"Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor." Apocalipse 2:4
Ato VII: Primeiro os Anjos Caem
Um rosto de anjo sorri para mim
Debaixo de uma manchete de tragédia
Aquele sorriso costumava me trazer calor
Adeus - sem palavras pra dizer
Ao lado da cruz sobre a sua sepultura
e aquelas velas que queimam eternamente
Necessários em outro lugar
Para nos lembrar da rapidez do nosso tempo
Lágrimas derramadas por eles
Lagrimas de amor, lagrimas de medo
enterre meus sonhos,
desenterre minhas tristezas
Oh Deus, por que
os anjos caem primeiro?
Não revivido pelos pensamentos do Shangri-La
Nem iluminado pelas lições de Cristo
Eu nunca entenderei o significado do que é certo
Ignorância me carregue para a luz
Necessários em toda parte
Me cante uma canção
da sua beleza
do seu reino
que as melodias de suas harpas
consolem aqueles de quem ainda precisamos
Ontem, nós apertamos as mãos
Meu amigo
Hoje um raio de luar ilumina meu caminho
Meu guardião
(Angels Fall First – Nightwish)
Leah olhava a cena do acidente atônita, sem sequer saber o que poderia fazer. Aliás, naquele estado, não podia fazer nada, e, mesmo se pudesse, àquela altura do campeonato, de nada adiantaria.
- E agora...? – pensou, pondo as moas na cabeça, deitada no asfalto, sem se importar de estar literalmente só pela metade, com suas vísceras espalhadas e penduradas nas ferragens. Sentiu-se zonza, o que era muito estranho - ...Quê... que tonteira é essa... de novo...
E, em segundos, perdeu os sentidos.
Sabe quando as coisas acontecem e você acha que tudo não passa de um pesadelo muito estranho? Era assim que Lupin se sentia, com a mão na alça do caixão de Tiago. Ao seu lado, Sirius caminhava com a mão sobre o pequeno caixão de seu afilhado Harry. Todos caminhavam em silêncio, com uma expressão que misturava tristeza e espanto. Um espanto toa grande que estranhamente os impedia de chorar até aquele momento. E o que parecia mais estranho, era caminharem junto de Lílian, que deveria estar naquele carro.
Ela, durante o sepultamente, chorou em absoluto sil6encio. E aquelas lágrimas pareciam ser muito mais dolorosas do que qualquer uma que saísse ruidosamente, em desespero. Lupin não deixou de olhá-la um só momento, como se a vigiasse. Ela mantinha a cabeça baixa, olhando os caixões serem descidos para as sepulturas, e serem cobertos de terra. E cada silenciosa lágrima que escorria pelo seu rosto, parecia rachar um pedaço do coração de Lupin. Porque, afinal, ela havia abandonado tudo para ficar com eles, não havia? Para se dedicar à família, e, agora, todos os dois haviam morrido de uma só vez. Deveria estar sendo terrível.
Sirius abraçou-se à Lílian e chorou, na saída do cemitério. Ele lhe beijou a cabeça:
- Estaremos sempre juntos, Lilian. Somos uma família, sempre. Nunca se esqueça.
- Eu sei. – disse, deprimida, forçando para parecer grata – Obrigada por tudo. Sei que Tiago me confiaria à vocês, caso ele faltasse. Ele era um homem bom.
Lupin juntou as sobrancelhas, tendo certeza de que ela provavelmente estava decorando aquele discurso e repetindo-o para si mesma. Sirius se afastou, e mais alguns bruxos a cumprimentaram. Lupin respirou fundo, e se aproximou. Segurou as moas dela, e disse:
- Se precisar voltar para nós, Lílian... sempre estaremos lhe esperando.
Os dois se olharam, e Lupin permaneceu sério. Ela respondeu abaixando a cabeça e acenando que sim.
O ministro estava sentado em sua mesa, preocupado, junto de seus aurores. Acabavam de voltar do enterro de Tiago, e já procuravam um substituto para seu lugar, para evitar que a equipe de caça aos misteriosos demônios ficasse sem liderança. Foi quando Dumbledore, sem pudor, entrou, abrindo as portas com violência: caminhou com passos apressados e pesados pelo corredor, até parar na frente da grande mesa, apontando para o bruxo, furioso:
- Eu não me meti nas decisões suas, senhor ministro, tampouco nas de Tiago, que já era um homem adulto. Mas agora é diferente. O poder e a ganância subiram para a cabeça de Tiago, e ele acabou se perdendo na imprudência e na ambição, em meio à essa guerra contra dos demônios, levanto junto seu filho Harry.
