Na última manhã de Outubro todos em Hogwarts encontravam-se excitados e ansiosos com o jantar de Halloween
Na última manhã de Outubro todos em Hogwarts encontravam-se excitados e ansiosos com o jantar de Halloween. Ginny acordara com uma forte dor de cabeça nesse dia, levantando-se e lavando-se quase automaticamente. Aproximando-se da sua cama, com a toalha de banho à volta do corpo e outra nas mãos enquanto esfregava a cabeça, reparou que estava sozinha no dormitório, pois, provavelmente, as suas colegas já deveriam ter saído para o pequeno-almoço, no salão principal; melhor ainda, pensou ela, sentia-se assim mais à vontade. Vestiu por cima de umas jeans já gastas e de uma sweat rosa-claro, a habitual capa preta com o brasão de Hogwarts estampado, sentando-se de seguida no toucador em mogno que existia dentro de cada dormitório. Segurou na escova e começou a pentear os seus longos cabelos ruivos. Já há dois ou três anos que, juntamente com a idade, começara a preocupar-se mais com a sua imagem, deixando desde então crescer os seus cabelos até a meio das costas, que com o tempo foram ficando mais ondulados, penteando-os sempre para a esquerda, de modo a que uma pequena quantidade de cabelo escorregasse sobre os seus olhos sempre que inclinava a cabeça. Observou a sua imagem reflectida no espelho. Pousando lentamente a escova, lembrou-se da figura com que sonhara no Verão, naquela praia deserta. Queria recordar-se de mais pormenores, mas não conseguia. Decidiu fechar os olhos, respirar fundo, e, passo a passo, lembrar-se de tudo o que vira no seu sonho desde que se apercebera que estava na praia. Gradualmente foi-se lembrando do som das ondas daquele mar cristalino, da areia clara e deserta e da silhueta de uma pessoa ao longe que ela não conseguia entender quem era. Ficou durante um bom bocado de tempo a visualizar-se a si própria e a esse estranho ser na praia. A dado momento reparou que a figura que via à sua frente começara a aproximar-se, pondo o seu coração a bater cada vez mais rápido, como se quisesse rasgar o peito e sair cá para fora. Já perto da estranha figura, Ginny viu as mãos a erguerem-se e a tocar-lhe no seu rosto; fechou os olhos ao toque, sentindo as carícias daquelas mãos angelicais a descerem-lhe pela face até ao pescoço e ombros, provocando arrepios por todo o seu corpo. Por mais que tentasse fugir àquele estranho ser, o seu corpo recusava-se a obedecer à mente e, sem se dar conta, a pequena ruiva entregou-se completamente às carícias desejando-as cada vez mais; Desejos secretos e pensamentos perversos assombraram-na, ela apenas queria continuar a ser tocada e, como a tivesse ouvido, Ginny sentiu suaves e doces beijos no pescoço enquanto as mãos, ou aquilo que ela entendia como mãos, dançavam sobre o seu peito, aumentando-lhe os desejos voluptuosos e fazendo-a soltar pequenos gemidos de prazer. Um som de vidro a partir-se fez-se ouvir por todo o dormitório e Ginny acordou do seu êxtase, olhando assustada para todos os lados procurando a origem de tal barulho. Depois de rodar a cabeça para inúmeras direcções, algo no espelho à sua frente roubou-lhe a atenção. Uma fina racha percorria o espelho de um lado a outro, dividindo a face espantada de Ginny ao meio. Ainda tentando recompor-se do susto, foi buscar à mesa-de-cabeceira ao lado da sua cama a varinha e num movimento rápido murmurou o feitiço reparo, fazendo desaparecer a fenda do espelho. Sentou-se em cima da colcha cor de vinho com bordados em dourado que combinava com os cortinados da sua cama de dossel, e pensou se o sucedido não passara de imaginação sua. Levantando a mão para o seu peito, lembrou-se da misteriosa figura que há pouco a fizera gemer de prazer. Ela realmente se entregara àquele estranho ser, às suas suaves carícias, aos seus beijos deliciosos, mas o que mais a marcou foi o que sentiu naqueles momentos. Pela primeira vez desde há muito tempo que se sentira bem com o mundo, sem ter mais preocupações, sentindo-se segura, confortada e sobretudo desejada. O pior no meio disto tudo foram os pensamentos que a assombraram, repletos de sedução, volúpia e luxúria, de se entregar livremente e abusar de todo o prazer que daí pudesse retirar, absorver, sentir. Era isso que ela mais temia, se acaso voltasse a viver o mesmo, de não controlar as suas emoções, os seus sentimentos e as suas acções. Levantou-se, ajeitou a sua a capa e saiu do dormitório, evitando pensar nos acontecimentos recentes à medida que saia pelo retrato da dama gorda e descia as longas escadarias de pedra que a levavam até ao salão principal.
