Ato XI: Me Cubra Com Sua Presença
Venha molhar os olhos de uma viúva
Cobrir a noite com o seu amor
Secar a chuva do meu rosto molhado
Beber o vinho, o doce e vermelho gosto de mim
Venha me cobrir com sua presença
Pela emoção
Até que você me leve de volta para dentro
Venha me confortar com sua presença
Um amor jovem deve viver o dobro apenas para nós
Para mim
Para você
O tempo devora a beleza de uma paixão
Comigo
Com você
Em guerra por amor à você
(Esta noite qualquer sonho vai se realizar)
(Nightwish – Come Cover Me)
- ...Você parece distraída demais. – comentou Lupin, olhando Lílian, que estava com o queixo apoiado na mão, olhando a rua.
Sirius debruçou-se entre os bancos da frente, olhando os dois. E olhou Lupin.
- ...Lílian? – perguntou de novo.
- Ah, oi? – perguntou, olhando os amigos – Desculpe.
- É, você tá precisando desligar e descansar. – riu Sirius.
- ...Acho que sim. – sorriu Lílian, sem jeito.
Ela desceu do carro, se despedindo.
- ...Você vai ficar bem, não vai? – perguntou Lupin, preocupado.
- Vou, Lupin. Não se preocupe, estou ótima. – sorriu, inclinada na janela.
- Se precisar, já sabe. – disse Sirius, batendo continência.
Leah estava sentada numa poltrona na beira da janela, segurando uma xícara de chá, olhando a lua entre nuvens. Olhou a própria mão, pensativa. Não havia mais sinal nenhum de Zz'Gashi.
Com seu 'irmão mais velho' ali no mundo real, ela pensou se, de fato, era um bom sinal que Zz'Gashi não existisse mais.
E se talvez... fosse uma desvantagem?
Thu'uban surgiu no jardim da mansão dos Potter de madrugada, sob uma fina neblina. Ele parou debaixo da varanda do quarto de Lílian, e desapareceu. E, dentro do quarto, ele novamente apareceu, num passe de mágica, silencioso.
Lílian dormia profundamente, de costas, sequer notando a presença dele. O demônio sorriu, olhando-a dormir, toda cheia de cobertas. Ele sorriu maldosamente, e baixou o corpo, respirando profundamente o cheiro dela.
- ...Agora eu tenho que concordar... – sibilou com sua voz de trovão – Não dá pra saber qual é, mas você é uma mortal que tem mesmo uma virtude irresistível.
Lílian acordou de sobressalto, olhando para o lado, sentindo a espinha gelar. Mas o quarto estava vazio.
- Que foi isso? – gemeu para si mesma, se levantando e indo até a porta da varanda. Não viu nada - ...Acho que foi só impressão.
A cidade amanheceu nublada, com uma garoa teimosa caindo, fazendo a temperatura cair bruscamente. Lílian acordou e aproveitou o frio para acender o forno a lenha que tinha no fundo da cozinha, esquentando assim a casa toda, e também resolveu fazer cookies. Havia acordado com uma tremenda vontade de comê-los, e eram de uma receita antiga e deliciosa, que tinha aveia, nozes e chocolate. Não demorou para o cheiro dos biscoitos tomar conta da cozinha.
Alguém tocou a campainha, e ela estranhou, era muito cedo. Colocou uma jaqueta e abriu a porta.
- Oi. Bom dia. – cumprimentou Leah, parecendo sem graça, toda encapotada.
- ...Caiu da cama? – perguntou Lílian, chocada. Para Leah sair da cama antes das oito da manhã, só se fosse na base do chute.
- ...Não. – justificou-se, encolhendo os ombros.
- E o que veio fazer aqui a essa hora da madrugada? São sete e pouco ainda... quantas horas? – murmurou, olhando para trás.
- Só queria conversar... – murmurou, cabisbaixa.
Lílian parou, olhando-a. Ficaram em silêncio alguns instantes, até Lílian desconfiar que estava sendo um tanto sem educação:
- Ah, claro, entre logo, está muito frio.
Leah entrou meio sem jeito, e tirou as duas jaquetas que usava, mais as luvas e o xale.
- É que realmente fico assustada de ver você acordar por pura vontade assim. – justificou-se, indo para a cozinha – Bom, já que veio, venha tomar café comigo, festou fazendo cookies. Estão extremamente cheirosos.
- É, estão mesmo. – sorriu, respirando fundo – Ótimo saber que posso comer de novo.
Lílian tirou os biscoitos do forno e colocou sobre a mesa da cozinha. Leah se sentou, e se serviu de leite quente, para comer com biscoitos – a mesma coisa que Lílian fez.