- ...Escute aqui, quem o senhor pensa que...
Mas Dumbledore não deixou o ministro falar, interrompendo-o:
- Não importa quais sejam os seus planos, senhor ministro. Eu considerava Tiago um filho e o perdi. Eu não vou permitir que o ministério coloque as mãos nos meus antigos aurores. Sou eu quem irei cuidar deles, como deveria ter feito desde o início.
Ele deu as costas e se dirigiu para a porta. Parou por um instante, olhando para o ministro uma última vez, e dizendo, antes de sair e fechar as portas:
- ...E não se atreva a pensar em encostar as mãos ou jogar sua lábia afiada para cima de Lílian. Se isso acontecer... o senhor vai se arrepender amargamente de ter nascido.
O ministro ficou vermelho, e balbuciou, inconformado:
- Está me ameaçando, Dumbledore?
- Claro que estou. Passar bem, senhores.
Lilian chegou na grande casa dos Potter, e ela estava completamente escura. Era extremamente estranho chegar de noite em casa e vê-la vazia, silenciosa. A rotina era sempre outra: àquela hora, ela já estaria jantando com a família, ou estaria esperando Tiago chegar. Harry estaria brincando no tapete, fazendo barulho, a TV estaria ligada, as luzes acesas. Se acontecesse de Lilian precisar sair, ir até a casa de algum vizinho, ou até o jardim, ao voltar e entrar por aquela porta ela veria Tiago no sofá, lendo jornal, e Harry estaria ainda no tapete, espalhando seus brinquedos, e sorriria ao vê-la. Ela iria pegar o filho no colo, levaria ele para dormir, depois voltaria, arrumaria sua bagunça, terminaria de arrumar a cozinha. Depois, conversaria com Tiago, antes de irem dormir. Se ele fosse continuar acordado, ela lhe beijaria, desejaria boa noite, e subiria para o quarto, onde teria o carinho de separar o pijama do marinho na beirada da cama, antes de se deitar.
A bruxa fechou a porta da sala e se encostou nela, olhando para o chão, sem acender as luzes. Ficou no escuro, no silencio. Parecia mentira que tudo aquilo tinha acabado, e daquela forma. Eles morreram: acabou, não voltariam mais.
A ausência de som, de luz e de vida da enorme casa começou a tomar conta de Lilian, e ela sentiu uma dor enorme em seu peito. Pôs as mãos na boca, sentindo os olhos se encherem de água. É, eles não iam mais voltar, mesmo que tudo parecesse apenas um terrível pesadelo. Ela apertou as mãos na cabeça, sentindo-se completamente desesperada e toda a seriedade do velório e do enterro sumiram, e ela desabou a chorar, entre gritos e soluços.
Snape batia os dedos na mesa do porão, apático, com olheiras. Uma semana já havia se passado. Sirius e Lupin haviam ido à missa de sétimo dia de Tiago e Harry. Lilian era cristã, e o arcebispo Joaquim aceitou sem pestanejar ao pedido dela de celebrar uma pequena missa, numa igreja que havia num local um pouco afastado do Beco Diagonal, onde alguns poucos bruxos cristãos freqüentavam.
Snape estava com olheiras porque ainda não tinha dormido: olhava um grande tonel de vidro à sua frente, no porão de casa, onde, dentro dele, estava Leah, costurada, enfaixada, cheia de fios presos ao corpo. Desde o incidente ela oscilava entre consciência a inconsciência, e fora muito difícil colocar seu corpo no lugar, literalmente falando. Ele, como exímio bruxo na elaboração de poções, topou estudar uma maneira de "melhorar"Leah. Estava difícil, mas de acordo com Dumbledore, o resultado que conseguiu nas duas ultimas noites foi digno de um gênio.
- Leah, acorde. Está me ouvindo? – perguntou, pegando um antigo telefone preto. A voz de Snape ecoou pelo liquido azul, e Leah fez careta, ainda de olhos fechados – Não adianta fingir, puta, eu sei que você está bem e me ouvindo.
