3-HISTÓRIA
Havia certo senhor chamado Dalton Solomon, que vivia a duas casas à direita da minha. Contava com seus setenta e cinco anos e morava sozinho, vivendo de sua aposentadoria. Foi ele um de meus primeiros clientes, assim que comecei a praticar a costura como fonte de renda, e, confesso, o trabalho não era satisfatório. Todos os clientes dessa época abandonaram os meus serviços, mas o Sr. Solomon não. A princípio pensei que era por falta de dinheiro — visto que eu cobrava tão pouco que as despesas com linhas eram maiores— mas depois descobri que ele tinha alguma afeição por mim, como o carinho que daria à filha que não teve — ou antes — precisava de uma confidente. E foi assim, dia após dia, durante quase um ano, que ele me contou toda a sua história de vida.
Dalton Solomon nascera de uma família rica e até influente no mundo trouxa. Sendo filho único, teve uma boa infância, regada do bom e do melhor, estudou nos colégios mais caros, e, na adolescência, apaixonou-se pela filha da criada de sua casa. Por saber que se tratava de um amor quase inconcebível, Solomon decidiu estudar Direito na França. Presumia que por lá encontraria outros propósitos, ou até um novo amor. Qual nada! O jovem Solomon frequentou os melhores bares de Paris, berço da boemia, comprou prazer nos bordéis mais famosos do mundo, dedicou-se de corpo e alma aos estudos e até conquistou uma linda moça de mesma classe social, mas voltou para o Reino Unido de mãos vazias. O que ele fez ao rever a bela Louise, foi perceber que os seis anos que passara fora não lhe valeram de nada, uma vez que procurara tão incessantemente a felicidade em outro país, sendo que ela morava debaixo de seu teto. E ele sofreu ao se dar conta disso, porque sabia que teria de lutar, mas não dispunha de armas. A sua primeira decisão foi falar com a moça, que contava, então, com seus vinte anos. Ela confessou-lhe que havia sofrido durante todo o tempo em que ele estivera fora, pensando que jamais tornaria a ver o seu rosto. Era correspondido, então, o sentimento do jovem Solomon, e tudo parecia imensamente mais fácil. Mas não era. Não, porque quando ele anunciou à família que se casaria com a pobre Louise, a primeira providência que seus pais tomaram foi demitir a moça e a mãe dos serviços que prestavam à mansão, depois arranjaram uma menina de família rica para se casar com Solomon. A resposta do rapaz, porém, foi dizer à família que abriria mão de todos os seus bens, e partiu com Louise para a casa em que ele mora atualmente. Casaram-se e viveram juntos por três anos, depois ela morreu de câncer no cérebro. O Sr. Solomon também me contou que jamais se arrependeu de ter aberto mão de tudo o que possuía para viver três anos ao lado da mulher que amava. Aqueles haviam sido os três melhores anos de sua vida, e dinheiro algum jamais pagaria aquilo.
Acostumei-me a pensar constantemente na história do Sr. Solomon, e concluí que ele deveria ser o homem mais forte do mundo. Setenta e cinco anos, e ainda suportava viver com a dor que deveria ser constante… Não seria melhor morrer de uma vez? — Eu me perguntava — Mas talvez ele fosse tão fraco quanto eu, tão fraco a ponto de sequer conseguir dar cabo da própria vida. Então eu viveria assim, contando cada uma das longas horas do dia, por mais quantos anos? Ficaria velha e sozinha, vivendo de migalhas, lembranças e sonhos? Viveria mais quantas décadas sem você, vendo o mundo mudar e o meu regredir?
INTERLÚDIO
Lembro-me que faltavam poucos dias para o Natal, e a neve já caía em grandes flocos, empalidecendo os jardins e salpicando as vidraças. Da porta principal, eu observava os meus amigos partirem para um passeio em Hogsmeade, em seus pesados casacos de inverno, e sentia ódio mortal pelas muletas em que me apoiava, enquanto tinha a perna esquerda totalmente imobilizada. Uma queda de vassoura, para variar, e nem mesmo os poderosos feitiços de Madame Pomfrey puderam me livrar do gesso.
Porém, na atmosfera suave e tépida do Salão Principal, sentada à mesa solitária de minha casa, o meu ódio se atenuou, e eu até consegui enxergar um ponto favorável em toda a minha desgraça: Ao menos a escola estava silenciosa, e eu poderia descansar a mente. Aquele ano realmente não estava sendo fácil, com a ameaça constante de Sirius Black — que eu achava simplesmente tediosa — e aqueles dementadores horrendos zelando por nossa segurança — uma completa ironia. Ao menos ali, naquele momento, não havia mais nada, apenas o silêncio do Salão Principal completamente vazio. Silêncio este que foi quebrado por você. Eu estava concentrada demais em minhas meditações, e não o percebi se aproximar. Sobressaltei-me com o tom grave de sua voz a chamar o meu nome.
— É pena que não tenha podido ir para Hogsmeade. — você disse.
— Acho que já estou conformada — respondi.
— E a perna, como está?
— Melhorando aos poucos. Madame Pomfrey me disse que daqui a três dias talvez possa tirar o gesso.
Você assentiu e se calou, mas eu percebi que ainda queria me dizer alguma coisa, ou talvez fosse só impressão. Mas não era.
— Estive com Lucius Malfoy há poucos dias. — você falou, e eu notei certa relutância em sua voz.
— Com Lucius Malfoy? — repeti, estranhando aquela conversa.
— Ele me disse que faz gosto do seu namoro com Draco.
A princípio, creio que fiquei lívida como a neve que caía sobre os jardins e os cobria de alvura, depois devo ter ficado escarlate. Era verdade que eu cultivava certa paixão não correspondida por Draco Malfoy, mas ficara, assim, tão evidente?
— Nós não estamos namorando — foi o máximo que eu consegui dizer.
— Foi o que eu disse a ele. Vocês ainda são duas crianças.
Uma dorzinha aguda me atingiu o ego ao saber que você me via dessa forma, como uma criança, que de fato eu era aos treze anos.
— Acho que vou descansar um pouco. — eu falei, apoiando-me em uma das muletas para tomar impulso e me erguer de uma vez.
E qual não foi a minha surpresa quando você ajudou a firmar-me de pé, entregando-me a outra muleta.
— Muito obrigada — balbuciei, e me encaminhei à porta, com meus passos lentos.
— A propósito — você me disse quando eu quase ia longe — você ficou bonita com os cabelos curtos.
Eu nunca poderia me esquecer desse dia.
