2-CONFINAMENTO

Ao entrar naquela casa, eu tinha a impressão de que adentrava um mausoléu. Não porque fosse fria, escura e cheirasse a mofo e velas, era mais pelo fato de que eu me via sepultada ali, como se aquela modesta residência de três cômodos decretasse a minha morada perpétua após ter perdido todos os rastros de vida.

Com um aceno de varinha acendi o fogão de lenha, a fim de aquecer água para um chá. Enquanto o fogo se encarregava desse serviço, fui até a caixa de correio. Contas e um jornal anunciando as ofertas de um supermercado. Uma vez que morava em um bairro trouxa, eu deveria agir como eles, receber e pagar contas como eles. Corri os olhos pelo jornal do supermercado e me lembrei de que precisava ir às compras e estivera adiando este serviço, não só porque eu não gostava de estar no meio de muitas pessoas — especialmente trouxas — era mais porque não tinha motivação para sair de casa.

Ainda antes de entrar, eu dei uma boa olhada no céu azul claro e sem nuvens e no sol que se estendia preguiçosamente por sobre os arbustos e as roupas no varal. Fazia um típico dia de verão, talvez mais bonito e mais quente que todos os outros, por estar se despedindo, para a chegada do outono. Mas isso me incomodava, não só porque eu odiasse calor, mas principalmente porque toda a beleza de uma tarde assim contrastava com meu inverno pessoal. Eu preferia os dias frios, cinzentos e chuvosos, porque me podia camuflar neles.

A água começava a levantar bolhas de ebulição quando voltei para perto do fogão de lenha, como se eu houvesse contado o tempo exato. A rotina me possibilitava fazer tudo de forma calculada, mesmo que involuntariamente. E eu me sentei à precária mesa de madeira, servi-me do chá e tomei, enquanto corria os olhos novamente pelo jornal do supermercado. De repente levantei o rosto e voltei-o para a cadeira à minha frente. E se você estivesse bem ali, olhando para o meu rosto e sorrindo, com a sua própria xícara de chá nas mãos? Balancei a cabeça para me desvencilhar desse pensamento impossível, sorvi o restante do chá e deixei a xícara sobre a pia. Eu precisava terminar alguns trabalhos…

Desde que eu perdera tudo e tivera de me virar no mundo dos trouxas, arrumara um serviço caseiro: Costurar roupas para fora. Eu não só reformava, mas fazia belíssimos trajes de gala. Cada vez que me chegava a encomenda de um vestido de noiva, eu trabalhava nele com o carinho que desempenharia em meu próprio, porque tinha consciência de que jamais o faria. De qualquer forma, eu recebia uma quantidade razoável de encomendas, com as quais podia ao menos me manter. E meu trabalho com varinha não era, em nada, pior que os feitos à mão, com agulhas.

Mesmo assim, eu odiava aquele trabalho trouxa, aquela casa trouxa, aquela vida trouxa. Mas toda a minha família estava morta, e se não estivesse, estaria em Azkaban, por isso eu decidira me excluir do mundo bruxo. A última coisa que eu desejava, era que os dementadores levassem de mim o que restava de minhas boas lembranças, do que um dia eu pude chamar de felicidade.

INTERLÚDIO

— Mas o que deu na senhorita para pegar uma detenção?

Já era a segunda ou terceira vez que você enunciava essa pergunta, mas nenhuma delas com as mesmas palavras. Todavia, a entonação de sua voz era idêntica em todas as vezes: Não de advertência, como se era de esperar, mas de incredulidade. Você simplesmente não podia acreditar que a garotinha tímida e educada agira ilicitamente.

— Eu só queria descobrir o culpado— respondi finalmente e temi a sua reação.

Você manteve os olhos em mim por longos segundos. Eu fitava as minhas próprias mãos, sem coragem para erguer o rosto, mas sentia em mim o seu olhar inquisitivo, vindo daqueles orbes de águia, que captariam qualquer mentira.

— Descobrir o culpado — repetiu você, em um tom arrastado, como quisesse que eu refletisse acerca de cada uma das palavras que acabara de dizer.

Assenti, confirmando, mas ainda sem erguer o rosto.

— E de que maneira a senhorita pensava acercar-se de tal proeza?

— Desconfiei de Harry Potter no Clube de Duelos, quando ele falou utilizando a ofidioglossia. Pensei que poderia ser ele o tal herdeiro de Slytherin, que abriu a câmara secreta.

— E a senhorita achou prudente prender o garoto com Incarcerous e deixá-lo nessa condição até que confessasse, certo?

— O que ele não chegou a fazer, porque o senhor apareceu e me impediu de prosseguir com o plano. Não sabia que se importava tanto com Potter.

— Não com ele, mas com a senhorita. Algo desse teor até implica em expulsão. Da próxima vez que quiser arrancar verdades de alguém, use Veritaserum.

Eu ia contestar, dizendo que não dispunha de um estoque de poções, mas o seu meio sorriso me calou, porque eu não o esperava, e sim uma torrente de ira. Então percebi que era tolice tentar te entender, mas que havia graça naquela imprevisibilidade, como uma boa notícia que vem nos momentos mais tempestuosos. A partir daquele momento, eu comecei a te estudar, e já sabia que ficaria cada vez mais ávida por novas descobertas.