6-RETRATO
Se fora estranho e até desconfortável estar no Beco Diagonal, que diria pisar as calçadas das ruas de Hogsmeade? Cada uma daquelas lojas me trazia recordações de tempos remotos e tão diferentes, tão melhores... Decidi não pensar e tentei não sentir. Focalizei toda a minha concentração em McGonagall, que me esperava nos arredores do Três Vassouras.
— Perdoe-me um possível atraso — eu disse assim que cheguei suficientemente perto.
— Não está atrasada — ela me respondeu com bondade — vamos?
Assenti, mas não tinha certeza de que seria sensato voltar a Hogwarts, quando eu ainda estava tão fragilizada. E não me equivoquei: As lágrimas despencaram de meus olhos assim que avistei o castelo. McGonagall deu um tapinha no meu ombro de forma encorajadora, mas não me acalmei, pelo contrário, meu lamento só se fez aumentar.
— Você é mais forte do que pensa — lembrou-me McGonagall, mas não pude acreditar em tal afirmação.
Ao adentrar o saguão de entrada, tive a incômoda e estranhamente eufórica sensação de que te encontraria ao dobrar qualquer esquina. O castelo estava exatamente igual fora em minha época, mesmo com a reforma pela qual passara após a Guerra. Em cada canto eu podia ver a sua sombra, sentir os seus olhos negros me observando. Por meio segundo, eu devaneava e tinha certeza absoluta de que você apareceria a qualquer momento, o que só intensificava a minha dor, quando eu sabia que você jamais poderia voltar.
McGonagall mostrou-me os meus aposentos, os quais pertenceram à falecida professora. Era um quarto triste no quinto andar, com um banheiro pequeno e uma janela que dava para o jardim. Coloquei a minha mala sobre a cama e olhei à minha volta. Eu ficaria bem ali, bem melhor do que na casa trouxa.
— Pode vir comigo até a minha sala, Pansy? — indagou McGonagall — Precisamos tratar de alguns detalhes.
— É claro — assenti.
Fui abatida por um repentino e ligeiro mal estar ao adentrar a Sala do Diretor, uma vertigem tal que, sutilmente, apoiei-me sobre o espaldar da cadeira que havia frente à de McGonagall, separada pela grande mesa, cheia de papéis muito bem organizados. O motivo estava à minha esquerda, junto aos quadros de todos os diretores de Hogwarts. Um retrato seu com influências renascentistas. Cópia perfeita de seu rosto. Mas, ao contrário de todos os outros quadros, o seu parecia estático, sem vida, quase como um quadro trouxa.
— Eu não sabia que haviam colocado um quadro de Snape entre os diretores — falei, com a voz meio engasgada — pelo que soube, não o consideravam tal, porque deixou a escola à deriva em um momento crucial.
— Tudo mudou, Pansy, — respondeu-me McGonagall — quando Harry Potter contou ao Ministério quem realmente foi Severus Snape.
Assenti, incapaz de me pronunciar, e fiquei muda por alguns segundos, ainda em minha contemplação.
— Professora — eu disse por fim — é verdade que os quadros podem conversar conosco? A julgar pelos demais, que estão dispostos pelo castelo...
— É verdade sim, Srta. Parkinson.
A voz de Dumbledore, vinda do retrato atrás da mesa, sobressaltou-me, e recuei alguns centímetros. Ele sorriu. Era incrível como parecia vivo.
— Professor Dumbledore... — murmurei.
— No entanto — ele disse — o retrato de Severus jamais se manifestou.
Olhei rapidamente para o quadro em que seu rosto, mesmo postumamente, ainda indicava todos os traços da indiferença, como se não estivesse realmente ali. Seus olhos miravam algum lugar longínquo.
— A alma está presa ao retrato? — indaguei, olhando de Dumbledore para McGonagall, em busca de uma resposta. E foi ele quem se manifestou primeiro.
— Parte dela, Parkinson.1
Olhei novamente para o seu retrato, com alguma expectativa, mas seu rosto continuava impassível.
