Ato XV: Me Cerque Com Seu Amor

Olá?
Você pode me escutar?

Por favor não vá
Para onde você está indo?
As conversas passam pela minha cabeça
A solidão tem uma cara feia
Me cerque com o seu amor
Me entenda, eu preciso de você agora
Me cerque com as suas palavras
Me entenda, eu preciso do seu amor
Eu preciso do seu amor

Olá?
Estou tão só
E isso faz eu me sentir doente
Venha e fique, fique ao meu lado
Fiquem para sempre e nunca mais vá embora
Me cerque com o seu amor
Me entenda, eu preciso de você agora
Me cerque com as suas palavras
Me entenda, eu preciso do seu amor

(3-11 Porter – Surround me With Your Love)



O misterioso homem olhava o céu, fechando a mão lentamente. E seguindo seu movimento, o enorme rasgo do céu foi se fechando, girando num redemoinho, que carregava quase o mundo todo numa enorme ventania.

Os demônios eram sugados para dentro da fenda que se fechava. E aquele homem nem parecia se esforçar pra isso.

- ...Me façam um favor? – pediu o homem.

- Claro. – disse Lílian, ainda chocada com o poder dele.

- Nas margens do rio... há alguém que precisa ser eliminado ou imobilizado, para que eu consiga fazer tudo isso. Ele é um homem loiro e esguio. Não se enganem, apenas a aparência é humana.

- Certo. Vamos. – Lílian deu as costas e começou a correr.

Leah foi atrás, mas de repente parou e voltou correndo.

- ...O que houve? – perguntou o homem.

- ...Autografa minhas costas? – perguntou, simplória.

- ...Autografa?

- Sim. Escrever seu nome. Não sei quando vou ver Jesus de novo, não posso perder essa oportunidade!

- ...Eu não sou Jesus. – murmurou o homem, entediado – Só porque sou um grande espírito de luz não quer dizer que eu seja o Filho.

- Quem se importa? Deus veio várias vezes sob várias formas. Ninguém garante que não seja você. - "Mas eu estou dizendo...", murmurou o homem – Não me interessa, quero que assine Jesus Cristo nas minhas costas.

Leah deu as costas pro homem e puxou a blusa, exibindo o lado esquerdo do ombro. Ele suspirou penosamente, e balançou a cabeça, esticando o dedo e escrevendo na pele de Leah, que se queimou e se marcou com o nome.

- Aaaai... isso ardeu. – gemeu, para se levantar em seguida – Obrigada.


Lílian corria ás margens do rio, tendo como vista o Big Bem, quando leah a alcançou.

- Onde estava? – perguntou.

- ...Trocando uma idéia com Jesus.

- ...Mas ele disse que não era Jesus... – gemeu Lílian.

- Quem sabe, né? É o fim do mundo.

- É mesmo. – ressoou uma voz suave.

As duas pararam e olharam dos lados. Quem tinha falado tão docemente e tão claramente naquela tremenda anarquia? Olharam para cima. Para o alto. No topo da torre do relógio. Lá estava um homem bonito, loiro, cabelo na altura dos ombros, balançando ao vento. Usava um terno preto muito bem arrumado, e tinha olhos com fundo negro e íris vermelha.

- Estão me procurando? – sorriu, com as mãos no bolso – Não sou o único ser onisciente daqui.

Leah sentiu a espinha gelar:

- ...Esse cara não é boa coisa.

- Se eu conseguir libertar uma das responsáveis pelo início do Fim do Mundo, eu vencerei.

- Se tá atrás de Zz'Gashi, ele já era! – disse Leah, mantendo a guarda.

- Não quero um frango como Zz'Gashi. – sorriu – Estou me referindo à Lilith.

Leah sentiu a espinha gelar. Olhou para trás, e Lílian a olhava, meio insegura.

- ...Você é um demônio e nunca me contou? – perguntou Leah, apavorada.

- Não sou um demônio. Sou quase um anjo. – murmurou Lílian.

- Lilith foi a primeira mulher de Adão, que foi expulsa do paraíso por Deus, e se tornou a demônio mais foda de todos! – Leah virou para o homem no topo do relógio, e gritou - ...Essa é a explicação para o poder descomunal dessa mulher!?

- Não é culpa dela se Lilith resolveu escapar do meu mundo. – ele saltou do alto do relógio, e pousou delicadamente nas pedras da rua. Se ergueu, sorrindo – Ela só não achava que uma sucessão de fatos a faria usar todos os poderes, se ferir espiritualmente, e despertar um lado oculto nela que... deu brecha para que meus subordinados viessem aqui iniciar o Apocalipse.

Leah avançou. O homem ergueu a palma da mão e parou o ataque de Leah, que se congelou no ar. Ele virou-se para ela, e disse, sorrindo:

- ...Você não pode com Lúcifer, seu zero á esquerda. – e, com um movimento, a tirou Leah contra uma estátua, na praça do outro lado do rio.

Lílian estava apavorada. Olhou fixamente os olhos do homem, que se aproximava calmamente.

- ...Você é Lúcifer? – sussurrou, paralisada.

O loiro sorriu:

- ...O diabo não é tão feito quanto pintam, não é?

Lílian tentou segurar as mãos dele, mas ele foi muito mais rápido: enterrou os dedos sem dó em sua barriga. Ela se curvou, sentindo uma dor horrível percorrer todo seu corpo, fazendo-a se engasgar.

- Olha só isso... daqui de dentro posso tocar o que quiser em você. – sorriu Lúcifer, com a mão direita enterrada até o pulso no corpo de Lílian – Sua espinha, suas vísceras, seu coração... como o homem é uma criatura frágil.

