Ato XIV: Apocalipse

Ossos,

Ossos,

Ossos,

Carne e sangue.

(Overseer – Doomsday)



A luz do sol deixava uma linha luminosa nas gretas das portas de madeira da varanda. Lílian estava olhando para elas desde que acordou, ainda mole de sono. As cortinas finas e brancas não balançava, mas o barulho das folhas de fora denunciavam que ventava.

A ruiva suspirou, espreguiçando-se; levantou e abriu as portas da varanda, fazendo o quarto clarear. Fechou as cortinas, que começaram a balançar por causa da brisa. Ela voltou, pegou sua camisola caprichosamente dobrada na cadeira da penteadeira, e se vestiu. Passou a mão na franja, olhando-se no espelho, e voltou a se deitar, dessa vez de barriga para cima.

- ...Bom di. – disse Leah, em tom baixo.

Lílian olhou para o lado, e a bruxa já estava acordada, com as sobrancelhas levemente erguidas, deitada de lado. Lílian franziu a testa, virando o rosto para a esquerda, olhando leah:

- ...Você ta acordada há quanto tempo?

- ...Há um tempo. – sussurrou Leah.

- E tava me olhando? Se você não gosta que fiquem te olhando dormir, eu também não gosto.

- Mas você não disse que não gostava. – sorriu.

Lílian a olhou longamente. Leah parecia procurar alguma coisa no seu rosto, até que a ruiva sorriu, dizendo em tom firme:

- ...Bom dia, Leah.

- ...Bom dia, Lílian. – respondeu, também engrossando a voz e o tom firme.

Leah quase juntou as sobrancelhas, mas segurou sua expressão, para não demosntrá-la. E, depois de mais alguns instantes, perguntou:

- ...Ahm... e aí? Como vai?

A ruiva a olhou, torcendo o nariz, desconfiada. Sabia o que ela queria escutar em resposta.

- É... – disse brandamente, dando as costas para Leah e deitando de lado:

- ...No fim das contas, a gente vai sempre sentir falta de alguma coisa. – e fechou os olhos, rindo em pensamento.

Leah abriu a boca, e estreitou os olhos, inconformada. Respirou fundo e empurrou Lílian para fora da cama de uma vez.

- AH, QUAL É! – riu Lílian, se erguendo e se ajoelhando no tapete, tirando os lençóis que escorregaram com ela.

- Me devolva esse lençol. – resmungou Leah, puxando-o para si – por que você está de camisola e eu não?

- Ah, fala sério... – riu, virando os olhos e soltando o lençol – Você não acha que está um pouco tarde pra esse tipo de frescura?

- É um problema meu, sai pra lá. – resmungou, enrolando o lençol nas costas, cobrindo-se e se encolhendo, sentada na cama.

Lílian se sentou na cama de novo, tombando o rosto, olhando para Leah.

- ...Qui é? – resmungou a morena, erguendo as sobrancelhas, fingindo mau humor.

A ruiva sorriu, esticando o rosto lhe dando um beijo na bochecha.

Leah suspirou, e colocou a cabeça sobre o joelho dobrado, e disse, depois de alguns instantes:

- ...E pensar que algum tempo atrás a gente queria se matar.

- Eu nunca quis te matar. – defendeu-se Lílian, categórica – Talvez só quisesse fazer você sentir dor.

- o que é mais grave. – exclamou a morena, virando o solhos – Se você matar... matou. Agora só fazer a pessoa sentir dor... é meio que prazer de torturar alguém. O sofrimento não tem fim, já que você não morre.

Lílian gargalhou:

- Isso quer dizer o quê? Que sou pior que você? Céus!

Nisso alguma coisa fez barulho na mesinha ao lado da porta, onde havia um delicado vaso de lírios.

- Oh. Nosso comunicador. – falou Lílian, cruzando as pernas sobre a cama, olhando a pequena caixa prateada, que mais parecia um porta jóias – Precisamos ir.

Mas ela não se mexeu. Continuou olhando a caixinha. Suspirou, e olhou para trás. Leah estava sorrindo meio torto:

- Ora essa... você não tava achando que o sol não ia aparecer e essa noite ia ser pra sempre, não? Nosso dever é evitar o fim do mundo. Não esperar por ele.

