Ato II: Algum Lugar Ao Qual eu Pertença
Quando isso começou,
Eu não tinha nada a dizer
E eu fiquei perdido no nada dentro de mim
(Eu estava confuso)
E eu deixo tudo sair para descobrir
que eu não sou a única pessoa com essas coisas na cabeça
(Dentro de mim)
Mas, todo o vazio que as palavras revelaram
é a única coisa real que eu ainda sinto
(Nada a perder)
Simplesmente estagnado, vazio e solitário
E a culpa é minha
E a culpa é minha
Eu quero me curar, eu quero sentir
o que eu nunca achei que fosse real
Eu quero me livrar da dor que eu senti durante tanto tempo
(Apagar toda a dor até que ela se acabe)
Eu quero me curar, eu quero sentir
como se estivesse perto de algo real
Eu quero encontrar algo que sempre quis
Algum lugar ao qual eu pertença
E eu não tenho nada a dizer
Eu não consigo acreditar que eu não caí na real
(Eu estava confuso)
Olho para todo lugar só para encontrar
Não é essa a maneira que eu imaginei na minha mente
(Então, o que eu sou?)
O que eu tenho além de pessimismo?
Porque eu não consigo justificar a forma
que todo mundo está olhando para mim
(Nada a perder)
Nada a ganhar, eu estou vazio e sozinho
E a culpa é minha
E a culpa é minha
(Linkin Park – Somewere I belong)
Tiago se aprontava na frente do espelho, tentando dar o nó da gravata. Apesar e ainda ser cedo, queria estar pronto para ir para o Ministério. Ainda que Leah tivesse sido a criatura que ele mais abominava no mundo, havia certo prazer sádico em ver o corpo dela ser retalhado e espalhado pelo país. Cansou de tentar dar o maldito nó e desceu correndo, indo atrás de Lílian, na cozinha:
- Lily... faz o nó pra mim, meu bem. – choramingou, como um menino manhoso.
Lílian estava fazendo o almoço, e acabava de experimentar o molho do macarrão. Lambeu a mão, e olhou para ele:
- ...Você ainda não aprendeu a dar esse nó?
- O seu sempre fica mais bonitinho. – sorriu, maroto.
Lílian o olhou, séria. Era incrível como ele conseguia fazer aquela cara de sem vergonha da época de escola simplesmente brotar no seu rosto, quando queria dar uma de menino pidão. Ainda que ele tenha se tornado um homem um tanto rude, talvez pelo amadurecimento tardio e 'de repente', Tiago ainda tinha escondido dentro dele aquele Tiago de Hogwarts. Infelizmente, nos últimos anos apenas Lílian tinha a oportunidade de ter esse antigo Tiago de volta.
Havia uma certa birra e briga de egos entre Tiago e seus velhos amigos Sirius e Lupin. Tiago chegou a ser auror, mas nunca conseguiu ser um Auror Supremo. Ele simplesmente... não tinha nascido para ser um. E ele, que sempre foi acostumado a ser o centro das atenções, realmente se sentia ofendido em não ter conseguido se tornar um bom auror e um Auror Supremo. Essa frustração os afastou dos amigos, e o fez ir para fora do país várias vezes, estudando sem parar, até quase se bitolar, e, com muito esforço, ganhou um excelente cargo administrativo no Ministério. Aliás, acreditavam que pela idade de Tiago ele poderia vir a ser o Ministro da Magia mais jovem da história, porque ele tinha apenas vinte e sete anos e seu cargo estava a apenas quatro promoções de se tornar Ministro.
