Ato VIII: Jurei que seria boa
Eu jurei que seria boa, mesmo se não fizesse nada.
Eu jurei que seria boa, mesmo se tivesse os polegares apontando para baixo.
Eu jurei que seria boa, se ficasse (e continuasse) doente.
Eu jurei que seria boa, mesmo se engordasse 5 quilos.
Eu jurei que seria ótima, mesmo se fosse á falência.
Eu jurei que seria boa, mesmo se perdesse meus cabelos e minha juventude.
Eu jurei que seria formidável, mesmo se não fosse mais rainha.
Eu jurei que seria maravilhosa, mesmo se não fosse sabe-tudo.
Eu jurei que seria amada, mesmo quando enganasse a mim mesma.
Eu jurei que seria boa, mesmo quando estivesse subjugada.
Eu jurei que seria dócil, mesmo quando estivesse enfurecida.
Eu jurei que seria boa, mesmo se estivesse refém.
Eu jurei que seria boa, mesmo se perdesse a sanidade.
Eu jurei que seria boa... com ou sem você.
(Alanis Morissette - That I Would Be Good [tradução adaptada])
Dumbledore, Snape e Longbotton conversavam recostados na parede de um corredor do Hospital bruxo, num local afastado dos setores mais movimentados. Snape cruzou os braços, suspirando:
- Ela continua com a temperatura oscilando demais, cada hora tem uma coisa, ou hiper, ou hipotermia. Uma hora a febre está acima dos 41 graus, outra hora a temperatura baixa pra menos de 34. Se continuar assim...
- Não será a Pedra Filosofal? Se ela está viva, Severo... – perguntou Longbotton, em tom de voz baixo.
- Eu pensei nisso, mas acho que a pedra está é ajudando a manter ela viva. – disse, coçando a cabeça – uma coisa é o corpo da Lílian voltar à vida, que estava a menos de 12 horas parado, morto, outra coisa é o corpo da Leah, que ficou anos naquela poção maluca, e depois passou por tantas coisas nas mãos da gente.
Dumbledore suspirou profundamente e se sentou num banco de madeira do escuro corredor, e pôs as mãos entre a cabeça, parecendo derrotado.
- Eu matei Leah, eu a trouxe de volta, eu a enviei para buscar Lílian. Se eu não tivesse permitido nada disso...
- O senhor nos ensina tanta coisa, não pode permitir-se achar um derrotado. – disse Longbotton, firme – É o melhor bruxo desse mundo, professor, nós lhe respeitamos profundamente, e nos dói vê-lo questionar suas próprias decisões.
O bruxo olhou o auror, e sorriu, dolorosamente:
- ...Obrigada, Longbotton. É um bruxo muito fiel.
- Leah xingaria muito o senhor se escutasse dizendo essas asneiras, com o perdão da liberdade. – comentou Snape, olhando a fresta da porta do quarto onde estava Leah, sedada, de cama.
Nisso o olhar dos bruxos voltou-se para o lado do corredor, onde uma bruxa, com aparência um pouco pálida e cansada, vinha caminhando acompanhada de Lupin e Sirius.
- ...Já recebeu alta, Lílian? – sorriu Dumbledore, se erguendo – desculpe por não estar lá.
- Não se incomode. – disse, em voz baixa, olhando-o fixamente, mas numa expressão indecifrável – Lupin e Sirius vão me levar pra casa.
- Ela... – começou Lupin, meio sem jeito – Não aceitou nosso convite. Disse que prefere voltar para casa.
- Perfeitamente. – respondeu Dumbledore, tranqüilo – Fique onde achar que será melhor. Estaremos sempre prontos, para o que você precisar.
- Obrigada.
Lílian passou por eles, e seguiu seu caminho, sem sequer olhar a porta do quarto ao lado, e sumiu da vista dos bruxos. Um incômodo silêncio cheio de dúvidas e incertezas tomou conta do lugar. Até Snape comentar:
- É... ela emagreceu, vai ter que trocar aquele quarda roupa de dona de casa pobre.
Dumbledore riu alto, enquanto Longbotton segurou o riso, balançando a cabeça.
- Ah, Severo... só você, mesmo. – comentou Dumbledore, balançando a cabeça também, e entrando no quarto com os dois bruxos.
Leah continuava deitada, sedada, mas já estava acordando. Olhou os bruxos, sonolenta:
- ...Notícias da Lílian?
- Você tem um belo sexto sentido. – sorriu Dumbledore – Ela recebeu alta agora há pouco, já está a caminho de casa. E você, como se sente?
- Com frio. – reclamou, apesar das cobertas – Não acho que foi boa idéia minha viagem ao outro mundo. Lílian está de volta, mas estou fora da ativa.
