15 – EMILY WHITE
No contexto, o tempo é algo democrático, que passa da mesma forma para todo ser vivente. Mas só no contexto. Para mim, aquele ano letivo findou absolutamente depressa, e quando parecia que os garotos haviam acabado de chegar das férias de Natal, já era a noite anterior às férias.
Em meu escritório, eu cismava nesses assuntos de passagem do tempo. A verdade é que cada noite eu procurava um assunto diferente para cismar, talvez para não deixar que a antiga apatia do bairro trouxa voltasse a se apoderar de mim. E foi dessa forma, enquanto estava imersa em pensamentos turvos, que a luz entrou pela porta dupla de madeira, na forma do rapaz de cabelos purpúreos.
— Olá, Teddy.
— Srta. Parkinson.
— Entre, por favor.
Ele obedeceu, fechando a porta atrás de si. Pedi que sentasse, mas insistiu em permanecer de pé.
— Algum problema, Teddy?
— Não, nenhum — respondeu timidamente — eu só vim me despedir. É o meu último dia em Hogwarts.
— E não entendo essa sombra no seu rosto. Não deveria estar feliz, Teddy? Termina agora uma etapa de sua vida para começar uma nova. Vai se tornar auror, arrumar um bom emprego, casar-se com Victoire Weasley, e...
— Eu não posso me casar com ela. Foi exatamente isso que vim dizer.
— Ela sabe disso?
— Sabe, eu... Eu fui honesto com ela.
— Ah, Teddy...
— Srta. Parkinson, eu não poderia ir embora sem... Sem lhe dizer que... Eu não suportaria ficar com o peso de uma confissão que não foi feita.
— Não precisa dizer, Teddy...
— Mas eu quero. Eu quero dizer, para não deixar nenhuma sombra de dúvida. Eu juro que tentei controlar os meus sentimentos pela senhora, mas simplesmente não pude. Olhe, eu sei que não é fácil entender, mas...
— Eu entendo muito mais do que você imagina.
— Mas não pode corresponder porque sou jovem e imaturo, não é?
— Não, Teddy, não é. O fato é que eu...
— Eu sei, não precisa explicar. Eu sei que isso a machuca. Bom, eu... Eu realmente só precisava lhe confessar... Nunca esperei nada.
— Teddy, os sentimentos são traiçoeiros na adolescência. Converse com Victoire, volte para ela. Uma garota como aquela não se encontra facilmente.
— Por isso mesmo que não quero continuar a enganá-la. E nem a enganar a mim mesmo. Bom, é isso... Eu não vou dizer adeus, está bem?
— Eu também não gosto de despedidas, Teddy.
E ficou por isso mesmo. Ele não demorou a se retirar, e digo que me doeu vê-lo sair cabisbaixo de meu escritório. Lembrei-me de todas as vezes que transpus aquela porta dupla de madeira com a mesma expressão arrasada... Eu não queria o mesmo para outra pessoa, tampouco quando era ela o sensível Teddy, que se tornara tão especial para mim.
- x -
Por mais que coisas curiosas me acontecessem quase todos os dias, eu não poderia simplesmente ignorar a aparição de uma nova. Após as férias ela veio na forma turva, mas real, de um devaneio. E durante a primeira aula do novo ano letivo, eu vi naquela menina de pele claríssima e cabelos muito negros, a imagem da criança que nunca teríamos, a mesma que imaginara na estação de King's Cross, um ano atrás, e que me acarretara um mal estar tão absoluto. Eu a observava e ela me observava de volta. Ela não me olhava como se estivesse prestando atenção ao que eu lhe ensinava, mas como se tentasse me ler e decodificar. Por outro lado, eu queria igualmente desvendá-la. Cogitei pedir-lhe que ficasse na sala após a sineta, mas não precisei. Ela o fez por vontade própria.
— Não vai para a próxima aula? — indaguei, vendo que não se movia da cadeira.
— Eu gostei dessa.
A sua voz era tão sombria e intangível quanto a sua pessoa, que parecia toda envolta em névoa, como um sonho. Era doce, porém, nas palavras e nas maneiras.
— Mas precisa de outras disciplinas para se formar — rebati — também já tive de suportar Herbologia e História da Magia. Acredite, você é capaz de sobreviver.
Ela riu brevemente, um riso tão inocente quanto malicioso. Senti o ímpeto de pedir que se retirasse, mas me contive. A cada minuto ficava mais ávida por informações sobre a pequena misteriosa.
