Ato VIII: Faça uma oração

Você me viu parado junto ao muro
Na esquina de uma rua principal
E as luzes piscam na sua janela
Sozinha não tem muita graça
Por isso você busca excitação

Não ore por mim agora
Reserve-a até a manhã seguinte
Não, não ore por mim agora
Reserve-a até a manhã seguinte

Sinta uma brisa lá no fundo
Lá dentro, procure por você
Dentro do poço
Se puder, vai ver o mundo em todo o seu fogo

Arrisque uma chance como todos os sonhadores
Não dá para descobrir outra maneira
Você não quer sonhar com nada
Apenas viver o dia

Não ore por mim agora
Reserve-a até a manhã seguinte
Não, não ore por mim agora
Reserve-a até a manhã seguinte

(Save a Prayer – Duran Duran)



A luz da lua banhava a cidade, e Leah olhava, pensativa, o céu, sentada nas caixas do porão, próxima da pequena janela empoeirada. Muitas coisas estavam em sua mentes, muitas emoções, muitas idéias, muitas imagens, muitas cenas, tudo lhe atropelando. Se pudesse dar uma descarga em seu cérebro ou se pudesse arrancá-lo fora e ter certeza de que assim nunca mais pensaria, ela o faria.

Lílian estava morta. Isso lhe apertava o coração com nunca, ao mesmo tempo em que não a fazia ser capaz de chorar. Na verdade, ela preferia ser sarcástica e pensar que Lupin estava chorando por ele e por ela.

Por outro lado, o mundo já não havia mais sentido; havia um enorme rombo negro no alto do céu, por onde os demônios surgiam. O Apocalipse havia começado, e os bruxos não paravam. Haviam enterrado Lílian ás pressas naquela tarde. Nem sabiam quando teriam tempo de dar um jeito nas coisas dela, da família.

O mundo não tinha mais sentido, e Lílian havia morrido. O que havia acontecido primeiro? Era o que pensava Leah.

Lílian, num impulso, se suicidou. Ela iria para o pior lugar do 'mundo espiritual', o Umbral. Aliás, de acordo com a regra do umbral, todo suicida primeiro tem sua alma atada ao corpo, sentindo toda a decomposição do corpo carnal, como se estivesse vivo, para só depois ir para seu sofrimento espiritual, no outro mundo. Mas... o tal buraco, que sensivelmente desequilibrou a energia do mundo real apareceu antes de Lílian se suicidar. Será que ela estaria mesmo presa ao corpo?

Leah, como "ex-morta", tinha seu conhecimento do lado de lá. E sabia o que aconteceria no Apocalipse, até mesmo pelas lendas da Bíblia: os mortos iriam se levantar. E, se o Apocalipse já começou... era questão de tempo Lílian voltar. Leah só tinha que arrumar um jeito de impedir que isso acontecesse.

Suspirou profundamente, e coçou o peito, entre as costelas. A cicatriz que tinha, onde sentia os fragmentos da Pedra Filosofal constantemente coçavam. Ela mordeu os lábios, coçando sem parar, pensativa, até que sentiu algo se despregar da pele. Se assustou, olhando o peito, com medo de "morrer" de novo, e percebeu que um dos fragmentos havia saído, e o corte imediatamente se fechado, atrás ele.

- Ah, merda, era só o que me faltava... – gemeu, com o mínimo caquinho na ponta do dedão, brilhando escarlate sob a luz da lua. Parou, pensativa. Não sentiu nada - ...Será que você estava... sobrando, então?

Ela parou, olhou bem para ele: tão pequeno, tão poderoso...

- ...Sobrando... Sobrando!

Ela saltou das caixas e correu para as escadarias.


Lá em cima, o clima não era dos melhores. Lupin, claro, era o pior. Dumbledore ainda estava lá com eles.

- ...Ela não podia ter feito isso. – choramingava Lupin, com uma caneca de chá nas mãos, fitando o chão, pálido - Não podia.

Dumbledore olhou para o lado junto de Sirius, assim que Leah abriu a porta do porão e saiu de lá, apressada. Ela chegou no meio da sala, e parou na frente deles. Lupin desviou o olhar: intimamente, queria culpar Leah pelo que acontecera, mas se esforçava para não fazê-lo.