- Não reclame. – murmurou Snape – Estamos tentando descobrir uma forma de te equilibrar, acho que mais uns dias e o medicamento certo conseguimos. Isso é porque seu organismo ainda não voltou completamente ao normal.
Longbotton pegou o jarro de água que Leah tinha ao lado da cama, que já estava vazio:
- Você tem bebido muita água, isso é bom. Também tem se alimentado bem, é melhor ainda. Mas como tem se saído nas outras funções?
- Hoje de manhã consegui tomar banho sozinha, não senti dores nem taquicardia, nem falta de ar. – comentou – E meu intestino já voltou a funcionar perfeitamente. Também faço xixi numa boa.
- Ah, isso é ótimo. – disse Snape, pensativo – Significa que o seu aparelho respiratório, circulatório, digestivo e excretor está, então, normal. Isso é o básico da sobrevivência.
- ...Enchi o balde. Cagar é uma beleza.
- E está voltando a ser desagradável, você está melhorando muito mais rápido do que estávamos comentando lá fora. – murmurou Snape, ácido – Ontem estava muito pior.
- Você só sairá daqui quando tiver condições. – disse Dumbledore – Enquanto isso, nos viramos lá fora.
- ...E se Lílian não quiser nos ajudar? – perguntou Leah.
- Ela vai ajudar. Na hora dela, que ela quiser, mas vai, sim. Tenho certeza.
Lupin parou o carro na frente da casa de Lílian. Ela respirou fundo, olhando pelo vidro do carro. Era o meio da manhã, mas o dia estava nublado. Ela olhou longamente a casa, toda fechada.
- ...Tem certeza, Lílian? – perguntou Lupin, suave – Nossa casa é a sua casa. Ficaríamos muito felizes se você fosse morar com a gente.
- Eu tenho, Lupin. Obrigada. – agradeceu – Mas eu fico por aqui, mesmo.
- Olha, se for por causa da –
- Eu ainda TENHO casa, Lupin. – cortou Lílian, mantendo o tom de voz suave – Não vou abandonar a minha casa por causa de tudo o que aconteceu. Esse é o meu lugar, é aqui que eu fico. Eu não tenho motivo nenhum para poder sair daqui. ...Obrigada pela gentileza de cuidar de mim, e de me trazer até aqui.
- ...Ok. Desculpe se fui rude. Se precisar... conte com a gente. – sussurrou, meio arrependido.
Lílian desceu do carro, e entrou em casa. Novamente fechou a porta atrás de si, e olhou ao redor, a casa escura e silenciosa. Dessa vez, fechou os olhos e respirou fundo, o mais profundo que conseguiu respirar. Caminhou até a cozinha, e percebeu que tudo estava intacto: a pouca comida que havia comido nos últimos dias antes do suicídio estava sobre a pia, farelos de pão sobre a mesa, o lixo cheio. Até começava a cheirar mal. Ela balançou a cabeça, como se tentasse espantar algum pensamento, e foi até a geladeira: abriu, e viu que estava quase vazia. O leite e o queijo que tinha já estava azedo. Haviam desligado a energia elétrica da casa.
Ela foi até abaixo da escada que ia para o segundo andar, e abriu a portinha da caixa de luz, e, de fato, alguém havia desligado todas as chaves. Uma por uma, ela ia subindo as chaves, escutando o barulho delas sendo ligadas. Algumas luzes que estavam acesas novamente se acenderam, e a geladeira fez barulho.
O único lugar limpo da casa era seu quarto e seu banheiro, nos lugares onde ela havia deixado aquele tenebroso rastro de sangue. Mas a cama ainda estava desarrumada. Ela se sentou, virada para a varanda, e olhou entre as cortinas, vendo o sol iluminar o chão de madeira, onde tinha tirado o tapete – provavelmente porque estava manchado de sangue. Olhou para a mesinha de cabeceira, e puxou um porta retratos, que tinha ela e Tiago, no dia do casamento. Olhou longamente o retrato – onde ela repetidamente o puxava para apertar o rosto dele contra o seu – e perguntou, em voz alta:
- ...Onde será que você está agora, heim, Tiago?
O barulho de uma prateleira sendo derrubada chamou a atenção de Lílian, que largou a foto na cama e se pôs de pé. Ela desceu, esgueirando-se pelas escadas, com a varinha – re-entregue por Dumbledore no hospital – em punho. Foi na direção do fundo da casa, de onde viera o barulho, e espiou pela porta que estava aberta: um demônio estava no fundo da garagem, num quarto amplo onde Tiago fazia seus estudos. O monstro fuçava em tudo. E as coisas de Tiago pareciam exalar uma nuvem escura, que o demônio respirava profundamente, como se estivesse alimentando-se dela.
- Mas o que você está fazendo, criatura? – perguntou Lílian, furiosa, avançando.