Lílian, por sua vez, abriu mão de muitas coisas que fazia dela o que ela era para ficar com Tiago. Muitas pessoas no mundo bruxo simplesmente não aceitaram a decisão dela, mas ela teve seus motivos e não devemos questioná-los. Lílian, como todos sabem, era considerada a bruxa mais poderosa de todas, a líder dos Aurores Supremos, a melhor espadachim. Mas algum tempo depois de ter se casado com Tiago, ela não via mais muito sentido em continuar sendo Auror Supremo. Ela ganhava muito bem, mas Tiago ganhava um pouco mais. E sendo ricos, ela não via porque continuar "brincando de defender o mundo", como Tiago mesmo dizia. Ela sabia que havia amargura na frase dele, mas ele tinha razão. Não suportaria ficar com Tiago soltando faíscas por ela ser a líder dos Aurores Supremos. E também, com o mundo em paz e bons aurores no cargo, pra que ficar lá? Então, ela decidiu abandonar a vida de auror, e resolveu ficar em casa. Longe de ser uma vida fácil ou confortável, ela fazia questão de ajudar na casa, ainda que tivessem elfos.
Mas agora que Harry nascera, eles tinham se mudado mais para o centro de Londres – moravam antes na mansão da família, aos redores de Hogsmead. Moravam em uma casa grande, num bom bairro de Londres, era perto do Ministério, e deixava Lílian mais á vontade, em seu "mundo trouxa".
Tiago é leonino, e Lílian, pisciana (N.A: esses são os signos da EdD, e não os originais. :D). É natural que o leonino goste de aparecer e dominar, e se o pisciano assim achar conveniente, irá deixá-lo fazer o que bem quiser. Lílian amava Tiago, e queria viver em paz com ele por toda sua vida. E se para isso ela tivesse de abdicar de ser "a Lilian Evans", ela abdicaria. E abdicou. O mundo não precisava mais dela. Era de direito seu escolher seu caminho, viver sua vida e ser feliz.
- ...Não esqueça de se arrumar para irmos. – disse Tiago, voltando a subir as escadas, depois de agradecer pelo nó da gravata com um beijo em sua testa.
Lílian não disse nada, voltou a olhar para a grande janela da cozinha, á frente da pia e do fogão. Dava vista para o grandioso jardim gramado, com canteiros de flores, e várias árvores ao fundo, que por fim iriam juntar-se depois da cerca numa pequena mata, até sair em um parque do bairro.
- Por que vão fazer isso com ela? Tinha necessidade? – pensava Lílian, quieta. Mas era o tipo de pensamento que ela tinha que guardar só para ela. Na verdade, ela pensava que não devia nem mesmo pensar.
Subiu as escadas, e chegou à porta do quarto. Olhou Tiago alguns instantes, e disse:
- O almoço está pronto.
- Ótimo. – sorriu, tentando manter o cabelo liso e no lugar, o que era impossível – E aí? Vai tomar um bom banho? Vista-se com a melhor roupa, hoje nós...
- ...Eu não vou.
Tiago parou, olhando para ela.
- Como?
- Eu... não quero ir, Tiago. Melhor não.
- Como não quer ir? Claro que quer ir!
- Não, Tiago, não quero. – suspirou – Você sabe que não me sinto bem no meio desse pessoal do Ministério.
- Você é minha esposa! É um grande evento! Claro que você vai!
- ...Estou gorda e não me sinto bem no meio da alta sociedade. – disparou ela, apática.
- Gorda? – inconformou-se – Você está linda!
Lílian deixou escapar um riso. Baixou a cabeça, balançando as mãos:
- ...Esquece.
- Eu não vou comemorar sem você! – disparou Tiago, bravo.
- ...Comemorar o quê? – perguntou Lílian, em tom baixo.
Tiago a olhou, com raiva.
- É claro que você vai.
- Tiago, você é surdo? Eu. Não. Vou.
- Você é minha esposa! – gritou, irritado – Você vai aonde eu quiser que você vá! Você tem o dever de me acompanhar!
- Pare de gritar ou agir como um bebê mimado. – disse, categórica, sem alterar a voz.
Tiago queria jogar tudo o que ele achava que aquilo significava na cara de Lílian, mas jamais o faria. Respirou, ofegante, e disse:
- ...Grande amor o seu, heim? Não pode nem ir a uma celebração do ministério comigo.