- O que houve, Leah? – perguntou Dumbledore.

Leah ofegou, e olhou para ele, dizendo, sem constrangimento:

- ...Precisamos desenterrar Lílian.

Depois de um instante de silêncio, todos já olhavam para ela.

- ...Perdão? – perguntou Dumbledore.

- Eu posso trazer Lílian de volta. – disse Leah, convicta – Só preciso do corpo dela.

- Não vamos desenterrar ela para você tentar fazer a coitada virar um zumbi como você! – esbravejou Lupin.

- ...Mesmo porque... não daria certo. – comentou Snape, suave.

- ...Não quero que Lílian volte como zumbi. – disse, ríspida – Trazer ela de volta. Inteira. Com o coração batendo.

Todos se entreolharam. Leah pareceu cansar de esperar:

- Se vocês não vão... eu vou.


O cemitério estava coberto por uma fina neblina, sob a luz da lua. Leah caminhou apressada, após desmembrar o sexto demônio. Era um lugar onde muitos deles se sentiam á vontade, especialmente para devorar as almas e os corpos dos que ali repousavam. Ela chegou defronte o túmulo de Lílian, que era ao lado do de Thiago e Harry.

- ...Muito bem... – pensou, dobrando a manga do pesado sobretudo que usava e esticando a mão para o alto - ...Não deve ser tão difícil quebrar esse lugar...

Alguém a puxou bruscamente pelo braço, e ao olhar para trás, deu de cara com o semblante suave de Frank Longbotton.

- ...Não acho um bom programa para a madrugada, vir aqui exumar túmulos. – comentou, sorridente.

- ...Longbotton! – exclamou, engasgada – O que o senhor faz aqui?

- ...Segui a senhora. – sorriu – sua aura chama muitos demônios, estava fazendo uma ronda na região e vim atrás da maior energia que senti.

- Certo... olha, eu não tenho muito tempo... preciso tirar Lílian daí antes que algum demônio apareça e levar ela prum lugar seguro.

- ...Tirar... Lílian... – repetiu, pausadamente - ...Lílian está morta. Não tem lugar melhor para ela estar do que ao lado da família.

- SIM! Digo... Não! Não nessas circunstâncias. Olha... é sério: o mundo não está mais como antes, quem morrer desde que surgiu aquela fenda no céu... é como se não morresse, entende? Eles serão usados como soldados do exército das trevas no Juízo Final. ...Não posso deixar que isso aconteça com Lílian.

- ...E mudar o presunto de lugar resolve o problema? Ai, minha cacharrel nova... – gemeu Snape, reclamando dos galhos secos que puxavam fio de sua blusa de lã. Ele chegava acompanhado de Sirius e Dumbledore.

- ...Vocês vieram. – sussurrou Leah.

- ...Acreditam mesmo nela? – perguntou Longbotton, olhando Dumbledore.

- ...Na verdade, preferimos evitar que ela faça qualquer besteira maior. – sorriu, olhando-a por cima dos óculos – Se começarmos a perceber que sua idéia não é boa... pararemos você, Leah.

Leah suspirou, e sorriu:

- É o que eu sempre digo: Se é para fazer alguma coisa errada... ao menos faça a coisa errada da maneira certa.


Dumbledore abriu uma porta secreta em um beco da cidade, e todos desceram por uma longa escadaria circular. Ao chegarem ao fim dela, perceberam estar numa grande sala de azulejos brancos, como se fosse uma sala de cirurgia, com uma mesa de metal no centro e luzes brancas mágicas flutuando no teto.

- ...O senhor anda dissecando corpos ilegalmente, é? – perguntou Leah, etérea.

- ...Já usei essa sala como experimentos de poções, mas está muito diferente. – comentou Snape, olhando ao redor.

- Sim, ela muda conforme meu desejo e necessidade. – sorriu Dumbledore – E, Leah, não ando dissecando corpos, mas sempre que preciso fazer algo ilegal ou perigoso... recorro à esta sala.

- Perfeitamente. – riu Longbotton.

- Achei que viriam para cá, mesmo. – sibilou uma voz no canto da sala.