O demônio, que tinha um focinho comprido como de um porco, a olhou, e guinchou, igual mesmo a um porco, e saltou sobre ela, abrindo asas que pareciam ser de um inseto.
- Expeliarmus! – exclamou Lílian, girando e apontando a varinha.
Nada aconteceu. O demônio bateu os pés no peito de Lílian e uma explosão vermelha a mandou longe: ela quebrou a parede de madeira da garagem, e voou no meio do jardim, entre as folhas dos pinheiros, até cair dolorosamente na grama.
- Péssima hora pra descobrir que estou sem meus poderes. – gemeu, dolorida – Ao menos... se eu fosse trouxa, já teria morrido.
O demônio veio voando do buraco que Lílian abriu ao ser lançada, mas no meio do caminho foi alvejado por uma série de feitiços, que o fez bater contra o tronco de uma árvore. Lupin ajudou Lílian a se levantar, e manteve a varinha apontada para ele:
- ...O Arcebispo Joaquim já deve estar chegando, recebi o chamado dele agora. Há uma série desses demônios aqui. – disse.
- ...Estou sem meus poderes. – murmurou, preocupada.
- Não está não, só está muito cansada, esgotada para usá-los. – Lupin guardou a varinha, e sacou a espada – Muito bem, vamos terminar com você agora, demônio.
O demônio se levantou, e voou na direção de Lupin, que ficou na frente de Lílian.
- Não se segure em mim! – gritou, olhando para trás – Quando ele bater em mim, salte para o lado!
O monstro bateu de frente contra Lupin, e o arrastou para o alto, voando. Já lá em cima, Lupin o segurava com a mão esquerda, e, na direita, tinha a espada. Girou o punho, fez a espada brilhar, branca, e com um só movimento cortou as asas do demônio, que urrou e despencou em parafuso. Lupin saltou para os galhos de uma árvore, e desceu por eles, trazendo muitas folhas e galhos junto, enquanto o demônio batia dolorosamente no chão.
- Lupin! Se aproxime!
Lupin olhou para o lado e viu Joaquim, andando até Lílian. Ele correu até o arcebispo, que retirou do bolso um relógio de ouro, e o ergueu com magia até o alto de suas cabeças, talvez a uns três metros do chão.
- ...É o relógio de Tiago. – disse Lílian, reconhecendo o objeto.
- Sim. É. – confirmou Joaquim – O relógio que ele usava no dia do acidente.
Imediatamente, do teto das casas, e até mesmo da casa de Lílian, vários outros dem6onios apareceram, indo na direção do relógio, como se fosse uma isca.
- ...Preparem-se. – disse o arcebispo, respirando fundo.
O bruxo cravou seu cajado no chão, o ergueu as Moas para o céu:
- Que a Providência Divina venha Purificar os Pecados de Todos os Demônios da Terra!
Imediatamente a energia do arcebispo explodiu, tomando coonta da área, e inúmeras colunas de luz branca vieram do céu, atingindo cada demônio, desintegrando-o completamente. Lupin e Lílian ficaram alguns instantes um pouco cegos pela claridade, enquanto Joaquim terminou o feitiço, parecendo cansado.
- ...O senhor não deveria usar esse tipo de magia tantas vezes, é perigoso. – disse Lupin, amparando o amigo.
Lílian esticou as mãos, e pegou o relógio de Tiago, agora completamente fosco, queimado.
- O que... o que está acontecendo, senhor Joaquim?
- Eu ficaria contente se deixasse o "senhor" de lado, Lílian. – sorriu o arcebispo – Infelizmente, estes pertences de Tiago... estão carregados de energia ruim.
- ...Como?
- Os demônios que estão vindo para a Terra se alimentam de qualquer energia ruim. Tiago se foi, sua alma será salva, mas o que ele deixou, muitas vezes não tinha uma energia boa. Tiago era um homem bom, Lílian, mas a forma que ele agia muitas vezes não era. – Joaquim suspirou – No fundo, ele guardava um certo rancor, uma certa mágoa de não ter sido um auror supremo, um bruxo espadachim com vocês, com todos os seus amigos. Ainda que hoje ele tivesse um bom emprego, fosse realizado, ele ainda tinha essa mágoa no coração, e ele nunca a esqueceu.
- ...Ele guardou esse rancor tanto a ponto de contaminar tudo que era dele? – perguntou Lílian, lamentando.
- Temo que sim. Qualquer vestígio de energia ruim pode atrair demônio para esse mundo. Eu sei o quanto você amava Tiago, mas... tenha cuidado com o que as lembranças dele podem trazer. Eu não cheguei a comentar diretamente com Dumbledore, mas... acredito que a dificuldade que Leah tem passado no hospital também possa ser influ6encia do rancor de Potter.