Lílian suspirou profundamente, mais uma vez, e sorriu:

- Não achei, não. Mas, já que você comentou... pensando agora, bem que o novo dia poderia não ter começado, mesmo. – e se levantou.


A porta da sala secreta do Ministério se abriu, e Leah e Lílioan, devidamente uniformizadas, entraram:

- E aí? Tudo em cima?

- Em cima, Leah, só o buraco arreganhado do fim do mundo. – resmungou Snape.

- Deixa de ver velho amargo. – murmurou em resposta.

Joaquim se aproximou:

- Leah... poderia se transformar?

Ela entortou as sobrancelhas, olhando ao redor. Parecia que todo mundo a olhava, com ansiedade.

- Ahm... ok. Lá vai. – e se transformou em Zz'Gashi, com extrema facilidade. Quando abriu os olhos, sentiu-se maior e mais forte - ...UAU. Que é isso?

Lílian se afastou, como alguém que se sente incomodado com calor ou luz:

- ...O que houve com ela?...

- O poder de Zz'Gashi dobrou. Não... quase triplicou. – suspirou Joaquim, visivelmente abalado – A divisa entre os dois mundos não existe mais.

- Pe... peraí. – gaguejou Leah, com receio – Esse Zz'Gashi tunado é obra do apocalipse?

- Sim. O dia do Juízo Final chegou.


Os bruxos caminhavam em grupo, com exceção de Leah, que, na forma da Zz'Gashi, tinha ido para outro canto da cidade. A quantidade de demônios havia aumentado muito, e a paisagem havia mudado: era mesmo um cenário apocalíptico. Construções destruídas, cidade vazia, céu vermelho e negro.

- ...Onde nós estamos não dá para perceber isso. – comentou Lílian, sentindo o coração apertar.

- Não se preocupe, amanheceu assim. – disse Sirius, parecendo calmo - Mas desde que vocês chegaram, e ficamos fechados na sala do ministério, piorou demais. Vocês não viram porque vieram por uma chave de portal.

Lílian tinha um tom de voz bem penoso:

- ...Não achei que viveria para ver isso.

- É... mas veja bem, eu não achei que fosse viver para ver você e Leah juntas. O fim do mundo certamente faz muito mais sentido pra mim. – sorriu. Olhou a amiga, que pareceu bastante sem graça. Os outros estavam um pouco para frente, concentrados em localizar os demônios, e sequer notaram a conversa dos dois. Sirius a olhou, ainda sorrindo, e virou os olhos – Eu tenho um faro muito bom. Você sabe. O cheiro dela está em você. E vice versa. Percebi isso logo. Mas por mais estranho que possa parecer... não se preocupe, eu não tenho vontade de questionar nada, nem nada parecido.

- Ahm... ok. – foi o que conseguiu responder.

- Ei, vocês dois, não se afastem de nós, por favor. – pediu Dumbledore – Prestem atenção no que nos espera.

Os dois olharam para frente: uma nuvem de demônios parecidos com insetos se aproximava, veloz, voando.

- Preparem-se. – exclamou o bruxo – É agora... ou nunca.

Os Aurores Supremos empunharam suas varinhas e sacaram suas espadas, se preparando para defender e atacar. Joaquim ficou atrás deles, e fez seu cajado abençoado brilhar intensamente. Lílian deu alguns passos para a frente deles, girou a espada e a cravou no solo, fazendo surgir uma espécie de parede de fogo, que envolveu os bruxos. A nuvem de insetos atingiu-os em cheio, e a magia da parede de proteção os incinerava. Passava pelos bruxos uma gigantesca ventania, que estremecia até mesmo o chão. Lílian e Joaquim eram o alicerce, enquanto so outros bruxos destruíam os demônios que conseguiam vazar a proteção.


Leah saltava entre os prédios, pelos telhados, quando viu no outro extremo da cidade a nuvem negra avançar, e se chocar com um grande volume de poder.

- Será que estão bem? – pensou, saltando de um prédio para outro.

Alguma coisa a derrubou em pleno ar, em um terraço.

- ...É bom prestar atenção, irmãozinho.

Ela olhou para cima, e viu um uma mulher demônio pousando no terraço, como um inseto de quatro pernas e quatro braços.