- ...Diga. – disse Lílian, sentando-se numa das cadeiras, cruzando as pernas e sentando sobre elas. Pegou um dos biscoitinhos, soprou-o e comeu – Hum... ficou bom.
- Como se não ficasse sempre. – murmurou Leah, virando os olhos – Bom, é que, eu estive pensando nessa noite... sobre Zz'Gashi. E se... não foi uma boa ter acabado com ele?
- Como assim?
- Thu'uban é muito, muito forte, Lílian. Talvez Zz'Gashi fosse a única chance que a gente tinha de derrotá-lo.
- Zz'Gashi era um demônio, Leah, ele não vai fazer falta. – frisou Lílian.
- Eu sou Zz'Gashi, Lílian. – retrucou Leah, séria – Ou era. Tenho medo de que meus poderes tenham diminuído ou sofram alguma alteração sem ele.
- Seus olhos continuam violetas. – disse Lílian – Isso significa que você continua com poderes.
- Você não entende, não esteve lá, Lílian. Eu tenho medo de que eu não tenha poderes suficientes para poder proteger vocês.
- Você não precisa nos proteger. Nós protegemos um ao outro. Esqueceu do que viviam dizendo? Juntas somos imbatíveis.
Leah a olhou longamente. É, não ia conseguir convencê-la ou passar a gravidade da sua preocupação para ela. Suspirou, balançando a cabeça, e tomou um pouco do leite, comendo o biscoito, olhando o chão. Lílian se levantou, e foi até Leah, lhe puxando a cabeça num abraço apertado. Leah respirou fundo, colocando a xícara de leite na mesa, e pôs as mãos sobre os braços de Lílian, que lhe apertavam de encontro ao seu colo. Ela lhe deu um beijo na cabeça, e disse:
- Qual é que você anda parecendo tão medrosa, Leah?
A bruxa respirou fundo, sentindo a garganta doer, olhando o chão.
- Sei lá. – murmurou – O fim do mundo deve estar me deixando sensível.
- Você está é com saudades do Zz'Gashi. – riu nervosa.
- Confesse, ele até que era um charme. – sorriu, sem jeito.
As duas escutaram um barulho parecido com uma explosão, longe dali, meio abafado. Leah se ergueu num salto e as duas correram até o quarto de Lílian, no segundo andar para olhar a varanda: uma enorme coluna de fumaça negra se erguia, num canto da cidade.
- ...O que será que houve? – perguntou Lílian.
- ...Coisa boa não deve ter sido. Vamos lá.
As duas se aproximavam da fumaça pelos prédios, correndo velozes, saltando pelos telhados, como se a gravidade simplesmente não existisse. No meio do caminho, uma série de estrelas brilhantes surgiu, e apareceu a imagem de Lupin e Sirius, que também pareciam correr pelas ruas, mas de carro:
- ...Onde vocês estão? – perguntou Sirius.
- Estamos indo para o local, já. – disse Lílian – Vocês demoram?
- Não, chegamos no máximo em oito minutos. Onde estamos começou a chover muito.
- Ok. Esperamos vocês lá.
De fato, uma parte da cidade já chovia muito, e a temperatura havia caído mais ainda. O local da explosão era uma refinaria, no lado industrial da cidade. As caldeiras ardiam e a fumaça negra subia na direção do céu.
- Que coisa, o que será que houve? – perguntou Leah, entrando no galpão principal da usina – Não parece ter ninguém aqui.
- ...Ninguém humano, não é? – murmurou Lílian, olhando os próprios pés. Acabava de quase pisar com as botas de auror sobre um rastro de alguma coisa gosmenta e verde, que ia na direção das caldeiras partidas, e sumia ao chegar nela.
- Aqui está bem quente. – reclamou Leah, começando a suar. O calor do fogo era intenso. – Mas não vejo nada.
Lílian puxou Leah pelo braço, e colocou as mãos na frente do corpo. Respirou fundo e empurrou as moas no ar, gritando uma palavra mágica. Imediatamente uma forte rajada de vento abriu caminho na fumaça negra.
- ...Que merda é aquela?! – exclamou Leah.
No meio da fumaça, sobre o calor do fogo, pendurado entre os canos de ferro e aço, um enorme casulo de alguma criatura simplesmente pulsava, vivo.
- ...Sabia que tinha alguma coisa de errado aqui. – gemeu Lílian.
