5-LIBERDADE CONDICIONAL

Por todo o curso de minha infância e adolescência, eu abominara os meios trouxas de comunicação, mas como passei a viver como tal, acabei por não resistir ao televisor. Comprei um pequeno e o coloquei sobre a bancada do armário da cozinha. Adquiri o terrível costume de sentar-me à mesa, todas as noites, e rodar os canais enquanto bebericava um copo de leite frio. Geralmente eu não assistia de fato, mas tinha o aparelho para espantar a solidão. Ao menos era uma forma de ouvir vozes alheias naquela casa mortalmente silenciosa. Mas naquela noite eu decidi prestar atenção ao filme do canal que escolhera aleatoriamente. Que nunca me questionem o título, porque não o saberia dizer. Para ser sincera, não assisti mais do que cinco minutos — pois que já pegara o filme no final — tempo suficiente para ver a última cena, em que a mocinha beijava o seu amado — que provavelmente havia feito mil peripécias para estar ali, naquele momento plácido — e, juntos, seriam felizes para sempre. Desliguei a televisão, enraivecida, e apaguei as luzes. Já em minha cama, comecei a pensar sobre o que assistira. Por que o final dos filmes sempre — ou pelo menos quase sempre — eram felizes? A vida dos trouxas, nesse quesito, não podia ser tão diferente da dos bruxos. Pelo que conheci do mundo trouxa desde que me embrenhei nele, existiram guerras, e guerras de grande porte. Quantas outras moças não perderam o homem que amava? Quantas famílias não perderam seus filhos, e quantas crianças não foram abandonadas? E por que nos filmes a realidade é tão adversa? Mesmo nos filmes de guerra o protagonista acaba bem. Por quê? Na realidade nua e crua, os bons morrem lutando e deixam o mundo impecável para que os maus continuem a cultivar seus atos perversos. As boas pessoas morrem ou são condenadas à solidão. Ou são condenadas à solidão e morrem, por consequência.

Demorei a dormir por conta dessa meditação e acordei indisposta. Após um banho rápido e frio, fitei o meu reflexo enquanto penteava os cabelos. Eu detestava aquela minha expressão arrasada, os olhos fundos, cansados e sem nenhum brilho. Por mais de uma vez cogitei dar cabo de todos os espelhos que havia em casa — e não eram muitos — mas desisti, porque a ideia de fugir à realidade dessa forma parecia-me inútil e infantil. É claro que isso não significava necessidade de ficar muito tempo a olhar o reflexo, pelo contrário, eu só me submetia a essa tarefa pelo necessário período de pentear os cabelos. Em todo o caso, nessa manhã não foi diferente, e após me pentear, fui para o quarto me vestir. Tudo correu normalmente, como em todos os dias, exceto pelo fato de minha caixa de fotografias, que eu mantinha muito segura no maleiro do guarda-roupa, cair quando fui pegar os meus sapatos. E todas aquelas fotos caíram ao chão, todas as minhas melhores lembranças a se dispersarem pelo assoalho de madeira. Sei que deveria ter guardado tudo mais do que depressa, evitando-as como fizera nos últimos dezenove anos. Deveria, mas não o fiz. Ao contrário, sentei-me ao chão, ao lado delas, e as peguei, uma a uma. A primeira mostrava Draco e eu em Hogsmeade. Devíamos ter treze ou catorze anos e acenávamos, segurando uma sacola abarrotada de doces. Suspirei e decidi guardá-la, mas quando peguei a caixa, notei que lá ainda havia pelo menos meia dúzia de fotos. Entornei-as ao chão antes de guardar a que eu acabara de ver, e quando me voltei a elas, deparei-me com a que mais se sobressaía entre as demais. A única foto em que havíamos eu e você juntos. Bem, eu, você e todo o resto de minha turma, uma foto de colégio. Mas eu podia ignorar todos os demais rostos, porque estava ao seu lado. No rodapé da fotografia havia uma inscrição: "Hogwarts – 6° ano – Sonserina". Eu não pude conter a emoção ao ver um retrato seu, que eu vinha rejeitando há dezenove anos. Era esse o tempo que eu passara sem ver o seu rosto, e, no entanto, lembrava dele com exatidão, riqueza de detalhes. O que eu não me lembrava muito bem era de meu próprio rosto. Eu sabia que ele havia sido muito mais bonito e iluminado, mas não podia me lembrar que era tão mais feliz, jovial e bem cuidado. Eu ficara praticamente irreconhecível. E essa palavra perdurou por alguns minutos em minha mente, até que tomei uma decisão: Daria uma espiada no mundo bruxo e ninguém me reconheceria. Larguei todo o trabalho com a costura e as fotos ao chão e peguei a minha varinha, com a intenção de aparatar. Eu ainda saberia fazer isso? Não tive nenhum problema, magia é algo que não se esquece com o tempo, mesmo que se deixe de praticar. Em um curto período de tempo, eu estava no Beco Diagonal, em Londres. Olhei fascinada à minha volta, admirando, com saudades, toda a manifestação de magia que meus olhos podiam ver. O Beco era o mesmo, com sua agitação de pessoas a irem e virem e lojas lotadas, especialmente a Floreios e Borrões. Andei, observando, deleitando-me. Eu não possuía um nuque sequer, mas realmente não me importava.