- ...Quanto parente feio eu tenho. Sou a única bonita na família? – desdenhou Leah, se erguendo.

- Thu'uban é nosso irmão mais velho. Eu sou Ah'yla, a irmã do meio, e você... você está com os poderes de nosso irmão caçula, Zz'Gashi.

- È a velha história: o primeiro sai cru, o segundo sai queimado, e o terceiro... sai no ponto. Eu sabia que era a única que prestava. Ou, no caso, seu irmão, que agora sou eu. – sorriu, desdenhosa.

Ah'yla agarrou Zz'Gashi pelo pescoço, e o ergueu com facilidade. Um espinho em forma de lâmina surgiu nas costas da mão de Leah, que arrancou os braços do demônio e saltou para longe.

- Não tenho tempo nem ânimo pra brincar.

Ah'yla olhou os braços cortados com indiferença. Fez força e, com um urro, dois novos braços surgiram imediatamente onde haviam os dois primeiros.

- Ora essa. – gemeu Leah – Você já tinha quatro braços, os dois não fariam diferença.

- Ah, iam. – sorriu, esticando os quatro braços e disparando inúmeras magias esféricas contra Leah, que fugiu saltando pelas paredes.

Ela ia atacando, e a outra fugindo como podia. A magia era pequena, mas destruía o que tocava com uma força descomunal.

- Preciso me aproximar desse demônio, ataques a longa distância são o forte dela. – gemeu em pensamento – Se ela me acertar, já era.

Leah caiu no vão entre dois prédios, olhando para o céu. Pousou na parede e se encolheu, pegando impulso:

- Muito bem... vamos ver o que é esse "novo" Zz'Gashi é capaz de fazer.

Ela saltou e subiu como um raio. Ao sair de entre os prédios já girou o corpo, disparando inúmeros espinhos, tomando todo o terraço. E caiu entre o vão do outro lado. Escorregou de costas pela parede e se jogou em um grande duto de ventilação. Deslizou por ele, e ao sair, agarrou-se á parede e novamente se lançou no ar, encontrando Ah'yla de costas. Disparou mais uma chuva de espinhos antes de pousar na borda do outro prédio.

- ...Adorei. – sorriu.

Ah'yla tinha espinhos por todo o corpo. Arrancava-os um a um se preocupação:

- Acha que isso vai funcionar? Irmãozinho, você é melhor que isso.

- Sou mesmo.

Leah avançou e atingiu o peito da mulher demônio, jogando-a de costas. E escorregando até a borda do prédio. Fechou os punhos e os encheu de espinhos, e disparou uma série de socos na criatura. Mas ela parecia não sentir dor, apesar de grandes lascas de pele e carne voarem longe. Com duas mãos segurou os ombros de Leah e com as duas debaixo colocou-as no estômago dela. A bruxa imediatamente saltou para longe, girando no ar e pousando no outro prédio. Ah'yla, sangrando, se levantou, rindo debochada.

- Sabia que iria fugir com medo do meu ataque. Eu não ligaria de me ferir se explodisse você.

Zz'Gashi saltou entre os prédios e começou a correr, pulando sem parar entre as ruínas dos prédios, agarrando-se ás paredes e andando veloz por elas, grudado como uma aranha.

- ...Quer brincar? – sorriu Ah'yla, abrindo suas asas de besouro e voando - ...Tudo bem.

- Tenho que chegar a tempo. Tenho que chegar a tempo. – gemia Leah, correndo o máximo que podia.

Corria desesperada pelos prédios, saltando entre os andares abertos e quebrados, com o demônio atrás, destruindo tudo.

- Tem medo de usar suas asas? Ah, humanos não sabem voar. – sorriu o demônio – No fundo você é só uma humana, Zz'Gashi. Que peninha.

Leah saltou e escalou veloz alguns andaimes e alicerces de ferro, e se lançou no ar ao chegar no topo de um deles. Juntou os braços no corpo e despencou como um foguete. Ah'yla voou ao seu encontro, e ao entrar no buraco do telhado que Leah havia entrado, esticou as quatro mãos:

- SEU FIM, IRMÃO CAÇULA!

Ela disparou dezenas de magias em um segundo. De repente um líquido fedido lhe banhou inteira. Ela virou de costas e viu Leah presa ao telhado, apoiada numa enorme barra de sustentação, e, ao seu lado, um tanque de cobre rasgado.