Leah sacou a espada, girou-a no ar e a fincou no chão. Foi a vez dela comandar o vento: uma espécie de pequeno ciclone surgiu, feroz, girando pelo galpão, retirando dali toda a fumaça que estava sobre o teto. E, no telhado-, via-se inúmeros outros casulos pendurados. Eles eram meio transparentes, com uma pele fina, e era fácil ver que dentro deles o corpo dos antigos funcionários da refinaria estava preso, completamente despedaçado.
Lílian soltou uma exclamação de asco, sentindo náusea ao ver aquela enorme quantidade de casulos.
- Certo. Hora de soltá-los. – disse Leah, erguendo a espada. Mas Lílian segurou seu braço – Qual é! Não vai me deixar fazer isso? Eles estão lá para ser refeição dessa criatura que está ali na caldeira!
- ...Não sei se devemos... – gemeu Lílian.
- Escute, EU entendo de demônios. – reclamou, empurrando Lílian – Se afaste, isso não vai ser bonito.
Lílian obedeceu. Leah atacou o telhado, despedaçando-o. Os casulos se partiram, e todo o conteúdo despejou no chão no lugar. Os pedaços das pessoas estavam quase todos comidos, corroídos, e o caldo grosso que os envolvia era ácido. Leah atacou e se afastou, para não se sujar. Olhou Lílian, que estava logo atrás de seu ombro, e disse:
- ...Está vendo?... Olha o que essa maldita criatura fez.
Nessa hora, o casulo maior se rompeu.
- ...Você o atacou? – perguntou Lílian.
- ...Não. – gemeu Leah.
- ...Então ferrou. – engasgou-se Lílian, se afastando e se colocando de guarda.
Do casulo saiu um demônio que parecia uma aranha, mas com enormes asas e antenas de borboleta. Tinha partes de metal no meio do corpo, e dentes muito afiados. Metade do corpo de uma mulher estava colado no corpo do demônio. Seus olhos eram grandes e vermelho escuro, como os de um inseto.
- ...O que fizeram com minhas vítimas...? – sibilou o demônio, com uma grande língua roxa para fora da boca.
- Francamente, estamos indo de mal a pior. Olha a cara disso. – gemeu Lílian.
- Ah, imagina, ela até que é simpática, olha que peitinhos empinados ela tem. – riu Leah, nervosa.
Lílian olhou a amiga estreitamente, enquanto se afastavam do demônio, que caminhava balançando o corpo. De fato, ela era metade de uma mulher nua, de pele arroxeada, e passava as mãos nos imensos cabelos azuis que tinha.
- Vocês acabaram com minha refeição. – reclamou o demônio, ainda se tocando, passando a língua nas mãos e nos braços, lambendo o líquido do casulo – Vou devorá-las.
- Vem que tem, tetéia. – sorriu Leah, apontando a espada.
Leah avançou sem medo, para cortar o demônio na diagonal. Mas da cintura dele um par de braços surgiu, revestidos de metal, e bateu de encontro á Leah, que caiu no chão, zonza. Em seguida ela prendeu a bruxa com suas garras no chão, e ergueu a outra mão de ferro, que se transformou numa afiada lâmina:
- ...Está com pressa? Então será meu aperitivo.
Ao descer a lâmina, o aço bateu de encontro á lâmina da espada de Lílian, e se enterrou no chão. O demônio guinchou de dor, saltando para trás, sujando o chão de sangue. Lílian tinha acabado de cortar seus dois novos braços. Leah se livrou dos dedos afiados que lhe prendiam ao chão, e se ergueu:
- Ah, obrigada... vacilei mesmo.
Mas Lílian não prestava atenção. Estava furiosa, olhando o demônio:
- ...Não perdôo. Não importa quem eram ou o que esteja acontecendo, não perdôo uma criatura capaz de fazer esse tipo de coisa.
Lílian atacou, e o demônio também. Ele mordeu a lâmina da espada de Lílian, que ficou agarrada ao corpo dela, pressionando a espada contra seus dentes. De repente, a espada dela brilhou, e a lâmina ficou mais estreita, e da base outro lâmina surgiu, atravessando o rosto do demônio, que sacudiu a cabeça, guinchando de dor, jogando Lílian longe. A bruxa se pôs de pé rapidamente, esticando a espada ao lado do corpo: agora sua espada mágica tinha duas lâminas, a principal, e outra menor, como um garfo.
- ...Uau. – exclamou Leah, espantada – Tu chegou a esse ponto de habilidade?
O demônio correu até Lílian, que saltou, mirando a espada em sua cabeça. Os dedos afiados do monstro bateram na espada e pararam justamente na curva da lâmina, e a bruxa usou isso para girar o corpo e se impulsionar para trás, caindo nas costas do demônio. A ruiva ergueu a espada, e ela brilhou, voltando a ser a larga e prateada arma de lâmina simples. Mas antes que ela atingisse as costas do demônio, o mostro fez surgir dois novos braços, rasgando sua pele e atingindo a barriga de Lílian, jogando-a de costas no chão.