- Não é possível! – exclamou Lílian, amargurada – Se fosse assim, eu nem mesmo deveria ter...
- Não estou julgando ninguém, eu sei que Tiago era bom, e sei que ele se salvará. Mas o rastro que ele deixou nesse mundo não foi bom. Uma coisa boa, Lílian, é passada adiante para três pessoas. Mas uma coisa ruim, é passada adiante para treze delas.
Lílian parou, olhando Joaquim. Respirou profundamente, baixando a cabeça, olhando o relógio de Tiago. Será que a raiva e a mágoa dele ficaram mesmo impregnadas no mundo real? E agora estava se descolando naquela forma de fumaça escura, sendo alimento dos demônios?
- Por favor, descanse, e volte para nos ajudar. Precisamos mais do que nunca da suavidade da sua pureza, para ajudar a salvar esse mundo. O apocalipse já começou. Por isso conseguimos lhe trazer de volta.
- ...Arcebispo! – exclamou Lupin, aparando Joaquim, que fraquejava e quase desmaiava – O senhor esgotou suas forças nesses dias. Tem que tomar cuidado.
- ...É, eu também preciso descansar. – sorriu, sem graça – Antes de tudo, sou humano. Como todos os outros já lhe disseram, eu repito: estamos aqui para o que precisar, Lílian. Fique com Deus.
Lupin olhou Lílian:
- ...Vou levá-lo para casa. Quer que eu volte?
- Não, não precisa. – disse Lílian, firme.
Lílian voltou para casa, e olhou as coisas de Tiago na garagem. De fato, desde a morte do marido e do filho, ela não havia tocado em nada deles. Tudo havia ficado ali, inerte, como haviam deixado. Como se ela tivesse congelado para sempre o momento em que eles foram embora. Na verdade, ela pensava mesmo que a vida tinha parado no momento em que eles tinham morrido no acidente. Mas... não parou. Ela pôs a mão no peito, e sentiu o coração batendo, normalmente. Parecia covardia ela querer parar a vida dela após a morte deles, sendo que tinha tantas lembranças boas deles.
Quando Dumbledore chegou, de noite, viu a casa dos Potter toda iluminada, com as janelas e portas abertas, e muito lixo para fora. Ele olhou para Longbotton, que lhe acompanhava, e entraram na casa.
- ...Lílian? – chamou Dumbledore.
Demorou um pouco, mas Lílian apareceu, vindo dos fundos da casa, com um lenço amarrado na cabeça e a roupa imunda. Parecia muito cansada, e suava.
- ...Boa noite. – cumprimentou, meio sem jeito de ver os dois aurores ali, com ela naquele estado.
- ...Que... revolução é essa aqui? – perguntou, espantado.
- Isso não é hora de fazer faxina. – riu Longbotton – E muito menos tarefa de alguém que deveria estar descansando.
- Eu... alguns demônios estavam rondando aqui. – disse, de cabeça baixa – Toda aquela energia ruim desde a tragédia que levou Tiago e Harry á morte... servia de alimento para eles.
- Soubemos disso. Por isso viemos vê-la. – sorriu Dumbledore, consolador.
- ...Não posso permitir que essas criaturas se alimentem do que, um dia, foi toa precioso para mim. – disse, convicta – Por isso limpei toda a casa. Todas as lembranças deles, tudo o que havia de parado, de guardado na casa, eu retirei, separei, queimei, joguei no lixo, ou deixei separado para levar para algum lugar, um orfanato, um asilo, qualquer lugar. Mas, aqui, não pode ficar. A energia tem que circular, ou ela se tornará pesada e escura. Não quero isso.
Os dois bruxos se olharam, e olharam Lílian.
- Lílian... – sorriu Dumbledore, coçando a cabeça – Às vezes... você simplesmente me deixa sem palavras.
Lílian riu, sem graça:
- Eu já estava terminando. Meus poderes estão voltando lentamente. Depois de terminar de empilhar umas caixas na garagem, eu vou tomar um bom banho, comer alguma coisa e dormir. Preciso descansar. Não sei quando vou poder voltar a ajudar os senhores, professor... mas eu gostaria de ajudar.
- Será muitíssimo bem vinda. – sorriu largamente, debaixo dos óculos – E eu e Longbotton oferecemos não só a ajuda para terminar... como também um bom jantar. O que acha?
- Ah, não, não, imagina! Não precisa!
- Fazemos questão. É falta de educação recusar presentes de idosos.
- Idoso? Eu? – riu Longbotton – Estou na flor da idade, professor.
No dia seguinte, Leah estava sentada na beira da cama, com Snape ao seu lado.
- Fala sério, ter que tomar dois remédios, um de manhã e outro á noite? – reclamou, olhando um potinho que Snape lhe dera – Saudades de ser zumbi.
