curiosidade. Luna Lovegood encontrava-se à direita de Firenze, olhando-a fixa e preocupadamente, abandonando por completo o seu habitual ar de lunática e distraída.
- O que é que viu, Mrs. Weasley? Ficou sozinha com a sua fogueira? Só viu negro à sua volta, por onde quer que olhasse? – Ginny acenava que sim com a cabeça – pois, bem me parecia, bem me parecia. Mrs.Weasley acabou de se relacionar com o seu fogo de uma forma que eu já há muito tempo não via – disse para os restantes alunos, sem nunca tirar a atenção de Ginny – Foi a única que hoje conseguiu estabelecer essa comunicação, mas devido à sua inexperiência, é natural que tenha acontecido aquilo que sentiu há pouco. Mas de Mrs. Weasley – concluiu, fixando-se nela – dada a sua natureza, não seria de esperar outra coisa, pois não? Dou a aula por encerrada.
Luna ajudou Ginny a levantar-se e juntas seguiram o trilho que as levava até às portas do castelo.
- Que achas que o Firenze queria dizer com "dada a sua natureza, não seria de esperar outra coisa"? – perguntou a Luna – achas que ele saberá algo que eu não saiba? Da forma como falou parece que sabe mais de mim do que eu própria.
- Não faço a mínima ideia. Só sei é que de repente começaste a levitar, a tremer por todos os lados e a revirar os olhos, até que caíste no chão e aí o Firenze foi logo ver o que se passava contigo. Creio que o meu pai recebeu uns casos de uns Bruxos da Noruega que tocaram na planta da vida Eterna, na esperança de viverem para sempre, quando na realidade, ela amaldiçoou-os para o resto da vida. Claro que isso também me faz lembrar o caso do elfo domestico que descobriu… - mas Ginny já não prestava atenção aos devaneios da amiga.
Ela não conseguia deixar de pensar no que acontecera há pouco e no significado que aquela imagem do vestido rasgado teria. Sem compreender, enxugou os olhos húmidos e seguiu em frente, evitando pensar mais sobre o assunto. Olhou para Luna e sorriu ao ver a sua cara de lunática, que ela tão bem reconhecia na amiga, a olhar para o céu à procura sabe-se lá de o quê.