Leah abriu os olhos, mau humorada. Snape sorriu, escrevendo em um caderno, apoiando o gancho do telefone no ombro:
- Confesse: está se sentindo cem por cento, não está? Eu sou excelente no que faço.
Leah pôs a mão no peito, sentindo, sob a pele, entre as costelas, duas lasquinhas de uma pedra. Olhou para si mesma e percebeu como estava: ainda era um zumbi, mas seus enormes remendos haviam se tornado apenas cicatrizes escuras. E se sentia cheia de energia.
- Quer saber o que é isso? – perguntou Snape, fechando o caderno e se levantando, levando o telefone e chegando à frente do vidro – São duas lasquinhas da Pedra Filosofal. – Ele gargalhou, ao ver a expressão de terror de Leah – Sim, acredite. Dumbledore permitiu que eu tentasse pôr em prática meu mirabolante plano. E deu certo: eu tirei um pedaço da pedra, mínimo que acabou se dividindo em dois. E coloquei em você. Veja só, como eu previ, ela parece que regenerou e devolveu toda a energia ao seu maldito corpo. Que bom para nós, Não? Você estava um trapo velho. Pode sair daí.
Snape colocou o telefone sobre uma mesinha, e puxou uma alavanca do lado do tonel, o que fez o líquido azul desaparecer por enormes canos. Em seguida, ele abriu a frente do vidro, e Leah se ergueu, puxando os fios que ela tinha preso ao corpo, se libertando. Retirou também as gazes, e saiu de dentro do vidro, pingando. Pegou duas grandes e felpudas toalhas com Snape e se secou.
- Olha só, até o seu cheiro melhorou. – sorriu Snape.
Leah o olhou de esguio, enrolou a toalha na cabeça, e vestiu um roupão. Sentou-se numa cadeira, e pegou um pequeno espelho na mesa, olhando-se:
- ...Isso tudo é obra do poder da Pedra Filosofal? Fala sério... ela tem mesmo que ficar longe das Mãos Erradas...
- Sim. E se minhas suspeitas se confirmam... com licença. – Snape pegou um bisturi de uma bandeja de instrumentos cirúrgicos, e puxou o braço de Leah. Cortou-o, de perto do cotovelo até próximo do punho, abrindo sua carne endurecida. Mas mal terminou de retirar o bisturi de sua pele, o ferimento se fechou.
- ...UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAU! – exclamou Leah – QUE FODA!
- Tal como planejei. – sorriu Snape, extasiado – Perfeito. A Pedra Filosofal garantirá vida eterna a você. Digo, ao seu corpo, afinal, você já morreu, mesmo, já está do lado de lá faz tempo.
A porta do porão se abriu, e por ela entraram Sirius e Lupin, que pareceram realmente surpresos ao verem Leah.
- Ótimo trabalho, Snape! – parabenizou Sirius – Não é que deu certo?
- O trabalho deu certo até que encontremos o próximo demônio. – comentou Leah – Aliás, como está indo o clima aqui, já que nesses dias eu andei mais desacordada que acordada?
Lupin suspirou e se sentou, parecendo cansado:
- Os demônios são cada vez mais poderosos, Leah. De lá para cá só enfrentamos dois nesses últimos sete dias, mas eles nos deram um trabalho memorável. Só não entendemos porque você resolveu dar defeito.
- Talvez... esteja chegando ao fim. – comentou Leah, baixando a cabeça.
- Como assim?
- O fim, ora, de tudo. Você sabe, Lupin, o Apocalipse.
Lupin arregalou os olhos. Snape e Sirius se entreolharam. Leah balançou a mão direita, suspirando:
- Eu achava que era só ladainha, que aquele papo da Bíblia era só mito, mas estou começando a achar que faz sentido. Talvez chegue uma hora mesmo em que os céus se rasguem e o Juízo Final tenha início. Matar esses demônios só está... atrasando tudo começar.
- Está querendo dizer que, uma hora, tudo o que está escrito no Apocalipse pode mesmo acontecer? – perguntou Lupin, meio assustado.
