12 – AÍ VINDES OUTRA VEZ, INQUIETAS SOMBRAS? ¹
Com o passar das semanas fui me acostumando à nova vida, e em pouco tempo já não me lembrava dos fatídicos anos que passara naquela casa úmida localizada no bairro trouxa. Estar em Hogwarts, novamente em meio à magia, era absolutamente mais agradável, e, além disso, estando no que fora o seu escritório, eu conseguia me sentir mais perto de você. Entrementes, não visitei mais a sala de McGonagall, queria me esquivar do seu retrato. Mais de uma vez, ao relembrá-lo, senti ganas de me informar a respeito do feitiço de Kendall, que permitia viajar no tempo, mas desisti, porque a minha covardia sempre foi mais forte, o meu medo de morrer. Senti também vontade de lhe indagar sobre a morte, se era dolorosa, tão sufocante quanto eu pensava. Mas igualmente me abstive dessa ideia. O único jeito era viver e esperar pelo fim.
Havia agora outras pessoas que gostavam de mim, muitos alunos e antigos professores, que se tornaram colegas, ou mesmo os novos. Mas nenhum afeto, nenhuma sensação de bem querença era suficiente. Nada, aliás, era-me suficiente.
Eu acabei por adquirir um costume de visitar a biblioteca todos os dias após o expediente, e, em uma dessas vezes, encontrei um livro que me remeteu a todas as lembranças de minha infância: Os Contos de Beedle, o Bardo. Abri-o quase instantaneamente à procura do Conto dos Três Irmãos, cujas relíquias eu descobrira realmente existir. Especialmente a Varinha das Varinhas, que lhe causara a morte. O injusto e doloroso era pensar que você nunca fora o senhor da tal varinha, porque — e eu sabia isso desde o começo — o assassinato de Dumbledore fora coisa planejada. A varinha, na verdade, pertencera a Malfoy, que desarmara Dumbledore no dia de sua morte, e posteriormente a Potter, que também desarmara Malfoy. Voldemort, pensando que o tinha como um fiel Comensal, teve certeza absoluta de que você matara Dumbledore por pura crueldade, o que o tornaria, então, senhor da varinha maldita. E você morrera injustamente, enquanto trabalhava pelo bem. Todos esses pensamentos me assolavam a mente enquanto eu lia o conto, sem desprender muita atenção. Foi então que me ocorreu o desejo de possuir a Pedra da Ressurreição, que, segundo Beedle, trazia de volta os mortos, mas de forma que pareceriam separados por um véu do humano que os invocou. Perguntei-me se aquela magia permitia o toque, ou se os mortos voltariam como fantasmas. Seria possível conversar com eles? Senti uma vontade abrupta de encontrar aquela pedra, mas sequer imaginava onde ela estaria. Decididamente seria impossível achá-la, mas pensei que, se a fábula tivesse um fundo de verdade, e eu me expusesse a uma situação onde venceria a morte, ela talvez me concedesse uma segunda pedra... Balancei a cabeça, com um sorriso amargo. Eu já estava devaneando deveras, e aquilo acabaria por me entregar à loucura.
Recolhi-me aos meus aposentos, mas demorei a adormecer. Todos aqueles pensamentos me tomavam de forma arrebatadora, e lembrei-me de minha infância, quando devaneava, antes de dormir, ao ouvir os contos de Beedle. Quando a minha mãe fechava o livro, depois a porta, eu mergulhava em um mundo fantástico, imaginando todas aquelas histórias. E naquela época eu não podia supor que uma delas fosse real, e que, em parte, por causa dela eu perderia aquilo que tinha de mais caro. O que, na verdade, ainda não tinha à época. Ou tinha, plantado dentro de mim, esperando que o sol nascesse para um, então, desenvolvimento.