— Sou Emily White.
— White? — indaguei mais a mim mesma — Não conheço os White.
É mister dizer que foi um pensamento inútil feito em voz alta. A garota poderia muito bem ser filha de trouxas, por exemplo — ou antes — quem disse que eu tinha vasto conhecimento acerca de famílias bruxas?
— Também não conheço os Parkinson — foi a sua resposta.
— É que a minha família foi dizimada pela Guerra. Sou uma espécie de sobrevivente, algo desse tipo.
— Isso é ruim.
— Sim, é.
— É melhor estar com os que amamos do outro lado a ficarmos sozinhos deste.
— Exatamente — eu disse, impressionada com o fato de que os pensamentos da menina pareciam interligados aos meus.
Fiquei a observá-la. Emily, que se chegara à minha mesa, tinha os olhos presos a alguns papéis, mas certamente não era neles que estavam concentrados os seus pensamentos. Talvez por temer o assunto que resultaria daquelas reflexões, cuspi-lhe a primeira pergunta que me ocorreu:
— O que aconteceu com a sua família? Você fala como se fosse tão só quanto eu.
— É uma história longa e perturbadora.
— Eu estou com tempo.
— Minha mãe tinha catorze anos quando engravidou. Era uma menina pobre, que não pôde cursar magia porque a família trouxa a proibiu. Odiavam-na porque eram todos católicos, diziam que a magia era coisa do demônio. A gravidez foi a desculpa que buscaram para escorraçá-la de casa. Minha mãe, então, buscou um convento trouxa e disse que não tinha família. As irmãs, piedosas de sua miséria, consentiram que fosse viver lá, e ela se tornou muito querida, porque era amável, religiosa e dedicada. Lembro-me dela, era uma santa. Mas nada é justo, absolutamente nada. Mamãe morreu ainda jovem, aos vinte anos.
— Eu sinto muito...
— Deu-se que cresci naquele lugar, e me ordenaria freira se McGonagall não me aparecesse dizendo que sou uma bruxa. A princípio eu me assustei, é claro, mas, então, ela me explicou que os bruxos não são necessariamente maus, contou-me sobre as duas Guerras, sobre Harry Potter, Voldemort e todo o resto. É claro que a versão para as irmãs foi outra, de que eu havia ganhado uma bolsa de estudos, coisa desse tipo. Elas não pediram muita explicação, e, pessoalmente, acho que sentiram uma espécie de alívio ao me verem pelas costas, porque os meus dons mágicos se desenvolviam a cada dia.
— Então você não vai voltar para lá nas férias, vai?
— Não, vou ficar por aqui. Quando me formar, arrumo um emprego e ganho o mundo.
— Você não fala como uma garotinha de onze anos.
— Talvez nem todas as garotinhas de onze anos tenham passado pelo que eu passei.
— É, tem razão. Bom, quero que saiba que pode contar comigo, está bem? Sou a diretora de sua casa e posso ser sua amiga.
— Eu agradeço desde já. Agora vou seguir o seu conselho e assistir à aula de Poções. Até breve, professora.
Acenei, sem contestar. Uma sensação que não sei explicar se apoderou de mim após conhecer aquela garota. Fosse porque sua história de vida era perturbadora ou porque se parecia tanto com o que eu idealizara de uma suposta filha minha e sua. Ou pelas duas coisas.
INTERLÚDIO
Uma vez que Kate Bell fora impossibilitada de jogar por causa do acidente em Hogsmeade, o time da Sonserina podia se sentir absolutamente seguro. Meus colegas entraram em campo com a característica postura superior e arrogante que sempre admirei e começaram bem o jogo, mesmo sem a presença de Malfoy. Deu-se que a prepotência atrapalhou, e por uma pequena diferença de pontos somada a um estratagema de Potter para apanhar o pomo, a Grifinória venceu a partida.
Saí com raiva das arquibancadas e decidi caminhar pelos jardins; não suportaria as caras feias ou as reclamações de meus colegas. Caminhei mal humorada, reclamando da derrota e da névoa, ao menos até perceber que esta escondia, em sua palidez, a sua imagem adorada. Aproximei-me estreitando os olhos, até acercar-me de você, que sorria enviesado para mim.
— Pensei que você estivesse nas arquibancadas — você disse com um tom pouco formal.
— E estava — respondi, tentando mostrar uma amargura que já se dissipara com as brumas — mas o resultado não foi muito satisfatório.
