EU ESPERO PELO GRANDE MOMENTO

Tudo bem, eu posso fazer isso; pensei. Abri os olhos e encarei o espelho na minha frente. Vi o reflexo da cabine três. Uma cama desarrumada, coberta de camisas, gravatas e meias; a fonte de água salgada que meu pai me dera; o escudo preso à parede que fora presente de Tyson. As outras cinco camas estavam perfeitamente arrumadas, inclusive a de Tyson, que tinha um cavalo-marinho de pelúcia sobre o travesseiro.

Deixei para me olhar por último e o que vi foi um retrato do caos completo. O terno estava desalinhado e a gravata cinza estava torta; o cabelo despenteado mais parecia um ninho de guaxinins e eu estava tão nervoso que suava. Merda. Faltavam apenas vinte minutos para o inicio da cerimônia e o noivo estava perfeitamente bem para um andarilho ladrão de ternos que não sabia nem dar um nó de gravata.

Se dependesse de mim, eu me casaria usando bermuda e chinelos. Não que eu não quisesse estar bem vestido, mas eu me sentiria tão à vontade e tão feliz por estar me casando com Annabeth que as roupas seriam apenas um detalhe. Mas é claro que isso nunca aconteceria com Rachel organizando tudo e ao acordar pela manhã encontrei um pacote atrás da porta com um bilhete que dizia:

"Não achou mesmo que se casaria usando bermuda e chinelos; não é, Percy?! Tenho certeza que não pensou que eu faria o casamento perfeito para que você aparecesse vestido como um surfista barato, por isso aqui estão o terno e os sapatos que você esqueceu."

Rachel

Rachel. Ninguém pirou mais com tudo isso que ela. E tenho certeza de que, se na hora da cerimônia, uma flor estiver murcha ou se as pétalas da minha lapela não estiverem em um ângulo perfeito ela vai surtar de vez e teremos de chamar Dionísio para resolver o pior caso de loucura de todos os tempos.

Annabeth me surpreendera ao deixar tudo nas mãos de Rachel. Acho que foi uma medida preventiva, porque, mais estranho que uma madrinha surtando seria uma noiva surtando. E acredite, se Annabeth organizasse qualquer coisa que não ficasse absolutamente perfeita ela enlouqueceria de uma maneira dez vezes pior que Rachel.

Ouvi uma batida na porta. Minha mãe entrou seguida por Grover, que estava com cara de bode que ia para o abate, apavorado.

- Percy! – disse ela – O que faz aí parado? Você está se casando! Vamos! Reaja! E olhe só para isso! Você está um desastre!

- Nunca vou ficar decente a tempo. – constatei.

- Claro que vai! Por isso estou aqui. Grover, faça alguma coisa! Procure outra gravata, essa parece feita para um velório!

Olhamos para Grover sentado na cama mascando a flor de sua lapela desesperadamente.

- O que aconteceu G-man? – perguntei a ele.

- Rachel. Já havíamos combinado que eu e os outros sátiros tocaríamos na entrada de Annabeth, junto com os filhos de Apolo, mas eu não sei. Não sei se vamos conseguir. Acho que não vai ficar do jeito que ela quer e então ela vai acabar comigo! Eu não sei o que fazer Percy!

Certo. Ele precisava se acalmar antes de devorar minhas gravatas e meus sapatos.

- Fique calmo, Grover. Tudo vai dar certo. Sabemos que vocês podem fazer isso perfeitamente. – minha mãe tranquilizou-o – Vá falar com os outros sátiros, eles estão se preparando. Peça à Juniper que lhe consiga outra flor para a lapela e não a mastigue dessa vez! – Ela riu e o levou até a porta.

- Muito bem – ela disse ao se virar para mim – vamos fazer você ficar à altura de Annabeth.

- Annabeth? Você a viu? Como ela está? – perguntei.

- Absolutamente surpreendente! – disse ela – Mas não posso lhe dar mais detalhes, você verá quando chegar a hora.

