7-INDAGAÇÕES

Comecei a lecionar em Hogwarts exatamente uma semana após a minha chegada. Eu estudara exaustivamente e me lembrava de quase tudo, mas um mal estar se apoderou de mim ao me ver frente à sala cheia. Felizmente eram primeiranistas, quase tão novatos quanto eu. Vi-me refletida naquelas vestes verde-prata e naqueles olhares ansiosos. Hesitei por alguns segundos antes de fazer a apresentação, mas fiquei instantaneamente aliviada após esse esforço, pois que os pequenos me receberam com muita hospitalidade. Um garotinho, em especial, me surpreendia ao levantar a mão para quase todas as perguntas que eu formulava. Por fim, perguntei o seu nome.

— Scorpius Malfoy .

— Parente de Draco Malfoy?

— Filho.

— Estudei com o seu pai.

O pequeno Scorpius deu um sorriso malicioso, que me fez recordar Draco na sua idade. Por um segundo pensei que o garoto faria alguma insinuação maldosa, mas ele apenas disse essas duas palavras:

— Eu sei.

Porém eram elas tão dotadas de significado, que fiquei igualmente desconcertada. Felizmente consegui disfarçar o constrangimento e prossegui com a aula, tendo êxito até o seu final. Quando tocou a sineta, todos os alunos saíram alvoroçados, menos um. Era aquele um garotinho ruivo, de olhos verdes e muito vivos.

— Pois não? — eu disse, vendo-o parado frente à minha mesa.

— Seja bem-vinda, professora — respondeu o pequeno com sua voz delicada e gentil.

— Obrigada, menino. E qual é o seu nome?

— Potter. Albus Severus Potter.

Fui pega de surpresa. A julgar pelo rosto e pelo trejeito daquele garoto, ele era decididamente filho de Harry Potter, e eu jamais imaginei que o que eu costumava chamar de "grifinório insolente" lhe prestaria tamanha homenagem.

— Também conheci o seu pai — falei assim que recuperei a voz — Harry Potter.

O pequeno sorriu.

— Quem não o conhece?

— É — concordei com um sorriso nervoso — mas o filho de Harry Potter na Sonserina? Quem diria!

— Meu pai disse que não faz diferença.

— E ele está certo. Ao contrário do que muitos pensam, Hogwarts nunca foi dividida entre pessoas boas e sonserinos. Quando eu tinha a sua idade, ou até um pouco mais velha, acreditava ser um fracasso porque tinha um coração bom. Hoje percebo quão tola eu fui.

— Papai disse que um dos homens em quem se inspirou para dar o meu nome, Severus Snape, fora sonserino na época que estudou em Hogwarts e depois diretor da casa, e nem por isso deixou de ser uma pessoa maravilhosa.

Engoli em seco. Ouvir o seu nome sempre me deixava com um nó na garganta e um aperto no peito, como se eu o estivesse ouvindo pela primeira, ou, no máximo, segunda vez.

— Novamente ele está certo — foi tudo o que consegui responder, lutando contra as palavras que não queriam ganhar o espaço exterior.

— A senhora o conheceu? Severus Snape?

— Sim, eu o conheci muito bem, Potter. E a única coisa que me consola acerca de sua morte prematura, é saber que ele se sacrificou por uma causa que abraçava. Saber que ele não acovardou, não desistiu, que ele se pintou a pessoa mais horrível para prosseguir com seu intento. Creio que Harry lhe contou tudo, ou quase tudo.

— Acho que me contou tudo, e confesso que me comovi pelo fato de Snape ter feito tudo o que fez por amor à minha avó, Lily.

Confesso que a fria estocada do ciúme castigou o meu peito após tantos anos sem se manifestar. Ao longo do tempo eu esqueci todos os dissabores pelos quais passei à época. O seu amor por Lily Evans era um deles, talvez o principal.

— Foi um bonito gesto — respondi meio a contragosto.

— Admirável...

— Agora é andar, pequeno Potter, que já está atrasado para a aula de...