Nisso, do quarto do bebê, Harry começava a chorar. Parecia que sentia quando os pais começavam a discutir. Lílian respirou fundo, dando as costas:
- Harry está chorando. E eu definitivamente não quero participar de nenhuma celebração que vá desmembrar cadáver e sair pendurando ele em mastros.
- Você vai me fazer essa desfeita? – perguntou Tiago, alfinetando-a.
- ...Vou. – respondeu, sumindo no corredor.
Sirius, Longbotton e outros aurores estavam no centro de uma grandiosa sala no Ministério. Ela estava toda enfeitada com trepadeiras muito verdes, e nem parecia uma sala onde em breve haveria uma cerimônia pra lá de grotesca e cruel – ainda que com um cadáver. Muitos convidados vieram vestidos de forma rica. Tiago não parava de conversar com seus superiores. Longbotton olhou seu relógio dourado, no bolso, suspirou e o guardou.
- ...Quanto mais cedo começar, mais cedo terminará. – murmurou.
- Que merda. – murmurou Sirius – Eu odeio esse Ministério imundo.
- É uma forma de demonstrarem poder. – suspirou Longbotton – Agora vamos.
Os aurores caminharam para o canto da sala, que era em forma de estádio, como num teatro ou cinema. Havia um grande cilindro de metal pesado, de mais de dois metros, de pé. Acionaram uma alavanca e aquele cilindro se abriu, revelando ser um cilindro de vidro com uma capa de metal. Aquele mesmo cilindro ficou cinco anos exposto no Ministério, para quem quisesse vê-lo. Uma ovação tomou conta do lugar. Sirius suspirou, penoso. Longbotton sorriu, e disse para Sirius:
- Faremos como ela faria. Olhe e diga: Boa tarde, presuntão, como se sente?
O jovem riu, sem jeito, e finalmente ergueu o olha para o cilindro de vidro. Ele era cheio de um líquido amarelado, que brilhava, como neon. E, imerso nele, estava uma das coisas mais grotescas que o ministério já havia feito: no meio do líquido, boiando, de pé, estava o cadáver da mais odiada bruxas das trevas de todos os tempos, e provavelmente uma das bruxas mais poderosas e temidas: Leah. Ela, cinco anos atrás, fora condenada à morte por ter matado um importante político português, no meio do seu próprio julgamento, roubando uma adaga de um dos aurores do lugar e lançando de forma certeira no pescoço do homem. A verdade era que Leah havia se matado, envenenada, por Dumbledore. Mas, num plano um tanto audacioso, Leah acabou convencendo todos de que Lílian a teria matado. Seria justo que todos pensassem que ela havia sido morta pela grande rival boazinha.
Os fios do cabelo de Leah – agora ralos e com um aspecto bem grosso flutuavam, movendo-se vagarosamente pelo vidro, ora em seu rosto, ora para os lados. Tinha a boca entreaberta e as marcas da última batalha, contra Lílian. Vestia a roupa de condenada, agora um trapo quase desintegrado de podre, e tinha os olhos muito escuros, e a pele rígida e cinza.
Sirius e Longbotton puxaram aquele enorme cilindro por grossas argolas de aço, ao lado, e levaram o corpo de Leah, ainda no recipiente, para a mesa de centro, onde dois bruxos vestidos como carrascos, de negro, aguardavam. A mesa pareceu "engolir" o cilindro, que atravessou o corpo de Leah como se fosse gasoso. E, na mesa de pedra, ficou apenas o agora encharcado corpo de Leah.
Mais uma vez a multidão se agitou.
- Bárbaros. – murmurou Longbotton. – É isso o que são. De nada adianta vestir roupas finas e andar com delicadeza, esbanjando luxo e nobreza. São todos bárbaros, criaturas podres e desgraçadas que se divertem com um espetáculo grotesco como esse. São piores que aquela que aqui está para ser esquartejada.
Sirius concordou com a cabeça.