O barulho na hora do pequeno-almoço era ensurdecedor, mas naquela manhã de Halloween ainda Ginny descia as escadas quando o som proveniente de talheres a bater nos pratos e vozes excitadas a conversarem lhe chegaram aos ouvidos. Abriu as portas do salão principal e dirigiu-se para a mesa dos Gryffindor, passando pela equipa dos Hufflepuff onde saudou Luna com um aceno, que se encontrava distraída com as panquecas que tinha no prato à sua frente. Puxando uma cadeira para si, sentou-se ao pé de Hermione, cumprimentando-a, mais a Harry e a Ron que discutiam com Neville algo sobre os jogos de Quidditch daquela época. Serviu-se de duas torradas e leite com chocolate. Enquanto barrava uma das torradas com compota de frutos silvestres é que reparou na decoração do salão. Por todo o tecto pendiam abóboras de vários tamanhos e feitios. As janelas encontravam-se cobertas por panos roxos e pretos tal como as longas toalhas que cobriam as mesas, contrastando com as velas brancas que tinham desenhos estampados em roxo alusivos ao tema, distribuídas por todo o salão.
- Ginny!, já estamos atrasadas para aula de transfiguração – alertou uma colega dela, obrigando-a a beber o leite num golo e a comer a segunda torrada pelo caminho. «Retomando a vida do dia a dia, nem a porcaria de uma torrada consigo comer», pensou enquanto corria para a aula.
As aulas já haviam terminado e a ansiedade para o jantar de Halloween era um sentimento constante em cada aluno. Ginny não era excepção. Com o cabelo preso num rabo-de-cavalo, olhava pensativa para as duas saias e três blusas que tinha espalhadas em cima da sua cama, à sua frente, sem saber qual delas escolher para logo à noite. Optou, ao fim de um quarto de hora, por uma saia de flanela preta que lhe ficava um pouco acima do joelho e por uma blusa vermelha. Vestiu a blusa, a saia por cima dos collants de lã pretos e calçou-se, abrindo de seguida a gaveta da sua mesa-de-cabeceira retirando de lá de dentro a sua escova sobresselente que trazia sempre consigo. Evitando ao máximo olhar para o espelho do toucador e para o próprio toucador, penteou-se na casa-de-banho, retirando o elástico que lhe prendia o cabelo. Quando se decidiu que já estava pronta, saiu do dormitório e dirigiu-se para o salão comum onde encontrou Harry a ler uma revista de Quidditch e Hermione, sentada logo ao lado dele, a ler um livro que Ginny não conseguiu entender qual era.
- Já estão prontos? – perguntou - onde está o Ron?
- Até parece que não conheces o teu irmão. Ele lá deve estar ainda a escolher que roupa levar. É impressionante como uma pessoa demora tanto tempo a escolher o que vestir – respondeu Hermione, enervada. «Até parece que não demoraste o mesmo tempo quando estávamos a escolher os fatos de gala» pensou Ginny, rindo-se para si mesma.
- Quando saí do dormitório ele disse-me que estava à procura de uma sweat – disse, Harry, dirigindo-se a Ginny.
- Não interessa, Harry, ele demora sempre imenso tempo. Eu é que sou rapariga, e ele é que me faz esperar. Que nos faz esperar – corrigiu Hermione, corando violentamente e pondo o livro à frente da cara de modo a tapá-la. Ginny trocou mais um olhar cúmplice com Harry.
- Vais ver que ele depressa está aí, Hermione – vendo que a amiga respondera com murmúrios, sem desviar a atenção do livro, perguntou – Que estás a ler?
- Oh, é um livro que encomendei à Flourish&Boots pelo correio. É sobre a mitologia grega e a forma como era encarada pela comunidade mágica. Sabias que Medusa foi inspirada na feiticeira… ah, finalmente, Ron, já não era sem tempo. Ginny virou-se para trás sem sair do mesmo lugar e viu o irmão a descer as escadas que davam para o dormitório dos rapazes, vestido com umas calças de ganga azuis-escuras e com uma sweat bordaux dividida ao meio por duas riscas brancas horizontais.
