Ato XIII: Nova Era
Eu me lembro dos céus negros
E dos relâmpagos a minha volta
Lembro de cada flash
E de como minha visão começava a embaçar
Como um sinal surpreendente de que o destino
finalmente me encontrou
Não havia nada a vista a não ser lembranças abandonadas
Não havia onde se esconder
As cinzas caíam como neve
E a terra cedeu ao redor de onde estávamos parados
Em cada perda
em cada mentira
Em cada verdade que você negou
E a cada arrependimento e a cada adeus
Foi um erro grande demais para esconder
E sua voz era tudo o que eu ouvia
Dizendo que eu tive o que merecia
Então me dê motivos para provar que estou errado,
Para apagar essa memória
Deixe os pensamentos atravessarem a distância entre nosso olhos
Me dê motivos para preencher esse vazio
E reerguer o espaço ao redor
Deixe-me ser o suficiente para alcançar a verdade que está
Através dessa nova Era
(Linkin Park – New Divide – 'adaptado')
Lupin estava lendo o jornal de manhã quando a campainha tocou.
- ...A essa hora, quem será? – estranhou; e ergueu a voz para Sirius, que estava na cozinha – Professor Dumbledore ou Arcebispo Joaquim combinaram de vir aqui hoje de manhã?
- Não. – respondeu lá de dentro.
O jovem balançou a cabeça, pensando quem poderia ser, e se levantou para abrir a porta. E, ao abri-la...
- Bom dia, Lupin. Faz tanto tempo assim?
Lupin recuou um passo, chocado: era Tiago, com sua habitual roupa elegante, apoiado em sua bengala (a espada "disfarçada"). Tombou o rosto, sorrindo:
- Não vai cumprimentar o seu amigo?
- Você... você está MORTO! – exclamou Lupin, pálido - ...Como pode...?
- ...Da mesma forma que Leah e Lílian voltaram. – sorriu, cínico – O mundo está acabando. Nós podemos voltar.
- ...Impossível. – gemeu, dando dois passos para trás – Você está MORTO! – e gritou para dentro da casa – SIRIUS! SNAPE!
- Eu estou vivo, Lupin. – sorriu Tiago, retirando a espada da bengala e avançando – Mas você... está MORTO. – e bateu a mão esquerda no rosto de Lupin, e lhe enterrou a espada no centro das costelas.
Tiago deslizou para dentro da casa, sobre o tapete, e empurrou Lupin, jogando o corpo dele longe. Sirius chegou correndo da cozinha, e viu Lupin caído no chão, de lado, com a blusa suja de sangue. Ergueu os olhos e deu de cara com Tiago, sorrindo malvado, reerguendo o corpo, com a espada suja de sangue.
- ...TIAGO? – exclamou, sentindo o peito doer – O quê...?
Alguém bateu de encontro com Sirius e o jogou para trás do sofá, fazendo Tiago atingir uma estante com a espada, partindo-a em dois e fazendo s taças de vidro todas irem para o chão. Era Snape, que se ergueu, trazendo Sirius pelo colarinho:
- ...É um demônio na forma de Tiago! – exclamou – Lupin não deve ter tido tempo ou pernas para reagir!
Snape olhou para trás e saltou para trás, mas não teve tempo: a espada de Tiago lhe cortou as costas, na diagonal, fazendo-o cambalear. Sirius avançou, lhe acertando um soco no rosto, jogando Tiago para o outro sofá. Ao se erguer, seu nariz sangrava, mas algo negro, e não vermelho como sangue.
- Não vai ser tão fácil comigo, demônio.
Um vaso que pendia em cima da estante caiu, e Sirius olhou, assustando-se. E ao voltar a olhar o sofá, o demônio havia sumido.
- ...Já foi fácil. – sibilou o demônio, encostando a boca no ouvido de Sirius.
O bruxo de cabelos longos apenas sentiu a reluzente e fina espada de Tiago lhe atravessar as costas, varando o peito direito.
Tiago empurrou Sirius para o chão, e arrancou a espada. E caminhou muito calmo até a porta de saída, ainda aberta. Guardou a espada, fez um movimento com a mão e nela apareceu um elegante chapéu negro, que ele colocou na cabeça. Empurrou os óculos com os dedos da mão direita, abaixou o chapéu mais em sua cabeça, e deu as costas, saindo da casa:
- Três já foram.