Bastou que fechasse os olhos e tivesse a consciência levada pelo sono, sonhei. Acordei na madrugada com todas as terminações nervosas do meu corpo em tensão, suando em bicas. Um pesadelo tão absolutamente real... O cenário foi o cemitério onde eu estivera há poucas semanas, o clima igualmente frio, tão real que eu podia senti-lo castigar a minha pele, coberta precariamente por uma túnica branca de seda. Abaixo, aos meus pés, estava o túmulo de sua família, idêntico ao que eu vira, sem nenhuma alteração. Em minha direção vinha você, e não era humano, nem fantasma, tampouco ínferi. Era um pouco dos três. Eu quis correr, mas algo me prendia ao chão, enquanto você se aproximava com agilidade sobrehumana. Seus olhos estavam brancos e vidrados, e me fitavam de forma maligna, acompanhando a mão escaveirada que se estendia a mim. Com exceção dos olhos, o resto do rosto permanecia intacto, como eu recordava. Cada vez mais próximo... E você me beijou, cingiu a minha cintura e me estreitou ao corpo semi-humano. Mas, ao contrário do que deveria ser, aquele gesto me causou pavor, sufocando-me à medida que se prolongava. E, então, você dissipou entre os meus braços, como fumaça. E eu acordei.
A alcova à minha volta lembrava horrivelmente o interior de uma caverna, tão sufocante quanto gélida. Os archotes que eu mantivera acesos refletiam na parede, gerando sombras, que minha mente conturbada assimilava à sua imagem. E, em pensamentos, eu o vi, em todas as direções, chamando-me como no sonho. A sua voz ecoava por todo o dormitório circular, sussurrando palavras sem nexo. Ergui-me da cama e tentei alcançar a porta, mas as sombras, girando constantemente, não permitiram. Lembro de ter ouvido o meu nome antes de apagar.
Demorei alguns segundos para reconhecer o salão comunal da Sonserina à minha volta. Alguns alunos me cercavam e McGonagall estava entre eles.
— Acordou! — exclamou uma vozinha feminina.
Houve uma euforia unânime, e McGonagall pediu silêncio.
— Como se sente? — indagou, enfim.
— Confusa — respondi — o que aconteceu?
— Os alunos disseram que você esteve gritando. Fomos ao seu dormitório e a encontramos desacordada ao chão.
Quanto tempo teria transcorrido desde que eu acordara do sonho? Era impossível precisar, uma vez que eu nem mesmo percebera que havia gritado. Tentei me erguer, mas a vertigem me fez cair de volta ao sofá, de olhos fechados. Ouvi alguns alunos se adiantarem.
— Está queimando em febre — comentou McGonagall — precisamos levá-la à Ala Hospitalar.
Srta. Thompson me parecia muito mais gentil que a velha Madame Pomfrey, mas mesmo assim eu me sentira insegura em suas mãos, simplesmente porque ela dissera que o meu mal não era físico.
— Isso deve significar que estou enlouquecendo — falei, com um sorriso amargo.
— Não, Srta. Parkinson, mas há que controlar o lado emocional.
Assenti, embora tal recomendação fosse absolutamente impossível. A jovem curandeira me preparava um calmante natural, quando McGonagall adentrou a Ala Hospitalar. A diretora colocou em mim uns olhos tristes e piedosos, que eu gostaria de não ter percebido.
— Melhor, Pansy?
— Melhor — repeti.
— Eu estive falando a ela — disse a curandeira, trazendo-me o tal calmante — que o mal é emocional, entende? Não encontrei nada físico ou mágico que lhe causasse febre alta, vertigens e desmaios.
McGonagall assentiu, como eu fizera há poucos minutos, e pediu delicadamente à Srta. Thompson que nos deixasse a sós.
— Pansy — começou, quando a curandeira fechou a porta atrás de si — eu sei o que lhe acomete.
Preferi permanecer calada, esperando pela próxima investida de McGonagall.
— Mas tem de se conformar, querida, ele não vai voltar.
— Eu sei disso — balbuciei, incapaz de contrariá-la.
Não me perguntei como McGonagall descobrira sobre os meus sentimentos por você, ou se estaria, assim, tão evidente. Não importava, contudo.
— Tem que viver a sua vida, Pansy — prosseguiu — é o que ele faria. É o que ele gostaria que você fizesse.
— É o que estou fazendo.
— Não, você não está vivendo, mas apenas existindo. Há diferença.
— É o máximo que eu posso fazer.