- Não reclame, isso controlará sua temperatura corpórea. Em alguns dias talvez vocês já não precise tomar mais. – disse Snape, bravo.
Ela suspirou profundamente, e se levantou, indo para o banheiro:
- Certo. Agora vamos embora logo, quero saber em que grau estão meus poderes.
Já fora do hospital, Snape e Leah foram para um local deserto, que parecia um antigo depósito de lixo, um ferro velho. Não demorou para Dumbledore chegar, também.
- Como estamos indo? - perguntou.
- A notícia ruim... – disse Snape – É que, como suspeitávamos, Leah não é mais aquele zumbi super poderoso. Não tem superforça, nem é tão dura nas pancadas. Mas... a notícia boa é que ela continua a velha Leah de antes. E com uma pequena vantagem de ter a Pedra Filosofal no peito.
- E o que isso significa? – perguntou de novo, parando ao lado de Leah, que ofegava, com as mãos nos joelhos, de tanto exercício.
Snape ergueu a espada, e rasgou o braço de Leah. Ela saltou, gritando de dor, enquanto o sangue vermelho imediatamente saía do ferimento. Mas, em segundos, seu braço estava apenas sujo de sangue. Snape pegou um pano que carregava na cintura – já bem sujo de sangue – e passou no braço de Leah, tirando o sangue, mostrando que já estava intacto.
- A Pedra Filosofal faz os ferimentos dela se fecharem com velocidade incrível.
- Filho da puta, não quer dizer que não DÓI! – xingou Leah, agarrando Snape pelo pescoço – Sou mortal de novo, uma hemorragia pode me MATAR.
- É muito bom vê-la de volta, Leah. – sorriu Dumbledore – De volta... viva.
- É... é bom estar de volta de novo. Quer dizer, respirando. – comentou, virando os olhos – E Lílian... como ela está?
- Está melhor do que imaginávamos. Não vejo a hora de colocar você para caçar esses demônios junto dela.
- Junto dela? – torceu o nariz – Não vai dar certo.
- Concordo. – avisou Snape – Elas vão esquecer os monstros e vão matar uma a outra.
Joaquim caminhava pela igreja, depois da missa, com suas ricas vestes de arcebispo, mas sem o chapéu. Lílian ainda estava ajoelhada no primeiro banco, rezando. Ele terminou de arrumar suas coisas e se aproximou dela, sentando-se ao seu lado, olhando o altar.
Ela terminou de rezar, recostou-se no banco de madeira, e olhou Joaquim:
- Já nem me lembrava a última vez em que pude vir rezar. Acho que tenho de rezar mais, ainda.
- Fico imensamente feliz de ter você de volta, Lílian. Mas não se sinta culpada por nada.
- Se eu tivesse escutado o pedido de vocês... será que teríamos chegado a esse ponto?
- Ninguém pode dizer o que teria acontecido. Deus nos deu o livre arbítrio. Escolhemos o que é melhor para nós. Era nosso tempo.
- ...O senhor fica muito chique com essas vestes de arcebispo. – sorriu Lílian, olhando o amigo.
- Ah. Isso. – suspirou – Realmente, eu sinto muita falta de quando eu era apenas um frade pobre num vilarejo em Portugal. Todas essas jóias e vestes de seda... não me fazem sentir bem.
Lílian se levantou, e caminhou com o religioso até próximo do altar.
- As coisas mudam de forma muito rápida, não é, reverendo? – comentou Lílian, em voz baixa.
- Não acho. Acho que as coisas mudam de forma intensa. Mas nós só reparamos quando elas terminaram de mudar. Por isso achamos que muda rapidamente. Mas não é verdade.
Ela o olhou longamente, e o acompanhou, saindo da igreja e fechando-a, de noite.
Lupin corria pelos telhados de antigos prédios de Londres, seguindo um demônio. Ele já havia matado dois bruxos, e não era um adversário fácil de se derrubar. Com esforço, ele correu, saltou sobre uma chaminé e, com um feitiço, lançou-se no ar, conseguindo cair nas costas do demônio, que lembrava um besouro gigante, se não fosse pelos longos braços que tinha, e um focinho comprido e cheio de presas afiadas. O demônio perdeu o controle do vôo, e acabou batendo contra uma parede de um prédio abandonado, arrebentando os tijolos e varando lá dentro.
O auror rolou pela poeira, se levantando, sujo. Esticou a varinha e atingiu o monstro com um poderoso feitiço vermelho, que o jogou de encontro a parede, rompendo-a de novo, caindo no gramado de um parque, entre as árvores. Lupin olhou do alto do prédio, e saltou para o chão. Sacou a espada e avançou no adversário, que estava caído. Mas o demônio se ergueu e passou o braço na sua frente, batendo de encontro com a espada de Lupin, que se desequilibrou. As mãos do demônio se transformaram em navalhas longas e curvadas, que mais pareciam duas foices. Do chão, o demônio avançou, com sua pesada carapaça, e Lupin recuou, defendendo-se como podia.