- ...O que é isso?! – gemeu o demônio, sentindo-se zonzo. Olhou para baixo, e, no chão, metros abaixo de si, haviam inúmeros tanques de ferro, brilhantes. Nesse momento suas magias os atingiam.

- Isso chama-se gasolina. Espero que goste. – sorriu Leah, piscando um dos olhos – Já vai tarde.

Ah'yla gritou, mas era tarde. Leah imediatamente saltou para fora da laje do lugar, que se tornou uma potente bomba de chamas. Uma coluna de fogo subiu até o céu pelo furo do telhado, e chacoalhou o prédio todo, aquela parte da cidade inteira. Os dutos de gasolina e os tanques explodiram como um efeito dominó, engolindo o demônio. Leah tentou escapar, mas foi lançada a dezenas de metros do lugar, sendo soterrada por concreto e poeira.

Após a chuva de concreto e fogo, tudo silenciou.


Lílian agüentava firme, sentindo os músculos tremerem. A nuvem de demônios passou, e toda aquela pressão desapareceu, fazendo-a cambalear e dar alguns passos para frente, e cair de joelhos.

Dumbledore a segurou pelo braço:

- ...Tudo bem?

- Sim, só me desequilibrei. – suspirou, suando, ainda sentada no chão.

- Uau... foram embora. – comentou Sirius, olhando a nuvem de demônios desaparecer no céu.

- ...Mas matamos pelo menos metade deles. – aliviou-se Lupin.

Joaquim parecia exaustão também, e parou ao lado de Lílian, que, do chão, o olhou, tampando a luz vermelha do céu com a mão:

- ...Não se preocupe, reverendo. Não estou querendo morrer. Ainda tenho muita energia.

- Que bom. – sorriu – Eu também.

- Vamos em frente? – convidou Dumbledore, segurando Lílian pela mão e a levantando.

Ao se erguer, Lílian percebeu que havia alguma coisa metros á frente, numa nuvem de poeira amarela. Imediatamente empurrou Dumbledore com força, em cima de Snape e Lupin, que caíram com ele.

- SE AFASTEM! – ela gritou. Ao se virar e tentar se esquivar, um longo e brilhante espinho negro atravessou seu ombro direito, logo acima das costelas. Ela segurou um gemido de dor e caiu de costas de novo, levando a mão ao machucado.

Da nuvem de poeira surgiu Thu'uban, sorrindo, batendo seus cascos, excitado:

- Ora, desviou.

- LÍLIAN! – gritou Lupin, correndo até ela – Está bem?

Thu'uban fez aparecer outro espinho, que parecia uma lança longa e fina, e a segurou no ar, rindo:

- Sai da frente, magrelinho: vai atrapalhar minha mira.

Lílian segurou a barra da roupa de Lupin, mas não conseguiu pará-lo.

- NÃO FAÇA ISSO! – berrou Lílian, se desequilibrando.

Lupin saltou de encontro com o demônio, que mirou o espinhou e atirou. Mas não acertou nada: Dumbledore aparatou junto de Lupin e literalmente montou no jovem, jogando-o para o canto da rua, prendendo-o no chão:

- NÃO PERCA SUA CABEÇA! – exclamou para o aluno.

Thu'uban fez um gesto brusco com as mãos para cima, e uma enorme ventania varreu o lugar. Os bruxos simplesmente voaram para longe, como folhas de papel, caindo entre os escombros das proximidades, tontos. A única pessoa que ficou foi Lílian, segurando o ferimento que sangrava, ajoelhada no meio do asfalto da rua.

- ...Olá, belezinha. – sorriu Thu'uban, se aproximando – Me desculpe se a dor que está sentindo a impede de se mover.

- ...Não está incomodando. – disse, séria, olhando-o se aproximar, sem se mexer.

Vários espinhos apareceram flutuando ao redor do demônio, mirando Lílian. Ele abriu um largo sorriso:

- Ah, não está? Esses próximos vão.

- Nem vão, heim. – disse, despreocupada.

- ...Trate meio de se mover, bruxinha. Faça as coisas serem mais divertidas, por favor.

- ...Não preciso me mover.