— Não, não é. Vou repetir que ele gostaria de vê-la se erguer e prosseguir com a sua vida, porque acreditava em um futuro prodigioso para você. Ele certamente morreu em paz, porque podia jurar que você conseguiria.
Suspirei, depois me voltei à McGonagall com um tom que não era de confidência, mas de desabafo.
— Eu estou farta das certezas vazias de Severus! Ele me garantiu que sobreviveria à Guerra, e, no entanto, morreu por um motivo tão absolutamente inútil! Por ser algo que não era realmente, que Voldemort supunha que ele fosse.
— Pensei que se orgulhasse da coragem e bravura que ele mostrou...
— É óbvio que me orgulho, e por esse mesmo motivo lamento. Como é que alguém assim, tão corajoso e bravo como acaba de dizer a senhora, pode morrer de forma tão... Tão absolutamente injusta?
— O mundo não é justo, Pansy...
— Eu me pergunto às vezes se não deveríamos, ele e eu, termos nos voltado ao outro lado. Há Comensais que escaparam ilesos... Lucius, Narcissa e Draco Malfoy, por exemplo.
— Ilesos? Eu acho que não. Da última vez que vi Draco, há pouco, quando veio até Hogwarts por um motivo que desconheço, ainda trazia nos olhos o terror da Guerra, e a Marca Negra no pulso parecia lhe pesar após tantos anos.
— Mas está vivo — rebati — são e salvo. Draco tocou a vida para frente, casou-se, teve um filho. E para mim, que tive oportunidade de enveredar pelo caminho das trevas, como meus pais, mas me desviei para o lado do bem, o que me sobrou? Nada, absolutamente nada.
— Veja por outro lado, os Lestrange e tantos outros Comensais fiéis, mesmo os seus pais... Todos mortos, Pansy. Da mesma forma, há pessoas boas que obtiveram sucesso, como o próprio Potter. A sorte não visa o caráter.
Não encontrei argumentos, então me abstive ao trabalho de abaixar a cabeça e tentar conter as lágrimas.
— Não pode trazer os mortos de volta, querida.
Com essas palavras, McGonagall me deixou. Fiquei me perguntando se ela, como você, era Legilimens, mas creio que tenha sido puramente coincidência. De qualquer forma, voltei a pensar na Pedra da Ressurreição e no sonho que tanto me abatera. Seria, tal pesadelo, um aviso de era melhor que os mortos não voltassem? Que, se o fizerem, seria de forma tenebrosa? De fato, sua presença no meu sonho causou-me imenso pavor, ao passo que fora bom sentir o seu corpo, mesmo gélido, junto ao meu. Por fim, concluí que ainda desejava a Pedra ou coisa que o valesse.
INTERLÚDIO
Vinte e quatro horas após a visita das irmãs Black, era possível dizer que as coisas voltaram ao normal. Nós, na já tão conhecida e repetitiva sala, frente à lareira, que não era diferente. Os roncos de Rabicho no piso superior também nos era algo comum, rotineiro. O meu rosto, entretanto, poderia estar mais triste e o seu mais preocupado. Não pude deixar de comentar:
— Pensei que tudo estivesse sob controle, que não deveríamos temer...
— E está — você respondeu.
— Entretanto, sua fisionomia contradiz as suas palavras.
— Não é essa a minha única preocupação, Pansy.
— Qual, então?
— Você é a principal, como já lhe disse. Tenho medo de não poder estar o tempo todo ao seu lado, de que você tenha de se virar sozinha.
— Não sou tão indefesa assim...
— Você precisa de treino, não pense que me esqueci disso. Aqui não, tem o Rabicho, que adora dar com a língua nos dentes ao seu mestre. Mas quando voltarmos a Hogwarts...
— Tudo bem, hei de treinar, mas não quero mais que diga isso, de não poder ficar ao meu lado. Parece até que você vai...
— Morrer? Quem sabe? Estamos em uma guerra, afinal.
— Parece que gosta de me machucar, sabe que não suporto pensar nisso.
— Apenas precisamos ser realistas, Pansy.
— Por que não otimistas?
Você me concedeu um sorriso cansado, mas sincero.
— Vá lá, otimistas.
Aproveitei o sorriso para lhe pedir algo que antes não ousara.