— Sempre os grifinórios — você sorriu com desdém — mas é a única coisa que sabem fazer direito. E, acredite, Pansy, os bruxos mais brilhantes não são jogadores de quadribol.
Eu também sorri, mas não me acudiram palavras para dar continuidade à conversa. De repente a névoa, o quadribol e toda a Hogwarts à nossa volta pareceram ficar em segundo plano. De repente nossos lábios se uniram e nossos dedos se entrelaçaram, numa promessa de que acontecesse o que tivesse de acontecer, estaríamos juntos para sempre. De repente, não mais que de repente.
- x -
A ausência de Malfoy no quadribol só me fez ter uma certeza ainda mais absoluta de que a tarefa da qual Voldemort lho incumbira era mais perigosa e exigia mais dedicação do que eu cogitei ao descobri-la. De outra forma, meu amigo jamais abandonaria o time de sua casa em uma partida tão crucial. Eu desconfiava que o acidente de Kate Bell tivesse alguma relação com a terrível tarefa, uma vez que várias circunstâncias me pareciam apontar Malfoy como culpado, mas sabia eu que ele jamais poria em risco a vida de alguém por conta de um jogo. Aquele colar tinha um destino certo, e era Dumbledore, mas fora interceptado a caminho.
Com os pensamentos ainda fervilhando, subi todos os lances de escadas até a sala do diretor, encontrando pelo caminho alguns grifinórios que ainda comemoravam a partida do dia anterior. Quando me lembrei do empecilho oferecido pela senha da porta guardada por gárgulas de pedra, Dumbledore a abriu, encontrando-me parada e ofegante.
— Tudo bem, Parkinson? — indagou, com seu semblante sempre sereno.
— Ah, tudo — respondi meio constrangida — nós podemos conversar? Sobre Kate Bell?
— Claro, claro. Eu só preciso resolver algo rapidamente. Pode entrar e esperar em minha sala, por favor?
Assenti e adentrei a sala, que parecia emanar mais magia do que qualquer lugar em que eu antes estivera. Uma linda fênix me olhou curiosa e iniciou um harmonioso canto, a ponto de me fazer sorrir. Passei os olhos por uma mesa cheia de papéis e instrumentos metálicos incrivelmente organizados. Era uma infinidade de fórmulas impressas em pergaminhos, absolutamente complicadas, mas entre elas pude notar uma espécie de caderno pequeno, que muito se assemelhava a um diário. Aproximei-me, não antes de olhar através da porta, e me pus a lê-lo. Começava aquela página por uma frase já iniciada na anterior, mas limitei-me a ler apenas o que havia exposto. Vamos ao texto:
"...e ficaria louco se supusesse que mantenho comigo duas das Relíquias da Morte e conheço absolutamente a localização da terceira. Então não fora esse o nosso sonho de juventude, reunir as três relíquias e tornarmo-nos senhores da Morte? Ah, se meu caro Grindelwald soubesse que o bem sempre vence... Não o "bem maior", mas aquele intrínseco... Se soubesse, talvez não tivesse perdido para mim, no grande duelo, a Varinha das Varinhas, que tanto fez para conseguir. Mas tão arrogante foi o meu amigo... Se lhe pudesse dizer algumas palavras, Gellert, ao invés de gravá-las em um caderno velho que ficará para sempre encerrado em uma gaveta, eu diria que sinto muito. E que sinto a sua falta..."
E o resto continuava em outra página que tampouco virei, mas só a que eu tinha ao alcance me intrigou deveras. Antes de formar qualquer raciocínio sobre tudo o que lera, fiz uma cópia da folha utilizando magia. Se Dumbledore percebesse posteriormente... Bem, seria uma consequência, mas quando se é jovem e se está em meio a uma guerra, não há importância alguma em correr riscos. Todavia, é mister não abrir mão da cautela, e foi dessa forma que me lancei para o lado da fênix, não antes de guardar a varinha e a cópia do papel, e fiquei a contemplá-la tranquilamente, até o retorno de Dumbledore, que não demorou.
— Esses compromissos imediatos — ele disse suavemente ao adentrar a sala — mas você falava sobre Kate Bell...
— Exatamente — prossegui o mais naturalmente que pude — creio que Draco Malfoy esteja envolvido no acidente.
— Sabe que não é a primeira a levantar essa suspeita sobre o rapaz? Nós estamos verificando, Parkinson.
— Certo — eu disse, já me encaminhado à porta — mas não falei para delatar, só estou muito preocupada com as atitudes estranhas do meu amigo.
