A água do lago era turva e gelada. Isso lhe despertou do torpor que ainda o embalava. Abriu os olhos submerso e procurou divisar alguma coisa. Não havia movimentos de animais em volta. Isso poderia significar que aquelas água eram venenosas, ou que ali havia um poderoso predador, a ponto de exterminar todos os seus competidores. Um corpo mergulhou próximo a ele. Afastou-se um pouco com braçadas lentas. Ali naquele ambiente escuro e desprovido de ar, pôde ver o corpo do amigo morto, Declan, que havia morrido de uma queda de 20 metros de altura. Ele teve mais sorte, pois apenas machucou-se com a pressão do impacto, afinal usara um cadáver para amortecer-lhe a queda. Lembrou-se da necessidade de ar que sentira, quando seus pulmões recusaram-se a puxar o ar para dentro. Achou melhor nadar de volta à superfície.

Seus braços musculosos e bronzeados rapidamente o levaram para o ar fresco da madrugada. Inspirou profundamente e pensou em sair da água, mas lembrou-se do amigo morto. Decerto que Declan merecia um funeral mais digno, do que apodrecer no fundo daquele lago. Após acatar essa resolução, ele tomou fôlego e mergulhou novamente. Abriu caminho com amplas braçadas para o local onde atiraram o corpo de seu amigo. A sua frente um movimento amarelado preencheu o espaço turvo das profundezas do lago. Um enorme ser escamoso, áureo, com um corpo que se prolongava eternamente, tão largo quanto um gordo suíno, revolveu-se indefinidamente, em direção a um ponto do lago. Exatamente onde deveria estar o cadáver de Declan.

Ele juntou as mãos na cintura, a procura de sua arma. Sua espada havia se extraviado na queda, mas logo ali estava sua faca de caça. Ele a puxou e prendeu entre os dentes. Aproximou-se destemidamente dos cristalinos mosaicos amarelados, que resplandeciam no fundo do lago, como se fossem o verdadeiro tesouro do reino de Shimarak. Pegou sua afiada faca e enfiou-a brutalmente no corpo daquele ser descomunal. Deu impulso no braço para continuar cortando, até contornar completamente aquela porção de carne monstruosa. O sangue da criatura espalhou-se pelo local, turvando o brilho áureo das escamas. Ele continuou cortando até a metade inferior tombar no leito do lago, mas seus sentidos estavam atentos ao movimento das águas, indicando que algo gigantesco estava se aproximando.

Ele permaneceu próximo ao corpo dourado, de arma em punho, esperando pelo bote que não demorou a ocorrer. Um grandioso brilho amarelado avançou com velocidade contra ele. Uma enorme bocarra de carreiras de dentes pontiagudos abriu-se para devorá-lo. Ele se desviou apoiando-se no coto sangrante do monstro. Mas agarrou a cabeça da criatura, quando ela errou o bote. Abraçou-se ao pescoção do ser grotesco e enfiou sua faca no local onde estava seguro. O jurássico réptil moveu-se rapidamente, sacudindo a cabeça e nadando vertiginosamente, para desvencilhar-se do animal agressivo em seu pescoço. Rumou para a superfície do lago e circunvolutou como uma serpente, dando chance para que o animal renitente, agarrado em sua cabeça, pudesse encher os pulmões de ar.

O gigante cimério aproveitou o ar nos pulmões quando lhe foi oferecido, e fincou com mais força e selvageria sua faca na garganta do ser abismal. A criatura rumou então para o fundo do lago, em uma velocidade espantosa. Ao atingir o leito do ambiente aquático passou a contorcer-se na superfície irregular, em movimentos bruscos e pesados, fazendo com que o animal irritante se machucasse seriamente. O homem agarrado em seu pescoço imprimiu mais fúria em suas estocadas, conseguindo decepar-lhe a espinha reptiliana, desse modo, a cabeça da fera aquática pendeu molemente para um lado, e o resto de seu corpo continuou movendo-se espasmodicamente, como se recebendo descargas de raios. O cimério reuniu suas últimas forças para impulsionar-se para o alto, atingindo a superfície após alguns minutos.