Todos olharam para trás, e viram Lupin, acompanhado do Arcebispo Joaquim, que sequer usava suas vestes tradicionais ou carregava seu cajado. Sirius e Snape acabavam de colocar o corpo de Lílian, envolto em um grande pano bege, sobre a mesa.

- Vocês tem idéia do que querem fazer? Das leis de Deus que irão romper fazendo isso? – gritou Lupin, protestando, com os olhos brilhando, o rosto vermelho, abrindo caminho entre os amigos, e chegando próximo do corpo de Lílian: descobriu-o. Ela usava, claro, a roupa que havia sido sepultada: a tradicional vestimenta branca de Auror Supremo. Seus olhos estavam escuros, e o enorme corte em seu pescoço estava coberto por um pano branco bordado de fio prateado, como se fosse apenas uma coleira, adornando-a. Lupin a olhou longamente, abaixando a cabeça – Ela já não sofreu o bastante?

- Lei de Deus por Lei de Deus, cês já romperam uma porrada delas me trazendo pra cá. – murmurou Leah.

- Não podemos correr o risco de ter Lílian do lado das trevas, Lupin. – disse Sirius, em tom baixo – Estamos apostando todas as nossas fichas nisso.

Joaquim se aproximou de Lílian, parecendo realmente triste de vê-la ali. Ele passou a mão em sua testa, carinhosamente. Tirou o pano que lhe cobria o ferimento do pescoço, e lhe tirou o pano do corpo, deixando à mostra seus braços esticados ao longo do corpo, cujos cortes no pulso também estavam tampados. Ele pareceu orar baixinho, e retirou os panos dos pulsos dela.

Era um corte tão profundo que a pele e a carne se abria, revelando os tendões, até quase o osso. Ela realmente queria fazer aquilo. O religioso continuou rezando baixinho, e passou as mãos sobre seus ferimentos. Eles magicamente se fecharam, deixando a pele dela como nova, apesar já da cor cadavérica. Ele juntou as mãos em oração e baixou a cabeça, rezando. Parou um instante e perguntou:

- Você... tará Lílian de volta, Leah?

Leah piscou, espantada. Sorriu, acenando que sim com a cabeça, e confirmou:

- Sim. Trago. Com certeza.

Ele rezou mais um pouco, fez o sinal da cruz em Lílian, e se ergueu, virando-se para Leah:

- Então vá com Deus. E retorne em segurança.

Lupin arregalou os olhos, gaguejando:

- Mas... mas... o senhor... não pode...

- Não minta para si mesmo, Lupin. – disse o padre, olhando-o – Você provavelmente é um dos que mais quer ver Lílian de volta. – e virou-se para Leah – Está pronta?

- Se estou. – sorriu, desafiadora.

Joaquim colocou a mão na testa de Leah e fez uma oração, como se a exorcizasse. Imediatamente uma ponte entre o céu e a terra, feito de luz, se formou, parecendo sugar Leah, e ela desapareceu.

Os bruxos se aproximaram, olhando o teto, onde Leah desaparecera sem deixar vestígios.

- ...Passagem direta para o lado de lá, Arcebispo? – perguntou Sirius, espantado.

- Bem... – suspirou, sorrindo, sem graça – Espero que sim.

- ESPERA QUE SIM!? – exclamou Snape – O senhor manda ela pro além vida sem saber se vai pro lugar certo?!

- ...Como vou saber? Nunca estive lá.

Dumbledore, em meio á tensão, gargalhou. Alguma coisa nele dizia: vai dar certo.


O local era um enorme descampado, a perder de vista. O chão era um misto de pedras, areia, de um tom escuro, como restos de uma queimada. Várias rochas marcavam as colinas da paisagem: era como essas imagens de planetas inabitados que vemos. O céu era negro, cheio de nuvens verdes e roxas, bem brilhantes, como numa aurora boreal. Não ventava, não havia uma brisa, um nada, apenas um cheiro forte de fumaça e carne queimada. E, no centro desse enorme lugar, havia uma gigantesca cratera, como se fosse de um vulcão. Dela saía uma fumaça espessa e cinza clara, que se dissolvia no céu, dando origem às nuvens iluminadas e coloridas.