- Desculpem, mas houve um pequeno problema com a sweat. Não a conseguia encontrar.
- Se fosses um pouco mais organizado, Ron, terias encontrado mais facilmente – alertou-lhe, Hermione, fechando rapidamente o livro.
- Oh, deixa-te de tretas, Hermione, até parece que sou um desorganizado de primeira – respondeu-lhe, zangado - Vamos descer para o jantar, então? – sem esperar por resposta, virou-se e saiu pelo retrato da dama gorda.
- Como se nós tivéssemos culpa dele demorar tanto tempo a vestir-se. Ainda por cima sai, sem esperar por nós – irritou-se, Hermione – Ron, não me vires as costas – gritou ela, correndo para o retrato que ia começar a fechar a saída.
- Parece que hoje vamos ter uma animação especial ao jantar – disse Harry a Ginny. Ela riu-se, concordando com o que ele dissera, e juntos saíram da sala comum dos Gryffindor.
O salão principal encontrava-se apinhado de gente que conversava animadamente, enquanto se dirigiam para as suas mesas. Um espesso nevoeiro cobria o tecto, onde um ou outro relâmpago furava as nuvens, iluminando por segundos todo o salão. Ginny, sentada ao lado do irmão que se ria de uma piada que tinha contado, servia-se de chili com carne do interior de uma abóbora gigante quando, nesse momento, todas as velas se apagaram, inundando o salão com o seu cheiro a cera derretida. Apenas eram iluminados pelos ocasionais trovões acompanhado por uma suave música de piano. Um murmúrio crescente de excitação e de medo percorreu todo o salão quando no seu centro começou a surgir uma cabeça verde translúcida, de um homem já velho e com uma robusta barba, até ficar com o corpo a pairar no ar, completamente exposto aos olhares que se centravam nele. Seguindo o seu movimento, outras seis cabeças apareceram no centro do salão juntando-se ao fantasma inicial, à medida que a música de piano se fazia ouvir cada vez mais. Quando os fantasmas se organizaram num único círculo com uma luz amarela ténue a incidir sobre eles, a música cessou e todo o castelo penetrou num silêncio profundo. Um cheiro a incenso de mitra invadiu a sala, substituindo o cheiro de cera derretida. Assim que o som de um trovão se fez ouvir os fantasmas iniciaram uma dança húngara, à medida que um som de cravo e de violino se ergueram da escuridão em que Ginny e a restante escola se encontravam. A dança e a música continuavam a deliciar quem os observava durante bastante tempo. Ginny olhou em redor e observou os olhares embevecidos para o espectáculo no ar que presenciavam. "É realmente magnífico", pensou ela. No entanto havia qualquer coisa naquela dança que não batia certo. Os seus movimentos espiralados e a dispersão que a seguir via, lembravam-lhe qualquer coisa. Contudo, o seu raciocínio começou a ficar bastante dificultado assim que uma pequena dor de cabeça surgia, intensificando-se cada vez mais conforme aumentava o som das bateladas no cravo. Ginny viu-se obrigada a levar a mão à testa, massajando-a em cima das sobrancelhas com o polegar e o indicador, num movimento ritmado. Quando por fim a dança acabou e a música parou, os fantasmas reuniram-se num, à medida que todo o salão aplaudia entusiasticamente.
- Ginny, estás bem? – perguntou-lhe o Ron, reparando que a irmã estava de olhos fechados e com o cotovelo apoiado em cima da mesa, apoiando a cabeça com a mão.
- Estou sim, obrigada. Apenas me dói a cabeça. É melhor ir um bocado lá fora. Volto já – respondeu ela, levantando-se – Fica Hermione, eu estou bem. Continuem a comer – concluiu, mal viu a amiga a levantar-se da mesa para a acompanhar.
