13 – O BAILE DE INVERNO

Aquele objeto ficara por tanto tempo perto de mim e só depois de muitos anos eu viera a notá-lo realmente. Acho que ganhei aquele globo de meu pai, em um Natal muito remoto, quando os presentes ainda eram dispostos embaixo da árvore enfeitiçada para brilhar durante todo o período festivo. Mas dentre tantos outros presentes melhores, este ficou esquecido junto a outras ninharias. É que quando não se tem mais nada, costumamos nos apegar às coisas ínfimas, e foi assim que o tomei em minhas mãos e agitei, vendo dançar dentro da esfera de vidro todos aqueles papeizinhos coloridos que simbolizavam a neve. De um lado para o outro, sem poder sair do limite imposto pelo globo e ganhar o mundo exterior. Como eu. Suspirei longamente, pensando que talvez fosse melhor tê-lo deixado na casa trouxa, para que não me acometessem as lembranças dos tempos amenos. Mas que eram os objetos, se as lembranças verdadeiras estavam aprisionadas no meu coração, de modo indelével? Agitei novamente o globo de Natal e me lembrei de que tal data se aproximava, e, após tantos anos, eu participaria de uma festa. Volvi a memória para um Natal tão remoto, que eu passara na mansão dos Malfoy e dormira no quarto de Draco. Eu devia beirar os catorze ou quinze anos, e não me lembro de uma manhã que tenha acordado mais aturdida, procurando a mim mesma, onde eu me perdera. Certamente não me encontrei nos olhos azuis e frios de Malfoy, ou no seu corpo seminu ao meu lado, na cama. Eu desejei fugir de lá, teria aparatado se pudesse, para Hogwarts, para perto de você. Então eu lhe diria que me sentia suja, pérfida, traída por mim mesma. Mas isso se passara há tantos anos, que me parecia nunca ter existido. Depois que eu te perdi, nasci para uma nova vida, obviamente mais amarga, mas inteiramente nova.

Mas obviamente o dia do Baile de Inverno chegou antes do Natal. O vinte de dezembro amanheceu cinzento e a neve começou a cair lá pelo meio da tarde. Hogwarts estava agitada, particularmente o salão da Sonserina. Todos queriam estar apresentáveis para o baile, para os seus acompanhantes. Algumas coisas não mudam nunca.

À hora de subir ao Salão Principal, hesitei um pouco. Há muito não usava um traje festivo, e não sabia se ainda me caía bem o vestido com que aparecera em festas importantes, tantos anos atrás. Servia-me perfeitamente, entretanto, e estava praticamente novo. Os cabelos estavam demasiadamente compridos, então prendi apenas uma mecha, com intenção de ficar elegante. Fiz também uma boa maquiagem, nada discreta, mas, pelo contrário, até vulgar, por conta dos olhos delineados de preto e os lábios carmim. Eu parecia viva e radiante, como talvez fora um dia.

Tive a impressão de ser tragada por uma nova dimensão ao adentrar o Salão Principal. Não se parecia em nada com a sombria Hogwarts, mas, pelo contrário, lembrava um salão de festas muito iluminado, exatamente como fora há tantos anos atrás. Os alunos formavam filas, meninas de um lado, meninos do outro, alinhando-se para a valsa. Imediatamente lancei os olhos ao canto onde ficava o corpo docente, e, comparado à outra vez, havia alterações. Alterações demasiadas. Era para lá que eu deveria ir, mas antes que chegasse, fui abordada por um rapaz que demorei a reconhecer por causa dos cabelos negros.

— Ainda bem que a senhora veio — falou Teddy — está... Está linda.

— Obrigada, Teddy, você também está muito elegante. Aliás, gostei dos cabelos negros.

— Ficou mais discreto, não? Bom, eu... Eu vou encontrar Victoire Weasley, mas na verdade...

— Bom baile para vocês.

Interrompi-o, antes que ele fosse capaz de dizer alguma coisa da qual se arrependeria mais tarde. Contornei alguns alunos eufóricos e assumi o meu lugar ao lado do jovem Keane Ambrose, mestre de Poções que sucedera Slughorn. E teve início a valsa...