Leah mexeu na cama, de manhã, acordando. Abriu os olhos e virou o corpo. Levou um susto ao ver que Lílian já estava acordada, olhando para ela.
- Oh, CÉUS, LÍLIAN! QUE SUSTO! – reclamou, virando o rosto e apertando-o com as mãos – Eu ODEIO que façam isso.
Lílian, que estava inocentemente encolhida em seu canto, juntou as sobrancelhas:
- ...Eu não fiz nada, estou tremendamente longe de você. A culpa é sua se me mandou dividir a cama.
- Não é isso. – resmungou, ainda apertando os olhos, de barriga pra cima – Odeio que fiquem com o rosto virado pro meu. Porque sinto como se a pessoa fosse MESMO fazer o que você estava fazendo.
- ...Ver você dormir? Ah, qual é, o que tem demais nisso? – estranhou.
- Não gosto. É horrível.
Lílian foi abrir a boca para comentar calmamente que Leah fica muito bem dormindo. Quase inocente e indefesa. Mas ficou quieta. Leah deu as costas, ainda resmungando:
- Não faça mais isso. Odeio.
A ruiva suspirou e se levantou, olhando por cima do ombro:
- Vocês escorpianos são tremendamente insensíveis para certas coisas. Chegam a ser cruelmente patéticos.
- Não coloque a culpa no meu signo. – resmungou, fechando os olhos de novo e abraçando o travesseiro.
- Coloco sim. – resmungou, coçando a nuca, saindo do quarto – Escrota sem coração desdotada de romantismo.
- Desdotada? – torceu o nariz, seguindo Lílian com os olhos, por cima do braço - ...Ei, não vai dormir? Ainda é mega cedo.
- Não. Não vou. Faz tempo que acordei. Continue você aí. – resmungou, azeda - Tenho que ir encontrar os rapazes, também.
Dumbledore estava parado na porta da casa dos garotos, agora cheia de aurores investigando e procurando rastros do demônio, mas nada dele. O professor mantinha a cabeça baixa, pensativo, quando alguém lhe chamou:
- Professor! Professor! – era Lílian, chegando, exasperada – Como estão os rapazes?
- Lílian. – disse, parecendo cansado, mas esboçando um sorriso – Estão fora de perigo. Mas estão atordoados. Não sabem dizer quem ou o quê os atacou.
A auror lançou o olhar para a sala e viu as marcas de sangue no chão e nos sofás, e sentiu o a garganta doer. Ainda bem que estavam a salvo.
- Recebi um comunicado agora à pouco, de que Leah está no hospital com o Arcebispo. Não encontramos nada aqui na varredura que fizemos.
- Eu também não achei nada nas redondezas. – comentou Lílian, já descendo as escadas da varanda e caminhando pro jardim com o professor – Acho que o demônio desapareceu, por enquanto, quando as coisas estão agitadas.
No hospital, os três bruxos estavam num quarto isolado, protegido por dois aurores na porta, e dormiam profundamente. Leah e o arcebispo Joaquim conversavam, sentados num banco do corredor. Dumbledore e Lílian haviam chegado a pouco tempo.
- Não tenho dúvidas de que os ferimentos deles foram feitos por alguma coisa muita fiada, quase como uma espada. – comentou Leah, se levantando e se debruçando na janela, olhando a grande praça do hospital – Mas até então já vi demônios usando garras como se fossem lâminas.
- Seria possível que ele usasse um encantamento ou um veneno para deixar as vítimas confusas? – perguntou Lílian, sentando-se no banco que Leah deixou vago.
- ...Talvez.
De repente Leah fixou os olhos no topo do prédio na frente do hospital.
- ...Vai chover. – comentou Dumbledore, olhando o tempo carregado de nuvens negras - ...O que foi, Leah?
Joaquim se ergueu na mesma hora:
- Demônios. – gemeu, segurando firme seu cajado – Estão perto.
Leah saiu correndo pelo corredor do hospital, e virou à esquerda, aumentando mais ainda a velocidade. Lílian se levantou e correu atrás dela:
- Leah! Espere!
No fim do corredor havia uma grande janela aberta. Leah corria, desviando dos médicos:
- SAIAM DA FRENTE! – gritou.