Assim que a dura e pesada porta de carvalho se fechou atrás de si, Ginny, sentindo-se tonta, sentou-se no primeiro degrau ao pé porta principal de Hogwarts, encolhendo os joelhos para junto do peito, de modo a conseguir abraçá-los enquanto descansava a cabeça em cima deles. A noite encontrava-se um pouco mais fria naquele dia de Outono e escondia muitos dos segredos que os jardins de Hogwarts continham. Ginny levantou a cabeça e apoiou o queixo nos joelhos, observando o lago à sua frente, iluminado por aquela lua em quarto crescente. Uma lágrima surgiu no canto do seu olho esquerdo, ameaçando cair, mas rapidamente a limpou com a mão. Ela voltou a sentir aqueles sentimentos de tristeza, dor e revolta que tanto a assombraram no verão, mas desta vez eram muito mais intensos, muito mais nítidos. Sem controlar o choro, Ginny levantou-se e desceu apressadamente as escadas, correndo em direcção ao lago, ouvindo o som dos seus sapatos a bater freneticamente no chão de pedra. Levando a mão à cara de modo a limpar as lágrimas e com os olhos fechados de forma a controlar o choro, Ginny não reparou no caminho por onde corria, tropeçando numa pedra de granito preto que se encontrava ao pé de três arbustos escondidos na penumbra. Tentando encontrar algo que lhe servisse como apoio, a mais nova dos Weasley agarrou-se com a mão esquerda ao arbusto mais perto de si, gemendo de seguida quando algo afiado como uma faca lhe espetou ao longo do braço.
Es por culpa de una hembra
(É por culpa de uma planta)
que me estoy volviendo loco
(que estou ficando louco)
No puedo vivir sin ella
(não posso viver se mela)
pero con ella tampoco
(mas com ela tampoco)
Y si de este mal de amores
(E se deste mal de amores)
yo me fuera pa la tumba
(eu for para a tumba)
a mi no me mandeis flores
(a mim não me mandes flores)
que como dice esta rumba
(como diz esta rumba)
Quise cortar la flor
(quis cortar a flor)
mas tierna del rosal
(mais bela da roseira)
pensando que de amor
(pensando que do amor)
no me podria pinchar
(não me poderia pica)
y mientras me pinchaba
(e enquanto me picava)
me enseño una cosa
(ensinou-me uma coisa)
que una rosa es una rosa es una rosa...
(que uma rosa é uma rosa é uma rosa)
Vendo o céu escurecido e as constelações que as estrelas faziam, Ginny, assustada e com a pulsação acelerada, decidiu sentar-se, quase automaticamente, fazendo uma ligeira força nos braços arrependendo-se logo de seguida quando uma dor alucinante no braço esquerdo a percorreu. Esfregou-o com a mão oposta e sentiu algo húmido e um quanto pegajoso, com alguns grãos de terra e pedaços de folhas. Elevou o braço ao nível dos olhos e viu. O sangue inundava toda a pele do braço, oriundo de três grandes e profundas chagas que percorriam diagonalmente o pulso. A sua mente projectou-se imediatamente nas imagens que previu, nas ruas de Diagon-Al, após ter comprado o vestido para a gala.
«« os arranhões no pulso esquerdo »»
«« As rosas negras… os espinhos »»
«« Ela a chorar »»
As imagens voltavam a surgir na sua cabeça, de uma forma muito mais furtiva e impiedosa.
Y cuando abri la mano
(e quando abri a mão)
y la deje caer
(e a deixei cair)
rompieron a sangrar
(romperam a sangrar)
las llagas en mi piel
(as chagas na minha pele)
y con sus petalos
(e com as suas pétalas)
me la curo mimosa
(eu me curo delicadamente)
que una rosa es una rosa es una rosa...
(uma rosa é uma rosa é uma rosa)
Ginny olhou em volta e viu-as. Ao pé dela, mesmo com um fraco luar, conseguiu identificar algumas pétalas dispersas pelo chão e três rosas negras com o caule repleto de espinho longos e esguios. Sem saber o que fazer começou chorar. Não entendia o porquê de ter previsto aquele incidente, muito menos a razão de lhe ter acontecido. Sentiu-se tão sozinha naquele pequeno canteiro negro, tão longe de tudo e de todos, tão insignificante. Contudo os seus pensamentos foram interrompidos bruscamente por uma voz grave, atrás de si:
- A tentar o suicídio, Weasley?
Pero cuanto mas me cura
(mas quanto mais me cura)
al ratito mas me escuece
(um pouco mais me esquece)
porque amar es el empiece
(porque amar é o princípio)
de la palabra amargura
(da palavra amargura)
Una mentira y un credo
(uma mentira e um credo)
por cada espina del tallo
(por cada espinho do talo)
que injertandose en los dedos
(que me espeta nos dedos)
una rosa es un rosario
(uma rosa é uma roseira)
Ginny assustou-se com a voz misteriosa e virou-se de frente para o desconhecido.