Os carrascos ajeitaram o corpo de Leah. Apesar de 5 anos, o corpo dela ainda estava mole, por causa do liquido. Mas, fora dele, em breve iria enrijecer-se e entrar em estado de putrefação. O mestre de cerimônias abriu um grande pergaminho e começou a contar onde estariam os pedaços de Leah:
- ...Membros inferiores: entra leste e oeste do Beco Diagonal. Membros superiores: Entrada Norte e sul de Hogsmead. Pélvis: praça de entrada da sede de Gringotes. Tronco: Plataforma 9 ½. Cabeça: praça de entrada do Ministério.
- ...Agora sei onde fica o peito e a bunda dela. – sorriu Snape, sacana, do alto da sala, encostado na porta. Deu as costas e saiu, silencioso – Acho que devo avisar os outros.
De volta ao centro de cerimônia, os carrascos começaram a dividir as partes do corpo. Um deles dava pesadas machadadas, outro segurava o corpo, que balançava a cada pancada.
- ...Eu acho que não estou passando bem. – gemeu Sirius, desviando o olhar, visivelmente pálido.
- ...Vamos sair daqui. – disse Longbotton, passando o braço pelos ombros de Sirius, saindo dali de perto, no meio daquela horrível cerimônia, e debaixo dos gritos e da comemoração da platéia.
Após o término dela, os pedaços do corpo de Leah foram fincados e belas lanças douradas, bastante adornadas, e saíram do Ministério, num grotesco "desfile" pelas ruas da cidade, em carros enfeitiçados, que só bruxos poderiam ver.
Tiago foi um dos últimos a sair da cerimônia. Na entrada do Ministério, parou na frente da lança onde estava fincada a cabeça de Leah. Os bruxos a aprontavam: retiraram-na da lança, depositando-a numa grande almofada de veludo vermelho, e a colocaram sobre uma mesa de madeira. Um dos bruxos terminou de colocar o cabelo dela de lado, um tanto enojado.
- Pronto. Finalmente. Irgh. Agora é só levantar. – comemorou.
Mas Tiago parou ao lado dele. Olhou alguns segundos para o rosto sem vida de Leah, e deu-lhe uma bela cusparada, antes de dar as costas e ir embora. O bruxo gemeu:
- Ahhh, senhor! Olha o que fez! Vou ter que limpar essa maldita e nojenta cabeça de defunto DE NOVO!
Sirius chegou na casa que dividia com Lupin e Snape um tanto cansado e abatido. Era uma grande casa de dois andares, também nos arredores trouxas de Londres. Era uma casa paga pelo Ministério, para os aurores supremos mais jovens. Às vezes dividiam a casa com mais alguém convidado do ministério, mas, na maior parte do tempo, ficavam só os três. Snape dormia no andar debaixo, e como era de se esperar, não era lá muito sociável, ainda mais em se tratando de Sirius e Lupin. Mas, agora adultos, ao menos pararam de ficar se matando ou ofendendo um ao outro. Lupin e Sirius dormiam no segundo andar, em quartos opostos, no longo corredor.
Snape comia salgadinho, assistindo televisão, e nem cumprimentou Sirius quando entrou. Ele foi direto para o quarto, tomou um bom banho e começou a lentamente a dobrar seu uniforme de Auror Supremo. Lupin bateu na porta:
- ...E aí? – cumprimentou – Tudo bem.
- Ah, é. Né? – respondeu, sem ânimo.
- Vamos descer e comer alguma coisa. – sugeriu, também um pouco desanimado – Se é que você vai querer.
- Sei lá se tenho estômago. Talvez uma sopa.
Os dois desceram.
- ...Foi horrível. – disse Sirius, lamentando, ajudando Lupin a colocar a mesa – Nunca achei que fossem capaz de fazer uma coisa tão... horrível. E olha que como auror a gente já viu de tudo.
- Imagino. Ei, Snape, vai querer sopa? – perguntou Lupin, indo para a cozinha, passando por ele.
- Ahm... pode ser. – disse, apático – Antes de vir pra cá eu passei num mercado de trouxas.
- Ah, valeu, eu vi. – agradeceu, olhando o saco de papel marrom cheio de coisas.