Ao chegar no fim do corredor, ela saltou para a janela, agarrando-se à borda, e pegou impulso, pulando no ar. Seu salto atravessou o canteiro e a avenida, e ela agarrou-se à borda do antigo prédio à frente do hospital, já na forma de Zz'Gashi. Correu pelo terraço do lugar, e continuou em frente, saltando pelos outros telhados.
- Não adianta fugir, eu sinto seu cheiro á distância, maldito! – gritou, em pleno ar, descendo veloz para um espaçoso terraço cheio de canos de ferro e chaminés.
Ela pousou com força no chão, quebrando algumas lajotas, e se reergueu, balançando a cauda de espinhos, impaciente.
- Apareça, maldito.
O vulto de um homem saiu de trás de uma das largas chaminés, de forma muito elegante, apoiado em sua bengala, e ergueu os olhos, levantando o chapéu negro:
- ...Você o faro melhor que de qualquer cachorro. Quase um tubarão, que sente uma gota de sangue a mais de um quilômetro de distância.
- ...Tiago? – gemeu Leah, sentindo o estômago esfriar.
- Parece que não fui o único a ter a sorte de reviver completamente, não? Você nem é mais aquele zumbi feio. Cheia de vida.
- ...Então você é o demônio. – rosnou, entre os dentes - ...Mas você não cheira como Tiago. Você não é o Tiago Potter!
Zz'Gashi avançou, e Tiago segurou suas mãos e girou, jogando o outro demônio contra uma pilha de canos de ferro, entortando-os e espalhando-os pelo terraço. Ele se ergueu, olhando Tiago fixamente.
- ...Resta saber que demônio é você. – gemeu Leah, na pele de Zz'gashi – Será um demônio que se tornou Tiago? ...Ou Tiago que se tornou demônio?
Leah sabia que tinha essas duas possibilidades. Mas não poderia adivinhar qual era. Tiago tinha ressentimentos e ódio suficientes para fazer acordo com algum demônio de grande poder como Thu'uban, e voltar à vida. Mas não tinha certeza, porque sabia que Tiago não aceitaria voltar como demônio para prejudicar a humanidade.
- O que foi? – perguntou, de forma sedosa – Não vai me atacar, Leah?
Ele retirou a espada, e apontou para ela:
- Vai ser uma presa fácil como os outros três foram?
- Então FOI VOCÊ! – urrou, avançando em Tiago.
Mas o demônio Munnin, na forma de Tiago, era espantosamente habilidoso. Defendia-se dos ataques de Zz'Gashi com certa facilidade, e lutava de igual para igual.
Leah tentava atingir Tiago com os espinhos, mas o máximo que ela conseguia era atingir a barra de seu sobretudo, ou do seu xale.
- Filho da mãe.
- Minha vez. Pode ser? – sorriu Tiago.
Ele atacou. E Leah não conseguiu ver. Vários ataques lhe atingiram, perfurando sua pele e sua grossa carapaça. A força a jogou longe, quebrando três chaminés de tijolos, e parando na borda no terraço, quebrando-o também. Leah abriu os olhos, sentindo o corpo todo doer. Seu braço estava pendurado para fora do alto prédio, e os cacos da borda e do chão despencavam para a rua.
- Forte. – gemeu em pensamento – Ele é muito forte. Mal consegui ver os ataques dele. E deixa... a cabeça da gente confusa. Não posso deixá-lo nesse mundo...
Leah olhava Tiago de longe, pendurada na borda do prédio. Fechou os olhos lentamente, caindo em meio às suas lembranças. Lembrou de tudo o que passou no outro mundo. Era um lugar terrível. Locais sem sol, onde o ar exalava cheiro de morte e coisa queimada. Céus escuros, cheios de nuvens, como o cenário da borda de um vulcão em erupção. Destruição. Vagou por pântanos de gente em putrefação, andou por multidões que gemiam de dor e não sabiam para onde ir, caminhou e foi açoitada em locais áridos, negros, como cemitérios a céu aberto. E em meio a essa punição toda, ela recebeu convites. Convites tentadores, sedutores demais, de inúmeros e poderosos demônios. Avisavam sobre o fim do mundo, chamavam por Zz'Gashi. Mas ela tinha uma vantagem inesperada: era já fora um demônio em vida, e saberia como seria se aceitasse qualquer proposta. Seria apenas usada como uma máquina de matar. E não era isso que ela queria.