- Sim. – suspirou Leah. – O que eu vi no lado de lá... Inclusive quando eu perdi a consciência nesses últimos dias... você sabe... aquela história de que os mortos irão voltar para o juízo final... era como se estivessem tentando me puxar de volta para lá, apenas para me mandarem de volta para cá...
- Como Zz'Gashi? – disparou Sirius – Porque ele é um demônio, não? E é estranho ele ainda não ter dado as caras se o Fim dos Tempos está chegando.
- É. Acho que é por aí. Como se eles quisessem me puxar de volta pro mundo dos mortos só pra me mandarem pra cá de novo, sabe? Só que na forma de demônio. É bom estarmos prontos. A barra vai pesar.
- Tsc. – murmurou Lupin, amargurado – Se ao menos Lílian...
- Lílian fez a escolha dela. Vamos fazer a nossa, agora. Deixa ela pra lá.
- Há uma chance dela querer voltar a se unir à gente, não há? – arriscou Sirius, olhando Lupin de esguio, como se perguntasse de propósito.
- Querem saber? – murmurou Leah – Eu duvido. Lílian deve estar arrasada demais pra isso.
- Claro que ela está arrasada! – exclamou Lupin, bravo com a indiferença de Leah – Ela perdeu a família de forma estúpida! Está sozinha! Tem de estar arrasada! Mas eu sei que ela terá foras pra reagir.
- ...Será? – perguntou Leah, sonsa – Lílian nunca foi tão forte quanto vocês acham que é.
Leah vestiu-se, pegou suas armas e subiu as escadas:
- Sinto cheiro de capeta. Alguém vem comigo?
- ...Eu vou. – disse Snape, sorrindo – Quero ver como minha criação se sai.
Lupin e Sirius subiram logo atrás, com Lupin levemente cabisbaixo, pensativo. Leah olhou para fora, e percebeu que o tempo estava nublado:
- ...O tempo está nublado, e vai piorar. E isso não é coisa da natureza. Sinto claramente a energia do Joaquim indo na direção em que senti a presença maligna. – e sorriu – Puxa, eu voltei bem, heim?
O Arcebispo Joaquim fechou a pequena igreja de pedras onde havia celebrado a missa, e saiu pela parte detrás, olhando para o céu, que se tornava nublado rapidamente:
- ...Lá vem outra cria do demônio novamente...
Ele baixou os olhos para a mata atrás da Igreja, onde sentia vir uma grande energia maligna. Arrumou a gola do pesado casaco que usava sobre suas vestes sagradas, e rumou sem medo para a mata.
Ao chegar a uma clareira, com um pequeno lago, Joaquim sentiu que, ali, a energia se acumulava. Começou a ventar, e um redemoinho surgiu no centro das águas. Uma série de raios vieram das nuvens, se uniram naquele redemoinho, e foi como se um corte em pleno ar se abrisse, e, dele, um demônio surgiu: Era como uma serpente, cheio de espinhos e quatro braços. O rosto era como o de um homem, usando um elmo viking. Tinha presas afiadas e, em cada braço, usava uma arma diferente. Pelo seu corpo, tinha grandes bolhas, como verrugas.
- ...Em nome de Deus... – murmurou Joaquim – Estas bestas estão cada vez mais perigosas e poderosas...
- ...Ora essa... – sorriu o demônio, colocando para fora sua longa língua negra – Mal cheguei e já arrumei um lanche...
Sem que Joaquim tivesse tempo de reagir, o demônio avançou com uma velocidade incrível. O religioso teve tempo apenas de virar o seu cajado de ouro e colocá-lo na diagonal, e, para sua sorte, foi onde as presas do demônio pararam. Os dois se arrastaram pelo meio da floresta, até vazarem por uma barreira mágica.
O padre rolou pelo asfalto, e se pôs de pé, sentindo-se zonzo: estava na cidade trouxa. O poder do monstro era tão grande que seu ataque rompeu a barreira mágica dos mundos, e eles foram parar num tranqüilo bairro de Londres.
- ...Ainda vivo, homem? – sorriu o demônio, arrumando o elmo em sua cabeça e girando as espadas que carregava nas mãos – Que bom. É sempre mais divertido brincar com a presa antes dela morrer.
