Neste capítulo as lembranças – flashback - de Conan estarão em itálico.

O tesouro do rei

_ Eu tenho todo o golpe arquitetado na minha mente há muitas semanas, fruto de uma minuciosa observação do funcionamento do palácio real. Não será agora que irei modificar todo o planejamento já calculado. _ Reclamou Mirom com olhar arguto para Declan.

_ "eu tenho todo o plano na minha mente" _ Imitou-o Declan com trejeitos na cabeça e voz aguda. _ Ora, pare de choradeiras. No momento em que eu e Conan vamos participar desse roubo, então você deve modificar seus cálculos iniciais. Principalmente no que diz respeito à divisão do espólio.

_ 25 %... Para cada um. _ Falou Mirom com olhos de águia.

_ 25 % de tudo que pudermos carregar. Parece justo. Não lhe parece Conan? _ Declan virou-se para Conan.

_ Humm. _ Grunhiu Conan.

_ Certo. Estamos dentro. Agora explique esse plano direito. _ Aquiesceu Declan.

_ É simples. Primeiro, temos que nocautear a sentinela do portão leste, pois é o menos movimentado. Depois, escalamos o palácio e penetramos pela janela lateral, que dá para um corredor pouco vigiado. Segundo, nos esgueiramos até o próximo andar, pela escadaria no fim do corredor. Este é o caminho para o minarete, mas não vamos até lá. Antes do minarete há uma porta de madeira maciça, selando a sala do tesouro real. Nós a desmontaremos, pois sem a chave que o rei leva consigo, é impossível entrar lá. Após pegarmos tudo o que pudermos, saímos pelo mesmo jeito que entramos. Pegamos nossos cavalos no estábulo e iremos para um refúgio no norte. Lá iremos repartir o espólio, e então nos separaremos. Entenderam?

Conan, Declan, Mirom e Kabul seguiram para o palácio real. Conan não confiava em Mirom, mas considerando-se que ele era um ladrão, não poderia mesmo esperar um grande caráter daquele homem. Aproximaram-se da parte leste do palácio. Havia somente uma sentinela com lança. Incubiram Kabul de nocautear a sentinela. Este aproximou-se com as mãos para trás, andando a esmo, como um debilóide.

Quando a sentinela se aproximou para mandá-lo afastar-se, Kabul virou-se repentinamente e tentou gopear o soldado com um porrete, mas a sentinela reagiu por reflexo e contra-atacou derrubando Kabul. Ao ver isso, Conan sacou um punhal e o lançou contra o soldado, atingindo-o nas costas. Os outros aproximaram-se e lançaram uma corda, com ganchos em sua extremidade, sobre o parapeito do 3º andar. Logo, todos estavam escalando.

Ao chegar no corredor, foram flagrados por dois serviçais que estavam caminhando por ali. Eles correram assustados ao verem os ladrões. Declan facilmente os alcançou e bateu suas cabeças uma na outra, fazendo-os desmaiarem. Procuraram pela escadaria no fim do corredor, mas esta escada não subia, ia para o andar inferior. Perceberam que deveria ser na outra direção. Justamente, este era o caminho certo. Subiram pela escada até uma sala escura que se abria para o minarete.

Em oposição a ele havia uma grande porta de madeira avermelhada, que os ladrões identificaram como sendo do tesouro real. Kabul e Mirom, cada um se agachou ao lado da porta e começaram a usar suas ferramentes de ladroíce, desfazendo os liames que prendiam aquela madeira maciça ao portal.

Conan colocou as mãos na cintura e ficou observando aquele serviço por um minuto, então fêz um gesto de enfado, e arremeteu contra a porta usando a força de seus músculos. Houve um barulho surdo e a porta cedeu com um grande estalo. Conan havia arrombado a porta. Mirom estava irritado com Conan, e ao mesmo tempo maravilhado com aquela força sobrehumana.