— Confesso que também estou, e lhe asseguro que farei o que puder para desvendar todo esse mistério acerca da Srta. Bell.
Assenti e me despedi brevemente. Ao ganhar as escadas, os meus pensamentos que até então pareciam comedidos, inundaram-me a mente com a fúria de uma maré bravia em dia de tempestade. À época eu não imaginava que Grindelwald, o grande bruxo das trevas, mantinha uma relação amistosa com Dumbledore, e aquele foi o primeiro sobressalto. O segundo foi a citação das Relíquias da Morte, principalmente da Varinha das Varinhas. Dumbledore não me parecia do tipo que acreditava em contos de fadas, e aquilo estava longe de possuir a forma de uma analogia. Ademais, o "grande duelo" que fora citado acontecera de fato. As conclusões foram surgindo e se interligando. Ao juntar a última peça do quebra-cabeça, o terror era tanto que eu me vi desatando a correr pelas masmorras.
Você ficou estarrecido ao me ver ofegante, com a face do terror pintada na minha. Pediu que entrasse e esperou que a respiração voltasse aos meus pulmões e as palavras se desengasgassem. Por fim, ainda incapaz de falar, entreguei-lhe o papel copiado com magia, que você leu atentamente.
— Encontrei na sala de Dumbledore — eu disse finalmente, ao perceber que você levantava os olhos do papel e direcionava-os a mim — por acaso. Fiz uma cópia.
— Não deveria mexer nas coisas alheias, Pansy.
— Eu sei, mas esqueci as boas maneiras ao me deparar com semelhante declaração.
— Não vejo nada de errado aqui, a não ser alguns devaneios ao citar-se um episódio de Os Contos de Beedle, o Bardo.
— Não é um devaneio, Severus, é coisa séria. Dumbledore realmente venceu Grindelwald, embora eu não soubesse que foram amigos em tempos remotos. E se ele tomou do bruxo a Varinha das Varinhas, ela pertence a ele, a Dumbledore.
Você riu, mas não parecia totalmente seguro.
— É uma lenda, Pansy, um conto moralizador.
— Eu sei que é, mas meu pai uma vez me disse que a magia encobre algumas passagens, tornando-as lendas. No caso da Varinha, creio que isso se dá para que as pessoas não saiam à procura, matando umas às outras. Você nunca ouviu dizer que o rastro da Varinha das Varinhas é sangrento? Porque ela só pode ser conquistada com a derrota do dono, o possuidor, e embora seja possível conquistar a varinha desarmando-o apenas, os mais fanáticos e arrogantes acham que matar é mais fácil.
— Mas o que tanto te preocupa, Pansy? Deixe Dumbledore com suas fantasias.
— Você não percebe? Se matar Dumbledore, será o novo dono.
Você me pareceu surpreso, e fui levada a crer que não cogitara essa possibilidade nem conseguira lê-la em minha mente, que era um torvelinho de pensamentos.
— Eu não hei de derrotar Dumbledore. A morte dele é coisa combinada, nesse caso...
— Mas ele não sabe disso. Você-Sabe-Quem não sabe desse plano, e se você matar Dumbledore, vai achar que foi por maldade, intenção... Para derrotá-lo.
— Pansy, o Lord não é do tipo que lê contos de fadas, francamente...
— Mas pode descobrir por outros meios. O que não falta àquela cabeça é perspicácia e maldade.
— Você está fantasiando demais.
— Não é fantasia, Severus, é uma possibilidade. E não podemos brincar com hipóteses que te coloquem em risco.
— Não deveria se preocupar tanto comigo. Eu não sou tão valioso quanto você pensa.
— Pode não se auto-atribuir algum valor, mas para mim, acredite, você é a pessoa mais importante desse mundo.
Era raro que você perdesse o poder sobre as palavras, mas aconteceu naquele momento. Eu tampouco as busquei, perdida que estava em meus pensamentos e no desespero da certeza de que aquela conclusão fantasiosa lhe oferecia algum risco. Queria estreitá-lo aos meus braços, beijá-lo como fizera no dia anterior, fundir-me a você para ter a certeza de que o mal que poderia atingi-lo faria o mesmo a mim. Mas não fiz nada disso, apenas me despedi e rumei para o salão comunal, remontando todas as conjeturas que fizera acerta do escrito de Dumbledore. Mas você dissera que era fantasia, devaneio meu, e eu deveria acreditar em você. Eu queria acreditar, mas não pude. Quisera eu você estivesse certo.