Foi nesse lugar que Lílian acordou. Estava caída de bruços, em meio ás pedras e á areia. Acordou, zonza, sentindo a garganta e os punhos doerem. Sentia também o corpo todo doer, especialmente o peito. Era a mesma sensação que tinha antes de morrer, uma fraqueza absoluta. Colocou-se de joelhos, olhando para si mesma: estava usando a mesma roupa que havia morrido, e estava manchada de sangue, apesar de não ter mais os ferimentos – ela se tocou, tentando senti-los.

- ...Estou morta? – perguntou, se erguendo e olhando ao redor – Mas que lugar é esse?

Lílian começou a caminhar, sem saber para onde poderia ir. Viu-se presa entre paredões de rochas escuras, e teve de, com esforço, escalá-los. Ao chegar lá em cima, pôde olhar o horizonte. Viu a cratera central, e, na direção, dela, várias e intermináveis filas de vultos que pareciam pessoas, andando na direção daquele buraco. Seriam mesmo pessoas? Naquela distância era impossível adivinhar. Lílian desceu e correu. Demorou muito tempo até se aproximar de uma das filas. E, para seu espanto, sim, eram pessoas. Pessoas com a pele sem cor, com olheiras, cabelos secos, quase como cadáveres. Andavam a passos lentos na fila, na direção daquela cratera. Homens, mulheres, jovens, velhos, todos caminhavam naquela fila. Qual o destino deles? Porque estavam ali? O que haviam feito na vida para terem morrido e terem parado naquela enorme fila sem fim? Seria o purgatório?

Ela se aproximou da borda da cratera, e sentiu o corpo tremer: a energia que vinha lá debaixo era enorme e ameaçadora. O fundo era uma fina nuvem verde brilhante, de onde saía a fumaça. Os corpos caíam, despencavam até seu fundo, ora caindo direto, sumindo na luz verde, que parecia uma lava vulcânica de neon, ora batendo nas rochas da borda, para só então caírem na superfície verde. Para onde iriam, após caírem naquele lugar?

- ...Isso é horrível... – gemeu Lílian, sentindo o estômago e o peito se apertarem. De repente, uma criatura agarrou sua perna, fazendo-a gritar de susto. Não era um cadáver; era como se fosse um enorme cachorro, já morto, em putrefação, que surgia da cratera, e tinha mãos no lugar das patas. Tinha também uma língua enorme e cheia de verrugas, que ficava caída para fora da boca, pingando uma baba amarelada. Seus olhos amarelos e brilhavam lhe fixavam. Lílian deu alguns passos para trás, e o cachorro saiu da cratera, andando curvado na sua direção - ...Porque eu tenho certeza de que encontrar você não é uma boa coisa, heim, bichinho...?

Com um grande estrondo, outra criatura pousou atrás de Lílian, ela se virou e viu um enorme meio homem, meio demônio, com uma grande lança negra nas mãos. Tinha enormes asas de morcego, orelhas pontudas, e usava uma roupa cinza, imunda, rasgada, e andava curvado.

- ...Porque está fora da fila...? – perguntou, lhe olhando estreitamente, com os olhos vermelhos brilhando. Tinha o focinho como o de um morcego, e farejou Lílian – Ora... você não cheira como eles.

- ...Eu deveria...? – perguntou, óbvia, rindo nervoso.

O demônio gargalhou alto, guinchando, ardendo os ouvidos de Lílian.

- Se não está na fila nem está cheirando como eles... você tem algo de especial. – sorriu.

O cachorro avançou. Lílian virou-se, esticando a palma da mão, e conjurou um feitiço. Era incrível: ali parecia que seus poderes estavam infinitamente maiores. O cachorro voou metros adiante, despedaçando-se, virando poeira negra. Ela novamente girou o corpo, quando o demônio também atacou, tentando lhe ficar a lança nas costas. Ela agarrou a lança cós as duas mãos e, com um só giro, jogou a criatura longe. A Lana era mágica, e deu uma tremenda descarga elétrica em Lílian, que gemeu de dor e a largou, caindo de costas. O demônio, por sua vez, também se levantou, rindo:

- Ora... interessante esse filé que apareceu para mim. – sorriu, passando a língua nos lábios.