- ...Se quer continuar com seu braço inteiro, é bom tirar ele de perto de mim. – gemeu a ruiva, agarrando o braço do demônio.

Lúcifer puxou o braço, afastando-se. Lílian se curvou, segurando o ferimento, caindo de joelhos.

- ...Bom ver você de novo, Lilith. – sorriu, olhando para a ruiva.

Lílian, de joelhos, ergueu o olhar, ofegando. Seus olhos foram marcados com uma mancha negra, como se fosse um sinal, e seu olhar se tornou completamente branco, brilhante. Todos os seus ferimentos sararam, e uma grande aura de energia parecia sair de seu corpo, como se tentasse atacar qualquer coisa que se aproximasse.

- ...Não gosto desse lugar. – rosnou, com dentes afiados, se erguendo.

O demônio virou-se bruscamente, e três espinhos afiados de Zz'Gashi passaram passaram por ele, evitando de atingi-lo em cheio pelas costas. Lílian ergueu o braço esquerdo no rosto, agachando-se, e os espinhos se enterraram em seu braço. Ela novamente endireitou a postura, olhou os espinhos em sua carne e os arrancou, sem fazer sequer uma expressão de dor.

- Traiçoeira, você. – murmurou, olhando Leah, do outro lado do rio. Os ferimentos nem sangraram: se fecharam por completo.

Num piscar de olhos, ela saltou de onde estava e parou na frente de Leah.

- ...É rápida! – espantou-se Leah, que imediatamente saltou para o ar. As asas de Zz'Gashi, feita de espinhos e uma fina camada de pele, a lançou para bem alto.

A ruiva sorriu, olhando para o alto:

- Você também pode voar? Interessante.

- ...Como "eu também"? – murmurou Leah, para si mesma.

A roupa branca de auror de Lílian se rompeu nas costas, e a bruxa, agora como Lilith, exibiu um par de enormes asas negras. Tão negras que as penas até brilhavam, como aqueles cabelos que são tão negros que parecem ter um reflexo azul metálico.

Ela voou com tremenda rapidez, como uma águia atacando a presa, e atingiu Leah em cheio.

- Ela é rápida... e MUITO forte. - gemeu Leah, agarrando-se aos ombros de Lílian. Ela reuniu todas as forças da forma de Zz'Gashi e consegui jogar Lílian para longe, girando no ar e pousando num prédio, enquanto a ruiva era jogada contra outro prédio, abrindo um buraco em sua parede.

- Estou cansada de estar SEMPRE atrás de você, Lílian! – urrou Leah, correndo pelo terraço e se lançando no buraco que a rival havia aberto – Eu fiquei até feliz de virar Zz'Gashi, porque eu tinha certeza que você NUNCA SERIA UM DEMÔNIO! Mas... Mas ATÉ NISSO VOCÊ ME SUPERA!

O demônio caiu com estrondo no chão, e olhou ao redor: estava no meio do hall de entrada de um grande centro de convenções. A fonte do lugar, que ficava no centro, jorrando água em suas estátuas douradas, estava esmigalhada. Provavelmente onde Lílian havia caído.

- Não posso fazer nada se sou toda boa. – sorriu Lilith, vindo do fundo do lugar, sorrindo.

Leah rangeu os afiados dentes de Zz'Gashi:

- ...Vou te encher de porrada. Mas vou dar tanta que você vai sair do corpo da Lílian na marra.

Nisso outra figura aparecia: Lúcifer.

- ...As garotas não deviam fazer um show tão longe de mim, não. Afinal, eu sou o principal anfitrião da festa.


Dumbledore estava recostado nos escombros de algumas construções, olhando o céu que se movia. Estava ferido e esgotado. Os bruxos haviam se separado, e parte deles não tinha contato mais. Foi quando o simpático homem de túnica se aproximou:

- ...Onde está seu amigo Joaquim? – perguntou, sorrindo, sereno.

O bruxo logo desconfiou que aquele homem, ou espírito, ou seja lá o que ele fosse, era muito, muito poderoso. Dumbledore abaixou a cabeça, e suspirou:

- Arcebispo Joaquim está mais nos fundos.

- ...Consegue se levantar, meu irmão?

Dumbledore o olhou por uns instantes, e afirmou com um aceno de cabeça.

O homem caminhou alguns passos e encontrou Joaquim morto, caído no chão, com seu cajado dourado ainda em suas mãos. Parecia apenas dormir, apesar de muito ferido.

- ...Porque dorme, meu irmão? – perguntou, esticando a mão na direção do arcebispo – Trabalhaste muito, mas o mundo ainda precisa da tua paz.

Joaquim abriu os olhos. Piscou, respirou fundo, e se sentou. Olhou o homem á sua frente, sem palavras.

- ...Todos aqueles que caíram durante o Apocalipse irão retornar à vida sob meu comando. Suas vidas tiradas são apenas uma infelicidade do destino, que não posso permitir que aconteça.

- ...O senhor é o tal Jesus? – perguntou Snape, cansado, recostado numa parede.

O homem suspirou profundamente:

- Ok, me chamem do que quiser, já cansei de todo mundo me fazer essa bendita pergunta. Tudo bem, podem me chamar de Jesus, mesmo. Ele vai me perdoar por isso. Agora vamos, amigos, o Apocalipse está chegando ao fim.


- Vamos lá Lilith, meu amor, acabe com Zz'Gashi. – sorriu Lúcifer, andando em círculos, ao redor de Lílian e Leah – Mate o último empecilho que temos na nossa frente. Com ele fora de combate, qualquer um de nós derrotará os outros.