—... Poções — concluiu o garoto, desanimado.

— Ora, Slughorn não é tão ruim.

— Não, não é, mas estamos com um professor substituto, que é um basilisco em forma humana.

— Por que? O que aconteceu ao Slughorn?

— Está na Ala Hospitalar, caiu doente há duas semanas, coisas decorrentes da idade. Ele é muito velho, a senhora sabe.

— É, eu posso imaginar. Slughorn deu aula de Poções a Tom Riddle.

— Mas é um professor excelente. Eu espero que ele se restabeleça logo.

— Também estou torcendo por isso.

Com um sorriso muito parecido com o do pai, Albus Potter se retirou. Aproveitei que tinha ali uma aula livre e resolvi visitar Slughorn na Ala Hospitalar. Ao contrário do que eu imaginei, bastou que ele batesse os olhos em mim para que reconhecesse a sua antiga aluna.

— Pansy Parkinson — disse-me com uma voz extremamente fraca.

— Professor Slughorn — e novamente, como acontecera com McGonagall, não fui capaz de atribuir outra forma de tratamento ao antigo mestre— eu vim assim que soube que o senhor estava hospitalizado.

— Ah, minha querida, é muita bondade sua. Mas como é que você está, Pansy? Achei que toda a sua família havia sido exterminada durante a guerra.

— E foi, de fato, mas para a minha sorte ou desventura — mais provável que desventura — sobrevivi, e agora leciono Transfigurações em Hogwarts.

— É muito bom ouvir isso, Pansy, sempre foi uma aluna muito competente. Seja bem vinda.

— Obrigada. — respondi meio retraída, era estranho conviver com as pessoas e delas receber elogios após tanto tempo de reclusão — Eu espero que o senhor se recupere logo.

— Vou lhe segredar uma coisa, menina — ele disse em tom de confissão — estou certo de que não saio dessa.

— Não diga isso, professor...

— Mas é a verdade, já sou um centenário, veja só, e estou mesmo querendo descansar. Ah, mas foi bom vê-la antes de partir, Pansy, porque tenho algo a lhe entregar.

— Algo a entregar a mim?

— Olha, vamos combinar. Se eu sair daqui com vida, entrego-lhe em mãos, caso contrário, você pega no meu armário. Trata-se de uma caixinha de carvalho com rosas talhadas na parte superior, não há meio de se confundir. Pode ser?

— Claro — assenti, fervendo de curiosidade.

E o pensamento na tal caixinha se fez tão presente que foi capaz de dissipar um pouco — uma ínfima, mas significante parte — de minha constante dor, o que, junto ao cansaço, permitiu-me dormir sem interrupções naquela noite.

INTERLÚDIO

Foi com alívio que, naquela manhã, encontrei as quatro mesas costumeiras do Salão Principal, e não mais as mesinhas individuais que serviram aos N.O.M.'s. Sentei-me ao lado de Draco Malfoy e respirei aliviada, enchendo o meu cálice com suco de abóbora.

— Acabaram os N.O.M.'s — suspirei — finalmente.

E não pude deixar de notar que a expressão de Malfoy era, no mínimo, preocupada.

— O que aconteceu? Acha que não foi bem nos exames?

— Não é isso — ele respondeu com uma voz sumida — aconteceram tantas coisas de ontem para hoje, Pansy...

— O que vi de mais extraordinário foi o tedioso desmaio de Potter durante o exame. Algo além disso?

— Acabei de saber que ocorreu uma desmedida batalha no Ministério e meu pai esteve envolvido.

— Batalha? No Ministério?

Malfoy baixou o tom da voz.

— Entre aurores e o pessoal do nosso meio.

— Comensais, você quer dizer...

— Potter e sua corja estavam lá, é claro. Bom, pelo menos minha tia Bellatrix matou o Sirius Black, o que já nos rende, se não uma vitória, pelo menos um consolo.

— Sirius Black?

— O que fugiu de Azkaban há dois anos...

— Eu sei quem é Sirius Black... Mas o que tem o seu pai?