Parei em frente à loja de Madame Malkins. Ela ainda estava lá, atrás do balcão, e embora parecesse absolutamente mais velha, conservava o mesmo porte elegante que sempre tivera. Lembrei-me de quando fui fazer o meu primeiro uniforme, e comecei a devanear. Sobressaltei-me quando senti uma mão sobre o meu ombro e recuei imediatamente.

— Srta. Parkinson?

Por alguns segundos, pensei que meus olhos me enganavam, criando uma ilusão, mas logo me dei conta de que a McGonagall à minha frente era bem sólida e parecia mais velha e mais sábia, imagem e semelhança de Dumbledore. E ela me reconhecera!

— Professora — sibilei, incapaz de me dirigir a ela de outra forma — como vai?

— Muito bem, e a senhorita? Ou senhora?

— Senhorita — respondi, com um sorriso cansado — eu não me casei.

— Nunca mais ouvi falar de nenhum Parkinson, achei que você estivesse morta.

— Todos pensam o mesmo, até porque fui me isolar em um povoado trouxa.

— Abriu mão do mundo bruxo? Logo em tempos tão amenos, Pansy! Não tivemos mais problemas desde a morte Daquele-Que-Não-Se-Deve-Nomear.

— Creio que todos os meus tenham surgido depois disso, mas não vem ao caso. Eu não queria ser perseguida por Azkaban, já que todos em minha família foram Comensais da Morte.

— Mas você não era, nunca foi, é claro que o Ministério não lhe caçaria.

— De qualquer forma, já estou conformada com a vida que tenho.

— Posso ter a ousadia de lhe perguntar o que, então, faz no Beco Diagonal?

— Senti um pouco de saudades, apenas isso. Afinal, são dezenove anos vivendo como trouxa, não há quem aguente sem uma recaída.

— Não gostaria de voltar a ser uma bruxa de fato?

— Mesmo que eu quisesse, não tenho um nuque no bolso. O pouco de dinheiro que eu tenho é trouxa.

— Se bem me lembro, você era uma excelente aluna em Transfigurações...

— Foi a minha matéria favorita.

— Creio que não tenha esquecido a arte de transfigurar...

Respondi com um sorriso, e, com minha varinha, transformei, em menos de cinco segundos, uma folha morta em uma borboleta.

— Não esquecemos aquilo que amamos — respondi, com um suspiro.

Ela assentiu.

— Bem, na semana passada nós perdemos a jovem bruxa que lecionava Transfigurações em Hogwarts. Ela já vinha meio doente, coitadinha... O fato é que nossas crianças estão sem Transfigurações, porque não tenho mais idade para lecionar, e, além disso, tenho a diretoria da escola para cuidar. Eu gostaria que você trabalhasse conosco, Pansy.