- ...Não vai ser tão fácil me acertar, criatura maldita! – rosnou Lupin, batendo a espada contra as navalhas do besouro.
O demônio abriu a boca, e lançou um feitiço que atingiu o peito de Lupin em cheio, lançando-o longe. Ele se ergueu, zonzo, e desviou de outro ataque, que fez o prédio atrás de si desmoronar.
- ...Meu Deus... – murmurou – Você é mais forte que eu esperava.
Ao virar-se, o besouro já estava na sua frente. O demônio prensou-lhe com o que restou da parede, usando um dos braços, e esticou o outro, para lhe fincar a navalha no corpo. Mas ao esticar o braço para trás, ele foi cortado, caindo no chão. O demônio recuou, gemendo de dor.
- Francamente! Vocês estão indo de mal a pior. – desdenhou Leah, do outro lado da rua, lhe apontando a espada – Cada hora mais bizarros...
O demônio lhe atirou um feitiço, que ela defendeu com a espada, mas acabou sendo arrastada um metro para trás.
- Certo... você é forte. ...Mas não são dois.
Nessa hora, o braço arrancado do demônio começou a se mexer, e a crescer, e em segundos se tornou um monstro idêntico ao outro.
- Bom... agora são dois. – gemeu Lupin, dando um sorrisinho torto.
O recém nascido demônio abriu a carapaça, para esticar as asas e voar, mas alguém as fechou, caindo sobre elas de forma pesada. Imediatamente fincou sua espada prateada na junção da carapaça com a cabeça do demônio – onde deveria ser um 'pescoço' – e empurrou a espada para o lado. Um feitiço branco separou com facilidade a cabeça do bicho do seu corpo, banhando o chão de um sangue violeta. Era Lílian.
- Não me importo com justiça numérica. São demônios. – disse, saltando para longe da carapaça do demônio morto – Que importa se são três contra um, agora?
O outro demônio já havia reconstruído o braço, e atacava Leah sem parar, que se defendia com as duas espadas. Num espaço entre os ataques, ela avançou:
- Kaiten Kembu! A seqüencia de seis!
Mas os ataques resvalaram na carapaça negra do demônio, e desapareceram.
- Ah, brincou! – exclamou.
Um ataque certeiro do demônio a lançou contra uma árvore, fazendo ela tombar. Leah caiu de lado, com um enorme rasgo no peito, de onde o sangue imediatamente jorrou, lavando a grama. Ela pôs a mão no peito, acudindo a dor, nos segundos em que levava para a Pedra Filosofal iniciar a cura do seu ferimento.
O besouro virou-se imediatamente, rasgando o céu, atingindo Lílian em cheio, fazendo Lupin gritar. Mas não era Lílian, sua imagem se dissolveu como fumaça. O demônio recuou, mas imediatamente a espada de Lílian desceu na vertical, lhe atingindo fatalmente no pescoço, também separando sua cabeça. Seu ataque foi tão forte que abriu uma fenda até mesmo no asfalto da rua.
Lílian se reergueu, e guardou a espada, respirando fundo. Lupin se aproximou, correndo:
- Que susto você me deu, Lílian! Pelo amor de Deus, nunca mais faça isso.
- Está ferido? – ela perguntou, olhando-o e pondo a mão em seu pescoço.
- Ah, não... não. – respondeu, corando de leve, tentando se desvencilhar das moas dela, dizendo, sem graça – Mas, puxa, você realmente está anos luz á minha frente... que habilidade.
- Isso não foi nada.
Leah se aproximou deles, com a mão direita sobre o peito encharcado de sangue vermelho – mas já curado – e arrastando a espada na outra mão, ofegando:
- Oh, obrigada por perguntar se estou bem, ou se morri, seus desnaturados. Muito obrigada, bando de sem consideração.
- Você tem uma Pedra Filosofal no peito. – disse Lílian, apática, olhando-a de esguio – Você não morre. Não tão fácil.
Leah respirou fundo, na frente de Lílian... e lhe meteu a mão suja de sangue na cara. Lílian a empurrou, sentindo nojo:
- Ah, que NOJO! – xingou, tentando limpar o rosto com a barra da camiseta.
- ...Vai continuar com esse cabelo laranja? – resmungou Leah – Você fica muito melhor com esse vermelho tom de sangue. Tipo um cerejão.
- Esse é o meu cabelo natural, se não se lembra. – reclamou, tentando terminar de se limpar – Ah, vamos embora.