Ela recusou cada convite, porque sabia que, se aceitasse, eles tomariam novamente seu corpo. Sua dúvida era essa: quem era o demônio á sua frente? Ele não cheirava como Tiago. Será que era apenas um demônio fantasiado de Tiago? Se fosse isso, ela poderia destruí-lo. Mas e se fosse Tiago? E se, de repente, Tiago na outra vida recebeu uma proposta e foi enganado? Os demônios poderiam ter prometido a ele voltar para os amigos, para família, reparar seus erros e voltar a viver em paz. Ele poderia ter sido enganado, se estivesse se sentindo culpado ou revoltado. Mas ainda que Tiago fosse egocêntrico ás vezes, ele não era alguém mau. Nem alguém mesquinho. Ele jamais aceitaria se tornar um demônio. Mas... ela ainda tinha suas dúvidas. ELA sabia que os demônios iriam a enganar, mas não sabia que demônio poderia ter tentado Tiago, não sabia se ele havia se deixado levar. Não poderia ferir Tiago.
Ele se aproximou, abaixando a aba do chapéu, sorrindo:
- ...Fraquinha você, heim? Que vergonha. – e pisou na lateral do corpo de Zz'Gashi, que sangrava – O que eu faço com você? Te jogo lá embaixo? Arranco sua cabeça e levo de presente pro seu irmão?
- PARE AÍ MESMO, DEMÔNIO!
- ...Não. – gemeu Leah, abrindo os olhos.
Lílian acabava de chegar, no lado oposto do terraço, os punhos fechados. Olhou Leah caída, e achou estranho um demônio tão pequeno fazer aquilo com ela.
- Não adianta estar na forma humana. – rosnou Lílian, em voz alta – Não vai se safar da gente.
O demônio sorriu, e virou-se. Caminhou alguns passos na direção de Lílian, e sorrindo, tirou o chapéu:
- Ora essa... voltou a ter aqueles cabelos vermelhos radiantes. Porque deixou ele ficar naquela cor tão opaca enquanto esteve comigo? Você fica muito, muito mais bela assim.
Lílian arregalou os olhos, perdeu a cor e a expressão de raiva. Seu corpo todo congelou.
- ...Tiago? – sussurrou, boquiaberta, sem entender.
- Sentiu minha falta? – sorriu o demônio, charmoso como Tiago sempre fora.
Lílian mordeu o lábio inferior com força, sentindo o corpo tremer e os olhos se encherem de lágrimas a cada passo que ele dava em sua direção.
Leah fechou os olhos e fez força para se levantar, mas não tinha condições. Tinha que gritar, impedir Lílian, avisar que era um demônio, mas não conseguia.
Tiago se aproximou mais ainda. Segurava a bengala em uma mão, e, com a outra, tocou o rosto de Lílian. Acariciou seu rosto e seus cabelos vermelhos:
- Você está linda. Linda como era. Como, no fundo, sempre foi. – Lílian baixou o rosto e pôs a mão tampando-o com força, desabando a chorar, tentando se conter. Tiago sorriu, e olhou para trás – Vamos, Lílian. Eu voltei só por sua causa. Não vamos deixar que nenhum demônio tome conta desse mundo.
Zz'Gashi estava de pé. Cambaleante, mas estava. Tiago parou de acariciar o rosto de Lílian, e voltou a olhar Leah:
- Vamos, vamos acabar com todos esses demônios que andam pela terra, e voltaremos a viver em paz como antes.
- ...Harry. – disse Lílian, entre soluços, olhando o chão – Onde está Harry?
- Harry? ...Harry. – pensou por um instante – Ah, sim, Harry. Ele também está de volta, meu amor. Voltaremos a viver felizes como antes. Não se preocupe com mais ninguém.
Tiago chegou perto de Leah, que havia se ajoelhado, sem forças para ficar de pé por muito tempo.
- Vamos começar por esse aqui. – sorriu, erguendo a espada e mirando o pescoço de Zz'Gashi – Será uma bela cabeça empalhada em nossa sala.
De repente o demônio sentiu algo se aproximar. Olhou para trás, e segurou o punho de Lílian a tempo.