Lílian apertou o braço, sentindo ele formigar de dor. Balançou a cabeça, olhando a criatura, que pegava sua lança de volta e vinha caminhando em sua direção:

- Vamos lá... você será uma serva muito mais útil para nós do que todas essas almas inúteis da fila... – ele abriu suas enormes asas de morcego – Terá tudo o que quiser: poder, riqueza, comida, sexo, tudo o que quiser nosso mestre poderá lhe...

Mas ele não terminou, porque as espadas de Leah desceram velozes e certeiras, lhe cortando as asas, rente ás costas. Ela, tranquilamente, apoiou-se em uma das espadas, enquanto pousou outra no ombro, comentando, olhando as asas do demônio morcego, inertes no chão:

- ...Ouvi dizer que couro de gato é excelente pra fazer tamborim. – Ela pensou um instante e concluiu - Peraí, morcegos não são parentes de gato. Poxa, nem pra isso tu vai servir, heim, criatura?

O demônio se virou, feroz.

- Ela não tá na sua fila porque nem aqui ela deveria estar. – disse Leah, calma – Portanto, vou levá-la de volta.

A criatura avançou com a lança nas mãos, e Leah ergueu as espadas. Mas ele era muito forte. Ela bateu de costas no chão, e abriu caminho entre a areia e as pedras até a borda da cratera.

- ...Opa. – gemeu Leah, sentindo o longo cabelo negro balançar no vazio, tendo, como vista, apenas o fundo verde brilhante da cratera – Acho que subestimei você.

Ela entrelaçou suas pernas na do demônio, e prendeu-o junto ao corpo.

- ...Me solte, humana maldita. – gemeu o demônio.

- Não. Se você vai me jogar lá embaixo, vai junto comigo. – sorriu Leah, levemente nervosa.

O demônio urrou, e pressionou Leah contra o chão, que rachou e sedeu. Os dois deslizaram pela encosta, mas Leah conseguiu se livrar do enorme sobretudo que usava, fazendo o demônio despencar para o fundo da cratera, enquanto ela agarrava-se a uma das rochas da borda, ficando pendurada. Era incrivelmente quente, aquele lugar. Era como se fosse mesmo um vulcão.

- Por pouco, heim? – suspirou, aliviada. Mas por um só instante, já que ela percebeu que não tinha como subir: não tinha lugar para segurar e chegar até a borda – Ah, droga...

Foi quando Lílian apareceu na borda da cratera, olhando-a longamente. Leah não se sentiu bem ao vê-la lá, de pé.

- ...Há quanto tempo, Liloca... – sorriu, meio torto – Será que dá pra me dar uma mãozinha...?

Lílian a olhou, quase escorregando, e deu as costas. Caminhou para longe daquela cratera, sentindo o peito doer. Como é que ela foi aparecer ali? Aliás, depois de tudo, como é que ela tinha coragem de aparecer? Seria melhor que despencasse junto do outro demônio, mesmo. Mas, se Leah caísse, para onde Lílian iria? Se ela tinha ido procurá-la, não era por um motivo á toa. A bruxa parou, com as mãos fechadas, olhando o chão. Cerrou os dentes com força, e apertou os olhos, respirando fundo. E voltou até a borda do buraco. Agarrou o punho de Leah, E a ergueu, até que ela conseguisse sair do perigo.

- ...Achei que fosse me deixar cair. De verdade. – suspirou Leah, aliviada, sentada no chão.

- É... eu acho que eu devia ter deixado. – murmurou, olhando o chão. Ela suspirou, e olhou Leah – Onde eu vim parar? Isso não se parece com o purgatório.

- Na verdade... não é. As almas daqueles que viveram uma vida sem sentido vem para cá, e são condenados a caírem nesse vulcão de sofrimento. Mas ao que parece, existem alguns demônios usando essas almas para alimentar o exército do apocalipse.

- ...Quer dizer o quê? Que minha vida foi sem sentido? – perguntou, num misto de ofensa e tristeza.

- Não. Não necessariamente... – comentou Leah, coçando a cabeça – Você se matou, então deveria ter ido para o Umbral, como eu. Mas veio para cá. Talvez os céus tenham entendido que você não cumpriu sua missão, por isso trouxe você para cá. O mundo real está no meio do juízo Final... Há uma porta aberta entre os mundos dos Vivos e dos Mortos. Você morreu depois disso, por isso talvez tenham entendido que sua missão lá estava inacabada.