Lílian acabou indo jantar na casa dos outros aurores, e se divertiram bastante. Era como se fossem jovens de novo, apesar da falta de Tiago. Na verdade, parecia mais uma das antigas reuniões de aurores, como Tiago não era um Auror Supremo, talvez, no fundo, ele nem fazia tanta falta assim...
Já Leah demorou para se arrumar, porque Snape insistiu em examiná-la, por causa do ferimento. Só a liberou depois que teve certeza de que, de fato, nem restava sinal. Por fim, acabou jantando na cozinha, enquanto o pessoal conversava e ria na sala. Enquanto todos comeram e beberam, Leah teve que tomar apenas uma sopa de legumes, com pão. Em meio á conversa dos amigos, percebeu que alguém se aproximava.
- ...Posso me sentar? – perguntou Lílian, depois de alguns instantes.
Leah, picando o pão para molhar na sopa, ergueu o olhar, e apenas acenou com a cabeça, voltando a olhar a sopa. Lílian puxou uma cadeira da mesa e se sentou, um lugar distante da outra bruxa.
- ...Ainda não pode comer normalmente? – perguntou a ruiva.
- Não. Ontem comi normalmente, e passei mal. Meu estômago ainda está frágil.
- Deve ser ruim. – comentou, apoiando a mão no queixo. Ela suspirou, desapoiou o rosto, e cruzou as pernas, pensativa, antes de perguntar – Leah... o que houve naquela viagem do acidente?
Ela olhou Lílian longamente, mastigando. Suspirou, juntou as mãos perto da boca, e disse, calmamente:
- ...Um demônio nos atacou no meio do caminho. Quer dizer... me tirou do carro, pelo jeito queria era me surrar. Tiago o matou, e continuamos a viagem. Depois de um tempo, ele começou a discutir comigo... olhava para trás, para brigar, numa dessas, perdeu o controle, e acabou entrando de frente contra uma carreta.
Lílian mordeu a falange do dedo, a olhando, longamente,. Leah baixou os olhos, e suspirou:
- Se pudesse ter evitado, teria. Se pudesse ter matado aquele demônio para que Tiago não ficasse nervoso, eu teria. Mas meus poderes estavam começando a oscilar. Eu não queria que...
- Não foi sua culpa. – disse Lílian.
- Não foi isso que você me disse naquela noite.
- Eu sei, me desculpe. – suspirou – Não deveria ter culpado você, você tinha razão, a culpa foi minha.
- ...A culpa também não foi sua. Eu era uma morta viva à serviço do governo, eu deveria ter protegido sua família.
- Você protegeu o quanto pôde. E de mais a mais... não era do direito de ninguém trazer você de volta á vida para obrigar a lutar contra esses demônios. – ela lamentou, afastando a cadeira e virando-se de lado, olhando o chão.
Leah baixou os olhos mais ainda, pensou um pouco, e disse, sentindo o queixo tremer. Uma tremenda frustração tomou conta dela:
- Se você não tivesse aparecido hoje, e eu não tivesse essa maldita pedra que me mantém vida, aquele demônio teria me matado. Que morte estúpida.
- Não diga isso. – resmungou Lílian, meio rouca, apoiando a mão de novo no queixo, olhando para a janela.
- No fim das contas, quando eu realmente precisei salvar ou ajudar alguém, eu não o fiz. – disse Leah, amarga, passando a manga da blusa nos olhos – Pelo contrário, eu piorei a situação.
- Leah... pare com isso, não fique com essa síndrome de fracasso. – murmurou Lílian, apertando os dedos entre os olhos, com eles fechados, respirando fundo. Parecia segurar alguma coisa que, em instantes, ela não daria conta de segurar mais. Começava a ficar pálida.
Leah afastou a cadeira, de cabeça baixa, começando a chorar. Antes de se levantar, desabafou:
- Quando você estava imersa na depressão, sem rumo por causa da perda da sua família, o que eu fiz foi te humilhar mais ainda. E o que você fez? Você morreu em seguida, ao invés de dar a surra que eu merecia. Se eu não pudesse ir para o outro mundo buscar você de volta, trazer você pra cá, onde é o seu lugar... eu não sei o que eu ia fazer. Eu simplesmente não...
Mas ela não terminou de dizer, porque Lílian avançou nela, furiosa, agarrando-lhe pela gola da blusa. Leah entrelaçou seus braços no dela, e empurrou Lílian, antes que ela a jogasse de costas no chão, tamanha violência do ataque. Ela apertou Leah contra a cadeira, que ficou apenas apoiada sobre as pernas detrás, empurrando-a também com o joelho. Leah olhou para cima, olhando espantada a expressão de raiva de Lílian, que gritou, furiosa:
- QUEM É QUE FOI QUE MORREU PRIMEIRO, HEIM!?
Leah piscou, sentindo o corpo gelar de medo. Lílian estava branca de ódio, seus cabelos ruivos, acobreados, caíam sobre o rosto de Leah, e seus olhos verdes quase brilhavam.