Lílian virou-se, olhando para Leah fixamente, e puxou a espada da cintura.

- ...Se ta achando que vai ser fácil, pode tirar o cavalinho da chuva. – rosnou Leah, curvando-se e balançando a cauda, impaciente.

Lúcifer a incentivou mais ainda, parando e erguendo os braços:

- Vá! Arranque a cabeça desse traidor, Lilith! Vamos governar pra sempre o mundo dos homens, meu amor!

Lilith ergueu a espada, e se encolheu, pronta para atingir Zz'Gashi de forma certeira, como uma lança. Desapareceu. Leah fez aparecer nas costas das mãos dois espinhos, afiados como foices, e se encolheu também, pronta pra atacar. Mas Lilith apareceu na frente de Lúcifer, e enterrou a espada em seu peito, atravessando-o. Agarrou o pescoço dele com a mão esquerda, e segurou firmemente a espada em seu peito com a direita, girando-a.

- ...O quê...? – gemeu, olhando-a, assustado.

- Eu não sou Lilith. – rosnou Lílian, girando a espada mais um pouco, com um tranco – E muito menos sou seu amor.

A ruiva empurrou o demônio para longe, e puxou a espada, que brilhou, com uma luz branca. Lúcifer caiu no chão, sangrando, jorrando uma fumaça negra de se ferimento, junto do sangue, também negro. Ele gemeu, perdendo as forças, e seu corpo simplesmente se queimou, numa autocombustão.

Lílian se virou, e ao ficar de frente para Leah, sentiu os dois afiados espinhos das mãos de Leah atravessar-lhe o peito.

- Uh... o quê... está fazendo?! – gemeu, agarrando-se aos braços de Leah, esticados e tocando seu peito, atravessado pelos espinhos.

- Por via das dúvidas, né?... – disse Leah, séria. Colocou o pé na barriga de Lílian e a empurrou no chão, retirando e recolhendo os espinhos.

A ruiva se contorcia de dor, e sangrava. Leah caiu de joelhos, respirando junto, cansada.

Nisso os outros bruxos entraram: Joaquim, Dumbledore, Snape, acompanhados do homem que agora já nem ligava de ser chamado de Jesus.

- ...E aí, Jesus? – sorriu Leah.

- ...Eu realmente espero que não seja punido por isso quando voltar pra casa. – sorriu, virando os olhos – Falsidade ideológica não é pecado, mas é crime. – ele olhou para o chão queimado, e sorriu - ...Sabia que conseguiriam.

Ele esticou as mãos na direção de Leah e Lílian, e ambas, em instantes, se curaram. E também voltaram "á forma humana".

- Chega, hora de descansarem.

O sol lá fora aparecia, tímido, entre nuvens agora normais, mas cinza. E entre os raios de sol, começou a chover. Como se o mundo precisasse "de um banho". As gotas de água caíam e, com o reflexo da luz do sol, pareciam gotas de luz.

Leah respirou aliviada, ainda no chão, com a mão na barriga. Olhou para o lado, e viu Lílian, de volta ao "normal", ainda ofegando, com a mãos no peito, se sentando.

- Ai... ai... isso doeu. Doeu muito.

- Você mandou bem, Liloca. – sorriu Leah, também se sentando.

Lílian olhou para o lado, e enfiou um soco na cara de Leah, e as duas novamente caíram de costas, deitadas no chão.

- ...VOCÊ TENTOU ME MATAR, SUA FILHA DA PUTA! – xingou Lílian, em voz alta, ainda gemendo de dor.

Leah gargalhou, também gemendo, com as duas mãos no rosto.

- ...Ai, isso doeu.

- Acho que agora tudo parece ter voltado ao normal. – sorriu Joaquim.

- ...Sim. Vamos todos para casa. Hora de reconstruir – comentou o 'falso' Jesus, dando as costas, também sorrindo.


Os bruxos estavam de volta à casa de Sirius, conversando. Lá fora, o sol de novo brilhava, o tempo era muito fresco e parecia até que uma primavera tinha começado "do nada". Tudo, aparentemente, tinha voltado ao normal. Poucos dias tinham se passado.

- Finalmente conseguimos nos reunir de novo, heim? – comentou Lupin, cansado – Acho que reconstruir tudo está dando mais trabalho que aquela horda de demônios no apocalipse.

- Sem dúvida. – suspirou Joaquim, com alguns curativos pelo corpo, ainda - ...Nunca imaginei que fosse presenciar o fim do mundo... e sobrevivido à ele.

- Mas muita gente não ficou pra contar história. – comentou Snape, sentado no sofá – Só os bons e justos sobreviveram. Ou voltaram à vida. – ele pensou, e comentou, fazendo os outros rirem – Se EU continuo vivo, francamente, esse apocalipse não fez sentido pra mim.

- EU ainda estou viva. – riu Leah – Quer dizer... pseudo-viva, não? Mas ainda respiro e faço tudo que um ser humano vivo faz.

- Ainda não acredito que Lílian era um dos demônios mais poderosos. – murmurou Sirius, desconfiado – Leah ser um deles, até que vai, mas não acha muita responsabilidade ser logo a Lilith?

- ...Estou tão entorpecida com tudo isso, que tanto faz. – suspirou Lílian, balançando a cabeça – Mas, sinceramente, não achei nada de diferente em mim quando Lúcifer me transformou. Só senti um tremendo poder saindo de mim. ...Ser Zz'Gashi deve ser mais divertido.

- Não é não. – gemeu Leah – Ás vezes me desequilibro na forma dele, é muito grande e desengonçado.