- O que é que queres, Malfoy?
- Vindo de ti, Weasley, não quero nada.
Ginny levantou-se, gemendo de dor, e com a mão direita sacudiu as roupas sujas de terra e folhas. Olhou para o seu pulso onde viu vários fios de sangue a inundarem-no e com a mão oposta procurou a varinha nas suas vestes. Felizmente não a tinha perdido com a queda. Após ter conjurado um feitiço que estancava o sangue com umas ligaduras mágicas, fitou o rapaz à sua frente.
- Agrada-te ver-me assim, Malfoy?
- Um pouco, Weasley. Mas podias ter sofrido um pouquinho mais – respondeu-lhe, libertando um sorriso cínico pelo canto da boca.
- És tão desprezível – gritou ela. Como se já não bastasse o estado do seu braço, ainda tinha de se enervar com ele. Logo com ele. Será que tu não consegues ser um pouquinho que seja mais simpático com os outros?
- Oh, mas eu sou, Weasley – ironizou, ele – a diferença é que há pessoas que merecem que eu assim seja e outras não. Se olhares bem para ti, penso que consegues chegar sozinha à noção do lugar que ocupas, não?
- Como é que ainda perdi tempo a falar contigo – respondeu ela, passando perto dele, sem se importar em se desviar.
Malfoy, sem se mover, observou a jovem ruiva a caminhar em direcção ao castelo, que se encontrava escondido entre as sombras, denunciado pela luz que emanava pelas formas geométricas das janelas. Ele costumava observá-la discretamente enquanto comia no refeitório, cobiçando-a com o olhar. A Ginny havia se tornado numa mulher bastante bonita, elegante e, sim, confessava, um pouco sensual. Observando toda a cena, desde que ela fechou a porta de Hogwarts e correu em direcção ao lago, vê-la a cair foi algo que ele não estava à espera e, por instantes, o coração dele parou. Preocupado, aproximou-se cuidadosamente. Apercebendo-se que ela estava bem, apesar da violência da queda, vê-la ali sentada no chão, tão desamparada e com o cabelo longo e ruivo a tapar-lhe o rosto, enfeitado com pedaços de folhas e pétalas oriundas das roseiras, era algo que o excitava, fazendo crescer nele uma vontade enorme de beijá-la e abraçá-la, possuindo-a naquele momento. Contudo, conseguiu reprimir todos esses sentimentos, vestindo uma capa fria, distante e antipática, estratégia que sempre adoptava para não deixar que as pessoas se apercebessem do seu verdadeiro eu.
Assim que Ginny entrou no castelo e a pesada porta se fechou atrás de si, devolvendo a escuridão àquela paisagem sombria, Draco Malfoy aproximou-se das roseiras, onde há instantes a pequena ruiva se tinha cortado. Algumas gotas de sangue ainda percorriam os longos espinhos, caindo de seguida no chão, sendo imediatamente absorvidos pelas suas raízes. Por outro lado, as rosas negras, que Malfoy logo constatou serem Acorás, as plantas milenares, mantinham-se imponentes, como se nada tivesse acontecido. Desviando a sua atenção para o lago, fitou o seu reflexo sombreado naquelas águas tingidas de negro. Com o passar dos anos, o corpo de Draco sofrera imensas alterações. Agora, no sétimo ano em Hogwarts e quase homem, os músculos delineavam o seu corpo, sobretudo a nível abdominal, característica que desenvolveu com os treinos de Quidditch. O seu cabelo, apesar de ainda se manter loiro, em concordância com a sua pele clara e com os seus olhos de platina, encontrava-se alinhado, liso e curto. Sempre bem vestido, era conhecido por arranjar facilmente namoro entre as raparigas da equipa dos Slytherin, ou de outras equipas se ele assim desejasse. Apesar de nem metade dos casos amorosos que percorriam a escola sob a forma de rumores serem verdadeiros, Draco não se importava em desmistificá-los, pois a fama gerava respeito e admiração, e esses dois valores conferiam-lhe algum poder, palavra que ele tanto ouvia na sua vida, desde o seu nascimento. Desde que o seu pai via nele como um meio para atingir um fim, obrigando-o a tornar-se num Devorador da Morte.
Deitou-se à margem do lago e colocou as mãos atrás da cabeça, uma em cada lado, observando o céu estrelado e pensando na pequena ruiva, ainda desamparada e suja, ao pé das roseiras.