- LÍLIAN! O que você?!
A bota da auror atingiu em cheio o rosto do demônio, jogando-o no chão. Ele se pôs de pé rápido, sem óculos, e se chapéu, que haviam caído com a pancada.
- NÃO VOU PERDOAR VOCÊ! – gritou Lílian.
Ela estava quase desfigurada de fúria. Seus olhos brilhavam, mantinha os dentes cerrados, e, se ela tivesse caninos afiados, não seria muito diferente de uma fera tomada pelo ódio.
- Lílian, o que está fazendo? – gemeu Tiago. Ela o agarrou pela gola da blusa e o bateu contra a parede. Em seguida girou o corpo, e o jogou longe de novo. O demônio deslizou com as mãos e pés, e se colocou de pé.
Ela sacou a espada, e atacou. Tiago ergueu sua espada, e tentou se defender. Mas a Matadragão simplesmente a partiu ao meio, o que obrigou Tiago a saltar para o alto de uma chaminé.
- COMO SE ATREVE A PROFANAR A IMAGEM DE TIAGO, SEU DEMÔNIO DESGRAÇADO!? – urrou Lílian, avançando novamente. Sua energia ricocheteava pelo lugar, de uma forma que ninguém nunca tinha sentido antes.
O demônio se apavorou: ela era muito forte. Atingiu a chaminé, e o desequilibrou. Tiago caiu de costas, e ao ergueu-se pelos cotovelos, deu de cara com Lílian, lhe apontando a espada.
- Eu simplesmente não sei como eu devo acabar com você. – rosnou Lílian – Mas todas as formas que me vem á cabeça parecem doces e suaves demais para você.
- Lílian! Meu amor! – gemeu Tiago, se erguendo, cambaleante – Sou eu! Como pode ter coragem de... AAAAAHHH!
Lílian passou a espada pelo ar, duas vezes. Munnin, na forma de Tiago, caiu, gritando de dor, sentindo os braços e pernas serem separados do seu corpo pela espada translúcida de Lílian. A auror ergueu a espada e a enterrou no peito do demônio.
- NÃO FAÇA ISSO! – gritou o demônio, começando a perder a forma de Tiago.
Lílian arrancou a espada de seu peito, e a enterrou de novo. E de novo. E de novo.O demônio já estava morto, com a boca aberta, os olhos vidrados e opacos, mas ela continuava a lhe perfurar, completamente carregada de fúria.
- Já chega. – sussurrou Zz'Gashi, de pé, segurando a mão de Lílian no ar, impedindo que ela atacasse o demônio de novo.
Lílian puxou as mãos com força, se erguendo. Ainda parecia furiosa, e ofegava. Leah olhou Lílian, como se não a reconhecesse.
- Não vou perdoar. – rosnou Lílian, passando a mão no rosto – Não vou perdoar esses demônios que usam de forma covarde a imagem daqueles que amávamos para tentar atingir seus objetivos.
Leah estava de volta ao hospital, na enfermaria, e retiravam alguns curativos dela.
- Já se curou. Em pouco mais de duas horas. – comentou um auror curandeiro – Incrível.
- É a vantagem da Pedra filosofal. – suspirou Leah – Obrigada.
Ela voltou para o corredor, e foi até a porta do quarto dos rapazes.
- Como estão? – perguntou.
- Eles não tem a Pedra Filosofal. Precisam ficar de molho mais tempo que você. Mas tudo bem. – sorriu Dumbledore –Lílian conversou com eles e contou tudo.
- Lílian me assustou. – comentou Leah, em voz baixa – Não sei como ela conseguiu fazer aquilo.
- Ela teve certeza de que aquele não era Tiago. – suspirou Dumbledore – Talvez ela fosse mesmo a única capaz de destruir aquele demônio. Nenhum de nós conseguiria. Talvez nem mesmo eu.
- Ela me lembrou... ela me lembrou eu mesma, na forma de um demônio.
Dumbledore riu, e passou a mãos nos ombros de Leah:
- Ela ainda está tensa. Vá conversa com ela. Foi na direção da sala de visitas, no fim do corredor.