- Acho que você se dá bem na forma dele. – comentou Lílian, torcendo o nariz – E me dá trabalho, também.

- Ah, isso eu sempre dei, de qualquer jeito. – riu Leah.

Dumbledore chegou junto de Joaquim.

- ...Como vão? – cumprimentou, sorrindo. Da última batalha, só lhe restou uma cicatriz no rosto, que sumia sob sua barba. Ele sentou-se numa das poltronas, e olhou Leah - ...Leah?

A morena suspirou, coçando a nuca:

- Não me decidi. Façam o que acharem melhor.

- Não estamos felizes de ter de fazer isso. Apesar de sabermos que nós erramos desde o começo. – avisou o arcebispo, agora sem suas elegantes roupas.

- Ah, desde que apareci aqui de novo, sabia que não deveria estar. – sorriu, dando de ombros.

Lílian percebeu que Snape, Sirius e Lupin não entendiam o tom da conversa, e explicou:

- O apocalipse passou, e tudo voltou ao normal. Ou quase tudo. As pessoas que morreram desde que o fim do mundo iniciou, voltaram à vida. Mas quem morreu antes, ou morre agora, não. - ela suspirou, e abraçou as pernas, colocando-as sobre o sofá – Isso explica porque eu continuo viva. Eu me matei após o início do Apocalipse, quando os mundos se tornaram um só. Por isso me foi concedido o direito de continuar viva. Mas isso não se aplica, por exemplo, ao Tiago e ao Harry, que morreram antes. – ela parou pro um instante, dando um sorriso meio decepcionado, e completou – e isso, logicamente, também se aplica à Leah, que morreu há muitos anos atrás.

- ...Então porque ainda não morreu de novo? Ou, sei lá, foi levada embora? – perguntou Sirius, olhando Leah.

- Porque precisam me tirar a Pedra Filosofal do peito. – sorriu, sem se sentir mal – Digamos que aquele espírito que veio pra cá e ajudou a consertar tudo me deu um tempo a mais. Ele queria que eu ajudasse a reconstruir esse mundo, e só depois voltasse pro outro mundo.

- E ele confiou na gente? Podemos te deixar aqui pra sempre. – murmurou Snape.

- Mas eu não quero. – disse Leah – Já não deveria estar aqui. Só estou terminando de fazer tudo o que acho que devo fazer.

- E você não vai fazer nada? – perguntou Sirius, quase automaticamente, olhando Lílian.

Lílian ergueu as sobrancelhas, e pensou um pouco antes de responder:

- Bom... é a vontade divina. Não posso fazer nada. E se Leah quer assim, ela sabe o que é melhor pra ela.

- Não quero ficar mais por muito tempo aqui, também. – avisou Leah, de braços cruzados – Já fiquei além da conta. E como topei ajudar tanto no fim do mundo e tal, não precisarei voltar mais pro Umbral. Talvez eu fique só mais um pouco no purgatório, e de lá já vá pra algum lugar melhor. – sorriu, dando de ombros.

- Ainda acho estranho você falando do mundo pós-vida de forma tão simples e natural. – suspirou Sirius, balançando a cabeça.

- Tudo está voltando ao normal. – disse Joaquim – as pessoas que estiveram no fim do mundo, voltaram às suas vidas normais, sem se lembrar de nada.

- De que adiantou passarem pelo Juízo Final? – murmurou Lupin – Todos continuarão cometendo os mesmos erros.

- Sou otimista. – sorriu o religioso – Tudo que ficou está no subconsciente das pessoas. O mundo, devagar, vai melhorar.


Já era noite quando os rapazes conversavam na varanda, sentados nas cadeiras, olhando o céu estrelado com uma brilhante lua cheia.

- ...Sua poção nova está excelente, heim, Snape? – comentou Sirius, olhando pra Lupin, que, sem problemas, olhava a lua cheia.

- É. Acho que cheguei a uma fórmula ideal. – sorriu o bruxo, sem falsa modéstia.

- Ainda não entendo. – murmurou Lupin.

Snape e Sirius se olharam:

- O que, Lupin? – perguntou Sirius.

- ...Por que Leah aceitou numa boa morrer de novo? – perguntou, virando-se pros amigos – E por que Lílian está tão conformada?

- ...Sei lá. – disse Sirius, dando de ombros – Ás vezes a gente chega numa hora da vida que entende que certas coisas precisam acontecer.

- ...Eu nunca vou entender como funciona ou o que move a relação das duas. – disse, meio amargurado.

- ...Ás vezes não é pra entender. – sorriu Sirius.


Leah a Lílian estavam de volta à distante casa, que, agora, parecia não ter mais sentido de existir, apesar de ser num lugar muito bonito e tranqüilo. As duas, deitadas na cama, conversavam já há mais de hora, sem noção alguma do tempo. Lílian estava recostada em um travesseiro, com Leah encostada em seu ombro direito, e de mãos dadas.

- Estava pensando... acho que já é hora de sair dessa casa. – comentou Leah, meio desanimada – Não sou mais ameaça, e, sem demônios, não é mais necessário ficar aqui.

- É verdade. Mas, sabe... – comentou Lílian, mexendo nos dedo de Leah, entrelaçados aos seus – Eu gosto muito daqui.

- Também gosto. É bastante tranqüilo.

- ...Já é tarde. – disse Lilian, mudando de assunto, olhando os vidros da varanda – Vou tomar banho. Aliás, um bom banho de banheira.

Leah sorriu, fechando os olhos:

- Hum... banho de banheira. Relaxa... ai que inveja.

- Quer tomar também? – perguntou, olhando pra ela.

A morena respirou fundo, pensando:

- ...Só se você esfregar minhas costas.