- Não tenho mais nada o que fazer lá. – disse, ríspida.

- Precisamos de você, Lílian. De verdade. Eu não viria aqui buscar você à toa.

Lílian a olhou, chocada. Sentiu o peito pular de pavor.

- Veio... me buscar? Quer dizer... me levar de volta pro mundo dos vivos?

- Se você não voltar comigo... volta como serva do exército das trevas. Precisamos de você, Lílian, por favor, acredite em mim. – Leah respirou fundo – Estamos todos te esperando, Lílian. Você não vai voltar como um zumbi horrível como eu, prometo.

Lílian escalou uma alta rocha próxima à cratera, e, lá de cima, olhou ao redor, pensativa. Leah subiu atrás dela.

- ...Eles estão aqui? – perguntou, olhando Leah – Não... os sinto.

- Não os sente porque não estão aqui. – comentou, em voz baixa – Ainda que tenham morrido em um acidente, não viveram uma vida vazia. Harry, principalmente, nem deve ter sentido a morte, deve agora ser uma criança correndo em algum campo do céu, junto com os outros pivetinhos de luz.

Lílian sentiu a coluna se arrepiar: vários cães surgiam do chão, começando a andar na direção da rocha onde as duas estavam. E, do céu, entre as nuvens, outras criaturas com lanças pareciam vir voando em sua direção. Mas Leah permanecia de cabeça baixa, lhe olhando. Ela respirou fundo. E virou-se de costas para a paisagem, agarrando-se á gola da blusa de Leah:

- ...Tem certeza que pode nos tirar daqui?

- ...Eu acho que Tiago deve estar dando um pouco mais de trabalho para os guias espirituais – comentou, ignorando o nervosismo de Lílian – Mas... ele vai se purificar e ficará em paz, em breve. Ele era gente muito boa.

- Certo, nos tire daqui! – pediu, exasperada. Os cachorros começavam a farejar a base da rocha, e alguns a escalar.

- Então se prepare para a viagem mais louca da sua vida. – sorriu Leah, insegura – E me perdoe pelo mau jeito.

Leah puxou Lílian pela nuca, colando sua boca na dela. Lílian prendeu a respiração, e sentiu o chão sumir sob seus pés, e uma intensa luz cegar-lhe os olhos. Era como se inúmeras dimensões e mundos passassem por ela num instante. Devagar, sentiu que ia perdendo as forças, e suas mãos soltaram a gola da roupa de Leah, e lentamente perdeu os sentidos. Mas, antes que apagasse de vez, sentiu uma aguda dor quando a língua de Leah tocou a sua, como se a cortasse. E não sentiu mais nada.


Estava um absoluto silêncio na sala, e os bruxos apenas olhavam ao redor. De repente, voltaram o olhar para Lílian.

- ...Sentiram isso? – perguntou Sirius, meio assustado.

Dumbledore se aproximou, olhando o teto. Depois, olhou ao redor do corpo de Lílian: inúmeras estrelas de luz branca surgiam, flutuando mansamente ao redor de sua pele. O arcebispo Joaquim também se aproximou.

- ...Elas estão voltando. SE AFASTEM! – gritou.

Os bruxos se afastaram. As estrelas inofensivas de Lílian pareceram estourar, e uma coluna de luz cobriu seu corpo, vindo do teto. Num canto da sala, outro jato de luz desceu, estourando o canto da parede. Nele, o corpo de Leah bateu, com força, soltando fumaça. Snape estava próximo e saltou, de susto. Ela imediatamente começou a gemer, como se tivesse sido escaldada, a ofegar sem parar. Suas festas saíam fumaça e ela as arrancou. Snape a olhava, chocado.

- Leah! Está bem? – perguntou Dumbledore, preocupado.

Foi quando o corpo de Lílian se debateu, e eles imediatamente se viraram para ela. Lílian tossiu, como se houvesse levado uma descarga elétrica e se desengasgado. Ergueu o corpo, tossindo sem parar. Também se engasgava, expelindo um sangue escuro, vomitando tudo, soltando aquele sangue quase coagulado pela boca e pelo nariz. Provavelmente ele estava parado em suas vias respiratórias, por causa do corte na garganta.

