Criações
Você não tinha dedos. Não tinha forma. Não tinha corpo.
Eu os dava a você. Você me dava palavras, pedaços de vida, sonhos, cumplicidades jogadas em folhas amareladas de tempo e solidão, e eu te dava existir.
- Eu estou com medo, Tom. Não sei o que está acontecendo.
E era como se seus olhos deixassem em tinta negra a ilusão das letras para sorrir para mim e dizer que não havia problema, como se o toque das páginas no meu rosto adormecido sobre o diário fossem seus dedos me acalmando em vozes sussurradas.
Você só existia para mim. Só eu sabia seu cheiro, suas cores, seus sorrisos. Porque eu podia ser uma criança e uma bruxa, mas sabia – no fundo, eu sabia – que era somente um diário, e não alguém que pudesse realmente me tocar com seus dedos de pétalas e seu calor de papel.
Por isso, quando eu te olhei pela primeira e última vez, em vapor debruçado sobre meu corpo, não reconheci o tom de fantasma e o cheiro de morte. Não era o que eu havia criado para você.
Era o que toques inexistentes haviam plantado em mim.
FIM
