11 – REFLEXOS DA JUVENTUDE
Voltar à sua casa foi uma experiência realmente desgastante, que eu levaria dias para esquecer. A sensação de abandono que emanava do lar outrora habitado por nossas vozes frente à lareira, parecia incapaz de se desprender do meu coração já há muito cansado. No entanto, tentei ocultar esse sentimento o quanto pude, e consegui por algum tempo, até que o meu aluno, já conhecido como Teddy Lupin, abordou-me, novamente ao término de uma aula. Aquele rapaz era intrigante, talvez por ser de uma natureza tão direta. Não hesitou ao acercar-se de mim, e foi direto ao assunto que lhe interessava.
— Vejo uma sombra por trás dos seus olhos, Srta. Parkinson.
— Uma sombra — concordei com um suspiro — talvez, Teddy...
— Posso indagar-lhe o que a incomoda?
Outro suspiro, mas também não demorei a responder.
— Os anos, Teddy, eles passam e nos deixam recordações. Como o fogo, que outrora crepitava, e se transforma em cinzas.
— Os anos ainda não me pesam, mas sinto saudades imensas dos tempos de criança. De alguma forma, sinto falta dos meus pais, embora não me lembre deles.
— Não é exatamente preciso lembrar com a mente, mas com o coração. Certamente você se lembra dos seus pais dessa forma.
— A senhora acredita que haja algum outro lugar após a morte?
A pergunta do jovem Lupin me pegou de surpresa, mas o que mais me intrigou foi o fato de que eu pensava exatamente no mesmo assunto.
— Eu acho que existe outro lugar, Teddy. Não é possível ou justo que tudo se encerre no túmulo. No frio da morada perpétua. Talvez não seja, de fato, perpétua.
— Eu também acredito nisso, professora, e acho que se fosse de outra forma, não seria capaz de viver. Temeria nunca ter tempo suficiente.
— Também tive esse medo quando era jovem e tinha o mundo por se estender à minha frente. Hoje, todavia, acho que eu daria tudo para não ter que apreciar esses dias vazios.
— Não lhe restou ninguém após a guerra — foi uma afirmação, não uma pergunta.
— Ninguém — repeti.
— Talvez não sirva de consolo, mas a senhora tem agora muitas pessoas que a estimam e admiram. Provavelmente é a professora favorita de uma boa parte dos alunos de Hogwarts, quaisquer que sejam as casas.
— Fico agradecida, Teddy. Saiba que são recíprocas a estima e a admiração, mas...
—... Mas a parte essencial lhe foi tirada.
Assenti. Teddy parecia poder ler, não os meus pensamentos, mas a minha alma, a dor que a castigava. Aquilo, porém, não me incomodava.
— Sabe, Srta. Parkinson, uma vez o meu padrinho me disse uma coisa que eu tenho guardada constantemente em meu coração. Ele me disse que as pessoas que amamos estão em todos os lugares que nos façam recordá-las. Em uma fotografia, uma canção, um trejeito que delas adquirimos... Elas se imortalizam positivamente.
— Mas faz falta o calor, a voz, o toque. E dói, Teddy, mas dói tanto pensar que aquela pessoa com quem você sonhou construir a sua vida, jaz inerte sob a terra, em restos mortais!
Senti os meus lábios tremerem ligeiramente, bem como as minhas mãos ao afastarem os cabelos da têmpora. Tentei manter o controle, porém não impedi as lágrimas.
— Eu posso imaginar, professora, e talvez a mim seja mais fácil, porque não consigo me lembrar dos meus pais vivos. Mas pense que essa pessoa certamente não a quereria sofrendo, e sim que fosse feliz, que prosseguisse com os sonhos que a ela foram negados.
— Não os mesmos, Teddy, nunca os mesmos. Ora, desculpe-me por este desabafo, desculpe-me. Já deve estar atrasado para a aula, e eu fico aqui tomando o seu tempo.
O jovem sorriu e segurou as minhas mãos. Há muito eu não sentia um carinho sincero, que me lembrava vagamente o que um dia chamei de amizade.
— Não se preocupe, Srta. Parkinson, que eu farei, com prazer, o que puder para ajudá-la. Sei que não posso fazer muito, obviamente, mas o que estiver ao meu alcance...
— Você está fazendo o suficiente, meu rapaz, não pode imaginar como lhe sou grata.
Ele assentiu, com outro sorriso, depois ajeitou a mochila nas costas.
— Quero vê-la radiante no Baile de Inverno.
— Baile de Inverno? — intriguei-me — Mas haverá Torneio Tribruxo?
— Ah, não, não depois da desgraça de Cedric Diggory, que foi contemporâneo seu e de meu padrinho. Obviamente a senhora lembra, não? Mas o baile foi interessante, e McGonagall decidiu que seria bom repeti-lo após tantos anos.
— Com certeza, Teddy. Quando será?
— Vinte de dezembro.
— É uma boa notícia, acho que estou necessitada de ver algumas pessoas dançando e se divertindo.