- Não vai ser tão fácil acabar comigo, uma legítima succubus, mortal patética. – sorriu o demônio, inclinando-se na direção de Lílian, com a boca rasgada e sangrando.
Leah aproveitou e atacou. Mas, de fato, a succubus percebeu, e se virou, abrindo a boca e cuspindo algo viscoso em Leah, que a envolveu como se tivesse vida. Sua espada caiu, rolando para longe de seu alcance.
- Que nojo! Vaca do governo, me solta dessa sua... ARGH! – gritou Leah, tentando se livrar daquilo, sem conseguir. A gosma a envolveu, prendendo-a completamente num casulo. A casca da gosma se enrijeceu, e Leah sentiu que seu interior se tornava um líquido ardido. De fato, estava virando aquele ácido que corroera os corpos das outras vítimas.
- Não adianta tentar escapar, docinho. – sorriu o demônio – Não vai escapar daí. Daqui a pouco vou devorar você.
A succubus voltou a atacar Lílian, que saltou para o alto da usina, segurando-se em pesadas correntes, num caldeirão vazio. De lá, saltou para uma viga de metal que sustentava o telhado e depois lançou-se para o chão, na direção de Leah. O demônio esticou o braço, lhe dando um soco, e seu braço novo, que misturava carne a chapas de metal, simplesmente esticou, atingindo Lílian, fazendo ela bater de costas numa pilha de canos metálicos, metros longe de Leah.
- Também não vou deixar você atrapalhar, ruivinha. – riu.
Leah sentia o corpo e os olhos arderem, e já não agüentava mais segurar a respiração: mas sabia que aspirar aquele líquido ácido seria morte certa. Não podia morrer. Não de novo. Mas não conseguia se livrar daquele maldito casulo.
Lílian se ergueu, e olhou Leah de relance. Também sabia que não poderia demorar. Avançou de novo, atirando um poderoso feitiço contra a succubus, e o demônio rebateu o feitiço. Mas em seguida deu de cara com Lílian, enterrando a espada em seu ombro. E imediatamente segurou os braços do demônio, deixando a espada fincada em seu ombro:
- ...É, você é mais rápida do que eu imaginava... era pra eu ter atingido seu peito em cheio.
- Jura...? – sorriu o demônio – Pois eu tenho uma péssima notícia para você, lindinha: não vai adiantar atingir meu peito. Eu não tenho coração. Quer ver o que eu tenho aqui no peito? ...ISSO.
Do centro do peito da succubus, um afiado metal surgiu, em forma de foice, e violentamente atravessou o lado direito do peito de Lílian, que abafou um gemido de dor. A bruxa soltou a mão esquerda e segurou com força a arma do demônio que estava cravado em seu ombro.
Leah sentiu o corpo estremecer. O demônio jogou Lílian no chão, e passou os dedos na lâmina de seu peito, suja de sangue, para depois chupar os dedos, parecendo se deliciar:
- Hum... quente e saboroso... adorei.
Mas Lílian não se abalou, com os dentes cerrados, se reergueu, com a mão segurando o ferimento com força. O braço da succubus novamente se esticou, e seus enormes dedos agarraram o rosto de Lílian, prensando-a contra a parede. Depois, ela ergueu a outra mão: seus dedos se uniram, formando uma longa lança, e atacou Lílian, mirando sua cabeça.
O braço perfurou a lateral da cabeça de Lílian, rachando a parede, fazendo apenas um "vento" em seus cabelos vermelhos, e a succubus gritou de dor. Lílian, assustada, virou os olhos para o braço do demônio, e, rente à sua cabeça, viu que a carne da succubus fora violentamente perfurada por três tortuosos e ossudos espinhos, desviando a trajetória do ataque.
A succubus largou Lílian e se virou, olhando o casulo de Leah. Lílian, gemendo de dor, e também olhou, assustada: haviam furos no casulo, por onde o ácido vazava.
- ...Leah? – murmurou a bruxa, sentindo o coração apertar.
O casulo onde a bruxa estava se rasgou com violência, espirrando ácido para todo lado. E, dele, de joelhos, surgiu Leah, urrando furiosamente, abrindo os braços, que estavam cobertos de espinhos afiados.
Ela se levantou, curvada, ofegando, mostrando os dentes, furiosa. Seu cabelo negro, molhado, pingava, e sua roupa exalava fumaça do ácido.