— Pansy...

Virei lentamente e dei com o rosto pálido de Draco Malfoy.

— Pensei que o Baile de Inverno se limitasse a Hogwarts — falei, e me admirei com o tom cínico em minha voz.

— Eu gosto de me infiltrar na escola sempre que possível.

— Isso eu percebi.

— Sabe como é, relembrar os velhos tempos... Aceita uma dança? Os seus colegas já se misturaram com os alunos, então...

Assenti, e Malfoy me tomou a cintura. Fiquei admirada que ainda soubesse dançar, tão leve e ritmadamente como antes.

— Você está tão parecida com a Pansy que eu conheci... Arrogante, maliciosa...

— É mesmo?

— A Pansy por quem me apaixonei.

— E que logo em seguida trocou pela doce Astoria.

Malfoy não respondeu de imediato. Ficamos ainda por quase um minuto inteiro dançando lentamente ao meio do Salão Principal, entre os outros casais.

— Não foi bem por querer, Pansy — disse finalmente — o fato é que não me sujeitaria àquilo...

— Aquilo...?

— Eu sempre soube que você gostava do Snape, mas achava que era só uma paixão platônica que passaria depressa, mas... Você sabe, naquele Natal que você passou na minha casa...

— Sei — admiti — a primeira vez que nós...

— A primeira e única. Eu acho que você não sabe, Pansy, mas naquela noite, ao adormecer, você sussurrou o nome dele.

Quase interrompi a dança, mas felizmente fiquei no quase. Quanto mais indiferente eu me mostrasse ao Malfoy, melhor seria.

— Sério? — indaguei friamente — Peço desculpas.

— Tentei relevar, mas uma vez que abrira os olhos, o seu sentimento por Snape me pareceu cada vez mais sólido. Foi isso que me levou a trocá-la por Astoria no sexto ano.

— É perfeitamente justificável. Ademais, provavelmente Astoria Greengrass o ama de fato, ou de que outra forma teria esperado por você enquanto trabalhava para o Lord das Trevas?

Ele sorriu amargamente.

— Casamentos entre famílias nobres raramente envolvem amor, Pansy, raramente...

— Que seja... Você tem uma família bonita, Draco.

—E é realmente o que importa, a aparência. Mas esqueçamos isso, quero falar sobre você.

— Sobre mim?

— Sobre como você está bonita hoje.

— Você já foi melhor com cortejos, Draco.

— Então talvez eu deva ser direto. Vamos sair daqui.

Fui arrastada, em meio à multidão, para fora do Salão Principal. Não indaguei a Malfoy aonde me levava, ainda persistia na ideia da indiferença, e só reconheci o lugar quando ele deu três voltas e surgiu uma porta dupla. Desatei a rir.

— Sala Precisa, Draco? Você não mudou nada.

Ele nada disse, apenas me indicou a passagem, que transpus ainda rindo.

— Muito bem — falei em tom sarcástico, enquanto dava voltas observando a sala vazia, salvo por uma poltrona e dois candeeiros que ofereciam uma luminosidade precária — o que há de tão importante para me dizer?

— Que lhe faz pensar que tenho algo a dizer?

— O fato de ter me trazido a um lugar tão afastado e secreto, talvez?

— Não acredito na sua inocência, Pansy, não quando você nunca a possuiu.

— Talvez não seja inocência, Draco. Talvez eu tentasse me conformar de que você se tornou uma pessoa decente, mas vejo que me enganei.

Girei nos calcanhares e me direcionei à porta, mas fui impedida de prosseguir.

— Absolutamente não, Draco.

— Eu a deixo prosseguir se me der um único motivo plausível.

— Talvez você não queira ouvir o nome dele outra vez. É plausível o bastante?

Não obtendo uma resposta de Draco, novamente girei nos calcanhares, e desta feita não fui interrompida de prosseguir. Eu não cometeria o mesmo erro novamente...

