4-INSÔNIA

Quando criança, eu detestava a hora em que minha mãe ordenava que eu fosse para a cama. Pensava que desperdiçaria meu tempo naquela atitude ociosa de dormir. Quando ela apagava a vela, eu esperava uns cinco minutos e me punha a brincar silenciosamente com minhas bonecas. Em Hogwarts, eu costumava ficar no salão comunal até altas horas da madrugada — não porque não sentisse sono, mas porque geralmente você passava por ali às duas da manhã. Eu realmente não ligava importância às horas de sono, nunca liguei. Ao menos até que elas me fizessem falta. Depois que você se foi, o que eu não daria por uma noite de sono tranquila? Por não me debater na cama por pelo menos uma hora, esperando o sono? E quando ele chegava, entretanto, era para trazer uns sonhos confusos, outros até agradáveis, mas que viravam fumaça ao acordar.

Uma noite, em especial, foi a que marcou uma semana de minha visita à plataforma nove e meia. Penso que fiquei pelo menos duas horas esperando vir o sono, e nesse ínterim sentia dor de cabeça e um esmagador aperto no peito, além de revirar-me na cama à procura de uma posição confortável. E então veio a sensação claustrofóbica de que eu estava confinada àquele quarto, e nunca existiria um mundo lá fora. Era como se o dia jamais fosse amanhecer, e, por um lado, eu queria mesmo que a noite fosse eterna. Eu não queria ter de acordar e viver mais um dia, outro como todos os anteriores, sem perspectiva de mudança ou melhora. O grito se formava em minha garganta, mas eu o impedia de sair e acabava sufocada. De tudo, eu queria só o sono, um sono reconfortante, leve. Seria, a uma alma tão atormentada, pedir demais? Algumas horas de torpor, apenas isso. E foi com alívio que eu senti a consciência se dissipar, mas de forma tão frágil que o mais leve rufar me despertaria para o resto da noite.

Acordei na manhã seguinte com a traiçoeira sensação de que não estava naquela cama, daquela casa. Para mim, eu estava sob o cortinado verde da cama de dossel, vivendo uma extensão do sonho que tivera. E eu sonhara com você a noite inteira. — ou o que aproveitara dela. — Eu pude ver nitidamente o seu rosto, tocá-lo, e parecia tão absolutamente real! Diferente dos demais sonhos, nesse eu perdi a consciência por completo e me deixei levar, entreguei-me à fantasia. Mas acordei e me dei conta de que havia dormido e sonhado, e, consequentemente, a realidade veio à tona. Eu teria me aventurado a tentar dormir e sonhar de novo (às vezes dava certo), mas as batidas à porta só poderiam significar uma coisa: Já fora a hora de dormir e sonhar, o dia amanhecera e a realidade batia à porta — literalmente. Vesti o robe e escovei os dentes e os cabelos rapidamente. As batidas eram insistentes, o que me aguçava um pouco mais a irritação. Quando abri, porém, toda chateação e qualquer outro tipo de sentimento se esvaiu, como se o susto me deixasse momentaneamente vazia.

— Draco?

— Foi difícil te encontrar, Pansy. Mas que lugar é esse em que você veio se esconder?

— O que você quer?

— Eu vi você semana passada na plataforma, e foi uma surpresa, porque pensei que estivesse morta.

Então eu não passara despercebida como um fantasma, afinal, mas isso não me tornava mais feliz, nem era agradável de ouvir.

— Todos pensam que eu morri com minha família — eu disse com um sorriso amargurado — até prefiro que seja assim.

— Não vai me convidar a entrar?

Afastei-me um pouco da porta e indiquei o seu interior ao meu visitante, com um gesto teatral. Ele entrou e não fez cerimônia para sentar-se ao sofá.

— Está vivendo como uma trouxa — ele falou um tanto enojado, olhando para artefatos não-bruxos, como lâmpadas e um telefone velho e desativado.

Dei de ombros.

— No que você se tornou, Pansy?

— Veio para criticar o modo como vivo? Acredite, não é por vontade minha.

— Sua vida se resume a esta casa?

— Basicamente.

— Não se casou? Não teve filhos?

Meneei negativamente a cabeça, sem ânimo para discutir.

— Como consegue viver dessa forma?

— A minha vida acabou aos dezessete anos, Draco. Tudo o que tenho passado nos últimos dezenove, é espera. Espera, porque não tenho coragem de provocar o fim.

— Não pensa em melhorar?

— Foi o tempo que vivi de ilusões, tive a adolescência para isso. Hoje tudo o que se mostra diante dos meus olhos é a realidade amarga e imutável.

— Não pode trazê-lo de volta, Pansy, tem de se conformar.

Estudei Draco cuidadosamente antes de lhe responder. O seu rosto não parecia muito mais feliz que o meu, embora ele tivesse mais motivos para sorrir — ou pelo menos deveria ter.