O demônio avançou de novo, e Joaquim apontou-lhe o cajado. Dele, um canhão de luz disparou, atingindo o rosto do monstro, conseguindo desviar seu ataque. Mas ele logo se ergueu, sorrindo, com o rosto saindo fumaça.
- ...Que os Anjos de Deus venham em meu auxílio! – exclamou Joaquim, colocando seu cajado em sua testa, e fazendo o Sinal da Cruz. Imediatamente várias estrelas brilhantes surgiram ao seu lado, se aglomerando, e seis formas humanas tomaram vida: eram como se fossem fantasmas, imagens de Anjos de Luz, que abriram suas asas e atacaram o demônio – Usem suas lanças sagradas para prender este demônio na Terra, meus anjos!
Os anjos cercaram o demônio, empunhando lanças. Por alguns instantes, ele pareceu confuso.
- ...É... o mortal sabe brincar. – O demônio fechou os olhos, e urrou. Uma enorme energia negra se espalhou pelo lugar, e aquelas bolhas que ele tinha pelo corpo todo se abriram revelando serem olhos vermelhos como os que ele tinha na face. Dezenas de olhos.
- ...O que significa isso? – gemeu Joaquim - ...Não!
Os anjos voltaram a atacar. Mas, agora, todo ataque era defendido. O monstro literalmente enxergava todos os lugares de onde vinham os ataques. As espadas que ele carregava cortaram os anjos ao meio, desintegrando-os com facilidade. E, por fim, ele lançou a espada com violência contra Joaquim.
- Sua vez, homem! – gargalhou o demônio.
A espada do demônio rachou o asfalto: Joaquim não estava mais lá. O demônio procurou por ele. Havia desaparecido.
- Fala sério, pra que ter tantos olhos se não conseguiu ver uma escapadinha fajuta dessas?
- QUEM É?! – vociferou o demônio, olhando para o lado.
No alto da colina gramada, junto de alguns bancos e postes de uma pequena praça, estava Leah, com Joaquim, de joelhos. Leah estava com um dos pés sobre um banco, apoiando o braço no joelho, sorrindo, desdenhosa.
- ...A casa da Lílian fica aqui por perto. – comentou Leah, olhando os telhados do alto daquela colina, para depois olhar Joaquim, que se erguia, ofegante – Vá para lá, eu cuido desse aqui.
- ...O que houve com você? – perguntou o arcebispo, chocado.
- Depois conversamos. Vá!
O demônio pareceu realmente ofendido. Leah saltou do alto da colina e caiu no meio do asfalto, bem na frente do monstro.
- ...Salta como uma pulga. – rosnou o demônio – De onde você saiu, criatura desprezível? Vou fazê-la em pedaços.
- Salto como uma pulga, vôo como uma águia, bato como um gorila, corro como um lince, mordo como um leão, durmo como uma porca e como tal como um cavalo. Se eu continuasse me comparando aos bichos, seria um zoológico inteiro. – sorriu Leah – Vamos resumir que sou um capeta como você, mas que está aqui pra chutar a sua bunda.
O demônio avançou, mas Leah desviou de todos os seus ataques. Ele abriu fendas e buracos enormes nos jardins e no asfalto, mas não atingiu Leah. Ela pulou sobre seu corpo, e ele sacudiu a cauda, fazendo ela saltar para longe.
- É... mas vai ser difícil atingir ele, com essa quantidade de olhos. – Leah correu os olhos pelo alto das copas das árvores, e percebeu, longe dali, uma construção entre pinheiros – A menos que...
Leah correu por entre a mata, e o demônio avançou. Em pouco tempo chegaram na área onde Leah havia visto de longe: uma enorme serraria. Ela continuava correndo do demônio, subindo escadas de madeira:
- Venha atrás de mim, se for capaz, capeta!
O demônio lançou três espadas, que quebraram as colunas de madeira, fazendo Leah despencar para o chão. Assim que ela se virou, o demônio já estava sobre ela:
- E agora, milady, vai fazer o quê?
- É... – suspirou Leah, olhando para cima, parecendo desolada – Acho que não tenho alternativa... você está de parabéns. Merece palmas.