De modo geral, o baile foi extremamente parecido com o de minha juventude. As danças, bebidas, risadas, casais... Mas os seus olhos não procuravam mais os meus.

INTERLÚDIO

Não falamos mais nada sobre o que se deu frente à lareira. Eu por timidez, você, acredito que por bom senso. E os dias passaram...

De volta ao Expresso, encontrei Malfoy, Zabini, Crabbe e Goyle em um compartimento. Saudaram-me sem muito entusiasmo, e foi Draco quem escorregou no banco, oferecendo-me o lugar ao seu lado. Beijou-me rapidamente nos lábios e deitou a cabeça sobre as minhas pernas, de modo que eu pudesse afagar os seus cabelos. Eu o fiz, mas não éramos exatamente o mais apaixonado casal de namorados de Hogwarts. Se é que ainda éramos um casal. Tal fato me parece tão remoto e até absurdo, que não me entusiasma discorrer.

Iniciou-se uma conversa sobre Slughorn, da qual participei apenas brevemente. Depois foram incorporados ao assunto, alguns daqueles que desprezávamos, terminando na confissão de Malfoy acerca de sua tarefa para Voldemort. Na verdade, ele apenas disse que talvez não estivesse em Hogwarts no próximo ano. O resto eu subentendi ao relembrar o pedido aflito de Narcissa, mas só fui ter com Draco muitas horas após o banquete, quando ele se sentou, cansado, à poltrona do salão comunal.

— Não é fácil ser monitor.

— Acho que você quis isso, não? Ademais, Draco, você é a figura mais célebre de nossa casa. Quem seria melhor monitor do que você?

— A sua ironia não tem fim, Pansy.

Calamo-nos. Fiquei a fitar distraidamente uns dois quartanistas que se encaminhavam ao dormitório, e Malfoy parecia perdido em pensamentos. Quebrei o silêncio, enfim.

— De que tarefa ele te incumbiu, Draco?

O rosto pálido de Malfoy tornou-se praticamente cadavérico.

— Perdão?

— Sei de muito. Passei essas férias na casa de Snape, e certa noite a sua mãe apareceu por lá, pedindo que ele lhe protegesse ou até o substituísse em sua tarefa.

— Férias com Snape, claro! Devo perguntar quantas vezes vocês...

— Cala a boca, Draco! Não seja ridículo, e não fuja do que lhe perguntei. Que tarefa é essa? Por que você pretende não estar na escola no ano que vem? Que diabos você vai fazer de sua vida, Draco?

— Ora, o que você tem com isso? Faço o que eu quiser de minha vida, na hora que me aprouver.

— Draco, você se aliou a eles? Aos Comensais da Morte?

— Shii, cale a boca, Pansy! E se me aliei?

— Deixe ver o braço.

— Que?

— O braço esquerdo, anda!

— Ora, Pansy, mas eu não vou...

Não deixei que terminasse a negação e avancei, afastando a manga da capa. A Marca Negra era jovem ali. Afastei-me, estarrecida. Obviamente não amava Malfoy, mas tinha por ele algum afeto, e não me podia ser agradável vê-lo como um assassino.

— Feliz? — ele indagou, nervoso.

— Você é um idiota, Draco.

Ele crispou os lábios.

— Pensei que você teria orgulho de mim.

— Orgulho de que? De você entregar uma vida jovem e prodigiosa a uma causa suicida?

— Pansy, estamos falando do Lord das Trevas.

— Dane-se! Você vai morrer, idiota! Ou acha que o Lord vai poupar a sua preciosa vidinha, ao te mandar pra missões que você não tem condições de enfrentar?

— É claro que eu tenho!

— Você é tão burro, Draco, tão burro e absolutamente infantil, que não percebe que o Lord quer apenas se vingar de Lucius, atingindo você.

O tom seguro do meu amigo pareceu vacilar.