Thu'uban respirou fundo e inclinou o corpo. Mas na hora que levou os braços para trás, para preparar o ataque, alguma coisa ao tingiu em cheio: Leah, como um torpedo, veio do céu, de entre as nuvens, o enterrou no asfalto, abrindo uma cratera, e voltou ao ar, como uma mola, girando o corpo e pousando com as grandes asas de Zz'gashi abertas, na frente de Thu'uban e de costas para Lílian.

- ...Eu disse que não ia precisar me mover. – sorriu Lílian, ainda no chão.

- Desculpe a demora, irmãozinho. Nossa irmã estava dando trabalho. Agora podemos aproveitar que é o fim do mundo e encerrar de vez esse assassinato em família?

Leah avançou contra Thu'uban. Zz'Gahsi estava muito maior, mas, mesmo assim, batia nos ombros de Thu'uban. O demônio defendeu os ataques com as mãos, apenas recuando.

- Está bem mais forte. Mas, como é o caçula, ainda é um frangote perto de mim. – sorriu o demônio, desprezando Leah.

Thu'uban disparou para o alto, voando com suas grandes asas negras, e ao chegar lá em cima, olhou para baixo:

- VENHA, Zz'Gashi, quero ver como se sai na altura!

- ...Vai se arrepender. – Zz'Gashi disparou veloz, e atingiu Thu'uban em cheio de novo.

A terra começou a tremer. Lílian se ergueu, dolorida. Os bruxos finalmente se aproximavam.

- Deixe-me ver esse machucado, Lílian. – pediu Snape, retirando da cintura uma bolsa de couro. Retirou a rolha do cantil e despejou o líquido em Lílian, que gemeu.

- AI, ISSO ARDE!

Ele comprimiu o ombro dela com um pano, e disse, tampando o frasco:

- ...Arde, mas vai cicatrizar em minutos. Não reclame.

Dumbledore ficou em fila com Lupin, Sirius e Joaquim.

- ...Vamos atirar. – disse, erguendo a varinha, dobrando um pouco os joelhos – Vamos atirar pra valer.

Todos dispararam. Inúmeras magia dispararam velozes até Thu'uban e Zz'Gashi. Atravessaram as asas do demônio e chamuscaram sua pele. Leah conseguiu voar para longe e desviar dos ataques, que passaram perto.

- ...Mortais desgraçados. – gemeu, chacoalhando a cabeça, zonzo. Ao abrir os olhos, deu de cara com Leah, com os punhos juntos, acima da cabeça. Ela desceu com força uma pancada que atingiu a nuca de Thu'uban e o jogou com violência na rua novamente, rachando o chão. O demônio se ergueu, e foi atingido por uma chuva de espinhos e de magias. O ataque cessou após mais de dois minutos.

Leah pousou entre os bruxos:

- ...Você estão bem? – perguntou, olhando os amigos, sujos, arranhados. Mas não tanto quanto ela, que também estava meio chamuscada. Baixou os olhos para Lílian e perguntou – E aí, baixinha, vamos acabar com isso logo e salvar o mundo?

- Seria ótimo. – suspirou.

- Vai ter que confiar completamente num demônio. – sorriu, virando os olhos.

- Eu certamente não teria problemas quanto á isso.

- ...Muito bom.

Thu'uban se erguia, entre a nuvem de poeira, e olhava furioso para todos.

- Certo, pessoal. – disse Leah, em voz alta – Vão procurar sobreviventes e se proteger. Nós damos conta desse capeta, aqui.

Ela saltou para o ar e se jogou no chão de ponta, como se fosse mergulhar numa piscina. E desapareceu, fazendo um furo no chão, como se caísse em algo tão fofo e frágil como uma farinha.

- ...Impressão ou ela encovou com muito mais facilidade? – perguntou Joaquim, apoiando-se no cajado, cansado.

- ...Ah, sim, foi muito mais fácil. – murmurou Lílian, entre os dentes, olhando o sinal do buraco. Leah havia desaparecido.

Thu'uban olhou para os bruxos, ao redor de si mesmo, e deu as costas, começando a correr para longe. Lílian olhou para trás, e disse, ansiosa:

- ...É a minha deixa. A gente se vê.

- Que Deus proteja vocês. – despediu-se Joaquim.