— Parkinson — ouvi a voz de McGonagall, trazendo-me de volta à realidade — precisa de vestes adequadas e outros acessórios, então lhe farei um empréstimo, está bem?
Concordei, incapaz de discutir, mesmo porque não haveria motivo.
— E você terá uma semana para revisar os assuntos que lecionará, certo?
— Ótimo — concordei.
— Então já pode ir, e me procure no caso de qualquer dúvida.
Mas antes de sair, Dumbledore, no retrato, desejou-me as boas vindas, e eu aproveitei para lançar um último olhar ao seu. Eu gostaria de levá-lo comigo, para contemplá-lo durante a noite inteira, mas como não era possível, levá-lo-ia em minha lembrança, como fora por todos aqueles anos.
Antes de me trancar em meus novos aposentos, passei na biblioteca e apanhei uma boa leva de livros necessários e um ou dois para uma leitura mais diletante. Erroneamente, comecei pela mais diletante. Deitei-me à cama e pus-me a folhear o exemplar de "Os bruxos mais curiosos dos últimos quinhentos anos". Passando rapidamente os olhos pelo índice, pude perceber que uma maioria esmagadora dos relatos eram bizarros. Todavia, um localizado na página 168 ou 186, não me recordo com exatidão, pareceu-me interessante pelo título: "Samuel Kendall, o homem que desejava contornar o tempo". Imediatamente migrei para a tal página, onde havia uma pintura inerte do jovem Kendall. Era um rapaz bonito, de cabelos louros e olhos azuis. A tal pintura tinha traços do movimento Renascentista trouxa, como o seu retrato, mas era muito mais apático, embora o seu também não fosse tão vivo.
Segundo o tal relato, o jovem chamado Samuel Kendall mudara, aos nove anos, em 1864, para uma antiquíssima casa em New Orleans. No afã de ir embora, talvez, ou por motivo desconhecido, os antigos proprietários esqueceram certo quadro no sótão. Foi Kendall quem encontrou o retrato da bela jovenzinha de cachos dourados, que, ficou sabendo depois, era irlandesa e fora ali morar cento e cinquenta anos antes de sua época. Embora se tratasse de um humano e o quadro de uma garota que morrera há um século e meio, Samuel e Gwineth cultivaram uma amizade atípica, que resultou em um amor inconcebível. Ao ter de deixar na América o retrato de Gwineth (localizado constantemente em sua sala de brinquedos, que depois se tornou gabinete de estudos) para frequentar Hogwarts, o rapazinho prometeu que se empenharia nos estudos para descobrir um meio de regredir cento e cinquenta anos, e então viver e morrer ao lado da amada. Deu-se que, envolvido em pesquisas e estudos avançados de alquimia e magia negra, o rapaz retornou a New Orleans como homem feito, por volta de seus vinte e cinco anos, tendo posse de um feitiço para voltar ao passado e nele viver pelo resto de seus dias. Entretanto, o tal feitiço era muito arriscado e experimental. Sintetizando, Kendall faleceu durante a execução do feitiço, diante dos "olhos" da amada. Formaram-se especulações em torno da história, de que Gwineth e Samuel se encontraram após a morte deste, mas apenas especulações.
E pela noite inteira essa história me fez pensar naqueles que morreram por aquilo em que acreditavam, como grandes filósofos e cientistas trouxas, como bruxos que queimaram na fogueira durante a Santa Inquisição, como tantos outros em nosso mundo e no mundo trouxa, que continuam morrendo sem que tomemos conhecimento... Como você, Severus. E eu, embora acreditasse veementemente que te encontraria ao deixar o mundo dos vivos, não tinha sequer coragem para isso. Eu poderia pesquisar tal feitiço de Kendall, mas me abstive dessa ideia, e me limitei a fechar o livro, esquecer a história e dormir, visando acordar para mais um dia como qualquer outro, ou minimamente diferente.