Foi um convite absolutamente inesperado, que me deixou sem reação. É claro que eu fazia gosto em voltar ao mundo bruxo, mas eu suportaria Hogwarts e todas as suas lembranças? Talvez... E eu não sentia mais medo de arriscar, pior que a rotina que eu levava não haveria de ser. Aceitei o convite e me comprometi a encontrá-la em Hogsmeade no dia seguinte.

Foi prazeroso arrumar as minhas malas naquela tarde. Não me preocupei com as encomendas, já que entregara todas as roupas no dia anterior e não pegara nenhum pedido. Fui ao proprietário da casa e encerrei o contrato, alegando que partiria para longe. Dormi bem naquela noite, e na manhã seguinte, ao fechar as portas atrás de mim e entregar as chaves ao proprietário, que era meu vizinho, respirei aliviada e sorri abertamente, pela primeira vez em tantos anos. Era como se eu estivesse deixando a prisão, embora a minha pena fosse perpétua. Mas ver-me livre do confinamento já me enchia de um alívio e uma paz de espírito que eu jamais pensara voltar a ter. Eu voltaria para onde tudo começou e ficaria por lá até o fim.

INTERLÚDIO

Reparei em cada um dos rostos, que pareciam um tanto apavorados. Alguns nem tanto, como era o caso de meus colegas da Sonserina, mas evidentemente a morte de Cedric Diggory não ficara indiferente a nenhum aluno, sem exceção. Eu, por exemplo, havia pensado na tragédia durante as férias inteiras, embora não tivesse realmente nenhum laço de amizade com Diggory. E eu acreditava em Harry Potter, não havia como não acreditar, uma vez que meus pais estavam entre os Comensais que presenciaram a ascensão de Voldemort. E temia por eles, sabia que se embrenhariam pelas mais lúgubres tarefas a mando de seu Lord, que ressurgira com fome de poder. Mas em meio a todos aqueles rostos afetados pela tragédia, estava o seu, menos afetado, talvez, porque era sempre inexpressivo. Sim, inexpressivo, indiferente, impassível, mas mesmo assim pude perceber o desagrado perpassar por seu semblante quando Dumbledore anunciou que Dolores Umbridge lecionaria Defesa Contra as Artes das Trevas, a profissão que, todos nós sabíamos, há muito era almejada por você. Senti uma vontade bastante estúpida de correr e te abraçar, mas balancei a cabeça e me livrei dela, porque a julgava realmente estúpida. De qualquer forma, Draco não me era mais tão atraente, embora saíssemos de vez em quando. Tinha para mim que ele estava ficando metido demais, e sua arrogância deixara de ser um charme. Eu não assimilara isso ao meu sentimento por você, que estava crescendo aos poucos, já com o intuito de me dominar.

Você não parecia nada receptivo no dia seguinte, em minha primeira aula de Poções do quinto ano, mas ainda assim, alguma força estranha me impeliu a esperar que todos os alunos saíssem para ter com você a sós.

— Ah, essa Umbridge não me parece boa coisa — eu disse de uma vez, segurando nervosamente a alça da mochila — a julgar pela atitude de interromper Dumbledore durante o seu discurso. Tenho para mim que ela será uma péssima professora, e que o senhor seria muito melhor em lugar daquela estranha.

Você apenas deu um sorriso muito breve, quase imperceptível.

— A minha hora vai chegar — você disse, sem qualquer rastro de aborrecimento.

— Tenho certeza que sim.

— E quanto à senhorita, deve estudar bastante para ir bem nos N.O.M.s.

— São muito difíceis?

— Você é inteligente, Parkinson, creio que não terá problemas.

E você perdera, naquele momento, a formalidade ao se dirigir a mim, embora continuasse a usá-la algumas vezes, posteriormente, mas me senti feliz com esse detalhezinho ínfimo de intimidade.

— Assim espero.

Mas havia mais alguma coisa que eu queria perguntar, e me sufocaria caso não o fizesse. Você provavelmente até ficaria com raiva de mim, mas eu não podia deixar aquela pergunta tão importante passar.