— Por que não me conta mais sobre você? Sobre o seu passado?
E você me olhou cuidadosamente, com certa curiosidade. Como se me estivesse vendo pela primeira vez.
— Por que você quer saber sobre o meu passado?
— Porque me interesso por sua vida, por toda ela.
— Mas você sequer era nascida quando eu tinha, por exemplo, a sua idade...
— Acho que isso não vem muito ao caso, não é?
— Acho que não, Pansy, mas meu passado poderia decepcioná-la.
— Por que? Pelo fato de que isso que os meus colegas e as demais pessoas veem em você não passa de um pseudoestereótipo? Uma máscara?
— Talvez... E talvez seja melhor que tal máscara se mantenha em seu devido lugar.
— Não para mim, que gosto de você do jeito que é.
— Você não sabe de que jeito eu sou.
— Às vezes penso que sei.
— Se sabe, então porque indaga acerca de meu passado?
— Porque sei do jeito, não da história.
Você suspirou, e outro sorriso apareceu em seu rosto.
— É impossível discutir com você.
Dessa vez, eu sorri. Nunca imaginara que lhe poderia tirar os argumentos, mas talvez por realmente não possuí-los, ou por estar cansado para discutir, ou até por desejar aquela conversa, você cedeu.
— Tudo bem, o que você quer saber?
— Tudo.
— Tudo — você repetiu, lentamente — pois bem, a minha primeira memória data de muito tempo, creio que dois ou três anos após o meu nascimento, e se concentra bem aqui, frente a essa lareira. Bom, eu não consigo me lembrar muito nitidamente, mas creio que estava assustado, e ouvi gritos. Posteriormente só pude deduzir que era mais uma briga dos meus pais.
— Eles brigavam muito?
— Muito — você assentiu.
— Por que?
— Antes de lhe responder, devo relembrar o que disse há pouco, que você poderia se decepcionar comigo ao ouvir o que eu lhe podia contar de minha história...
— Não se preocupe.
— Pansy, o meu pai era trouxa e não sabia que a minha mãe era bruxa até se casarem. Deu-se que, quando descobriu, passou a odiá-la, e a odiar o filho que ela carregava no ventre.
— Isso significa que você...
—... Que eu sou mestiço. Que eu não sou o bruxo de sangue puro que você imaginava.
— Severus, eu não digo que não me surpreendi, mas, para ser honesta, nunca pensei no seu sangue.
— Pensei que lhe causaria algum desagrado, por ter sangue puro.
— Desagrado algum, a mim é indiferente. Prossiga.
Você pareceu se admirar com a minha atitude, e pude perceber claramente que perdera alguns segundos lendo a minha mente. Certamente teve de admitir que eu lhe falara a verdade.
— Então, paramos na parte em que meus pais brigavam. Ah, eles faziam isso o tempo todo, e não eram simples brigas de casal. Não, meu pai enfrentava a minha mãe com porte de facas, e ela as tirava das mãos dele com magia, o que lhe causava maior transtorno. Ele chegou ao ponto de ameaçá-la com uma arma de fogo, não sei se você sabe o que é...
— Acho que sei, sim. Mas e você, como ficava diante dessa situação?
— Eu me escondia, porque quando meu pai terminava a briga com a minha mãe, e ainda estava irado, era em mim que ele investia. Chamava-me aberração, filho do demônio e outros nomes de que não me recordo. Eu ouvia o choro de minha mãe quando o meu pai me espancava, mas ela nunca se manifestou, nunca o estuporou ou petrificou, embora pudesse fazer ambas as coisas e muito mais, tendo porte de uma varinha. Ela sentia medo dele, ou o que era mais terrível, amor.
Eu tentava impedir os meus olhos de lacrimejarem, mas eles não me pareciam obedecer.
— Não interessa — falei, quase num sussurro — acho que o amor por um filho supera qualquer outro tipo de amor. Se bem que os meus pais...
