14 - QUEDA

A desagradável investida de Malfoy teve um lado bom, embora eu detestasse admitir. De certa forma, fizera-me pensar que não estava, assim, tão desprezível. Ele, afinal, não deixava de ser um homem bonito e distinto, casado com a bela e delicada Astoria. Por que me procurara? Eu, que o tempo tirara todos os atrativos! Ou talvez, nem tanto assim, uma vez que o jovem Lupin parecia interessar-se por mim também. Mas eu os recusava, e continuaria recusando a quem quer que fosse.

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Era véspera de Natal, e os que ficaram na escola concentravam-se no Salão Principal. Já arrumada para a ocasião, ponderei se teria ânimo para participar da festa. Fiquei a cismar, parada em frente à porta de meu escritório. Meus olhos distraídos alcançaram o globo de Natal à minha mesa, peguei-o e sacudi instintivamente. Deixei que o meu olhar se perdesse pela imagem desfocada dos flocos de neve, que tanto se assemelhavam a mim. Dançando presos numa esfera, loucos para ganhar o espaço exterior e viver. Viver... O globo escorregou de minhas mãos quase propositalmente, estilhaçando-se ao chão. Vi os falsos flocos de neve espalharem-se junto a todo o conteúdo. Sorri ao vê-los livres, mas imediatamente os meus lábios tornaram à linha reta e amargurada, porque os flocos ficaram lá, espalhados, imóveis. Quiseram a liberdade para morrer na inércia.

Sem consultar o bom senso, deixei o meu escritório e corri, ignorando a dificuldade apresentada pelos sapatos altos. Ao invés de tomar o caminho do Salão Principal, subi todos os lances de escadas e parei, ofegante, frente à sala de McGonagall, que não conservava uma senha como em outros tempos. Assim, adentrei sem bater à porta e a encontrei vazia, como pretendia. Na parede, ao lado esquerdo da mesa da diretora, o seu retrato permanecia impassível, mas não me intimidei. A correria me deixara o rosto afogueado e os sentidos exaltados, e não me enchi dos mesmos cuidados que sempre tomava ao me dirigir a você.

— Por quê? — indaguei, sentindo que era inútil me referir a um retrato, mesmo em nosso mundo —Que foi que eu fiz para ser submetida a tanto sofrimento?

Como era de se imaginar, não obtive resposta. Apoiei-me na cadeira de espaldar alto, ofeguei e observei as lágrimas que despencavam dos meus olhos e atingiam a madeira escura. Senti a raiva crescer no meu peito, porque você não respondia, não se manifestava.

— Por que você me fez voltar àquele lugar? Não tive um minuto de paz desde que fui obrigada a me deparar com lembranças tão vívidas.

— Porque talvez você não entendesse.

Ergui-me imediatamente, duvidando que aquela voz — que indubitavelmente era sua — vinha de seu retrato. Mas você prosseguiu, olhando diretamente nos meus olhos, a apatia fugindo aos poucos do seu semblante.

— Mas mesmo assim você não entendeu, porque ao voltar para lá só foi capaz de sentir dor. É isso que eu te causo: Dor. E as lembranças? As boas lembranças? Que você fez delas?

— Estão presentes, todas elas, mas se transfiguraram em dor.

— Mas não deveria deixar que isso acontecesse. Por isso o seu coração sangra.

Não me acudiu uma resposta, mas a raiva ainda fervilhava no meu peito. Como você poderia dizer que era tão fácil transformar dor em paz de espírito, como se bastasse um simples aceno de minha varinha, qual ensinava aos meus alunos?

— Não é fácil — você disse, e tive a absurda impressão de que, mesmo sendo apenas através de uma pintura, você podia ler a minha mente. Tratava-se de uma coincidência, é claro — mas você é forte. Extremamente forte.

— Menos do que você pensa — respondi, arrancando da garganta as palavras que não queriam sair.

Caímos em um silêncio constrangedor que não durou mais de dez segundos, e tornei à minha indagação inicial.

— Mas por que me fez voltar à sua casa?

— Como eu disse, Pansy, para que você entendesse.

— Entender o que?

— O que te levou até lá?

— A busca pela chave da caixinha que você me deixou.

— Pois bem.

— Mas não encontrei chave alguma.

— Repito que não encontrou porque deixou que a dor a dominasse.

— Por que você fala através de enigmas? Não seria mais fácil me dizer como abrir e pronto?