Lílian gargalhou:

- Folgada!

Já na banheira, Lílian tentava retirar os flocos de espuma do cabelo, preso num coque, mas era em vão, já que a mão estava cheia de espuma. Leah está na sua frente, também encostada na borda da banheira, e encheu a mãos com a espuma e soprou em cima da ruiva.

- NÃO FAÇA ISSO, DROGA! – riu Lílian, se encolhendo – Não quero molhar o cabelo!

Leah riu, e abraçou os joelhos, sentando-se meio encolhida:

- Então... – começou, vagarosamente – Quando você quer que eu vá embora?

- Nunca. – disse, óbvia, com o rosto de lado, tentando colocar a franja arrepiada no lugar, para não molhar.

Leah a olhou com os olhos estreitos:

- Sem brincadeira. É sério.

- Mas é sério. – sorriu Lílian, também abraçando os joelhos e a olhando – Não quero que você vá embora. Quero que fique comigo. Pra sempre.

- ...Você sabe que não posso. – murmurou, brava.

- Claro que eu sei. – sorriu penosamente, tombando o rosto – Você tem que ir, você aceitou. Você escolhe. Não deixe isso nas minhas mãos. A decisão é sua.

A morena abaixou o corpo, mergulhando na banheira até o nariz, ficando alguns segundos pensando, com a respiração contida. Soltou bolhas bem devagar, e voltou a se erguer:

- ...Se incomodaria se fizesse isso amanhã?

Lílian a olhou e não levou nem cinco segundos para dizer, serena:

- ...Não. Como você quiser.

- ...Tá. – disse Leah, depois de alguns segundos a olhando - ...Sei que não deveria perguntar isso, mas... por que está tão conformada?

- Porque eu já chorei demais. Vai adiantar eu chorar, me desgastar, implorar para você ficar?

- Não.

- Então prefiro ficar triste em silêncio. Obrigada por me fazer feliz numa hora tão crítica.

Leah cerrou as sobrancelhas. Suspirou, e se levantou. Lílian ainda ficou alguns minutos na banheira, olhando o teto, pensando. Quando saiu e se arrumou, encontrou Leah parada na varanda, com as portas abertas, parecendo hipnotizada.

Lílian se aproximou, e viu que Leah olhava a lua, grande, cheia, azulada. Ficou em silêncio, também olhando, até falar:

- ...Hipnotizada?

A morena piscou, sorrindo, baixando os olhos:

- ...Mais ou menos. Hoje é lua azul.

- Oh, é mesmo.

- ...Não virei Zz'Gashi, nem consigo mais fazer isso. – comentou, meio triste.

- Você deveria estar feliz... não?

- Não sei. No fim, Zz'Gashi também era parte de mim. Não há mais nada que eu possa querer nesse mundo, mesmo. Não pertenço a ele.

Depois de alguns instantes, Lílian disse, sorrindo, meiga:

- ...Que pecado. E eu nem notei que você estava com os olhos azuis. Isso é imperdoável.

- Acho que eu nunca vou conseguir decidir se é fofo ou desesperador você ser doce comigo.

Lílian sorriu de boca fechada, mas largamente. Esticou o rosto e lhe deu um beijo apertado.

- Já que não decide, - falou, segurando as mãos de Leah – Então comece a achar que é fofamente desesperador. Ou desesperador de fofo.

- Vou pensar no caso. – sorriu em resposta, baixando o rosto para lhe beijar de novo.

Beijar Lílian devagar, com calma, era algo muito entorpecente. Nem beijar Augusto, sua última e arrebatadora paixão, era daquele jeito. Nas primeiras vezes ela até achou que talvez fosse só porque havia uma tensão de ódio entre elas durante anos. Ou porque, de certa forma, parecia proibido, elas eram completamente diferentes em tudo. A verdade é que Leah era escorpião, um animal naturalmente venenoso. Mas acabou que a envenenada foi ela: o beijo de Lílian parecia ser um veneno doce e mortal, que quanto mais leve e vagaroso fosse injetado, mais delicioso e irresistível era.

"...Você é um baiacu."

Uma vez, tempos atrás, antes de toda aquela confusão do fim do mundo, nos primeiros dias em que as duas estavam lá naquela casa, saíram para passear. Leah acabou se deitando no campo, comendo alguns trevos de três folhas, enquanto Lílian andava mais pra baixo, de vestido branco e cabelo amarrado com uma fita, toda meiga, colhendo camomila para fazer chá e saquinhos aromatizantes.

Leah ficou um bom tempo olhando pra ela, viajando em pensamentos. Lílian era toda fofa, toda doce, romântica, certinha e delicada. Como é que ela podia ser uma bruxa tão poderosa e ter uma porrada tão forte? Não fazia sentido! Tinha algum segredo obscuro. Leah não podia chamá-la de Mary Sue, porque Lílian ás vezes era explosiva, ela nunca era explosiva ou surtada, mas quando ela explodia ou surtava, não sobrava nada! Era revoltante. Lílian subiu a colina, e parou perto de Leah, sorrindo.

- ...Que cara é essa? – perguntou a ruiva, simpática, para Leah, que tirou o trevo da boca e a olhou longamente.

- ...Você não é uma sereia! – exclamou, lembrando que Lílian costumava dizer que 'toda pisciana nasce sereia' - ...Você é um BAIACU!

Lílian não entendeu.

Não era pra entender mesmo.

Mas se alguém aí não entendeu, baiacu é um peixinho pequeno e fofo, mas muito ordinário, que tem um tremendo veneno, extremamente tóxico e fatal, e pouquíssimas pessoas conseguem ter a técnica necessária para preparar a carne dele de forma segura.