E, ao bater as mãos, uma onda de fogo percorreu o lugar, incendiando tudo. Leah tinha premeditado, estavam debaixo de um suporte carregado de serragem seca. Aquilo se incendiou com extrema facilidade, e caiu sobre o demônio, lhe queimando inteiro, inclusive seus olhos. Ele começou a urrar, a se debater.
- Não se preocupe, senhor demônio. – sorriu Leah, sacando a espada – A tia Leah vai soprar o cisco do seu olho. Kaiten Kembu: A Sequência de Seis!
Leah atacou, e, de certa forma, desconfiou que não devia ter feito isso: não só o demônio, como toda a construção e árvores que estavam no caminho foram sumariamente partidas pelo seu ataque. Os pedaços do monstro caíram no chão, mas, diferente de antes, não sumiram, continuaram ali, espalhando o sangue escuro dele pelo lugar.
- Putz... eu realmente virei um monstro. – murmurou Leah, olhando a própria mão – Preciso tomar cuidado com minha força.
Em seguida ela olhou o céu: entre as nuvens nubladas, pareceu surgir uma pequena esfera negra, com nuvens mais escuras lhe circulando. E, dali, alguns raios pareciam sair de vez em quando.
- ...Isso não é um bom sinal. – e olhou o corpo do demônio, no chão da serraria – Não mesmo. – e voltou correndo para a cidade.
O Arcebispo Joaquim estava na porta da casa de Lílian, olhando o céu. Sentia que algo estava errado, vendo aquela estranha venda entre as nuvens. Apoiou-se em seu cajado, suspirando profundamente.
- ...O demônio não desapareceu. – disse Leah, aparecendo, andando, com pressa – Digo, as partes dele, não sumiram como sumiam antes. Alguma coisa nesse mundo mudou, reverendo.
O religioso piscou os olhos, suspirando:
- Sinto que o Apocalipse começou. – comentou, em voz baixa – Uma porta entre os mundos foi aberta. Nada que acontece aqui, agora será como antes. Por isso o demônio não desapareceu. ...Como foi sua luta.
- ...Maravilha, estou um espetáculo! – sorriu, orgulhosa – Agora vamos entrando, o senhor precisa descansar.
- Leah, não é uma boa idéia, Lílian ainda está frágil, abatida e...
- Reverendo, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, ela não tem porque se recusar a ajudar o senhor.
Leah abriu a porta da mansão dos Potter e entrou, sem se incomodar, puxando Joaquim pelo braços. Mas não viu Lílian.
- Ué? Cadê Ela?
Joaquim suspirou. Leah o olhou:
- ...Onde ela está?
- ...Provavelmente no quarto. Ela mal sai de lá. Lílian tem um bom coração, e igualmente frágil. Está sofrendo muito. Está fraca, não se alimenta, não conversa. Parece até que está doente, emagreceu horrores nesses últimos dias, está completamente desnutrida.
- O mundo está acabando, não é hora de entrar em depressão! – xingou Leah, subindo as escadas – Lílian! Lílian!
Leah abriu a porta do quarto, e deu de cara com Lílian deitada na cama. Nem parecia que a tremenda batalha contra o demônio havia acontecido ali perto. Ela ainda estava de olhos fechados, dormindo. Leah, com raiva, pegou um dos potes de remédio da mesa de cabeceira e jogou no chão:
- Acorde, sua frouxa, isso não é hora de dormir, está me ouvindo? Joaquim precisa da sua ajuda, ele se feriu na batalha contra o último demônio! Aliás, não tem vergonha de ficar enfiada aí enquanto todos nós precisamos de vocês aqui fora?
Lílian abriu os olhos, escurecidos de fraqueza. Olhou Leah alguns instantes... E avançou nela.
- Não, Lílian! – exclamou o religioso.
- VOCÊ! – urrou Lílian, rouca, pressionando Leah contra a parede – O que você está fazendo aqui?! SAIA DAQUI IMEDIATAMENTE!
Leah olhou Lílian dos pés a cabeça: ela estava horrível, mesmo. Havia definhado de forma pavorosa. E todo aquele poder que ela tinha... havia quase se extinguido.
- A CULPA FOI SUA! – gritou, aos prantos, tremendo, empurrando Leah contra a parede – Seu demônio malditos, eles morreram por SUA CULPA, SUA CULPA! Se você não tivesse voltado, se você não tivesse reaparecido, se você não tivesse com eles, eles não teriam morrido, SUA DESGRAÇA!