Ele nadou até a margem, praticamente arrastando-se, deitou-se na terra seca e ficou lá recuperando as forças e inspirando profundamente. Havia muitos ferimentos sangrantes em seu corpo, estava impregnado do sangue e do cheiro acre do monstro que matara. Seus ossos e juntas doíam, mas ele era de opinião que todos vamos descansar um dia, eternamente. Então não poderia perder muito tempo com aquilo, precisava tomar um bom tônico e alimentar-se, então ficaria novo em folha. Ficou de pé com dificuldade e observou o lago. "Fique em paz, Declan. Beba todos os barris de rum por mim, nas tavernas do paraíso dos mercenários. Você merece velho amigo". Então deu as costas e iniciou a volta para o reino de Shimarak.

O rei Dipanaris foi ajudado por seus servos a retirar seu vestuário real. Foi vestido com fina túnica diáfana, tendo por baixo apenas uma espécie de calça que se assemelhava a fralda. Foi massageado e perfumado. Por fim trouxeram-lhe a concubina de seu agrado. Era um espécime diferente, de cabelos encarapinhados, pele negra e ossos largos. Teve que ser domesticada com surras antes de ser aceita como concubina. Por ser diferente das outras era sua preferida. O rei regozijava-se por sua astúcia e perspicácia. Quando o ladrãozinho Mirom o procurou para contar-lhe sobre o plano audacioso, pensou em simplesmente encarcerá-lo, mas o indivíduo citara o nome do mercenário cimeriano, e isso foi o suficiente para prender-lhe a atenção.

O rei havia acertado com o ladrãozinho, que seria feita uma armadilha para prender o cimeriano e seu amigo. Então, o ladrão e seu companheiro sairiam antes do esperado, e se esconderiam para que a guarda real atacasse os bárbaros. Todo o roubo de Mirom e Kabul foi devolvido ao tesouro real, restando a Mirom desfrutar da amizade e gratidão de sua majestade, além é claro de pequenos mimos, roupas novas, ceias suntuosas, concubinas e prestígio perante a cidade. Muitos conselheiros do rei o orientaram a dar cabo daquele sujeitinho, pura e simplesmente, mas a argúcia de Mirom o encantara. O rei considerava-se mais esperto que o ladrão, porque ele sabia que aquele dedo-duro era um canalha, e o tinha sob suas vistas.

_ O que está achando Kabul? Isso nos saiu melhor do que o combinado.

_ É mesmo. Nós agora somos importantes. Somos os amigos do rei. Acho que nenhum tesouro do mundo compraria isso, Mirom.

_ Tem razão. _ Mirom ficou olhando para o teto abobadado de seu aposento, enquanto as palavras de Kabul ressoavam na sua mente.

_ Acho que até posso me casar. O que acha Mirom? Você já escolheu alguma concubina pra você?

_ Pela primeira vez na sua vida você falou algo que prestasse. _ Mirom falou seriamente.

_ E eu não sei? Tem coisas que você só pode pensar quando tem muitos tesouros, ou é muito importante. Eheh! Eu já escolhi uma das dançarinas. Ela é gordinha e baixinha, mas eu gosto de mulheres assim. Elas sabem fazer uma massagem nos pés que é uma beleza. _ Kabul comentou satisfeito.

_ Do que é que você está falando animal?

_ Ora, do nosso casamento. Você mesmo disse que eu falei algo que prestou. Precisamos nos casar com as mais bonitas e...

_ Cala a boca seu idiota!

__... Eu não estou te entendendo, Mirom.

_ Você disse que a amizade do rei não se compra nem com todo o tesouro do mundo. Foi isso que prestou nessa lengalenga que você está cacarejando.

__... E daí?

_ Daí que nem mesmo revelando os planos do roubo, nós conquistamos a amizade do rei. Ele está nos ludibriando. Temos que ir embora daqui.