Pois é. Ninguém tem medo do baiacu. Todo mundo perde tempo tendo medo do escorpião, mas é o besta baiacu que mata.


Lílian foi até a sala e pegou o telefone antigo que havia na casa – carregado de mágica – e conversou com Dumbledore sobre o pedido de Leah, e ele aceitou. Se ela queria terminar isso logo, quem iria discutir, não? Lílian não voltou pro quarto de imediato. Ficou sentada na mesa da cozinha, apoiando o rosto na mão, olhando a paisagem através da janela, pensando. Não estava triste, nem desesperada. Tinha que ser assim. Olhou o relógio por longos segundos. Era a última noite com Leah. Diferente da última vez, que foi tudo tão brutal e de repente, agora era algo anunciado. Ela sabia que iria sentir falta, saudades, mas também não seria tão traumatizante. A dor da primeira vez, depois daquele julgamento, remoia seu peito de tempos em tempos. Foi uma partida brutal e cruel, principalmente pra ela. Agora... não.

Voltou para o quarto, fechou a porta, olhou Leah, deitada na cama, lendo um livro, com o abajur ligado. Entrou no banheiro, para lavar as mãos, o rosto e escovar os dentes.

- ...Falou com Dumbledore? – perguntou Leah, fechando o livro e colocando ele na mesa de cabeceira. Espreguiçou-se e se esticou toda na cama, olhando o teto, preguiçosa - ...Falou?

- Falei. – respondeu Lílian, subindo na cama pelos pés dela, se ajoelhando, com a mãos na cintura.

Leah fez um "hum" e colocou as mãos sobre a barriga, ainda olhando o teto. Tombou o rosto, fitando Lílian:

- ...Está triste? Brava? Decepcionada?

- Não, não estou. – respondeu, segura – Se você quer assim, já disse, respeito sua decisão. Ao menos sei que essa é a última noite, e não serei pega de surpresa.

- Ah, que droga, então nem vai ficar lamentando minha perda nem vai ficar chorando de saudade.

- ...Isso foi meio infeliz.

- Ai, desculpa. – riu Leah – Sei que sou escrota.

Lílian engatinhou pela cama, até ficar sobre Leah, com os braços ao redor da sua cabeça.

- Em outra época você seria orgulhosa e diria "Ah, esse é meu charme".

- Não adianta mais ficar falando esse tipo de coisa. Você é imune ao meu charme. – sorriu Leah.

- ...Será que sou, mesmo?

Ela deu um risinho meio nervoso. Lílian a olhou durante alguns instantes, antes de baixar o corpo, lhe beijando. Leah respirou fundo, e correspondeu. Ah, aquele veneno de novo... dessa vez não estava suave, estava urgente e devastador. O coração até acelerou, coisa rara, mesmo nessa hora.

Passou os dedos pela cintura de Lílian, achando uma brecha na regata do pijama, e brincou com as pontas dos dedos na pele das costas dela; e deu certo, a ruiva suspirou profundamente, e aumentou a intensidade do beijo. Leah, de olhos fechados, acabou sorrindo, o que fez seus lábios escaparem dos dela. Mas sem problema, porque foi nessa hora que Lílian levou a mão direita até a barra da camiseta, a puxou com força, tirando-a. Leah olhou para o lado esquerdo da cabeça, onde a mão de Lílian voltava a ficar, dessa vez junto da camiseta do pijama. Ela voltou a olhar a ruiva, que tombou mais o corpo, quase lhe abraçando, fechando os olhos, tocando de leve os seus lábios. E escutou:

- ...Você tem até o raiar desse dia para fazer sua boca percorrer o máximo que puder do meu corpo.

- Ah! Ora essa... – riu-se, sentindo-se verdadeiramente atingida pelo desafio, e respondendo também num sussurro entre os fios macios e vermelhos do cabelo de Lílian – Você sabe que eu tenho competência para isso. Para isso e muito mais.

E a abraçou com força, respirando fundo, se afogando e se perdendo na última e provavelmente melhor noite da vida.


Dumbledore e Joaquim se encontraram com os rapazes pela manhã, e foram novamente para a secreta sala onde havia ressuscitado Lílian.

- ...Elas devem chegar em menos de duas horas. – disse o bruxo, olhando um relógio dentro das vestes – Vamos arrumar o lugar até lá. Temos de vedar tudo com mágica. Não sabemos o que pode acontecer.

Joaquim retirou da bolsa de couro que carregava uma adaga dourada, de lâmina afiada:

- ...Essa adaga está enfeitiçada. Vai conseguir romper a pele e a carne de Leah, e impedir que a Pedra Filosofal regenere o corpo a tempo.

- ...Nós trouxemos ela de volta. – disse o bruxo, pegando a adaga - ...Por mais que seja ruim, é nossa obrigação mandá-la de novo.


Leah era muito preguiça e enjoada, e não gostava nem um pouco de ficar dormindo encostada em alguém. Mas, nessa noite, ela não tinha motivos para não fazer isso. Era a última noite com Lílian, e não queria terminar ela de outra forma: acordou praticamente na mesma posição, de lado, abraçada à Lílian, quase toda grudada nela. A ruiva dormia profundamente, encolhida, encostada no peito de Leah, usando o braço direito dela de travesseiro. Ela afastou a cabeça e os ombros, para olhar o rosto de Lílian, que nem se mexeu. Olhou-a um tempo, passando os dedos da mão esquerda em seu rosto, de leve, como se a fizesse dormir.