- ...É Zz'Gashi? – sussurrou Lílian para si mesma – Não, não pode ser...
A succubus arrancou os espinhos do braço e deu as costas para Lílian, começando a caminhar na direção de Leah:
- ...Quem você pensa que é, criaturazinha, para me ferir desse jeito!? ...E como conseguiu escapar?
Leah agarrou a jaqueta que usava e a arrancou, se livrando da roupa encharcada de ácido. A roupa se dissolveu, e ela ficou apenas com a calça preta, as botas e uma blusa preta. Respirou fundo, tomando fôlego, e avançou. Saltou, urrando de raiva: estava tomada pela fúria. E, em pleno ar, sua pele e sua roupa foi rasgada por outros espinhos: Leah bateu com força contra o corpo da succubus, derrubando-a, já na forma completa de Zz'gashi.
Bateu com força na cabeça do demônio, enterrando inúmeros espinhos curtos e grossos, rasgando e quebrando seu rosto. Quando a succubus conseguiu jogar Leah para o chão novamente, estava com o rosto todo ferido, e o peito também.
- Maldita! – urrou, com raiva – Você... não é mortal. É um demônio!
Lílian, do chão, olhava as outras duas: não era mortal? Era um demônio?
Leah reergueu o corpo, agora de volta á forma de Zz'Gashi, com a diferença de que sua pele não ficara acinzentada como era antes: continuava na cor habitual, e seus espinhos, antes de uma cor mais escura, como uma mistura de amarelo e bege escuro, agora eram de um bege bem mais claro, mais parecido com a cor de um osso.
- Qual é? – riu Leah, sorrindo torto – Acha que agora minha carne já não é mais tão saborosa? ...Nunca comeu um caranguejo antes? É só quebrar minha casca primeiro.
A succubus fez todos os seus braços se tornarem lâminas em forma de foice, e atacou Leah. Mas ela estava extremamente rápida: desapareceu, e escorreu para debaixo de suas pernas. A bruxa fez aparecer nas costas de suas mãos espinhos em forma de longas lâminas, e com um rápido movimento, cortou duas das seis pernas do demônio. A succubus se desequilibrou, mas conseguiu agarrar Leah por um dos braços, e a jogou para fora do galpão, lançando-se para fora logo depois.
A essa altura já tinha começado a chover, e chover forte. Uma chuva pesada e gelada, em meio á névoa. O demônio andou mancando pela chuva, sangrando, com os dentes cerrados, na direção de Leah:
- VOU MATAR VOCÊ! DEMÔNIO TRAIDOR!
Leah, inclinada, debaixo da chuva, esperou a succubus se aproximar, para desaparecer de sua vista, e iniciar uma série de ataques frenéticos contra ela. Em pouco tempo ambas estavam encharcadas de chuva, e a lama do chão tingida do sangue escuro do demônio. A succubus esticava seus braços metálicos, cortando os muros, árvores e pilhas de ferro ao redor da usina e do galpão, mas não atingia Leah; ela grudava e saltava pelos lugares com uma velocidade incrivelmente superior.
Em poucos minutos a succubus estava ofegante, agonizando, no chão, seguindo Leah apenas com os olhos, sem forças para atacar. Leah parou de se mover de um lado para outro, unindo fuga e contra ataque, e parou agachada no chão, metros á frente do demônio. Ambas se olharam uns instantes, até Leah caminhar para perto do monstro, que a olhou:
- ...Ainda não morri. Não morro tão fácil.
- ...Percebi. – comentou, cínica – Mas não se preocupe, era parte da diversão fazer você penar esse tanto. Agora já chega. – e, num movimento forte, passou o longo espinho que saía das costas de sua mão no pescoço do demônio, cortando sua cabeça fora.
Leah ainda olhou o corpo do demônio alguns instantes, para ter certeza de que ela havia finalmente morrido. Ergueu os olhos, e viu Lílian apoiada na beirada da parede, ainda dentro do galpão, com a mão tentando estancar o ferimento. As duas se olharam longamente, sem falar nada. De repente, Snape e Joaquim apareceram.
- ...Que estrago fizeram aqui...! – Snape calou-se assim que viu Leah.
O religioso a olhou espantado, mas pareceu não se importar. Deu as costas e apoiou Lílian:
- Lílian, está ferida! Precisamos cuidar de você. Esse demônio criou uma poderosa barreira mágica, não conseguíamos entrar. Graças a Deus estão bem.
Snape ainda olhava Leah, e deu as costas, dizendo, torcendo o nariz:
- Não me leve a mal, mas feio daquele jeito, não pode ser de Deus.