— Eu sei — respondi finalmente — e se pudesse, eu não estaria desse jeito, Draco, porque haveria alguma esperança em mim. Isso que você vê é o reflexo do desespero causado pela certeza do nunca mais.

Ele baixou a cabeça. Aquele não era o Draco Malfoy de que eu me lembrava, não com semblante tão preocupado e cansado, e eu ousaria dizer, infeliz.

— Quer saber por que eu estou aqui? — ele perguntou, mas não esperou que eu respondesse — Porque uma culpa me atormentou por todos esses anos, e foi um alívio saber que você estava viva e que eu poderia lhe pedir desculpas.

— Pedir desculpas? Mas pelo que?

— Pela morte de Snape. Ele morreu em meu lugar, por causa do voto perpétuo que fez com a minha mãe para me proteger. Eu sinto muito, Pansy, nunca poderia supor a existência da Varinha das Varinhas.

Havia dezenove anos que não ouvia ninguém falar em sua morte. É claro que lembrava o tempo todo, mas ouvir a enunciação em voz alta era mais doloroso. Entretanto, mantive-me firme, sabia que naquele momento eu estava usando a minha máscara.

— Não tem que se desculpar, Draco, a culpa não foi sua. Não guardo nenhum remorso de você, e nunca, jamais pensei que você deveria ter morrido no lugar dele. As coisas acontecem quando elas simplesmente têm que acontecer.

— Mesmo assim eu continuo a sentir esse peso, é algo de que não consigo me livrar.

Balancei a cabeça e me dispus a mudar de assunto.

— E a sua vida, Draco?

— Casei-me com Astoria Greengrass e tive um filho. Hoje trabalho no Ministério, junto de meu pai.

— Parece-me uma vida simples e feliz.

— Nem tanto, Pansy, nem tanto. Certas vezes penso que não deveria ter escutado tanto os conselhos da família para me casar com Astoria, mas essa história de seguir o coração nunca deu muito certo comigo.

— Não é o tipo de vida com que você sempre sonhou, estou certa?

— Eu diria que não tem a emoção que eu imaginava. As coisas vão perdendo a graça com o passar dos anos, não é verdade? Às vezes até sinto saudades da época em que eu infernizava a vida de Harry Potter, imagine.

— Era bom não ter preocupações além da escola, mas esse tempo passou. Infelizmente as coisas vão se tornando mais difíceis à medida que crescemos.

— Será que é assim com todo o mundo?

— Não sei, acredito que existam pessoas realmente felizes, mas são raras, escolhidas a dedo por Deus.

— E como ficamos, então? Em uma espera incerta de que tudo acabe?

— Mais ou menos isso.

Ele assentiu e se levantou, dizendo que precisava ir ao trabalho.

— Posso visitá-la outras vezes?

— É claro que pode, Draco.

Ao fechar a porta e me ver sozinha, a sensação foi de que eu piorara ao menos dez vezes mais. Draco trouxera em seu rosto todos os resquícios do passado. Ao vê-lo, lembrei-me de Hogwarts, e de que já fora feliz um dia. Lembrei-me das tardes de verão à beira do Lago Negro, dos banquetes, da lareira do salão comunal, das visitas a Hogsmeade, dos feitiços, do sono recompensador após um dia inteiro de estudo, da paz que já se encontra tão ausente... De você.

INTERLÚDIO

Eu estava simplesmente radiante por Draco ter me convidado a acompanhá-lo ao Baile de Inverno. Eu esperara, torcera tanto... Convidou-me de última hora, mas não me importei. Coloquei o meu vestido mais bonito e arrumei os cabelos da melhor maneira que pude. Eu estava absolutamente feliz e pensava que nada poderia estragar a minha alegria, mas eu estava enganada. Encontrei você à porta do salão comunal e imediatamente senti a euforia de dois dias atrás se dissipar, como por magia.

— Malfoy já está te esperando — você disse, e seria possível supor uma pontada mínima de desgosto em sua voz? — acabei de vê-lo à ponta da escada.

Pensei ter perdido a voz momentaneamente, e me admirei por conseguir falar.

— O senhor não vai à festa? — balbuciei rapidamente, tropeçando nas palavras.

— Talvez eu passe lá depois.

Assenti e continuei o meu caminho sem olhar para trás. Eu ainda não entendia porque, de repente, não havia mais tanta graça em ir com Draco ao baile, pensava até que ele me convidara por falta de opção. Cogitei, realmente cogitei trocar o vestido pelo pijama e dormir, mas segui em frente, convencendo-me de que aquele era mais um pensamento confuso, dos milhares que eu tinha. E tampouco pude entender porque os meus olhos, a todo o momento, se desviavam para a direção em que você estava, sozinho a um canto do Salão Principal.