Lhe deu dois beijos na cabeça, e encostou a sua na dela, piscando molemente, abraçando-a de novo. O tempo estava quente, o dia já havia nascido, e era mais que normal que a pele com suor seco ficasse meio melada e grudenta. Mas era a última vez que ela ficava assim, que ela se sentiria assim, tão viva, que não queria estar de outra forma. E não queria que outra pessoa estivesse com ela, a não ser Lílian. Respirou fundo, e abraçou Lílian com mais força, mas de forma delicada, puxando-a para si, lhe acariciando os braços. Lílian nem acordava, dormia como uma pedra.

- ...Foi bom enquanto durou. – sussurrou, ainda com a testa encostada no cabelo de Lílian – Foi incrível, maravilhoso e inesquecível. Obrigada. Valeu a pena. Amo você.

Lílian abriu os olhos, sonolenta, e ergueu o olha pra Leah, sorrindo:

- Também amo você.

- ...Tu tava acordada, praga? – perguntou, meio sem reação.

- Não. – suspirou, se espreguiçando e esticando o braço sobre Leah, lhe abraçando pela cintura – Acorde com você falando.

Ela esticou o outro braço, passando os dedos de leve sobre o queixo e os lábios de Leah. A morena pegou a mão de Lílian, e beijou sua mão. Depois baixou o rosto, lhe dando um doce beijo. E provavelmente o último.


As duas bruxas chegaram faltando dez minutos antes de encerrar o tempo previsto. Os outros já as esperavam.

Dumbledore abraçou Leah assim que ela chegou.

- Espero que perdoe a gente algum dia. – disse, em tom baixo, segurando o rosto dela com as duas mãos.

- Não se preocupe. – sorriu Leah – Eu estou muito feliz por ter voltado, ajudado vocês. De verdade.

Joaquim se aproximou e também a abraçou. Fez o sinal da cruz nela:

- ...Tenho certeza que irá para um lugar melhor.

- Se estiver muito chato por lá, desço pra assombrar vocês. – riu. E reparou que ele usava umas roupas simples e de couro - ...O senhor deixou de ser Arcebispo?

- ...De certa forma, sim. – sorriu – Vou andar pelo mundo, estudando e pesquisando mais sobre a fé que move esse mundo. Esse novo mundo, agora.

Leah olhou os amigos, que se sentiam bem culpados.

- Parem com essa cara de velório, você que fizeram a cagada, agora, arrumem. – riu.

Sirius a abraçou e lhe deu um beijo na cabeça. Snape a abraçou meio de má vontade, e Lupin a abraçou parecendo não entender ainda a decisão dela.

- Você vai cuidar da Lílian, não vai? – sussurrou, sorrindo para o amigo.

Lupin sentiu o peito pular. ...Cuidar?

- ...Claro. – respondeu, desviando o olhar.

Leah suspirou profundamente, olhando aquela mesa central.

- ...É melhor deitar. – disse Joaquim, colocando a mão sobre seu ombro – não sabemos como será o choque de poderes.

Ela concordou com a cabeça, e se deitou. A mesa era de pedra, gelada. Seu coração acelerou. Parecia que a pedra filosofal sabia o que estava para acontecer.

Joaquim tremia, nervoso. Não queria fazer aquilo. Dumbledore percebeu, tomou a adaga das mãos dele, e esticou para sua lateral. Lílian passou por ele, e pegou a adaga, olhando para ele, acenando com a cabeça.

Dumbledore afastou-se, junto de Joaquim. Lílian sorriu, parando ao lado da mesa, e subiu para ela, ficando sobre Leah, que estava visivelmente nervosa.

- ...Se você ficar nervosa, eu também ficarei. – comentou, em voz baixa.

- Ok. Pode ir em frente. – suspirou Leah, fechando os olhos e respirando fundo. Abriu os botões da camisa que usava, para exibir a cicatriz deixada pela Pedra Filosofal.

Lílian respirou fundo, e tirou a adaga da bainha. Com cuidado, colocou a lâmina sobre a pele de Leah. E a apertou contra o peito dela, enterrando a lâmina. Leah apenas mexeu as sobrancelhas, sentindo um desconforto.

- ...Não doeu. Vai em frente. – disse. Lílian, com força, puxou a adaga para baixo, devagar. O peito de Leah se abriu, e dele saíram alguns feixes de luz vermelha, por causa do contato da lâmina mágica com o poder da Pedra.

Com o peito aberto, Lílian colocou a adaga de lado. Não sangrava, apenas sujou um pouco a lâmina. Ela via o coração de Leah pulsar, com os cacos da Pedra presos abriu os olhos, e olhou Lílian, que estava parada.

- ...Vamos logo com isso. – pediu, em voz baixa.

Os bruxos que estava próximo delas se afastaram, se olhando. Lílian engoliu alguma coisa muito dolorida, e devagar colocou os dedos dentro do corpo de Leah, até lhe tocar o coração. A pedra brilhou de novo.

- Vai. – incentivou Leah, olhando Lílian nos olhos – Você consegue. Não vai doer.

Lílian fechou os dedos. Neles, ela sentiu os cacos da Pedra. Ela sorriu, com os olhos brilhando:

- ...Olha só. Que coisa estranha... estou com o seu coração na minha mão.

Leah começou a sentir a energia do seu corpo desaparecer. Ela de repente sentiu um sono enorme e irresistível. Sorriu, dizendo:

- Ora essa. Você sempre esteve com ele na mão.

Lílian mordeu o lábio inferior, sorrindo de forma dolorosa. Inclinou o rosto até o de Leah, e, lhe olhando nos olhos, disse:

- Por favor, me perdoe.