Leah baixou a cabeça, passou a mão pelo nariz, sentindo ele escorrer de frio, e caminhou até perto da porta. Lílian, já sendo apoiada por Snape e Joaquim, a olhou longamente. Estreitou os olhos, e perguntou:
- ...Qual dos dois é você?
Leah arregalou os olhos, espantada. Em seguida, respirou fundo. Olhou a própria mão, fechou o punho com força. Fechou os olhos, e baixou os braços, erguendo a cabeça para o céu. e á medida que sua respiração e tornava suave, os espinhos de Zz'Gashi ia desaparecendo, diminuindo de tamanho, como se estivessem recolhendo-se para dentro de Leah. Aliás, era isso mesmo: Instantes depois, era Leah de novo, apenas com as roupas rasgadas e alguns arranhões.
- ...Como fez isso? – perguntou Joaquim, assustado.
- Não sei ao certo. – comentou Leah, de cabeça baixa – Só sei que fiz. Agora vamos...
Lílian acordou numa cama de solteiro da casa dos amigos: havia deitado ali e tomado uma poção, para que Joaquim lhe curasse. Levantou o curativo de seu ombro e viu que não havia mais sinal do machucado, nem dor do ferimento, apenas uma mancha rosada onde estava o enorme furo do ataque da succubus. Ela se levantou e foi para a cozinha, onde encontrou Lupin, Joaquim e Leah. Leah, aliás, parecia doente, estava com o nariz vermelho, e muito mais agasalhada que os outros.
- Já se levantou! – animou-se Lupin – Como está?
- Estou ótima. Obrigada por cuidarem de mim, de novo. – riu.
- É sempre um prazer. Leah está resfriada. – sorriu Joaquim, colocando um chapéu – O sistema imunológico dela não estava na melhor forma, e ficar lutando na chuva gelada a fez pegar uma tremenda gripe...
- Que azar. Melhoras. – sorriu, olhando a cara de desânimo de Leah. Em seguida virou-se para Joaquim – O senhor já está indo para aquela igreja perto da minha casa? Posso ir com o senhor?
- Será um prazer ter sua companhia, mas vou á pé. – sorriu Joaquim.
- Não quer que eu te leve? – perguntou Lupin.
- Não precisa. – disse Lílian – Vou andando. A gente se vê amanhã.
Quando Lílian chegou em casa, com muito frio, percebeu que havia um pássaro negro pousado sobre a caixa de correio. Ela entrou, e disse em voz alta:
- Se queria vir atrás da gente, que viesse como gente, e não disfarçada. – comentou, apática, já no corredor de casa, pendurando o sobretudo.
- Só queria ter certeza de que chegaria bem. – disse, arrumando a gola da jaqueta, na porta do corredor.
- Você está doente, deveria ficar em casa de molho. – resmungou, dando as costas – Mas já que veio, aproveite e leve esse pote com os cookies para os garotos, não vou dar conta de comer todos.
Lílian entregou o pote para Leah, que tossia e espirrava em intervalos irregulares. Lílian colocou a mão na testa dela, e disse:
- Você está ardendo de febre. Vê se tenta se cuidar.
- ...Zz'Gashi desapareceu, mesmo. – ela disse, mudando de assunto.
A ruiva não disse nada. Queria evitar pensar no que tinha acontecido.
- É verdade. Eu me tornei Zz'Gashi porque quis. – disse Leah, tossindo um pouco – Estou toda fodida de gripe, porque meu sistema imunológico parece estar meio zoado. Mas... vocês expulsaram a consciência de Zz'gashi, a consciência cruel do demônio. Mas como, na teoria, somos a mesma criatura... eu consigo me tornar ele. Quer dizer, pegar a forma dele. Não tão grande, nem tão violenta, mas... eu consegui. Acredite, era eu. Eu sabia o que estava fazendo. Por isso vim atrás de você, não podia deixar de dizer isso. – ela segurou Lílian pelo pescoço, com as duas mãos, e a olhou nos olhos – Eu preciso de Zz'Gashi para vencer esses demônios. Eu preciso dele para proteger você.
Lílian a olhou longamente, e tirou as mãos de Leah, dizendo:
- Eu não preciso de Zz'Gashi. Ele é um demônio. E eu estou aqui para acabar com qualquer demônio. Se o que você tem a me oferecer é apenas um alter ego demoníaco que já foi exorcizado, você não tem nada a me oferecer.
Leah pareceu intimamente ofendida:
- Não estou te oferecendo nada. Mas eu sou Zz'Gashi, e agora que finalmente posso "sê-lo" com segurança, não vou deixar de desfrutar disso. Usarei de qualquer coisa para proteger as pessoas que eu amo, agora que tenho uma segunda chance. Sinto muito por ser alguma coisa que você repudia.