Sirius, já na cozinha, começou a fuçar no saco de papel, pegando algumas latinahs e vendo o que ele andou comprando:
- Ei, no final, ele até que presta, heim? – sorriu, falando em tom baixo – Olha só, salsão, atum em lata, batatas, cenouras, manteiga, seis ovos... Meu Deus!
- ...Que foi? – perguntou Lupin, erguendo-se, com uma panela nas mãos.
- ...Aspargos. – sussurrou, mostrando o vidro – Que VIADAGEM, comer aspargos!
Lupin riu, balançando a cabeça. Em alguns minutos os dois se viraram, fazendo uma sopa que até cheirava bem.
A campainha de correspondência mágica tocou, fazendo trrrrrim-trrrrrim, e foi Snape quem foi para fora de casa, procurar a coruja. No lado de fora da casa havia um poleiro, onde as corujas pousavam, e soava o alarme. Uma grande coruja branca, bem gorda, estava pousada lá, com um pergaminho na pata:
- ...Obrigado. – disse Snape, retirando a carta. Ao lado do poleiro havia uma gaiolinha com pequenos quadradinhos escuros, que parecia um tipo de carne seca. Snape abriu a gaiolinha, retirou um pedaço e deu para a coruja, que piou, feliz, comeu e voou. Provavelmente era alguma isca que eles deixavam ali para agradar as corujas.
Snape entrou em casa lendo o pergaminho, e Sirius e Lupin já jantavam.
- Ei, Snape, largue disso e venha. – murmurou Sirius – Não deve ser grande coisa.
- ...Que cara é essa? – perguntou Lupin, preocupado.
Sirius olhou para trás, e Snape deu um sorriso desgostoso, entregando a carta para eles:
- Vejam vocês mesmos. Estava demorando pro Ministério encrencar.
Sirisu leu, e ficou muito bravo. Depois, Lupin leu. Era uma ordem do Ministério, ou melhor, uma advertência, dizendo que, se continuassem a executar serviços fora do trabalho deles, poderiam ser suspensos ou expulsos da ordem dos Aurores.
- ...Em outras palavras, estamos proibidos de ajudar o Arcebispo Joaquim. – murmurou Lupin.
- É, o Ministério não aprece se importar e deixar os capetas do Juízo Final soltos por aí devorando vísceras de gente inocente. – comentou Snape, se sentando.
- ...E agora? – perguntou Sirius – Joaquim não vai dar conta, sozinho!
- Vou tentar falar com ele pela lareira. – disse Lupin, limpando a boca num guardanapo e se levantando.
Sirius o seguiu, deixando Snape jantando. Sentaram-se no grande sofá vermelho da sala, e, diante da lareira acesa, jogaram um pó mágico, e chamaram por Joaquim. Depois de alguns momentos, ele apareceu, e parecia cansado.
- ...Já escutei a notícia. – lamentou Joaquim – O professor Dumbledore me avisou.
- E agora, o que faremos? – perguntou Lupin, angustiado – Não podemos deixá-lo sozinho nessa!
- ...Não quero prejudicar vocês, meus amigos. Cuide de seus afazeres. Eu tentarei dar um jeito.
- Não temos nada pra fazer! – reclamou Sirius – Coçamos o saco o dia todo e ganhamos pra isso! Parece ótimo, mas é um tédio! Horrível!
- Não irei arriscar a vida estável de vocês. - murmurou Joaquim. Pensarei em algo.
Snape parou atrás do sofá, palitando os dentes:
- Eu acho que tenho uma idéia. – disse.
Os dois olharam para trás, enquanto a imagem de Joaquim ergueu a cabeça para ele.
- Você não está com o Livro do Umbral? – perguntou.
- Sim. Que tem ele?
- Não seria ótimo ter Lílian ajudando a gente?
- Sem dúvida! – concordou.
- Mas não podemos tirar ela de Tiago.
- É.
- Então, devemos trazer Leah.
O que se seguiu foi uníssono:
- O QUÊ?
Snape deu de ombros:
- Ora essa, é só juntarmos os pedacinhos dela e ressuscitá-la, o livro não faz isso?