Annabeth. Como ela estaria agora? Eu não falava com ela desde à tarde anterior. Rachel a sequestrara para que tivesse algumas horas "para relaxar". Devia ter pensado em uma coisa dessas para mim também, porque, a essa altura, Annabeth devia estar perfeitamente relaxada usando bobs nos cabelos enquanto eu não sabia nem que cueca usaria. Talvez ela estivesse calma o suficiente para chegar primeiro ao altar e esperar um pouco enquanto seu noivo era vestido pela mãe. Que os deuses me livrem de uma desgraça dessas! Ela acabaria comigo e seria viúva antes mesmo de ter um marido.

Minha mãe revirava as roupas na cama.

- Aqui está! – disse ela, erguendo uma gravata preta e um par de meias sociais. – Use esta cor; eu gostaria mais verde, para realçar seus olhos, mas acho que não corremos risco de errar se escolhermos preto. – Ela veio até mim e desfez a coisa que deveria ser um nó que eu fizera na gravata anterior. Me deu as meias e um par de sapatos, penteou meus cabelos e arrumou meu paletó.

- Oh, Percy! – ela disse, com os olhos mareados. – Meu menino agora será um homem casado e eu tive minha última oportunidade de vesti-lo, como quando era um bebê! – Ela secou uma lágrima que descia pelo rosto. – Agora vá! Quero vê-lo lindo assim naquele altar! – Ela me deu um beijo na testa e me empurrou porta afora.

Enquanto esperava no altar vi os convidados sob o teto de videiras entrelaçadas que Dionísio fizera especialmente para a ocasião, não porque quisesse presentear os noivos, mas porque para ele qualquer oportunidade de comemorar podia se tornar uma festa olimpiana. Ele se encarregou das flores, que se mantinham resplandecentes em sua presença; se comprometeu a fazer a festa, poupando-nos um grande trabalho, já que para ele era apenas uma questão de estalar os dedos. Rachel ficou com a cerimônia, os convidados e até se atreveu a dar alguns palpites na festa de Dionísio.

Os deuses compareceram em peso. O primeiro que vi foi meu pai, que usava um terno azul marinho e piscou para mim quando nossos olhos se encontraram. Hera também viera (para minha surpresa, afinal, ela tinha lá seus ressentimentos com a noiva) e estava sentada junto de Zeus, que com certeza viera obrigado pela esposa porque parecia completamente entediado. Afrodite estava sentada entre Hefesto e Ares (que posso garantir que viera obrigado por Afrodite, já que detestava mortalmente o noivo, no caso, eu). A deusa do amor sorriu para mim e pude ouvi-la dizendo em minha mente:

"Percy Jackson! O amor é mesmo lindo, não? Com todos os seus altos e baixos, é mesmo incrível o que é capaz de fazer com os corações humanos! Com certeza fiz um excelente trabalho aqui, sim! Mas não há ninguém melhor para lidar com a excelência do que eu!"

Pude ver também Hades, usando seus trajes negros, junto de Perséfone; Apolo, que se distraia olhando para o sol; Atena, que me dirigiu um sorriso ácido de "você não faz mais que sua obrigação" quando sorri para ela; meus pais, que estavam ao lado dos pais de Annabeth nas primeiras fileiras (isso graças à Quíron que modificou as fronteiras do acampamento para que eles pudessem entrar); os campistas e alguns deuses menores.

No altar pude ver os padrinhos e madrinhas: Tyson, Thalia, Rachel, Nico, Juniper e Grover (que estava sentado com os outros sátiros e com os filhos de Apolo). Vi Quíron em um terno branco, sentado em sua cadeira de rodas. Ele conduziria a cerimônia hoje por escolha de Annabeth. Nós oficializaríamos a união em um cartório antes da lua de mel, de acordo com os planos dela.

Pensar em Annabeth me deixou ansioso. Não podia mais esperar por ela. Olhei para meus sapatos tentando me controlar antes de correr até sua cabine e arrastá-la para o altar comigo. Percebi que todos estavam se levantando e olhei para frente. Então o mundo parou para mim. Não existia mais nada no universo além da mulher mais perfeita de todos os tempos caminhando lentamente na minha direção ao som da conhecida marcha nupcial.