- Não foi bem isso que eu quis dizer. – suspirou Lílian, passando a mão na testa – Não quero que você se sinta fraca ou dependente dele. Enfim, não estou afim de discutir o mérito da coisa agora.
- Ok. Vou voltar pra casa. – suspirou Leah, para depois tossir mais um pouco – Bom, obrigada pelos biscoitinhos, estão ótimos. Só não garanto que o pote vá chegar. Você sabe como eu gosto. – riu, virando os olhos.
- Ah, tudo bem. – sorriu em resposta – E trate de cuidar dessa gripe forte.
Leah acenou e deu as costas. Lílian ainda a olhou uns instantes, debruçada na porta, antes de fechá-la. Leah olhou o tempo, arrumou a gola da blusa, tossiu mais um pouco e caminhou pela varanda, na direção da escada. Desceu devagar, olhando os degraus. De repente, sentiu-se tonta. E não se lembra de ter pisado no último degrau da escada, antes do jardim.
Leah acordou sentindo o corpo todo doer e arder de febre. Estava numa cama de casal, com a roupa leve que usava debaixo do capote e do sobretudo, muito bem coberta. Olhou para o lado e viu na mesa de cabeceira uma pequena vasilha de água com algumas pequenas toalhas dobradas, e alguns frascos de remédios. Olhou ao redor, e não demorou para desconfiar onde estava.
- Tá zoando que eu estou aqui... – gemeu, colocando a mãos na testa quente.
- Ah, está sim, e não reclame. – disse Lílian, vindo do banheiro e sentando-se ao seu lado, rindo.
- ...Eu apaguei mesmo. – resmungou Leah, respirando fundo.
Lílian pôs a mão em sua testa, e ao ver que estava quente, pegou uma das toalhas, molhou-a na água gelada e a colocou sobre a testa de Leah.
- Choque térmico só vai piorar. – resmungou Leah.
- Isso não é um choque térmico, idiota. – sorriu – É uma solução que Snape me passou, para colocar em sua testa. O calor da febre irá fazer a poção ser ativada e absorvida pelo corpo. Notou que ainda não tossiu nenhuma vez?
Leah ficou quieta. Era verdade: sentia o corpo mole de febre, mas a dor na garganta, e a sensação de irritação e tosse tinha passado.
- Você desmaiou mesmo, no meio do jardim. – disse Lílian, arrumando as coisas na mesa de cabeceira – Daí eu trouxe você pra cá.
- Certo. – murmurou, olhando para a varanda – Quanto tempo fiquei apagada?
- Poucas horas, mas acabou dormindo em seguida. Joaquim, Dumbledore e Snape vieram aqui. Pode ficar o tempo que quiser.
- Olha que sou cara de pau e possessiva, e fico, heim? – disse Leah, sacana.
- ...Nessas poucas horas em que você ficou desacordada, tivemos de enfrentar alguns demônios parecidos com Zz'Gashi. Acha que pode ser o irmão dele?
- Ah, droga. – gemeu Leah – Com certeza. Ele não vai desistir de me apanhar, tenho que dar um fim nele logo.
Lílian tirou a toalha da testa de Leah e colocou na bacia de solução novamente, para depois voltar a sentar-se ao lado dela, passando a mão na sua franja:
- ...Olha, sua febre já melhorou. Viu como isso faz bem?
Leah fechou os olhos, tombando o rosto, sentindo o carinho dela lhe tranqüilizar quase como mágica.
- Posso te contar um segredo? – sussurrou Leah, abrindo os olhos de novo. Lílian fez um "hum" e ela continuou, fingindo - ...Eu desmaiei de propósito. Me recusava a levar seu pote de cookies para aqueles folgados. Agora que tenho que ficar aqui de molho, posso comer tudo sozinha.
Lílian sorriu, de forma serena. A olhou por uns instantes, sem parar de lhe fazer cafuné atrás da orelha. E inclinou o corpo, cobrindo docemente a boca de Leah com seus lábios, lhe dando um suave beijo. Respirou fundo, e também colocou a mão direita no rosto de Leah, entre seu cabelo, lhe beijando mais uma vez. Leah abriu os olhos lentamente, quando sentiu que ela já não pressionava seus lábios contra os dela. Lílian lhe olhava de forma fixa e indescritível, com alguns fios de seu cabelo vermelho vivo caindo ao redor do rosto. Seus olhos verdes eram indecifráveis e magnéticos. Leah a olhou, em silêncio, durante muito tempo, ela estava tão perto que a ponta do nariz dela ainda encostava no seu.