Joaquim suspirou:
- ...Isso seria terrível! Esse livro... essas magias possuem apenas as piores magias negras que...
- Seu imbecil! – xingou Sirius.
- Sirius, não precisa brigar com... – o arcebispo não terminou, porque Sirius continuou gritando.
- ...Se tivesse dado a idéia antes, não teríamos que ir buscar os pedaços dela!
- Agora teremos mais trabalho. – lamentou Lupin.
Joaquim gaguejou:
- ...Estão loucos?
- Não, ele tem razão, senhor. – sorriu Lupin – Se o feitiço funcionar mesmo, tudo será mais simples!
- E o que pode acontecer? – balbuciou Joaquim – Não, é muito sério, trazer do mundo os mortos alguém que já foi para lá! Isso é transgredir o Reino dos Céus, as leis de Deus!
- ...E esse monte de demônio aparecendo, é normal? – disse Lupin – Estamos à beira do Apocalipse, senhor Joaquim! De que adianta esperar pelo pior, se ele vai acontecer do mesmo jeito, podemos ter a maior quantidade de auxílio possível do nosso lado antes que seja tarde!
O religioso parou, para pensar.
- Oba, vamos brincar de quebra cabeça? – sorriu Sirius.
- Se for, temos de nos apressar. Ouvi dizer que viriam excursões de outros países, só para ver as partes do corpo de Leah. E talvez seja possível que levem a outros países. – comentou Snape, de braços cruzados.
Lupin agachou-se na frente de Joaquim.
- ...Reverendo?
Ele balançou a cabeça:
- Preciso pensar.
- ...Tudo bem.
Joaquim sumiu, e os três puseram-se a pensar a melhor forma de recuperar as partes de Leah. Enquanto isso, em Notre Dame, Joaquim parecia estupidamente confuso e chocado. Suava, tremia. Olhou para o grande e negro Livro do Umbral. Pegou-se, colocou debaixo do braço, foi até o altar principal de Notre Dame, e lá se sentou, no meio do corredor, de frente para o altar, sendo iluminado pela luz da lua que entrava pela rosácea, ficando lá de frente para o livro, a noite toda, meditando, rezando, pensando.
Tiago entrou no quarto, já de madrugada, e retirou a roupa, vestindo pijama. Deitou-se ao lado de Lílian, que já dormia. Lhe deu um beijo no rosto, e se virou, adormecendo. Minutos depois, Lílian se virou, ficando de barriga para cima, com a mão atrás da cabeça, fitando o teto, pensativa. Não havia dormido ainda. E demorou para fazê-lo.
No dia seguinte, na parte da tarde, Lílian estendia a roupa no varal, atrás da casa. Estendia um grande lençol branco de casal, quando escutou o barulho de alguma coisa quebrando com violência, como vidro, seguido do som de carros batendo, de gritos e do barulho que pareciam asas batendo. Olhou dos lados e não viu nada. Mas, ao chegar do lado do lençol, erguendo-o de leve para olhar na direção da rua e das árvores, um monstruoso demônio se erguia, voando, na direção da sua casa.
- ...Meu Deus! – apavorou-se.
Ela deu as costas, correndo pelo gramado, na direção de casa. O demônio voava, batendo as asas, guinchando alto. Mergulhou na direção dela. No último instante, na beirada da escada da porta da cozinha, havia um grande balde de madeira, grosso. Ela levou a mão nele e o jogou para trás com força, estilhaçando-se na cara do demônio, que se desequilibrou, gritando de dor, e retomava o equilíbrio, voando de novo. Aquela pequena corrida havia lhe tomado todo o fôlego. Como estava fora de forma. Cinco anos atrás ela sem dúvida já teria partido aquele bicho em dois. Correu para procurar sua varinha, perdida há tempos em alguma gaveta. Enquanto isso o demônio começava a estilhaçar as vidraças da mansão, e mordia as paredes forradas de madeira por fora. Ao terminar de quebrar as debaixo, o demônio subiu para o segundo andar, e começou a fazer o mesmo lá.