- Não tenho que te perdoar. E, mesmo se tiver que fazer... já está perdoada.

- Eu amo você. Nunca se esqueça disso. Obrigada por tudo.

- Obrigada por me dar uma vida de verdade, que nem essa pedra conseguiu dar. – e piscou, sonolenta, respondendo - Eu também amo você.

Lílian fechou os olhos, beijando-a. Nem se importou com os bruxos, que estavam espremidos contra as paredes. Um círculo de energia forte começou a rodar pela mesa, quando ela tocou a Pedra Filosofal. E, em meio à esse turbilhão de energia em movimento, ela beijou Leah, sem pressa, com extrema docilidade. E, vagarosamente, puxou a mão de dentro de seu peito, trazendo junto a Pedra Filosofal. Leah foi perdendo as forças, como se adormecesse, e seu corpo, devagar, se tornou pequenos pedaços que se soltaram, que brilharam como se incendiassem, e desaparecia no ar. Como se o seu corpo se desintegrasse em minúsculas e milhares de pontos luminosos, que se apagavam e sumiam.

Ao desaparecer por completo, aquele volume de energia varreu o local, deixando todos um tanto assustados. Lílian permaneceu de joelhos na mesa, e, ao abrir os olhos, viu apenas a pedra e sua mão fechada. Depois de alguns segundos, ela abriu a mão, e, nela, os cacos brilhantes e vermelhos da Pedra Filosofal. Respirou fundo, e se sentou.

Dumbledore imediatamente foi até a bruxa, e a abraçou.

- ...Pronto. Acabou. – suspirou Lílian, visivelmente triste. Esticou a mão para o bruxo, e lhe deu os pedacinhos da Pedra Filosofal.

Ao sair da mesa, Sirius e Lupin a abraçaram ao mesmo tempo, e forte.

- Tudo bem? – perguntou Sirius, lhe acariciando os cabelos.

- Tudo. Tinha que ser assim, então... fazer o quê.

Lílian olhou os amigos, e deu um tímido sorriso:

- ...Acho que salvamos mesmo o mundo, não? E colocamos tudo em ordem. Podemos seguir nossas vidas.

- Até que o mundo acabe de novo. – sorriu Lupin, passando o braço pelos ombros de Lílian.

- É. Até que o mundo acabe de novo. – riu Lílian, em resposta.

- ...Querem companhia pro próximo fim do mundo? Conte comigo. – animou-se Sirius, já subindo as escadas, saindo daquela câmara.

- Eu adoraria. – disse Dumbledore, seguindo atrás dos bruxos.

Ao saírem do local, Dumbledore o lacrou.

- ...Não precisaremos mais dessa sala. Espero eu. – ele virou-se para Lílian, ainda abraçada à Lupin - ...Continua conosco... senhorita Evans? Estou querendo me aposentar depois do fim do mundo. Preciso de um substituto á altura para colocar ordem nesses rapazes dos Aurores Supremos.

Lílian olhou fixamente para Dumbledore. Olhou Snape, Sirius, Joaquim, e Lupin. Pensou, e disse:

- ...Claro que aceito. Vai ser muito bom estar de volta, como nos velhos tempos.

- Excelente! – exclamou Lupin, animado – Novos velhos tempos.

- Fico satisfeito. – orgulhou-se Dumbledore – Que comece nossa nova vida. Até o fim dos tempos. De novo.

- De novo. – riu Lílian.

E, assim, os bruxos deram as costas para a porta trancada da sala, e saíram daquele estranho e desconfortável beco, partindo para finalmente dar início à nova vida, num esperançoso mundo novo.


- Doomsday –

(Apocalipse)

FIM


N.A 1: Olha 2010 começando com um final. =O

N.A 2: Me sinto tremendamente libertada por terminar a Trilogia L². Ainda que eu tenha me divertido muito escrevendo, foi num ano péssimo pra mim, 2009. Não terminei ela em 2009 e não fiz nada de EdD. Isso foi péssimo. Mas esse ano, tudo vai mudar, volto a estudar, me mudo pro RJ (sugestões de imobiliárias e apartamentos são bem vindas hahahahah) e quero recomeçar a EdD, para também termina-la.

N.A 3: Ainda que eu ache o final corrido, como reclamaram no último capítulo... era para ser assim, mesmo. Não foi triste, foi algo natural e... é, sem graça, mesmo. Previsível. Fazer o quê. õO Me diverti, sim, foi um tremendo desafio escrever femmeslash, mas acho q nem ficou tão ruim assim. – ficou? xD – mas é algo que não vou escrever mais, não levo jeito pra coisa. Mas daí perguntam: "Mas a Leah, na Réquiem, na parte do Capítulo das Trevas, não é bissexual?" Bom... é, mas está MUITO longe da relação descrita na Trilogia L². Leah era uma estudante bem agitada, aprontava todas, e, claro, tinha que chamar a atenção ficando tanto com garotos como com garotas. Mas isso nem é muito aprofundado, e pertence ao Capítulo das Trevas. Enfim, espero que tenham gostado da Trilogia, e que eprdoem os erros de digitação/português.

N.A 4: Acho que ganhei alguns leitores por causa dessa trilogia. Espero que você acompanhem a encrenca gigante que é a EdD, e gostem, apesar dessa Trilogia não ter nada a ver com o enredo da EdD. E se vocês conhecem algum leitor só da EdD, avise que nesse ano, ela volta! Amos lá encarar o desafio colossal que será terminar a série Espada dos Deuses. Estou feliz e ansiosa. Espero que você também estejam! Obrigada por terem estado comigo, e um excelente 2010 pra todo nós! A gente se vê.

Mariana Massafera