- ...Prometa que não vai me deixar mais sozinha. – sussurrou Lílian, depois de um longo silêncio.
- ...Quem foi que me deixou sozinha primeiro? – perguntou Leah, sussurrando, sorrindo torto – Posso ter morrido primeiro, mas não te deixei sozinha primeiro.
Lílian também sorriu torto, e respondeu, sem subir o tom de voz:
- Tiago foi o amor da minha vida. Não posso discutir isso.
Leah a olhou em silêncio mais uma vez. Estreitou os olhos, e perguntou:
- Você está mesmo disposta? Tem certeza de que é isso que quer? Você me conhece melhor do que ninguém.
- ...Eu perdi tudo o que eu tinha. E que me restou, eu abandonei. O mundo está acabando. Eu não tenho mais com que me preocupar com nada.
Leah sorriu cinicamente, e pediu:
- ...Então prometa que vai ser minha. Só minha, e de mais ninguém.
Lílian parou por um instante, olhando Leah, sem afastar o rosto. Suspirou, e disse, sem tirar os olhos dos dela:
- Prometo.
- Ótimo. – sorriu, orgulhosa.
- ...Agora não tente escapar... você ainda não me respondeu se promete.
- Não vou prometer. – disse, sem emoção – Não posso. Não vou.
A ruiva piscou, sentindo a nuca se arrepiar. Engoliu em seco, e se reergueu, olhando Leah seriamente. Não prometia? Ela balançou a cabeça algumas vezes, como se lentamente absorvesse a resposta, e disse "Ok", antes de se levantar e sair do quarto. Leah a olhou sair, e olhou a porta aberta, o corredor vazio. Respirou fundo, e olhou o teto, colocando a mão na cabeça.
Joaquim estava chegando em sua igreja, para abri-la e celebrar a missa da manhã, quando Leah, toda encapotada, se aproximou.
- ...Bom dia, Leah. – sorriu Joaquim – Está melhor da gripe, para sair nesse frio?
- É, estou, só espirrando de vez em quando. – disse, cruzando os braços, com vapor saindo de sua boca.
- Em que posso ajudar? Vamos entrando, aqui está quentinho. – disse, abrindo a porta de madeira e convidando Leah para entrar na parte detrás da pequena igreja.
- ...Acho estranho o senhor já ser arcebispo e continuar celebrando missa nessa igrejinha minúscula.
- Não gosto de toda essa pompa de ser arcebispo. Como já disse, tenho saudades da minha época de mero pároco.
Os dois se sentaram numa mesa de madeira. Leah juntou os dedos das mãos, e disse, respirando fundo:
- ...O senhor lembra que me perguntou sobre a influência dos demônios sobre mim, e a minha sobre eles? Então... é positiva. Ela existe.
Joaquim se recostou na cadeira, fazendo uma expressão de leve dor ao escutar aquilo.
- Ainda que Zz'Gashi não seja mais um demônio que se aposse de mim, eu ainda consigo tornar-me Zz'Gashi com a minha consciência humana. E eu sou, sim, uma espécie de pára raios de demônios. Eles sentem minha presença, meu cheiro, sei lá. E vem ao meu encontro.
Leah parou, respirou fundo, e concluiu:
- Então... eu aceito, sim, o que o senhor me ofereceu. Eu quero ir embora dessa cidade, e ir morar onde o senhor disse que é seguro, longe daqui, onde não posso influenciar nenhum demônio. Isso os deixará sem alvo, sem foco, e será muito mais fácil para nós, destruirmos bandos de demônios dispersos.
Joaquim a olhou por uns instantes, e sorriu, balançando a cabeça:
- Muito bem, criança. Vou avisar Dumbledore, para que possamos arrumar sua partida o quanto antes.
N.A 1: Troquei o título, literalmente Come Cover Me é "venha me cobrir", mas acho que "me cubra com sua presença" ficou muito mais poético, sem perder o significado. Ás vezes fica mto bizarro traduzir músicas ao pé da letra. E, bem, capítulo sem betagem, perdoem os erros grotescos. Õo
N.A 2: É, eu demorei, e nem vou pedir desculpas, sou uma porca mesmo. Quero acabar logo a Dooms, pra começar a arrumar a Réquiem no caderno. NO CADERNO. Mas sei lá, ando achando mto difícil escrever slash. Mesmo que nem tenha slash direito, só uma ou outra ceninha. xD
N.A 3: Bom... Leah é uma filha da puta. Vocês já deveriam saber disso. Até o próximo capítulo. =)