- HARRY! NÃO! – gritou Lílian, pondo-se, com dificuldade a correr as escadas, atrás do filho.
Entrou exasperada no quarto dele, e o tirou do berço no instante em que o demônio destruía a parede, e quebrava tudo. Ela bateu de encontro ao armário, sendo coberta de lascas de madeira e pó de tijolos. O demônio gritou, estridentemente. Para a surpresa de Lilian, Harry dormia profundamente.
De repente, uma onda de energia atingiu as costas da criatura, que caiu. Mas ela se ergueu, e avançou para o chão. Lilian deixou Harry enrolado nas cobertas fofas, dentro do armário, onde ele continuou dormindo, e ela caminhou até a borda do quarto, olhando lá para baixo.
Joaquim erguia a moa e seu cajado, e com uma poderosa energia de luz, desintegrava o demônio, que foi morto a centímetros de atingí-lo. O religioso ofegou, olhando Lilian. Ela permaneceu em silêncio, assustada.
- ...Estão todos bem, Lílian? – perguntou Joaquim.
Ela não disse nada. Ele fraquejou, caindo no meio da rua. Lílian se adiantou, e saltou do alto do quarto. Mas ela não pousou nos escombros com a leveza de antes, nem saiu correndo chegando nele imediatamente. Ela caiu de forma pesada e seca nos restos de telhas, com um doloroso baque, e sentiu o corpo todo doer. Mas ainda assim, com dificuldade, se levantou, e mancou até Joaquim, sentindo o corpo todo estalar e doer.
- ...Senhor Joaquim! – gemeu, com dor, agachando-se ao lado dele – O senhor está bem...?
Com dificuldade, ela o levou para casa. Não demorou para que Longbotton, e dois outros aurores, chegassem.
- ...Vamos dar uma revista na casa. – disse Longbotton – Seu marido já está chegando, Lílian.
Lílian sentou-se na sala com Joaquim, longe da destruição do demônio, e tentou conversar com ele:
- ...O que foi aquilo, senhor Joaquim?
- Aquilo... senhora Potter. – disse Joaquim, tomando uma xícara de um chá mágico, que aprecia melhorar suas energias – Era um demônio. Ultimamente muitos deles estão aparecendo aqui, no nosso mundo. E eu tenho que exorcizá-los.
- Demônios...? – sussurrou – E como o senhor os...?
- Eu tenho os enfrentado sozinho. – suspirou – Seus antigos amigos estavam me ajudando, mas o Ministério os proibiu.
- ...E agora, o que irá fazer? – perguntou Lilian, preocupada.
Joaquim a olhou, penosamente. Nisso, Tiago aparecia na sala, exasperado:
- Lilian! Tudo bem? Como estão?
EM seguida olhou Joaquim. Sua expressão mudou na hora.
- O que VOCÊ faz nessa casa? – gritou, para Joaquim.
- Tiago, por favor... – sussurrou Lilian.
- Seu cristão maldito, a culpa é sua, trazer desgraça pra minha família! Suma da minha frente, ou eu mesmo irei chutá-lo daqui!
- Tiago, ele salvou eu e Harry, Tiago! – disse Lilian, chocada.
- Salvou? Em instantes o Ministério enviaria bruxos para proteger vocês! – gritou Tiago – Esse porco imundo não é bem vindo em minha casa! Ele não tocou em você ou Harry, tocou?
Antes que Lilian abrisse a boca, Joaquim se levantou, vestindo sua capa púrpura, dizendo, em tom baixo:
- Já estou bem, senhora Potter. Agradeço o chá. Espero que fiquem bem.
- ...Se o senhor nunca mais chegar perto de nós, as chances de ficarmos bem será muito maior! – disse Tiago, em voz alta, quando o religioso saía, sem olhar para trás.
Lílian, também em silêncio, não fez nem disse nada, apenas continuou no mesmo lugar. Piscou, olhando o chão.