- Ele vai.

Lílian correu atrás de Thu'uban, deixando todos para trás. O demônio galopava e urrava, claramente chamando alguém.

E os demônios ao redor atendiam ao chamado dele. Surgiam das ruas ao lado, voando, correndo. Lílian pareceu não se importar. Meia dúzia de demônios vieram correndo na sua direção, pelo asfalto. Ela correu na direção deles também, sem mudar de direção. De repente dois enormes blocos de chão se ergueram, despedaçando o asfalto e fazendo os demônios baterem forte contra ele. Lílian saltou, pulou no primeiro bloco, no segundo, no terceiro e dele se atirou no prédio. Thu'uban olhou para trás, e se irritou de vê-la em seu encalço.

- ATAQUEM! – gritou para os demônios pequenos, que voavam.

Inúmeros longos e grossos espinhos romperam as paredes dos prédios, lançando pedaços de concreto e azulejo nos monstros que voavam perto da construção. Lílian pousou em um dos espinhos da parede, e assim seguiu correndo, sem perder o ritmo, subindo pelas paredes usando como escada os espinhos que pareciam adivinhar onde ela iria.

Ao se aproximar de uma grande esquina, um famoso cruzamento, um demônio grande surgiu, voando, abrindo sua boca com centenas de dentes pra Lílian. Mas ela continuou subindo pelos espinhos, olhando o demônio fixamente.

Zz'gashi saltou de dentro da parede do prédio, rompendo as placas de cerâmica. O demônio tentou olhar para o lado, mas não conseguiu: Leah girou no ar, abrindo os braços e passando os afiados espinhos das costas de sua mão no monstros, que se partiu em três pedaços e despencou. Ainda no ar, Zz'Gashi lançou o corpo para trás e mais uma vez se lançou contra o chão, afundando de novo.

Nesse intervalo de segundos, Lílian corria pela borda do prédio seguinte, ainda no encalço de Thu'uban.

- O mundo pode até acabar. – disse Lílian em voz alta – Ms nós vamos acabar com você primeiro.

O demônio se irritava. As dezenas de demônios menores que ele chamava para ataca-las eram inúteis. Lílian só tinha o trabalho de correr atrás dele, porque todas as outras criaturas eram mortas por Leah, que, escondida no solo, também se movia, fazendo surgir espinhos de qualquer lugar, e lançando pedaços de asfalto e escombros contra os inimigos.

- Tudo bem, mortais... farei como quiserem. – rosnou Thu'uban, parando de repente e se virando. Ele imediatamente juntou as mãos e as esticou para baixo, na direção do chão - ...E não pense que cairei nessa, irmãozinho estúpido!

Zz'gashi surgiu do chão, atingindo as mãos de Thu'uban. Ele imediatamente agarrou Zz'Gashi, e o lançou para o alto:

- ...Eu disse que não funcionaria!

- Mas o meu funciona. – disse Lílian, que descia do alto do prédio, veloz, erguendo a espada e pousando com violência no chão, atingindo Thu'uban na diagonal.

Ele mal se recuperou do corte, quando Leah desceu do ar, atingindo-o com os dois pés de novo, lhe dando uma tremenda carimbada.

- Fim do jogo. – sibilou Leah, curvada no chão, fazendo os espinhos de seu corpo aumentarem de tamanho.

- Não estamos nem aí para a desvantagem numérica. – disse Lílian, lhe apontando a espada.

Thu'uban não esperou: foi o primeiro a atacar. As duas tentavam se defender e atacar, mas era difícil. Leah era claramente a mais feroz, aproveitando toda a potência de Zz'Gashi, enquanto Lílian parecia esperar uma oportunidade, e destruía os demônios menores que apareciam tentando embosca-las.

Leah agarrou as mãos de Thu'uban, e ambos ficaram medindo forças.

- ...Desista. Já era pra você, irmãozão.

- ...Cedo demais pra isso.- sorriu.

Ele abriu os braços, puxando Leah para si: atingiu a testa dela com a própria testa. Ele se feriu, se cortando, mas quebrou os espinhos que ela tinha, também. Em seguida segurou a nuca dela com a mão esquerda e simplesmente a afundou no chão. Ergueu ela no ar e esticou a outra mão, que se transformou num grande espinho negro.