Joaquim balançou a cabeça, com pena, mas sem coragem de tocar Lílian. Leah estreitou os olhos:
- ...Minha culpa? ...MINHA? ...É muito fácil jogar em cima de um fantasma do passado, de alguém que já morreu, a culpa pelas próprias falhas, não é?
Lílian vacilou. Leah a agarrou pelo pescoço e, com enorme facilidade, a ergueu no ar:
- NÃO COLOQUE EM MIM A CULPA QUE É SUA, LÍLIAN! Não jogue em cima dos outros a responsabilidade que VOCÊ abriu mão, não culpa os outros por alguma coisa que VOCÊ tinha como DEVER ter EVITADO!
- Leah, não faça ISS-! – Joaquim não terminou. Leah avançou e jogou Lílian contra uma enorme cristaleira do corredor dos quartos. A madeira e os vidros todos se quebraram. Lílian se contorceu de dor. Leah, com os dentes cerrados de fúria, continuou a esbravejar, olhando-a nos olhos:
- CHEGA! Eu não vou ser mais o bode expiatório de ninguém! DE NINGUÉM! É MUITO FÁCIL usar alguém como eu como o pobre bode expiatório para poder se livrar dos próprios pecados, não é? Afinal de contas, eu sou uma morta viva, eu já morri, não custa nada me oferecer em sacrifício de novo, não é? Mas escuta só, Lílian: esse mundo JÁ ERA, e eu estou pouco me fodendo pra ele! Eu não vou ser mais a marionete do governo mágico, Não! Não, agora eu vou agir como EU quero, junto com quem EU quero.
Lílian gemeu de dor, se contorcendo, seus braços e costas começaram a sangrar, feridos pelos cacos de vidros. Mas Leah a bateu de novo contra a cristaleira quebrada:
- E escuta aqui: se tem alguém culpada pela morte de Tiago e Harry, esse alguém é VOCÊ, ta ouvindo? VOCÊ! Você escolheu abandonar a vida e Auror Supremo pra virar essa patética dona de casa que virou, que não fazia nada além de limpar a bunda do filho e a cueca suja do marido. Só que você foi covarde demais. Quando você percebeu que a coisa estava saindo do controle, você tinha obrigação de ter tomado alguma atitude, mesmo que Tiago desse chilique! Se você não tivesse se tornado essa bunda mole, eu não teria que ter acompanhado eles, Tiago não teria tido um ataque histérico e não teria enfiado o carro debaixo daquele caminhão e virado carne moída junto do filho!
Leah puxou Lílian e a jogou de costas no chão, fazendo o tapete do quarto se manchar de sangue.
- Você, Lílian, foi covarde. Era obrigação sua como bruxa, como mulher e como mãe ter tomado atitude pra ao menos proteger a própria família! Você, Lílian, não serve pra mais merda nenhuma! Não serve pra ser bruxa, nem pra ser mãe, muito menos pra ser mulher. Você virou uma casca vazia e acabada!
Joaquim puxou Leah pelos braços:
- Leah, pare com isso! Vamos embora.
- Eu tenho vergonha do que você se tornou, sua inútil. – vociferou Leah, antes de dar as costas e sair.
Joaquim saiu arrastando Leah, e olhando Lílian, carregado de dor, de compaixão. Lílian, no chão, se contorcia de dor, chorando, e gemia, amaldiçoando Leah, mando-a embora dali.
Os dois entraram em casa, o Joaquim já correu na direção de Lupin e Sirius:
- Por favor, um de vocês, vá até a casa de Lílian! ...Ela precisa de alguém!
- ...O que houve? Foram atacados? – perguntou Sirius, assustado.
- Fomos. Mas está tudo bem. Mas é que...
- Lílian escutou o que precisava de mim, só isso. – resmungou Leah, sentando-se no sofá e arrancando as botas – Agora o quê, vão ficar com dó dela?
- Lílian não está bem... por favor, alguém vá lá vê-la... – implorou Joaquim.
- Eu vou. - disse Lupin, olhando para Leah, bravo – Volto rápido.
- Esperem aí, precisamos conversar. – suspirou Leah – É importante.