— Se vingar do meu pai? — foi uma pergunta que ele fez mais a si mesmo, algo que até então provavelmente não lhe ocorrera, mas procurou emendar — Ora, qual! O Lord reconhece que sou absolutamente capaz, por isso me colocou no seu exército.

— O Lord vê em você uma marionete, Draco, apenas isso. Qual foi a tarefa de que ele te incumbiu?

— Não posso dizer, é segredo.

— Você nunca teve segredos comigo. Pensei que ainda fôssemos namorados.

— A minha fidelidade ao Lord ultrapassa qualquer relacionamento passageiro.

— Relacionamento passageiro? É assim que você me vê?

O meu ego feminino foi ferido, ainda que desejasse, talvez mais do que ele, o término daquele namoro.

— Tudo nessa vida é passageiro, Pansy.

— Tem razão. Eu só espero, sinceramente espero que essa sua tarefa idiota não venha a colocar Snape em maus lençóis, porque, como eu disse, a sua mãe pediu ajuda a ele.

— Eu não preciso que Snape me ajude! Ele nem mesmo seria capaz de realizar a tarefa.

— Positivamente espero que não, porque se eu pudesse escolher, não trocaria a vida dele pela sua.

Fiz o caminho do dormitório, odiando Malfoy mais a cada passo que dele me distanciava. O meu amigo, namorado, ou o que quer que fosse, sofrera uma mudança drástica durante as férias.

— Mas, Pansy...

Não pude me retirar do salão comunal, e, meio a contragosto, girei nos calcanhares, encarando Malfoy com frieza. Ele veio em minha direção.

— Eu pensei que Snape também fosse um Comensal — prosseguiu — e, no entanto, você o venera, não?

Senti os argumentos me fugirem no mesmo instante, ante a verdade que eu não poderia contar. Mas eu ainda era suficientemente astuta.

— É diferente, Draco, Snape tem experiência.

— Um dia também foi jovem, e, se não me engano, ingressou ao exército do Lord quando era apenas uns dois anos mais velho do que eu.

— E teve muita sorte, sem contar que as coisas estão piores dessa vez. Mas a vida é sua, Draco, e você faz dela o que melhor lhe parecer. Só não reclame quando estiver frente à morte e pensar que poderia ter uma vida brilhante pela frente. Isso se você tiver tempo para pensar. Boa noite.

- x -

Decidi não assistir à minha primeira aula do sexto ano, que era Transfiguração, e parti furtivamente para o seu escritório. Você se admirou ao me ver entrar.

— Não deveria estar na aula, Srta. Parkinson?

Não consegui acreditar que você voltava a me chamar pelo nome que recebi de minha família. Apenas porque estávamos em Hogwarts precisávamos da antiga formalidade?

— Sim — respondi, tentando ignorar esse fato — mas eu realmente precisava lhe contar algo.

— Sobre?

— Malfoy. Ele me confessou que está trabalhando para o Lord, e inclusive me mostrou a sua Marca Negra.

— Contou-lhe algo sobre a tarefa?

— Não, disse que é segredo.

— Então não vejo onde está a novidade. É claro que todos nós sabíamos que Draco foi marcado.

— Eu não sabia.

— Questão da mais pura dedução, Parkinson. Era só isso?

Hesitei perante o seu tom frio, mas não retrocedi.

— Bom, eu vim dizer que fiquei feliz pelo seu novo cargo de Defesa Contra as Artes das Trevas. É bom que tenhamos alguém de exímia competência, ao contrário do ano passado. Ademais, é algo que você almejava, não? Fico feliz por isso.

— Obrigado, Parkinson. Bem, eu acho que agora já pode ir. Transfiguração é a sua matéria favorita, não é? Uma aula perdida faz toda a diferença.

Assenti e me retirei. O corredor da masmorra não parecia mais o mesmo, e certamente isso se dava à conturbação daquele momento. Pude jurar que sonhara com as férias na sua casa, porque o tratamento que você me dispensara naquela manhã não era condizente com o das férias, nem com as nossas conversas, passeios ou com a inesperada e confusa declaração... Tampouco com o beijo frente à lareira.