- ...Ainda está muito aquém dos meus poderes, tola mortal. – e a perfurou inúmeras vezes.

Ao atingir seu peito, Leah segurou a mão dele, gemendo:

- ...Aí você não toca.

"Que força", pensou Thu'uban.

- Protegendo o coração? As pedras que lhe mantém viva? Vai ser inútil.

A transparente lâmina da espada de Lílian atravessou o pescoço de Thu'uban, que se contorceu de dor.

- ...Droga. – gemeu o demônio, antes de ter a cabeça decepada.

Lílian saltou das costas dele, que tombou. Leah tratou meio de se afastar, cambaleando e caindo sentada no chão, longe do sangue que jorrava do corpo do demônio.

Thu'uban ainda urrou, e seu corpo sem cabeça tremeu, enquanto o sangue saía. Lentamente, ele se tornou um corpo despedaçado, um monte de poeira negra.

Lílian ofegou, olhando o corpo do demônio. Olhou para trás, e correu até Leah, que sangrava por inúmeros ferimentos.

- ...Você está bem?

- ...Liga não. Já já isso tudo cicatriza. Só preciso ficar um pouco quieta.

A bruxa se reergueu, e olhou ao redor: a ventania continuava, o cenário também, inúmeros demônios tomavam conta dos céus.

- ...Não acabou? – lamentou Lílian, olhando para trás.

- ...Acho que não. – também lamentou Leah – Achei que se matássemos os demônios maiores, tudo voltaria ao normal.

- Vai acabar assim? Será que não falta mais algum?

- ...Eu? – perguntou, dolorida.

- Não. – disse Lílian, segura – Você não é mais Zz'Gashi. Ele foi o primeiro a morrer.

Leah deixou a forma de Zz'Gashi, e voltou a ser humana. Ela se olhou, estranhando:

- ...Ué. "Desvirei" sozinha.

Lílian olhou ao redor. Inúmeros demônios se aproximavam.

- ...Droga. – gemeu - ...Não terei força para atacar todos.

- Nem eu. – disse Leah – Meu fogo "acabou de acabar".

Quando os demônios estavam próximos, as duas escutaram uma voz ressoar pela cidade toda, fazendo-as estremecerem:

- ...Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo... à sobra do Onipotente descansará.

Nisso uma intensa luz branca percorreu toda a cidade, cegando a todos, e pulverizando todos os demônios. Quando abriram os olhos, as duas perceberam que, do fundo da rua, uma figura peculiar aparecia: era um homem, magro, de cabelos negros na altura dos ombros e um pouco de barba no queixo e um grande vestido branco caminhava, de pés no chão.

Ele se aproximou das duas, sorrindo despreocupado:

- Ora essa... quando me mandaram para cá... achei que não encontraria nem vestígio da raça humana. Acho que no fim das contas, alguns de vocês foram mais teimosos do que baratas.

Lílian e Leah se entreolharam. De onde tinha vindo alguém tão limpinho... e tão poderoso?

- Vem cá, rapaz... – disse Leah, incrivelmente constrangida. Era como se não tivessem o direito de falar ou olhar para aquela criatura iluminada. Mas... ela abriu a boca, e perguntou - ...Você é Jesus?

O rapaz gargalhou gostoso, e disse, sorrindo:

- ...Não. Não sou Jesus. Mas... – ele ergueu o braço direito, exatamente debaixo do centro do enorme buraco negro do céu - ...Vim limpar toda essa sujeira. Aproveitem o show.

Ele lentamente foi fechando os dedos das mãos. E, junto dos dedos, aquele enorme buraco acompanhou, se fechando completamente, diante dos olhos de duas bruxas completamente sem reação.


N.A 1: Sei que demorei, e me envergonho disso. Mas vamos esquecer esse meu hiato e ficar feliz que vem o último capítulo da Dooms. XD

N.A 2: Não tenho muito o que falar. Está aí. Capítulo que vem acaba. Será que esse tiozinho que parece ser iluminado vai mesmo salvar todos do fim do mundo? Ou vai apenas acabar com o fim do mundo JUNTO com o mundo?

N.A 3: Como sempre, perdoem os erros cabulosos do capítulo, não tem betagem. E estou há mais de mês parada. XD