- Não venha se sentindo coitadinha. Não fui eu quem "se matou" primeiro. – rosnou Lílian, arfando, entre os dentes – E o piro de tudo, ainda fazer um tremendo teatro para parecer que a culpa não foi sua.
Leah sentia a respiração de Lílian em seu rosto, e sentia ela tremer, quente, em seus braços. Se ela fosse lhe dar um soco, era justo que Leah o aceitasse, mas não tinha coragem de soltar Lílian: seu coração, debaixo da Pedra Filosofal, pulsava de pavor da raiva dela. As duas se olhavam, sem parar ou piscar. Sirius e Lupin chegaram na porta da cozinha, preocupados.
- Ei... algum problema, garotas? ...Por favor... vamos nos acalmar. – pediu Sirius, meio gaguejando.
Lílian não os olhou, respirou fundo, e soltou Leah, que arrumou a gola da roupa, ainda um pouco com medo. Lílian tinha razão: era Leah quem tinha se suicidado primeiro. E Lílian não teve alternativa, a não ser conviver com sua ausência, coisa que Leah não aceitou, a ponto de ir ao mundo dos mortos buscar Leah de volta.
- ...Me leve para casa, por favor, Lupin? – pediu Lílian, passando pelo amigo.
- Claro, claro. – respondeu, olhando Leah de esguio, antes de ir para a porta de casa.
Os dois saíram, e Leah permaneceu na mesa. Sirius voltou da sala, onde foi se despedir da amiga, e parou na porta da cozinha:
- Pronto, pode ter seu ataque de raiva e quebrar o prato de sopa na parede. Eu deixo.
Leah respirou profundamente, se ergueu, e levou o prato com os talheres para a pia, onde os lavou, ainda cabisbaixa. Sirius ergueu as sobrancelhas, e deu as costas, indo para seu quarto:
- Ih... a coisa foi pior que esperava. Boa noite, moça. Juízo.
Lupin parou o carro na frente da casa de Lílian, e ela tirou o cinto de segurança:
- Obrigada, Lupin. Desculpe te dar esse trabalho.
- Não é trabalho nenhum cuidar de você, Lílian. Pra mim é um prazer. – ele disse, meio sem jeito – Boa noite.
Ela olhou para ele alguns instantes, e abriu a porta do carro. Ele respirou fundo, e pôs a mão em seu ombro:
- Lílian... – disse, parecendo inseguro – Por favor... prometa que ficará bem. Prometa que não fará nada de errado.
Ela o olhou de novo, um pouco surpresa, e respondeu, sorrindo, calma:
- Ficarei bem. Obrigada por se preocupar. E não, não tenho intenção de fazer nada de errado. Prometo, sim. Boa noite. – e esticou o rosto, lhe dando um beijo na bochecha.
Lupin respirou fundo, vendo Lílian entrar na grande mansão, e voltou para casa. Já Lílian subiu, abriu as portas da varanda, para o ar circular no quarto, e foi para o banheiro trocar de roupa. Ao voltar, sentou-se na beirada da cama, com o abajur ligado, e percebeu que tinha dois brilhantes anéis prateados na mesa de cabeceira. Ela piscou, não lembrava de ter nenhum daqueles anéis, e o pegou. Eram duas alianças de prata. E, uma delas, era aquela que Leah havia lhe dado de presente no trem de volta de Portugal, que Lílian havia deixado no túmulo do pirata e caçador de recompensas Augusto. Ela olhou as portas da varanda aberta, e comentou, em voz alta:
- É... continua uma mestra na arte de se esgueirar, moça.
Lílian se levantou, com as alianças na mão, colocou-as sobre a penteadeira. Depois, fechou as portas da varanda, fechou as cortinas, e se deitou.
N.A 1: Demorei mais ou menos. Ah, eu não tenho mesmo salvação. Rezem para mim, então. Porque fazer macumba não adianta, afinal, já dizia o Bozó: 'Se macumba fosse boa, se chamava boacumba'.
N.A 2: Nada a declarar. Eu preciso cortar mais cenas da Dooms, não quero que ela fique do tamanho da Medo do Escuro (14 capítulos) ou maior (com uns 16 capítulos). Por um lado, vai dar a impressão de que está tudo corrido, e as cenas podem ser cortadas e passarem dias entre um parágrafo e outro... Mas de boa, não estou querendo me alongar na Dooms.
N.A 3: Leah e Lílian de volta. É hora de Leah reaprender a usar seus poderes e conviver com as limitações do corpo humano. Enquanto isso, Lílian já sabe que a família foi atacada por um zumbi, antes de Tiago brigar com Leah e sofrer o acidente. E, agora, ela está querendo muito se vingar.