— A senhora necessita fazer o mesmo.
— Já passou o meu tempo, Teddy.
— Isso não é verdade. Sempre temos tempo quando se trata de alegria.
— Talvez você tenha razão, meu querido, eu tentarei.
— Conseguirá. Bom, eu vou para a minha aula de História da Magia.
— Tenha um bom dia, Teddy.
— Igualmente, Srta. Parkinson, e — hesitou — e eu gosto muito da senhora.
Teddy saiu antes que eu lhe pudesse responder. Vi-me naquele garoto de feições meigas e cabelos azul-turquesa. Eu já passara por aquele conturbado sentimento aluno-professor, e não queria que ele se repetisse no jovem Teddy. Talvez você tenha sentido exatamente o que eu senti naquele momento, achando a situação embaraçosa, mas até um pouco divertida. Perversamente divertida, por se tratar dos sentimentos de alguém. O desfecho seria o mesmo? Ah, não, definitivamente não. Mas fiquei quase contente com a notícia do baile. Não deixaria de ser um resgatar de lembranças da adolescência, mas uma parte insensata de mim se alegraria por ver o Salão Principal decorado exatamente como estivera tantos anos atrás. Essa mesma parte sentia o anseio de relembrar os seus olhos me seguindo enquanto eu dançava com Draco Malfoy, há muitos anos. Qualquer vislumbre de nosso passado era como um sopro de vida no leito de morte.
INTERLÚDIO
Perdi a noção do tempo enquanto chorava sobre a minha cama. Talvez eu houvesse passado uma ou duas horas soluçando, agarrada ao travesseiro. De qualquer forma, o sono me venceu, e a madrugada já ia alta quando você me despertou. Recuei instintivamente, como um bicho que fora ferido, torcendo para que a penumbra escondesse o meu rosto lamentavelmente marcado por lágrimas.
—Pansy, elas já foram — você falou, sentando-se à minha cama.
Eu não respondi, sequer me ergui ou fiz menção de largar o travesseiro. Mas você me fez depor todas as armas quando afagou os meus cabelos.
— Perdão.
Eu não esperava ouvir aquela palavra vinda de você, ao menos não com tanta sinceridade. Mas eu já me acostumara a me surpreender todos os dias com a máscara que você deixava cair cada vez mais.
— Não há que perdoar — eu disse, percebendo o quão falhada estava a minha voz por causa do choro insistente e do sono atormentado.
— Eu não quis ser tão ríspido com você, mas...
— Não precisa se justificar.
— Mas eu quero. Quero, porque já perdi uma pessoa de que gostava muito por não saber controlar as minhas palavras. Não quero perder outra.
Eu não sabia exatamente sobre o que você falava, mas o "não quero perder outra" me enterneceu. Então você temia me perder, como eu a você. Senti a minha alma, tão contraditoriamente, encher-se de tristeza e júbilo. Eu larguei o travesseiro e me aninhei nos seus braços. Não tentei mais conter as lágrimas.
— Eu me arrependi imediatamente por ter lhe falado daquela forma, mas aquela Bellatrix... Aquela mulher é capaz de enlouquecer os mais sãos. Ademais, o pedido de Narcissa me deixou aturdido.
— Você não podia ter feito o Voto, não podia. E se... E se você não conseguir cumpri-lo? Ah, Severus, eu temo tanto! Tanto, que sinto vontade de morrer para não ver essa terrível possibilidade se cumprir.
Eu quase não percebera tê-lo chamado pelo primeiro nome, e também não me sentia constrangida por estar tão próxima de você, tão estreita ao seu corpo. O medo tomava uma parte esmagadora de minha mente.
— Ninguém vai morrer — você disse, e sua voz nunca me pareceu tão terna — tudo vai ficar bem, confie em mim.
— Eu queria fugir — falei, e minha voz soou infantil e embargada. As lágrimas caíam em cascatas pelo meu rosto — com você, para bem longe. Para onde a guerra não nos pudesse atingir.
— Ele me encontraria em qualquer lugar, por causa da Marca. Não há que fugir, Pansy, não sejamos covardes.
— Eu não quero testar a minha coragem quando as nossas vidas estão em jogo. Quando a sua vida está em jogo.
Pude perceber, por detrás dos meus olhos encharcados, que você sorrira brevemente.
— Você me atribui um valor muito alto, Pansy — sua voz saiu amargurada — um valor que eu não possuo.
— Um valor que você não quer possuir, é diferente. Mas a mim você... Você é tudo que existe de mais importante. Você ficou ao meu lado quando os meus pais ligaram mais importância ao Lord do que a mim, você...
As palavras morreram na minha boca, e sucumbi às lágrimas. Você me acalentou, procurou restabelecer uma paz tão ausente ao meu coração, e conseguiu. Eu confiava em tudo o que você me dizia, na sua força, na sua coragem... Você me parecia tão infalível, tão inatingível! Você foi a minha única força...