— Não sei bem, mas parece que não fez um trabalho satisfatório. O Lord vai ficar seriamente aborrecido com ele.

— Isso é mau. Por isso que eu não concordo com...

Mas Draco jamais teve conhecimento daquilo que eu discordava, porque, muito próximo a mim, ouvi a tua voz ansiosa:

— Venha comigo, Parkinson.

Despedi-me brevemente de Draco, que deu de ombros, e te segui em silêncio até o seu escritório nas masmorras. Você inspecionou cuidadosamente o corredor antes de fechar a porta atrás de nós, e, não obstante, protegeu-a com abaffiato. Supus, então, que o assunto era sério.

— Parkinson — você disse em voz baixa — devo lhe dizer que ontem, no Ministério...

— Draco me contou por cima — interrompi — Sirius Black morreu.

Seus lábios esboçaram um leve sorriso maldoso.

— Isso não é importante, e sim a batalha em si. A Guerra está muito mais próxima do que todos imaginam, Pansy, e os seus pais sabem disso.

Ergui-me subitamente da cadeira em que sentara segundos atrás.

— O que têm os meus pais?

— Eles sabem que está na hora de aliarem-se ao Mestre, como bons Comensais.

— Não, eles não podem...

— Tanto podem que já fizeram. Encontram-se reunidos ao Lord, juntos aos Comensais mais fiéis.

Embora soubesse que aquele era o destino mais lógico para os dois Comensais que eram os meus pais, não pude deixar de sentir uma pontada de medo e outra de angústia ao vê-lo em desenvolvimento.

— Isso não vai acabar bem — desabafei — que devoção cega a ele! Sequer pensaram em mim, no fato de que agora eu estou sozinha...

— Pelo contrário, Pansy, e é por isso que eu a trouxe até aqui, para lhe dizer que seus pais entregaram-na aos meus cuidados.

Com um segundo choque, tornei a me sentar. As minhas pernas, de repente, eram incapazes de sustentar o meu corpo.

— Aos seus cuidados? — demorei-me em cada palavra, tentando me certificar de que não entendera errado.

— Por ordem de seus pais, de agora em diante eu lhe representarei uma espécie de tutor. As férias estão próximas, e, durante elas, você ficará em minha casa, está bem?

Assenti, incapaz de falar. De repente, a Guerra não me parecia, assim, uma ideia tão terrível — ao menos não àquele momento.

— Como eu disse, a Guerra está muito próxima — você prosseguiu — e todos nós precisaremos nos preparar. Será necessário treiná-la, caso você precise lutar.

— Eu não quero me tornar uma Comensal!

— É claro que não, mas não hei de deixá-la despreparada. Um dia pode ser que eu não esteja por perto e você tenha de se defender sozinha. Certamente viverei muito menos que você.

A ideia me incomodou à hora, mas eu não podia imaginar que a sua realização seria, de fato, tão dolorosa. Você percebeu, viu o sofrimento em minha mente.

— Poderíamos começar pela oclumência — você sugeriu, com um sorriso malicioso — seria muito útil que não deixasse seus pensamentos à mercê de um Legilimens.

Senti-me enrubescer desesperadamente. Como poderia ocultar os meus pensamentos de você? Todos os meus sentimentos e desejos ali, despidos, sem que eu pudesse controlar.

— Tem razão — balbuciei — mas não agora.

— Oh, não, começaremos nas férias. O meu intento era apenas lhe alertar acerca de sua estadia em minha casa. Pessoalmente, achei que ofereceria alguma resistência.

Você encerrou a frase com um irresistível meio sorriso irônico, que me fez desviar imediatamente o rosto escarlate e tentar fechar a mente, embora ainda não soubesse como fazer isso.

— O que for melhor — balbuciei.

E não pude evitar o pensamento de que tivera algum tipo de alucinação. Só fui acreditar em tal dádiva, de fato, quanto me vi frente à sua casa. Ainda assim pensei que poderia muito bem estar sonhando, mas não queria acordar. E não acordei.