- Lílian! Deus seja louvado! – exclamou Joaquim, que pôs as mãos em suas costas, fazendo ela se curvar, e bateu a palma da mão com força em suas costas, ajudando-a a se desengasgar.

Sirius e Lupin não tinham pernas para sair do lugar: olhavam atônitos. Lílian apoiou-se sobre os braços, sem parar de ter ânsia. Abriu os olhos, sentindo a testa se encher de suor, e o corpo se arrepiar de calafrios. O sangue que ela vomitou agora era vermelho, quente, e ele ainda escorria de sua boca.

Snape e Dumbledore olharam Leah, no incrível buraco que abrira na parede. Ela batia o queixo de frio, apesar do lugar onde ela estar soltar fumaça, e suas roupas estarem chamuscadas de calor. Ela batia o queixo de frio e se contorceu de dor, colocando a mão no peito, respirando profundamente. Ela ergueu o olhar para os bruxos, vendo-os de forma meio desfocada, porque estava meio zonza:

- ..Respirando... – murmurou, sem conseguir controlar o tom de voz, como se não se lembrasse de como era falar – Eu estou... respirando.

Lílian sentiu alguma coisa machucar agudamente sua língua, e enfiou a mão na boca, entre o sangue vermelho que lhe sujava toda a boca e o queixo. Fez uma careta de dor e puxou alguma coisa da língua, que veio suja de saliva e sangue. Ela baixou a cabeça, cuspindo mais sangue, e olhou o que havia nas mãos: o pequeno caco da Pedra Filosofal. Ela olhou para o lado, vendo os amigos, que ainda estavam extremamente chocados de ver tudo aquilo acontecer.

Lupin avançou em Lílian, entre Dumbledore e Joaquim, e a abraçou com força, soluçando:

- VIVA! ...Você está viva, Lílian...! ...É você mesmo! ...Não acredito!

Snape olhava Lupin, agarrado á Lílian, enquanto Joaquim e Dumbledore tentavam fazê-lo desgrudar-se dela. Foi quando Leah agarrou a barra da calça de Snape:

- ...Snape... aquela sua... experiência macabra... pra me transformar num super zumbi... manja? – gemeu, com voz fina, ofegando.

- ...Sim. Que tem? – perguntou, com as sobrancelhas juntas.

- Então... – gemeu, segurando o peito com força - ...Agora... ela tá me matando.

Snape sentiu um assombro de pavor: alguma coisa tinha dado errado na tal 'viagem' de Leah. Ela também havia voltado com corpo humano vivo, e ao retornar para o corpo modificado de 'zumbi'... nada mais natural que haver uma tremenda rejeição.

- ...Precisamos levar as duas pro hospital, AGORA! – exclamou Snape – O corpo de Leah também voltou à vida, e não vai resistir se não fizermos nada para voltar ao molde de antes com as modificações das nossas experiências!

- Essa não. – gemeu Dumbledore – Longbotton, nos ajude, por favor.

- Sim, senhor. – concordou o auror, prontamente.

E, assim, todos saíram de lá, levando as duas bruxas para o lugar onde pudessem ter o melhor atendimento – e o mais rápido possível.


N.A 1: Sei que demorei e não tenho desculpa. Nem revisei pra psotar, deve estar cheio de erros. Podem me matar, me xingar, me amaldiçoar. Eu mereço. u.u

N.A 2: Feliz dia das Mães pra Leah e pra Lílian, as principais mãezonas da EdD. Na Dooms, só a Lílian, né, ex-mãe. =P Na EdD Réquiem, o time aumenta com a Bellatrix. ;-)

N.A 3: Se serve de consolo, não vou demorar tanto pra postar o próximo capítulo, hehehehe. AH! E agora? Salvaram Lílian, mas Leah corre sérios riscos: de que adianta ter Lílian de volta se vão perder a Leah super poderosa? Será que o Snape vai dar um jeito de voltar Leah a ser zumbi fodão? E o Lupin? Reclamou, reclamou... mas tem seu amor de volta. X)