INTERLÚDIO
Era estranho e ao mesmo tempo gratificante ter um segredo seu em minhas mãos. Eu, como jovem imatura que era, excitei-me com aquele vínculo entre nós, como se aquilo realmente me ligasse a você de forma imanente. Em minhas mais recônditas quimeras, eu pensava se você me procuraria para confidente, se me colocaria a par de todos os seus outros pensamentos e segredos, até que, por fim, mostrar-se-ia apaixonado por mim. Mas não, absolutamente não! Depois daquela entrevista, você jamais tocou no assunto, e a despeito de meus devaneios, tratou-me da forma de sempre, como a aluna que eu de fato era.
Todavia, era aquele o meu ano de N.O.M.'s, e eu deveria esquecer o seu segredo e me empenhar aos estudos. Além do mais, a intragável Dolores Umbridge estava transformando Hogwarts em um manicômio. Era cada vez mais difícil adquirir tempo e concentração para estudar, e eu acabava por usar parte das madrugadas para esse fim. Recordo-me uma em especial, pouco antes da Páscoa. Eu estava absorta em meus estudos, revisando matérias, fazendo resumos e formulando questões. Meus olhos iam quase fechando, visto que o relógio já marcava três e meia e eu acordara muito cedo. Dessa forma, sobressaltei-me quando o fogo da lareira começou a crepitar ruidosamente. E maior foi o meu espanto ao ver que era você quem o atiçava com a varinha.
— Boa noite — falou a sua voz áspera.
A minha resposta foi idêntica, mas em um tom muito mais doce, porque não conseguiria te tratar de forma equivalente. Eu voltei os olhos para o livro de Feitiços, desta feita muito mais desperta. Eu imaginava que você fosse dar meia volta sem se despedir, mas quando tive coragem de erguer os olhos, vi-o parado em frente à lareira, como que petrificado, fitando o fogo. Tive vontade de conversar com você e sentir algum alívio após aquelas ingratas horas de estudo e cansaço, mas não tive coragem de me pronunciar, e voltei a olhar para o livro, sem ler coisa alguma. Sobressaltei-me pela terceira vez quando você se dirigiu a mim.
— Estudando a essa hora, Srta. Parkinson?
— Não há outra — respondi, tentando manter a voz estável.
— Não adianta estudar cansada, quando acordar pela manhã, já terá esquecido tudo aquilo que estudou durante a madrugada. Posso apostar que está mais lendo que entendendo esse texto.
— Como é que o senhor sabe?
— Porque já tive a sua idade, já sentei a essa mesa, a essa hora para estudar para os N.O.M.'s. Mas desisti ao perceber que estava excedendo os meus limites, e reorganizei os meus horários de estudo. É certo que estudei bem menos, mas absorvia mais o conteúdo.
— Deu certo?
— Os resultados dos meus N.O.M.'s foram mais do que satisfatórios, mas eu sei que, ao contrário, se eu tivesse mantido a rotina de estudar nas madrugadas, eu não teria obtido o necessário para prosseguir nos cursos escolhidos.
Fechei os livros, sentindo-me absolutamente mais leve após aquela conversa.
— Tem razão — falei, erguendo-me, enquanto enfiava o material dentro da mochila — eu já não estava mais suportando manter os olhos abertos.
— Vá descansar, que deve acordar bem cedo para pegar o Expresso. Ou não se lembra que amanhã começam as férias de Páscoa?
— Na verdade, vou ficar por aqui esse ano. Meus pais vão viajar e eu não quis ir. Para falar a verdade, eles nem me convidaram. Mas eu vou mesmo dormir, estou precisando.
E você me disse "boa noite" pela segunda vez. Eu quis desistir do sono e ficar ali na sua presença, e o teria feito se você ao menos insinuasse que me queria por perto. Mas como isso não aconteceu, tive de me conformar com a cama e o sono confortador, cheio de sonhos bons, que não poderiam ser melhores do que ficar acordada com você por perto.
1 – A magia utilizada nos retratos, para fazer com que comuniquem como pessoas, eu desconheço. Pode ser que tenha sido explicada em algum livro, mas não me recordo, portanto, fica assim mesmo, como eu imagino que seja e com uma aura de mistério.