_ Você ficou louco? Por que o rei iria nos chamar para suas festas, nos cobrir de presentes e favores, se ele não gostasse da gente? Pra ele bastaria ordenar aos soldados que nos matassem, mas não foi isso que ele fez. Não, ele nos convidou para apreciarmos o espetáculo das dançarinas.

_ Você não percebe cabeça-de-jaca, que nós somos o espetáculo?

__... Como assim?

_ Cala a boca e me escuta! Nós vamos embora daqui. Hoje mesmo.

__... Mas justo agora em que tudo está indo bem? Eu não vou. Prefiro casar com a minha gordinha.

Mirom o olhou como se Kabul fosse uma mula empacada. Então raciocinou que já era hora de abandonar aquela mula teimosa pelo meio do caminho, pois era um peso morto. Pegou seus pertences e dirigiu-se à porta, mas mudou de idéia no meio do caminho, e decidiu pular a janela do recinto. Caiu sentado no chão de areia e se esgueirou pelas vielas e portões. Após meia hora daquele vaguear sinuoso, chegou aos portões da cidade. Roubou um manto esfarrapado de alguém que dormia ao pé de uma fogueira, e cobriu-se de barro no rosto. Escondeu adereços de valor, e retirou os sapatos. Rumou para a sentinela dos portões da cidade e ficou esperando que alguma carroça quisesse passar, para se aproximar e assim fingir-se de andarilho peregrino. Foi assim que Mirom conseguiu fugir de Shimarak.

No dia seguinte Kabul foi ao salão de refeições, sendo servido de frutas, leite de cabra, e pães. Uma dançarina gordinha e baixinha aproximou-se e ele a fez sentar-se em seu colo. Alguns convidados do rei Dipanaris também se aproximaram para a refeição. Quando o próprio monarca surgiu na sala para a refeição matutina, todos se ergueram e abaixaram suas cabeças, em sinal de servidão. Assim também fez Kabul.

_ Onde está Mirom, o mais inteligente de vocês dois? _ O rei inquiriu Kabul.

_ Ele foi embora sua alteza.

_ Sem minha permissão? Quando?

_ Ontem à noite. Ele quis me levar, mas eu não aceitei. Preferi permanecer em vosso reino (o rei Dipanaris parou de olhar para Kabul e procurou com os olhos, o chefe de sua guarda pessoal) e continuar a servi-lo. Inclusive, se vossa alteza me permite (o rei ergueu a mão na altura do pescoço e fez um movimento malemolente, como se estivesse procurando um colar), eu gostaria de pedir o vosso real consentimento, para que eu (o chefe da guarda aproximou-se calmamente de Kabul) despose esta dançarina gordinha e baixinha do vosso harém. O nome dela é Gundru (o chefe da guarda parou próximo a Kabul e tirou uma adaga da bainha, todos que acompanharam estes movimentos, viraram o rosto para o outro lado), e ela gosta muito da minha pessoa, e eu também (o chefe da guarda cortou a garganta de Kabul com a adaga)... _ Kabul tombou para trás sem vida. A dançarina gordinha reprimiu um grito, e perfilou-se ao lado das outras concubinas.

_ Eu quero o outro ladrão aqui. Procurem por ele, mas não é preciso trazê-lo vivo. Se ele não vier por bem, basta me trazer sua cabeça. Este aqui era um idiota. O outro era bem mais interessante. _ Falou o rei Dipanaris e se retirou do salão de refeições.

Um dos soldados, bronzeado, alto, largo e musculoso, o acompanhou, inclusive em seu quarto real. O rei sentou-se em sua cadeira de ouro com almofadas ricamente trabalhadas, e fez um movimento com a mão para o soldado, como quem abana o ar. O soldado aproximou-se do rei.

_ Seu idiota, eu quis dizer para você se retirar. _ O rei falou irritado.
O soldado sacou a espada e a apontou para o rei.

_ O que está fazendo? Quem é você? _ O rei falou assustado, enquanto mirava os olhos azuis cobalto do homem a sua frente.

_ Meu nome é Conan, majestade. _ O soldado enfiou a espada na altura do coração real. O rei tombou sem vida.

Fim