— Penso que ela se esforçava, mas simplesmente não conseguia me amar como amava ao meu pai. Lembro-me de ver uns olhares rancorosos, seguidos de palavras do tipo "se ele não tivesse nascido, talvez fosse diferente". Creio que ela pensava que, não tendo um filho bruxo, poderia ignorar totalmente a magia e viver feliz, como uma verdadeira trouxa, ao lado do homem que amava. De qualquer forma, meu pai sempre fazia questão de me dizer que a minha mãe tentara provocar um aborto, mas não conseguira, e da tentativa malsucedida, nascera uma criança estranha.
Empertiguei-me e fiz menção e falar, mas você ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Pansy, há algo que nunca imaginei contar a alguém, e nem mesmo sei porque você me inspira tanta confiança. O fato é que, aos oito anos, tentei pela primeira vez o suicídio.
A ideia me pareceu terrível e até profana. Como você poderia atentar contra a vida sagrada, que era tão fundamental à minha? Eu queria falar, dizer-lhe várias coisas, mas todas elas morreram a caminho. Somente a minha expressão se manifestou, e ela deveria estar transtornada.
— Não quero entrar em detalhes quanto à tentativa, mas, como é óbvio, não consegui, e me senti ainda mais fracassado por isso. Eu sentia uma terrível inveja das outras crianças, porque elas podiam, de fato, serem crianças. A minha infância fora roubada assim que eu vi a luz desse mundo. Entretanto, eu conheci uma garota.
— Uma garota?
Tentei não demonstrar ciúmes em minhas palavras, mas qualquer tentativa de fechar a mente seria frustrada.
— Nós deveríamos ter uns nove anos. Havia um tempo eu a observava num parquinho aqui perto, brincando com a irmã. Ela tinha muita magia, mas, sendo nascida trouxa, parecia não se dar conta disso. Um dia eu a abordei e lhe contei que era uma bruxa, mas ela se ofendeu com essa palavra. Sabe, Pansy, somos malvistos pelos trouxas. Bom, após essa tentativa frustrada, vieram outras, algumas um pouco melhores, outras piores. De qualquer forma, eu embarquei com Lily Evans no Expresso de Hogwarts, dia primeiro de setembro, de um ano já remoto.
Estaquei. Falhava-me a memória, ou Lily Evans era a mãe de Harry Potter?
— Lily Evans? — coloquei meu pensamento em voz alta — A mãe de...
— ...Harry Potter. É, é ela. Nós éramos amigos, embora o fato de ela ser grifinória e eu sonserino não ajudasse muito nesse relacionamento.
Você respirou profundamente, e eu pensei que não fosse continuar. Mas, uma vez tendo começado, era certo que você terminaria.
— Eu a amei, Pansy, eu a amei desde a primeira vez que a vi.
Senti uma onde de mal estar, e meus olhos procuraram rapidamente a lareira, como poderiam ter procurado qualquer coisa ali naquela sala, desde que não fossem os seus.
— Mas aos poucos fui percebendo que nossos mundos eram muito diferentes, e o meu amor era algo inconcebível. Há outra coisa que preciso lhe dizer, talvez a mais constrangedora de toda essa história.
Assenti apenas, não encontrando palavras. Eu não sabia se queria conhecer o resto, mas, como você relutava bravamente para dizer, eu fazia o mesmo para ouvir.
— James Potter, você sabe, o pai de Harry, tinha um grupo. Um maldito grupo formado por ele, Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew, o nosso Rabicho, que agora ronca ruidosamente no andar de cima. Bom, eles tinham um passatempo favorito, que era o de me atribuir pilhérias e azarações maldosas. Eu resistia, devolvia-lhes as azarações com feitiços até perigosos, que só pioravam a situação. James e Sirius sentiam prazer em me humilhar, principalmente James. Um dia, em meu quinto ano, recebi a maior de todas as humilhações, que acho que prefiro manter guardada comigo. Deu-se que, durante a "brincadeira", Evans apareceu, tomando-me em defesa, e eu tive a infelicidade de não medir as palavras, chamando-a "sangue ruim". Então eu a perdi... Para sempre.
Engoli muitas palavras antes que umas poucas saíssem, e creio que tenham sido mais diretas do que eu tencionava.
— E vocês chegaram a, você sabe, namorar?
Você sorriu breve e amargamente.
— Não, Lily nunca me concedeu essa dádiva. Ela foi, sim, concedida ao Potter, que costumava humilhar todos em que colocava os olhos e julgava digno de humilhação.