— Nós sempre falamos através de enigmas, Pansy, e você nunca deixou de decifrar os meus desejos, os meus sentimentos... Os meus propósitos. Você há de descobrir, estou certo disso. Sua inteligência e perspicácia nunca a abandonaram.

— Parece que você se diverte com isso.

— Muito pelo contrário.

Novamente o silêncio, mas a raiva me abandonou o peito, dando lugar a um desespero crescente. Eu podia falar com você, mas não podia tocá-lo. Você estava morto, e, no entanto, ainda podia manter uma longa conversa. Pensei com horror na magia das pinturas, que desconhecia. A mim era a pior de todas as magias das trevas. Senti o ímpeto de correr, mas não o fiz. Novamente você pareceu ler a minha mente, o que aumentou o meu furor.

— Não se sente à vontade, não é? Parece estar prestes a desmaiar.

— De fato — confirmei, sentindo rarear-me a respiração.

— Então vá para o Salão Principal, coma alguma coisa e tente se acalmar.

Assenti, incapaz de fazer outra coisa. Lancei um último olhar ao seu retrato e saí quase correndo. As lágrimas me lavavam o rosto enquanto descia as escadas, sufocada por uma sensação terrível de desespero claustrofóbico. Ao ganhar o Salão Principal, busquei imediatamente a mesa da Sonserina, onde me sentei, joguei a cabeça sobre os braços e permaneci chorando e tremendo convulsivamente. Cuido que alguém tenha me consolado com algumas palavras ou uma mão sobre o ombro, mas não levantei a cabeça nem reconheci a voz, portanto não posso dizer quem o teria feito. Tampouco especulei posteriormente, ao contrário, evitei todos os olhares possíveis nos dias que seguiram. Senti vergonha de minha fraqueza e não entendi o que me levara a desabar numa mesa do Salão Comunal. Por que eu não fora ao meu escritório, onde poderia chorar em paz e sozinha? Talvez fosse porque você me mandara ali, e eu há muito ansiava por um conselho ou mesmo uma ordem. Qualquer coisa vinda de você.

Passaram-se os dias, de um em um até completarem sete. Na noite de Ano Novo eu estava — ou ao menos parecia — um pouco mais disposta. Os poucos em Hogwarts (quase todos os funcionários e alguns alunos) decidiram receber o novo ano nos jardins. Tinham o costume de, à meia noite, apontar as varinhas para o céu e expelir faíscas, hábito parecido com o dos trouxas e seus fogos de artifício. Pois bem, assim recebemos o novo ano, e eu colaborei na comemoração, muito embora me desagradasse aquele "começar de novo". Ouvia as resoluções e objetivos dos que estavam à minha volta e sentia inveja, porque eu sabia que simplesmente seria levada pelos dias, como um barco à deriva, até que o ano acabaria e começaria outro. E mais outro. Assim, até quando o destino determinasse.

INTERLÚDIO

Os dias acabaram por me acostumar novamente à ideia de que o meu sentimento por você era de natureza platônica. As férias em sua casa e todo o decorrente me pareciam partes fragmentadas de um sonho. Ainda que me acudisse a reminiscência de que você dissera me amar, por palavras encobertas, tal se mostrava como um devaneio dos muitos que eu tivera até ali. E fui me adaptando, inibindo-me, até que não suportei mais as entrevistas a sós. Passei a evitá-las.

Por outro lado, Malfoy se transfigurava cada vez mais em uma pessoa sombria e impenetrável. A tarefa de que Voldemort lhe incumbira parecia levar, todos os dias, um pedacinho importante de sua vivacidade, até que se tornou muito semelhante a um fantasma de feições lânguidas e olhos fundos. Quando fui indagá-lo, Draco tomou a oportunidade como perfeita para por termo ao nosso relacionamento conturbado. Confessou-se apaixonado por Astoria Greengrass.

— Sabe como é, ela não fica perguntando nada sobre a minha vida...

— Você é ingrato, Draco. Se pergunto é porque me preocupo com você.

— Agradeço, mas preocupação não é algo que eu queira no momento, ademais...

— Você já disse que gosta dela. Espero que sejam felizes.

— Vocês também.

Deixei Malfoy antes que ele terminasse a insinuação e, do jardim, voltei para o castelo, desejando nunca tê-lo conhecido.

Mas em um dia como qualquer outro, quase à hora do crepúsculo, você me chamou ao seu escritório.

— Como vai, Pansy?

Estranhei a forma de tratamento, mas tentei não demonstrar a minha confusão interna.