Ele entrou rapidamente na sala do tesouro e saiu catando pedras preciosas e jóias. Kabul pegava objetos maiores e tentava enfiar em suas vestes. Conan ficou observando a totalidade das posses do rei, enquanto Declan mergulhava de cabeça em tanto ouro. Ele ria como se não houvesse amanhã. Mirom tocou no ombro de Kabul e fêz um movimento com a cabeça apontando para a saída. Então os dois apressaram-se para irem embora.

Mirom levava apenas algumas jóias na sua bolsa, enquanto Kabul tinha as mãos cheias e tentava enfiar o produto do roubo em suas roupas, mas a maioria caiu no chão. Conan percebeu que os ladrões estavam fugindo, mas achou apenas que fossem covardes. Ele pegou uma saca rústica, e começou a enchê-la com o tesouro do rei. Declan parou com a brincadeira de enfeitar-se com ouro, e passou a encher sua saca também.

Quando já estavam bem carregados resolveram que era hora de partirem. Saíram da sala do tesouro e seguiram pela escadaria. Antes de chegarem no andar inferior, ouviram passos de soldados apressados. Voltaram rapidamente para o andar do tesouro. Não havendo para onde correr, dirigiram-se ao minarete. Era muito alto, praticamente 20 m de altura. Pular daquela altura era morte na certa, não tinham com fugir por ali.

_ Declan, teremos que lutar contra os soldados, é o único meio.

_ Será uma carnificina, e talvez não saiamos vivos.

_ Ou isso, ou nos esborrachamos lá em baixo.

Declan deu uma olhada na distância em que se encontravam do chão, e balançou a cabeça, negativamente.

_ É meu amigo, teremos que lutar, mas se tivermos que morrer, vamos levar alguns conosco, hein? _ Declan deu um tapinha no ombro de Conan.

Os soldados do palácio os alcançaram neste instante. Eles estavam cercados, mas sacaram suas espadas e largaram as sacas de tesouros no chão. O combate evoluiu com muitos soldados gravemente feridos, tombando ao lado de Conan e Declan. Se fossem só aqueles pelotões, até que seria fácil, mas logo chegaram mais e mais soldados.

Conan resolveu apelar. Agarrou um dos cadáveres de soldados mortos e colocou-o nas costas como uma capa. Então jogou-se no ar. Declan não acreditou no que seu amigo fizera. Resolveu imitar-lhe o gesto. Ao atingir o chão depois de uma queda de 20 metros, Conan acabou sentindo parte do impacto nas costas e pescoço. Nem mesmo o cadáver que usara como amortecedor, evitou o dano da colisão.

Sua respiração ficou difícil, e ele percebeu que não conseguia mover-se do pescoço para baixo. Estava paralizado. Estava ainda consciente quando viu Declan atingir o chão. O corpo do soldado que ele usara, afastou-se um pouco, o suficiente para Declan sofrer quase 100% do impacto. Seu crâneo esfacelou-se. Conan ficou observando a vida esvair-se dos olhos do amigo. Ele choraria por Declan, se não suspeitasse que o amigo estava em melhor situação do que ele mesmo.

Então a dificuldade para respirar ficou crítica. Conan sentia como se um grande rochedo estivesse sobre seu peito, impedindo-o de sorver o ar. Ele angustiou-se e mordeu a própria língua, mas não conseguia mais ar com isso. Por fim, tudo ficou turvo e confuso. Mergulhou na escuridão.

Quando os soldados do palácio real chegaram até o local da queda, encontraram Declan com o crâneo espatifado, e Conan azulado com sangue escorrendo de sua boca, com a língua estirada para fora. Concluíram que haviam morrido da queda. O rei Dipanaris foi avisado, e ordenou que jogassem os corpos daqueles dois ladrões nos rios distantes da cidade, famosos por terem feras aquáticas.

Assim sendo, os corpos de Conan e Declan foram colocados em carros puxados por escravos, e transportados para uma zona árida. Ao chegarem nas margens do rio, arremessaram os corpos dos ladrões nas águas turvas. Então voltaram para o reino de Shimaraki.