Lembrei-me de Malfoy e do quanto admirava essa característica dele de humilhar, quando era apaixonada. Senti nojo de mim mesma.
— No dia em que Lily Evans pôs termo à nossa amizade, já tão fragilizada, eu tentei o suicídio pela segunda vez, mas também lhe pouparei de saber como. E o tempo passou, ela casou com Potter e teve o Harry. Depois o Lord a matou, e você conhece o resto da história.
— Não conheço a sua versão.
— Digamos que, ao sair da escola, alguns anos antes de Lily falecer, eu cometi um ato suicida mais forte e poderoso que os outros dois juntos: Tornei-me Comensal da Morte. Depois me regenerei, porque Dumbledore prometeu proteger Lily das mãos do Lord, mas não conseguiu, pois o nosso maldito amigo, que dorme sob o nosso teto, traiu e delatou os Potter. Você conhece essa história, não? Sobre a inocência de Sirius Black...
— Conheço.
— Pois bem, após a morte de Evans, eu fiquei sem chão. Dumbledore me propôs que o ajudasse a proteger a vida de seu filho e único sobrevivente, para que ela não tivesse morrido em vão. Aceitei, embora fosse absolutamente difícil proteger o filho de James Potter, o filho que poderia ter sido meu. E foi assim que comecei a trabalhar para Dumbledore, e à ascensão do Lord das Trevas, fingi-me fiel e me esgueirei para o lado dele — você parou por alguns segundos para escutar os roncos do Rabicho — para, então, levar informações preciosas ao Dumbledore. E o resto é o que você conhece hoje.
Fiquei a fitar as próprias mãos, tentando organizar todas as informações que você me dera. Enfim, fiz a pergunta que não pude conter:
— Você ainda a ama? Lily Evans?
Você demorou alguns torturantes segundos para dar a resposta. Seus olhos pareciam vazios, mas a expressão no rosto denotava que a sua mente trabalhava agilmente.
— Amo.
Assenti, sem olhar para você. Imaginava quão difícil seria competir com um amor antigo, mesmo que ela estivesse morta. Por um segundo, perpassou-me pela mente uma admiração absurda pelo ato de Voldemort, ao matá-la. Mas foi tão rápido e tão terrível, que você provavelmente não percebeu. Arrependi-me do horrendo pensamento assim que ele me acometeu.
— Contudo — você prosseguiu — creio amá-la do jeito que ela sempre desejou que eu a amasse. Como a uma irmã, ou, diria mais, como a uma pessoa a quem admiramos cegamente por sua coragem. O que se sucedeu, Pansy, foi que conheci Lily Evans em uma época em que eu estava demasiadamente fragilizado e precisava de alguém por quem sentir amor. Eu precisava de uma mão amiga, de me sentir querido. Assim, cri que me apaixonava por Lily, e só depois de muitos anos fui me dar conta que a amava como a uma irmã. Só então eu entendi porque nunca sentira qualquer espécie de desejo por ela, porque não conseguia vê-la como um homem vê uma mulher. Eu a amava como se tivéssemos o mesmo sangue!
Senti como se o peso do mundo deixasse as minhas costas. Meu corpo inteiro tremia de ansiedade, e não temi mais a ousadia.
— Mas você... Você nunca se apaixonou de verdade? Nenhuma vez?
— Eu tive paixões sem importância, que eu já as acreditava assim desde o princípio. De qualquer forma, nunca tive mesmo muito tempo para isso, mas...
Esperei que você completasse a frase, mas não o fez, e voltou os olhos para a lareira. Indaguei-o, pois.
— Mas...?
Você sorriu amargamente.
— É impressionante como a vida nos prega peças, não é? Como ela nos subtrai com sua força esmagadora, até pisarmos nos próprios princípios.
— O que você...
— Deu-se, Pansy — sua mão fora brevemente erguida, pedindo por silêncio novamente — deu-se que o sentimento traiçoeiro veio me arrebatar, quando nem mais idade eu tinha para isso.
Abri a boca para protestar, mas sua mão, erguida pela terceira vez, impediu-me.