Leah afirmou com a cabeça e saiu caminhando pelo corredor. Já estava chovendo, de forma mansa. Encontrou Lílian no fundo do corredor, numa pequena e simpática sala com sofás e televisão, que transmitia sem problemas ou interferência a programação da TV trouxa da região. Era visível que Lílian estava tensa. Olhava a chuva pela janela, e tinha o queixo e os punhos fechados, com força.
- E aí, ruivinha? – chamou Leah, em voz baixa.
Lílian suspirou, olhando Leah:
- Já está bem? Que bom. – disse, voltando a olhar a chuva.
A morena se aproximou, encostando na parede, olhando Lílian.
- Relaxe. Já acabou. Você foi ótima. – ela deu um meio sorriso – Ok, exaltou-se um pouquinho, mas acabou. Todo mundo tem o direito de se exaltar.
- Não vou perdoar esses demônios. Não vou. – gemeu Lílian – Não permitirei que usem as pessoas que amamos algum dia para isso. Não vou. Vou fazer todos eles se arrependerem de terem colocado os pés aqui.
Leah sentiu uma ponta de medo de Lílian. Como ela podia guardar em si tanto ódio e tanta fúria? Não parecia em nada com a Lílian que ela conhecia. Ela puxou Lílian e a abraçou. Mas Lílian não retribuiu, continuou parada, tensa. Quase tremia.
- Lílian, relaxe. Por favor. Relaxe. – Ela a apertou com força contra o peito, afundando o rosto dela no seu peito. Colocou as mãos de Lílian em suas costas, e voltou a passar os braços pelo pescoço da ruiva, apertando-a com a força que tinha – Vamos, relaxe.
Lílian apertou as mãos contra as costas de Leah, puxando sua blusa. Respirou fundo, tremendo. Leah sentiu que as unhas dela machucavam suas costas, mas que ela realmente precisava daquilo.
- ...Me aperte o quanto achar necessário. – sussurrou, lhe acariciando o cabelo.
A auror fechou os olhos, e respirou profundamente. E, devagar, relaxou, deixando toda a tensão esvair do corpo. Leah a apertou, esfregando a mãos em seus ombros, e lhe deu um beijo no canto da cabeça.
- Obrigada por ter salvado todos nós. E ter enxergado além da imagem. – disse Leah, ainda acariciando Lílian no abraço.
- Esqueça. Passou. – sussurrou Lílian, suspirando – Obrigada por se preocupar.
- Eu me preocupo. – disse Leah, baixando os olhos para a ruiva – Eu sempre vou me preocupar. Lílian sorriu largamente, com os lábios fechados, tombando o rosto – Ah, bem melhor assim, essa sua expressão.
- ...Nunca achei que fosse escutar isso de você. – disse Lílian, juntando as sobrancelhas, espantada – Nunca mesmo.
- Vou tentar falar esse tipo de coisa com mais freqüência. Acostume-se. Prometo.
- Pare de prometer. Você nunca pode cumprir.
- Eu só prometo o que sei que posso cumprir, não se preocupe. – riu, virando os olhos - Vamos voltar?
- Agora não. – disse, serena, olhando Leah – Quero ficar mais um pouco.
Leah sentiu um pequeno frio no estômago diante do olhar dela, mas ele não era ruim.
- ...Quer que eu fique ou que eu vá? – perguntou em tom baixo, ainda a olhando, com um leve sorriso.
Ela respondeu esticando o rosto, lhe dando um leve beijo nos lábios. Em seguida se aninhou novamente no abraço de Leah, puxando com a mão direita o rosto dela. Leah não resistiu, nem enrijeceu o pescoço, permitiu passivamente que Lílian puxasse sua nuca, e lhe beijou de forma doce e intensa, enquanto cruzava os braços na cintura dela, abraçando-a.
- Eu quero lhe pedir uma coisa. – sussurrou Lílian, afastando o rosto e lhe olhando fixamente, ainda com as mãos no rosto de Leah – Nunca permita que um demônio tome conta de você. E nunca permita que um demônio faça uso da sua imagem.
Leah sorriu, olhando-a ternamente, e perguntou em voz baixa:
- ...Você se esqueceu de que eu já sou um deles...?
Lílian suspirou, passando os dedos no queixo e no lábio inferior de Leah, e comentou, sorrindo:
- Você não é como eles. Você é o meu demônio. Isso faz toda a diferença.