— Bem, e...

— Fiz uma descoberta importante...

Ao mesmo tempo em que ansiosa, fiquei feliz que você ainda me tivesse como confidente. As coisas não haviam mudado tanto, afinal.

— ...Acerca da tarefa de Malfoy.

— Você descobriu?

— Sim.

— Então me diga o que...

— Aquele-que-não-deve-ser-nomeado incumbiu Malfoy de liquidar Dumbledore.

Estaquei, e meu rosto possivelmente se tornou um esgar de espanto.

— D-Dumbledore? Matar?

— Exatamente.

— Mas isso é horrível! Draco pode ser uma criança mimada e rebelde sem causa, mas matar alguém, não. Ainda mais um grande bruxo como Dumbledore. Eu duvido que...

— Eu também duvido, Pansy, tanto é que...

— Como você descobriu?

— Dumbledore me contou.

— Como assim? Ele sabe?

— Ele tem quase certeza.

— Mas, espere, e se Draco não conseguir — e ele não vai conseguir — é você quem terá de... O Voto Perpétuo, lembra?

— Justamente o que eu ia lhe dizer. Draco não vai matar Dumbledore, eu o farei.

— Mas...

— Escute, Pansy, Dumbledore está morrendo.

— Que?

— Ele foi envenenado por um anel dotado de uma pedra enfeitiçada. O efeito deletério se dará ao longo de um ano, mais ou menos, e durante esse tempo ele ficará gradativamente fraco, até expirar. Dumbledore provavelmente não durará até o início do próximo ano letivo.

— Mas isso é... Não... Isso é horrível!

—E ele me pediu que o matasse em lugar de Draco, já que vai morrer de qualquer forma. Matá-lo quando o Lord ordenar ao garoto, para lhe poupar a alma jovem, entende? Malfoy jamais se recuperaria do trauma...

— Mas isso não é justo! E quanto à sua alma?

— Ora, Pansy, acha que será a primeira vez? Tirei muitas vidas quando fui Comensal. Ademais, eu preciso mesmo proteger o Draco, terminar o que ele não conseguir. E, como você mesma disse, é certo que ele não conseguirá.

— Mas, Severus, você não pode fazer isso. Matar Dumbledore? Ah, isso é horrível!

— E o que não é horrível nesses tempos de guerra?

— Talvez se Draco morresse por qualquer outra causa, você não precisasse fazer nada disso.

Você me olhou com certa surpresa impregnada de desdém.

— Pensei que Malfoy fosse o seu namorado.

— Não é mais. Felizmente passei o cargo à Astoria Greengrass, e só posso lamentar por ela.

Cuidei que você sorrira com os olhos, sem, contudo, arquear os lábios.

— De qualquer forma, está feito. O plano é esse que eu lhe disse.

Suspirei, uma vez que não me acudiram as palavras. Tudo aquilo era tenebroso demais para que eu pudesse aceitar prontamente.

— É só uma questão de tempo — você disse brandamente — e tudo vai passar.

— Às vezes penso que seria melhor que ele colocasse logo as mãos em Harry Potter. Ao menos a busca terminaria, e com ela a Guerra.

— E então o mundo seria governado pelo Lord, o que tornaria as coisas muito melhores, sem dúvidas.

— Pelo menos você não correria mais riscos fazendo um trabalho duplo.

— Ah, você está certa nisso, o trabalho duplo acabaria, e então eu me tornaria integralmente Comensal da Morte.

— Não se fôssemos para algum lugar distante, sei lá, um povoado trouxa.

— O Lord pode encontrar quem leva a sua marca, e, francamente, estar em um povoado trouxa não dificultaria as coisas para ele.

— Mas um bem distante, talvez ele não se desse ao trabalho de nos procurar. Olha, eu não ligo de não terminar os estudos. Podemos ir agora!

Você riu, e dessa vez não apresentava desdém, mas desgosto. Não me envergonho dessas palavras, quando somos jovens o mundo é de eternas possibilidades.

— Você é ingênua, Pansy. É claro que o Lord não me deixaria fugir, quando eu faço parte de seu círculo íntimo e guardo demasiadas informações.

Havia lógica em sua afirmação, mas tentei procurar por argumentos, que não vieram.

— Não há nenhum jeito?

— O único jeito é continuarmos resistindo.

Suspirei, fatigada como Atlas. Percebendo, você fez um breve gesto de carinho nos meus cabelos, o incentivo que faltava para entregar-me a um abraço.