- Não vou deixar Lílian sozinha num momento como esse. – vociferou Lupin.
- Escuta aqui, se você não foi macho pra oferecer a piroca pra ela até hoje, não virou macho nesse minuto, senta aí e escuta.
Lupin avançou em Leah, mas Sirius o segurou.
- ...O Juízo Final começou. – comentou Leah, tranqüila, sem se importar com Lupin tentando avançar nela, ou Joaquim e Snape apreensivos com toda aquela briga na sala.
As palavras de Leah pareceram acalmar os ânimos. Lupin perdeu a vontade de brigar:
- Você diz, o Apocalipse?
- Isso mesmo. Se vocês querem escutar o que eu tenho que dizer, sentem aí, a hora é essa. Não sei quando as coisas podem piorar.
Todos se sentaram, e Leah contou tudo o que houve ao lutar contra o último demônio, bem como as sensações que teve nos últimos sete dias. O arcebispo Joaquim e Lupin também conversaram, falando o que sabiam sobre o Apocalipse, que haviam aprendido na Bíblia e em outros estudos.
- Talvez estejamos com uma espécie de abertura entre os mundos, então? – pensou Lupin, mordendo a ponta do dedo – Talvez demônios mais poderosos possam vir para cá, agora.
- Com certeza. Aliás, tudo o que conhecemos desse mundo de agora em diante poderá não fazer mais sentido. – avisou Leah – Vamos tomar muito cuidado.
Todos ficaram em silêncio. Sirius se levantou:
- Precisamos avisar Dumbledore. Quem vem comigo?
- Eu vou. – disse Lupin, coçando a cabeça – Ah, depois podemos passar... ahm... na casa de Lílian?
Sirius olhou Lupin longamente, e suspirou:
- Ah, ok, fazer o quê, né?
Sirius parou o carro na frente da mansão dos Potter, já no meio da noite. Lupin e Dumbledore desceram.
- Eu fico aqui, gente, não sou bom pra essas coisas. – suspirou Sirius, sentindo-se meio constrangido.
Lupin e Dumbledore foram até a porta da casa, que estava toda no escuro. Bateram na porta, tocaram a campainha, e, por fim, entraram, já que a porta sempre ficava aberta, naquele condomínio pacato.
- ...Lílian? Está em casa? Podemos entrar? – chamou Dumbledore, acendendo as luzes.
Mas nenhum som veio da casa. Lupin e Dumbledore subiram as escadas, acenderam as luzes, mas nada dela.
- ...Para onde ela foi? – perguntou Lupin, sentindo o coração apertar, procurando no fim do corredor.
Dumbledore acendeu a luz do quarto, onde ainda estavam os cacos de vidros e marcas de sangue de Lílian. Ele lançou o olhar para o lado, e caminhou até a porta do banheiro. Parecia já saber o que iria encontrar: Lílian estava deitada de lado no chão do banheiro; o azulejo branco e a louça da pia e da banheira estavam manchados de vermelho vivo, e ela tinha três grandes cortes feitos com uma afiada navalha: um em cada pulso, e o outro, no próprio pescoço.
N.A 1: Lílian morreu! Antes ela do que eu. Enfim, DoomsDay de volta! =D
N.A 2: Apocalipse no Apocalipse! E agora, o que será que pode acontecer? Leah está de volta, recalibrada... mas o que vão fazer sem Lílian? E, peraí, se no Apocalipse os mortos voltam á vida, se Lílian voltar como capeta, estaremos todos fodidos!
N.A 3: Perdi o domínio do meu site, o espadadosdeuses ponto com ponto br. Isso é um TREMENDO problema, não sei como vou recuperá-lo. Estava tão animada pra postar um site novo pra EdD Réquiem, e etc, etc, etc... -_-
N.A 4: Estou desempregada. =( Tentando ver um lado menos ruim, quero ver se agora consigo refazer um portfólio bom, com mais desenhos, e, quem sabe, poder voltar com mais tempo pra escrever fanfic. Apesar de que, sem emprego, a gente tem é que estudar pra concurso e procurar OUTRO emprego... U_u
N.A 5: Bom, até o próximo capítulo! E feliz semana santa, especialmente pra quem curtiu a semana santa da EdD Brasil! =D