Leah riu, pegou a mão de Lílian, lhe dando um suave beijo nela antes de retirá-la do rosto.
- Seu demônio. Sei. Eu não vou deixar isso acontecer. Nem no dia do fim do mundo.
- Então fico tranqüila. – sorriu Lílian – Afinal, já estamos nele.
As duas riram, antes de voltar para junto dos amigos, que ainda ficariam de molho até a manhã seguinte. Estavam ainda atordoados com o efeito dos ataques de Munnin, o que foi particularmente divertido para Joaquim, Dumbledore, Leah e Lílian, que riram bastante dos três.
Já era noite, e na varanda do segundo andar, Leah estava recostada numa cadeira de madeira, tipo espreguiçadeira, e olhava o céu cheio de estrelas. O chão ainda estava molhado por causa d chuva, mas o céu já estava sem nuvens. Ela estava deitada na cadeira, com os pés sobre a borda da varada, e balançava uma taça de vinho na mão, perdida em pensamentos.
Tudo o que acontecera ainda não saíra de sua cabeça. Andava lembrando principalmente de quando se tornou Zz'Gashi naquela vila portuguesa. Ela tinha achado que era o fim, mas Lílian a trouxe de volta. E agora, tinha destruído a imagem de Tiago. Era incrível: ela tinha sido capaz de ver alguém que era importante pra ela além de uma imagem de demônio, e também viu um demônio além da imagem de alguém que era importante pra ela. Merecia mesmo ser considerada a melhor bruxa de todas. Ninguém faria as coisas que ela faria.
Leah suspirou, e se levantou, levando a taça de vinho até a cozinha. Ao voltar para o quarto, viu Lílian terminando de amarrar o roupão que Leah lhe emprestara, olhando o espelho, com o cabelo preso por um palito de marfim. A bruxa parou e riu. Lílian olhou para ela, sorrindo torto, com cara de brava:
- Ok, a culpa é minha, não deveria ter aceitado suas roupas emprestadas.
O roupão era quase duas vezes maior que Lílian. Apesar de Leah se muito magra, ela era muito alta, coisa que Lílian não era. As roupas que Lílian usava de Leah sempre ficavam enormes.
- É, acho bom irmos pegar o resto das suas roupas, se você vai mesmo continuar aqui comigo. – sorriu, se aproximando.
- Sim. – comentou, olhando o pijama de manga comprida que Leah usava – Olha só esse seu pijama, só a blusa serve de camisola pra mim.
- ...Tampinha. – riu Leah.
Lílian olhou-a durante uns instantes, esticou os dedos e tocou a pele de Leah, entre as costelas, no decote da gola do pijama. Leah fez um "Hum?" e baixou os olhos: era sua cicatriz avermelhada, onde, logo abaixo, havia o caco da Pedra Filosofal.
- ...Por que você continua com ela? – perguntou Lílian, erguendo o olhar.
- Porque se eu retirá-la, eu morro. – disse, óbvia – Não é só uma vantagem em batalha.
- ...Achei que estivesse viva. – sussurrou, meio decepcionada.
- E estou. – disse Leah, puxando a mão de Lílian – Mas por causa da Pedra. Eu morri antes do início do apocalipse. Você morreu depois. Por isso sua morte pode ser considerada um "engano".
- Mas você colocou um caco da Pedra na minha boca.
- Sim, mas serviu só de 'catalisador'. Você não precisa mais da Pedra.
Leah suspirou profundamente, olhando o cabelo preso da ruiva. E arrancou o palito que o prendia.
- Ei, meu cabelo. – reclamou Lílian, pondo as mãos na nuca – Puxa, é muito difícil fazer esse penteado, eu não tenho a mínima coordenação. Desmancha prazer.
- Não amarre o cabelo. Você fica muito mais bonita com ele solto. – disse, passando a mãos nos cabelos finos e vermelhos dela, olhando-os, encantada com a cor.
Lílian olhou-a desconfiada:
- Se você continuar dizendo que sou bonita, vou acabar acreditando. Isso não vai ser bom.
- Não dê uma de desentendida. Idiota. – resmungou, sorrindo torto.