— E eu me apaixonei por uma criança de treze anos.
Senti-me empalidecer, embora isso pareça absurdo e sinestésico.
— Uau! — sussurrei nervosa — Treze anos?
— Como disse, eu me apaixonei por uma criança de treze anos, e obviamente o meu bom senso me proibiu de cultivar esse sentimento, mas... Mas embora não faça grande diferença se pensarmos em números, hoje ela tem dezesseis, e é, não uma mulher ainda, mas uma menina corajosa, que já tem uma boa ideia do que é uma guerra, do que é perder a família para uma guerra, uma menina corajosa que conhece uma história conturbada como a minha e, no entanto, olha para mim com a mesma veneração de sempre. Que enfrentou a Comensal que é o braço direito do Lord e sua irmã para tentar me proteger... Que foi atingida por uma rispidez que não merecia, mas soube perdoar. A menina que, apesar de saber que o mundo bruxo está se deteriorando lá fora, senta ao meu lado, frente à lareira, e me concede um pouco da paz, da felicidade que eu nunca antes tivera. Eu não queria, Pansy, eu realmente não queria lhe dizer nada disso, nunca, mas qualquer dia é bom para morrer, e, embora você deteste quando eu falo em morte, eu não poderia ir embora sem lhe dizer isso. Agradeço por ter-me feito chegar a esse desabafo.
Ergui-me da poltrona, sem perceber muito bem o que fazia. A minha alma poderia, toda ela, ter deixado o meu corpo por alguns segundos, tamanha era a sensação interna de formigamento. Eu simplesmente me sentia incapaz de respirar, e não me acudiam as palavras, todas elas fugiram, aumentando ainda mais o meu embaraço. Finalmente, com alguns segundos de atraso, você igualmente se ergueu de sua poltrona. O seu rosto, iluminado pelas chamas, parecia irreal, e eu me aproximei lentamente, temendo que você se dissipasse como em um sonho. Mas isso não aconteceu, e eu toquei-lhe os braços, que me pareciam absolutamente tangíveis. Abracei-o, e você me enlaçou. O tempo parecia, naquele momento, um fator irreal e supérfluo. Mas quando os meus lábios foram de encontro aos seus, você mos negou, sussurrando:
— Confessei-lhe os meus sentimentos, mas não disse que eles eram concebíveis.
— Por que não seriam? — sussurrei de volta.
— Basta olhar para todas as diferenças. Você é tão jovem, Pansy, não quero roubar a sua vida.
— Roubará a minha felicidade se continuar negando o que sente.
Por um milésimo de segundo você deu mostras de que cederia, mas seu rosto, embora demasiadamente próximo ao meu, continuava a fugir.
— Você não pode... Draco Malfoy...
— Que diabos tem Malfoy?
— É com ele que você tem de...
— Se eu tenho de fazer algo, é não deixar que você se afaste de mim agora.
E finalmente os nossos lábios se uniram, como laços de uma promessa sagrada. Tão breve quanto um suspiro.
— Por que se afasta de mim?
— Porque não posso esquecer que há um mundo lá fora, uma guerra da qual eu posso não sair vivo, e, principalmente, que há bom senso.
— Se você vê a sua vida tão reduzida à Guerra, há tempo para pensar em bom senso? Aliás, defina bom senso.
Você se calou e perdeu os olhos pela lareira. Aproveitei, então, para retornar aos seus braços, e dessa vez não lhe deixei afastar o rosto. Não seria capaz de precisar quanto tempo permanecemos naquele estado de graça, com o silêncio à nossa volta quebrado apenas pelo crepitar do fogo, mas quando nos afastamos, os meus olhos já estavam desacostumados à luz. Você pediu gentilmente — mais gentilmente do que nunca — que eu me recolhesse, e eu não hesitei. Que diferença fariam algumas horas longe de você, quando eu teria a eternidade para permanecer ao seu lado, provando dos seus lábios incontáveis vezes? E naquela noite eu recusei todos os sonhos, queria apenas permanecer em minha realidade, que se mostrava tão absolutamente maravilhosa.
Aí vindes outra vez, inquietas sombras?¹ É parte integrante da obra Fausto, de Goethe.