Madrugada do mesmo dia. Uma noite enevoada, cheia de estrelas, sem vento algum. Dois bruxos estavam metros á frente o varal de cobre onde uma das pernas de Leah estava pendurada de forma grotesca. A rua estava deserta. De repente, no fim da rua, uma velha carroça vinha, mansamente, com um homem encapuzado, cabisbaixo, guiando. A carroça rangia, e atrás dela, uma grande caixa preta.
Os bruxos se aproximaram, com as varinhas em punho:
- Quem é você?
- ...Um pobre mascate. – disse o velho, com voz fina.
- Isso não é hora de fazer comércio.
- ...Mas eu comercializo produtos bons... proibidos durante o dia. – sorriu, maquiavelicamente.
Os bruxos se olharam.
- ...Que produtos?
O bruxo da carroça apontou entre os outros dois, na direção da perna de Leah, e sorriu:
- ...Cadáveres.
Os dois olharam para trás. A perna dela havia sumido. E no instante seguinte, ao olharem o velho da carroça, sentiram apenas suas cabeças serem jogadas para trás, num feitiço vermelho, sem som, que nocauteou os dois imediatamente.
O velho riu e tirou o capuz, revelando ser Frank Longbotton, que olhava para trás, onde ninguém menos que Alvo Dumbledore sorria, unindo os dedos indicador e polegar, lhe dando um sinal de "ok", colocando a pernas de Leah recém capturada, junto da outra, já dentro da caixa preta. E, ao lado da carroça de Longbotton, uma carroça igual, com as caixas com os braços de Leah, que o próprio Dumbledore já havia conseguido.
- Chegou no instante exato, mestre. – sorriu Longbotton.
-...Não sabia que eu era bom nisso. – riu Dumbledore, subindo em sua carroça e batendo as rédeas, saindo veloz, junto do amigo – Agora vamos.
Pararam com as carroças em Gringotes, numa rua paralela. Das sombras de um dos Becos, surgia Hagrid, com um grande embrulho nos braços, e também colocava na carroça.
- Professor... – perguntou, apontando o canto do beco, onde doze bruxos desacordados e sem roupa estavam amontoados – o que eu faço com todos os vigias?
- ...Deixe-os aí, Hagrid. Terão de exercitar a imaginação para descobrirem como foram parar aí. Ainda mais se forem casados. – sorriu, amigavelmente – Agora precisamos ir para o lugar mais perigoso.
Nisso três homens de preto, com roupas iguais às de ninja, saltaram do telhado de Gringotes, sem fazer barulho. E subiram nas carroças:
- ...Ministério, aí vamos nós! – sorriu Sirius, debaixo de uma das máscaras negras.
Lupin e Snape retiraram as suas, respirando fundo.
- Tudo bem com vocês? – perguntou Dumbledore.
- Sim. – sorriu Lupin, confirmando com um aceno de cabeça – Vamos lá.
- Eu não devia dizer isso... – riu Longbotton – mas vocês estão me deixando orgulhosos!
- Somos demais! – sorriu Sirius, abraçando Lupin e fazendo um sinal de "V" com os dedos.
Hagrid jogou duas pesadas mochilas que os rapazes usaram na carroça, e disse, se despedindo:
- Boa sorte. Cuidado.
- Obrigado, Hagrid. – sorriu Dumbledore – Agora vá para sua casa, descanse. E esqueça de nós.
- Já esqueci. – e acenou uma última vez, enquanto as carroças negras desapareceram na noite.
N.A 1: Eu ai esticar mais um cadinho o capítulo, mas vou respeitar o tamanho de 10 páginas do Word, senão fica cansativo.
N.A 2: DoomsDay não tem previsão de terminar, nem tempo certo de atualizar, afinal, eu escrevo direto no PC. Mas vocês sabem, ela não será maior que a Medo do Escuro, então terá lá entre 10 e 14 capítulos. Perdoem os erros grotescos, se tiverem. Escrevo ela de forma corrida e NÃO REVISO antes de mandar pra cá. xD
N.A 3: lembrando que quem odeia slash não deve continuar a leitura. xD
N.A 4: Até o próximo capítulo!!!!