— Professor — comecei meio timidamente, pronta para recuar se fosse preciso — sobre a volta de Você-Sabe-Quem...

— Esqueça esse assunto, Parkinson.

— Eu gostaria, mas meus pais são Comensais da Morte e fazem questão de me lembrar isso a todo o momento. Bem, eu os ouvi falar algo do tipo "Agora Snape voltou para o Lord, mas ele não é digno de confiança, uma vez que correu para Dumbledore após a sua queda." O senhor é um Comensal?

— Evidentemente, Parkinson — eu me admirei com a simplicidade de sua resposta, sem nenhuma fúria ou constrangimento.

— Então realmente está aqui para levar a Você-Sabe-Quem informações de Hogwarts? Eu nunca morri de amores por Dumbledore, mas não é uma baita traição?

— É muito mais complicado do que você imagina, criança.

— Eu não sou mais criança — rebati, ofendida.

— Para assuntos como este, é, e eu espero que seja para sempre.

— Eu não pretendo ser uma Comensal da Morte, se é o que quer dizer. Aliás, não vejo porque uma pessoa decide enveredar por caminho tão negro.

— Por necessidade, talvez, mas não discutamos isso. Você tem um segredo meu, e espero que não o distribua, mesmo que isso vá contra os seus princípios.

— Eu seria incapaz de prejudicá-lo, mas o senhor me decepcionou.

— Eu vou lhe contar a história inteira, Parkinson, e talvez a sua decepção se atenue. Mas não agora. Você tem uma aula de Herbologia, se não engano, e é com ela que deve se preocupar. Por ora, basta-me que acredite que não sou o monstro que você imagina.

— Eu não estou preocupada com a aula de Herbologia, ao menos não tanto quanto estou com esta história.

Você sorriu brevemente e me indicou a carteira mais próxima à sua mesa, que eu recusei.

— Que garota teimosa — você disse com um toque de desdém — mas que assim seja. Parkinson, como eu disse, você tem um segredo meu em suas mãos, e se distribuí-lo a outras pessoas, eu estarei em maus lençóis. Alguns até sabem que fui Comensal, mas ninguém acredita — ou, pelo menos, não com certeza — que voltei a me aliar ao Lord.

— E como eu disse, jamais distribuiria tal segredo.

— Pois é, mas novamente terei de confiar em você e contar algo que pouquíssimos sabem. Eu voltei a Voldemort a mando de Dumbledore.

— De Dumbledore?

— Os Comensais e o próprio Lord não acreditam que eu estou em Hogwarts para espionar e levar informações a eles?

— Sim.

— É exatamente o contrário, minha cara Parkinson. Levo informações falsas a Voldemort, pego as verdadeiras e trago-as a Dumbledore.

Aquilo era algo por que eu realmente não esperava.

— Isso é verdade?

— Sim, é verdade, Pansy. E novamente terei de confiar em você, para que não conte nada disso a seus pais.

Balancei a cabeça. É claro que eu jamais faria algo que pudesse te prejudicar, e mesmo, eu não concordava com o trabalho de meus pais nem com os ideais de Voldemort, embora tentasse por muitos anos me convencer que sim. Sobretudo, o que mais me atormentava era o fato de você ter me chamado pelo primeiro nome. Esse simples ato fez com que uma descarga elétrica disparasse em meu corpo. Você sorriu, como se pudesse ler toda a confusão em minha mente, ou simplesmente vê-la em meus olhos. Depois eu descobri que você realmente estava lendo os meus pensamentos, por ser um grande Legilimens. Evidentemente, por esse motivo acercara-me de seu segredo, por ver claramente que eu jamais o trairia.

— Eu não vou contar nada — falei por fim — no que depender de mim, o seu segredo estará protegido.

— Eu sei que posso confiar em você, Pansy.

Novamente estremeci, e embora tenha quase certeza de que não demonstrara fisicamente, você sorriu, adivinhando meus pensamentos. Acho que você já sabia de meus sentimentos antes mesmo que eu me desse conta.