Naquela noite e nas próximas, por toda aquela semana, o rei Dipanaris ofereceria banquetes para sua corte, onde se vangloriaria de ter acabado com a vida do famoso mercenário, Conan da Ciméria. E isto era uma prova de que seu reino estava bem protegido contra salteadores, ladrões e bárbaros. Entre seus ilustres convidados, estava um indivíduo com olhos astutos, que analizava e memorizava cada parte dos aposentos reais e seus convivas. Seu nome era Mirom.

Conan era um rapazote muito forte, que ajudava seu pai em caçadas, e protegia sua aldeia natal como um homem feito. Ele lutou bravamente quando sua gente foi massacrada por uma tribo rival. A perca de sua família atiçou-o ainda mais, a agir selvagemente contra aquela horda de brutos animais racionais. No fim de tudo, ele foi apanhado como um novilho indefeso. Amarraram-lhe as pernas e braços, e o carregaram para a tribo inimiga como se fosse o animal que jantariam naquela noite. Conan teve sorte. Eles o consideraram um bom lutador, e resolveram usá-lo em dispustas rituais tribais.

O ar penetrou lentamente em seus pulmões. Seu sangue circulou tão rápido que a língua mordida esguichou sangue em borbotões. Conan abriu os olhos. Declan o encarava com olhos parados. Sua boca aberta em um esgar, de quem não acredita que chegou ao fim. Conan o interrogou com os olhos. Queria ter certeza que o amigo estava morto, e que agora estava nos campos verdes dos mercenários.

Sem dúvida, Declan estava rodeado de belas mulheres, enchendo a cara em alguma taverna no paraíso. Lamentou que o amigo não tivesse levado algum ouro consigo, sem dúvida, isso deveria valer alguma coisa do outro lado. Conan fechou os olhos.

O escravo Conan tinha muitos músculos e um cabelão respeitável. Ele também fora treinado no manejo de espadas, pois seus adversários também usavam armas. Ele foi muito útil a seu senhor, enquanto era um lutador de rinha, contudo, Conan resolveu que já era hora de assumir as rédeas da sua vida. Foi então que ele acabou com a raça de seu amo e senhor, bem como de um tanto de sentinelas e guerreiros que ousaram defendê-lo. Ele aí ganhou sua liberdade. Reveria sua amada Ciméria.

Os braços e pernas de Conan fervilhavam como se estivessem sendo devorados em vida por animais rastejantes. A agonia era tanta, que Conan seria capaz de gritar. Ele respirou profunda e rapidamente. Não poderia gritar, pois seus captores poderiam perceber que ainda estava vivo. Enquanto isso, Conan era embalado pelo sono naquele balançar ritmado do carro puxado por escravos.

O gigante cimério entrou para um exército regular, como forma de se exercitar e ser adestrado na arte da guerra. Ele fazia jus ao seu soldo, e seu tamanho e selvageria impunham medo e respeito no resto dos colegas. Além da força e tamanho, Conan também aprendia rápido, tornando-se excelente estrategista. Não foi a toa que alcançou rapidamente o posto de comandante de exércitos. Quando por fim cansou-se de colocar a vida em risco por um indivíduo que ele nem ao menos respeitava, deu baixa da vida militar.

Os soldados de Shimaraki pegaram o corpo de Conan e o atiraram nas águas turvas do rio. A seguir arremessaram o de Declan. Eles sabiam que fera vivia naquele rio, já tinham visto aquele monstro devorar outros cadáveres. A visão não era nada agradável. Então resolveram voltar ao palácio real.

Nas profundezas daquele rio, um enorme réptil de pele amarelada e olhos verde-água, desenrodilhou-se e passou a mover-se sinuosamente em direção à superfície. Havia farejado seu alimento preferido: carne humana.

Fim do Capítulo