Ela baixou o olhar, e inclinou-se, fechando os olhos, dando-lhe um suave beijo. Em seguida lhe beijou o rosto, o pescoço, o ombro que quase ficava de fora debaixo daquele roupão enorme. Lílian encolheu-se, sentindo o corpo todo se arrepiar, e se afastou. Leah se sentiu um tanto sem graça do que havia feito, mas não deixou de reparar que ela havia ficado um tanto corada, o que lhe atiçou ainda mais os instintos.
- Não me olhe assim. – sussurrou Lílian. É, aquele olhar que ela tinha, aquele maldito olhar. Afiado, que dava a sensação de que ela era uma serpente, que iria lhe abraçar, lhe paralisar e lhe estrangular.
Mas Leah não conseguia parar de olhá-la. Os olhos verdes de Lílian, em qualquer situação que fosse, sempre lhe prendiam. Enfeitiçavam. Mesmo que parecesse ser o contrário.
- Não posso. Não consigo. Me desculpe. – sussurrou Leah, quase que sofrendo – Esqueça tudo que eu fiz de besteira na vida e tudo de mau que fiz para você. Vamos começar tudo de novo.
A ruiva sentia o estômago gelar. Olhava Leah, sentia sua respiração, e suas pernas fraquejavam. Ela deu um sorriso meio contido, e disse:
- Pra quê começar tudo de novo...? Eu acho ótimo do jeito que está. Se começássemos de novo, chegaríamos a outro lugar. – ela respirou fundo, passando a mão no rosto de Leah, e esticou a cabeça, completando suavemente – E eu... eu acho que talvez eu não gostaria de estar em outro lugar.
Leah sorriu torto, sentindo o estômago se encher de borboletas, e baixou o rosto, quando Lílian passou os braços pelo seu pescoço, encaixando suas bocas entreabertas. Ela fechou os olhos, respirando fundo, não sabia porquê, mas era o melhor beijo da sua vida. Foi tão intenso, tão demorado, que chegou a perder noção do tempo, do espaço e de si mesma. Quando abriu os olhos, abriu vagarosamente, assim que Lílian separou seus lábios dos dela. Ainda observou a ruiva longamente, sentindo o coração acelerado. Ela deu um passo para trás, puxando-a junto. E mais outro.
- ...Amo você. – sussurrou, quase que naturalmente.
Ela respondeu dando um meio sorriso, e disse:
- É... eu também amo você.
- Então não me falta mais nada. – sussurrou Leah de novo.
Lílian segurou-a pela gola do pijama, e a puxou, sorrindo, lhe dando outro beijo, deitando-se na cama e trazendo-a junto. Leah debruçou-se sobre ela, fazendo seus cabelos negros caírem sobre os vermelhos de Lílian, na colcha. Sentia o corpo todo arrepiar naquele beijo, mas não se atreveria a parar. A mão esquerda de Lílian lhe tocou o pescoço, entre os cabelos longos, puxando-a mais para baixo, enquanto, com a mão direita, ela puxou o laço do roupão de sua cintura, desfazendo-o. Leah respirou fundo, sentindo o coração bater mais forte. Estava ansiosa: com a mão trêmula, correu os dedos pelo roupão de Lílian, e, por debaixo dele, tocou sua pele quente e macia da cintura. Lílian encolheu o corpo, e suspirou, sentindo-se arrepiar. Por quase três segundos elas se olharam, antes de novamente fecharem os olhos e se beijarem intensa e urgentemente.
As duas não conseguiam acreditar no que estava acontecendo. Não com elas. Mas também não iriam conseguir parar.
N.A 1: Quero acabar Dooms logo. Primeiro pq definitivamente ñ me dou com slash, e segundo, pq quero acabar pra voltar a atenção à EdD, oras.
N.A 2: É complicado escrever sobre uma relação que a gente só pode imaginar. Nunca peguei nem fiquei com menina nenhuma, logo, me valho só do que eu penso que seja. E acho que nunca fica bom o suficiente. XD
N.A 3: Também me recusei a fazer uma cena mais ahm "explícita" porque primeiro eu ñ levo jeito pra cosia e, segundo, eu posso falar de coisas que não acontecem. Apesar de que, de fato, o que eu penso que acontece não deve ser muito diferente do que acontece. (AHN?)
N.A 4: Que venha o próximo capítulo. Espero que tenham gostado. E que gostem dos próximos (e últimos). Né?
