16 – REMINISCÊNCIAS
O tempo, que me parecia algo fixo e democrático, passara absolutamente depressa até as férias de Natal. Na noite da cerimônia o castelo sustinha mais alunos que na mesma época, no ano anterior. Ceei com alguns dos meus favoritos e me retirei, não antes de reparar no olhar rancoroso que Victoire Weasley lançara à minha direção. Provavelmente já sabia da causa do rompimento de seu namoro e não quisera passar o Natal ao lado de Teddy. Lamentei, e me encaminhava para as masmorras pensando em uma forma de conversar com a garota no dia seguinte, mas certo incidente curioso chamou a minha atenção. Ia Emily ao salão comunal, quando foi abordada por dois quartanistas que vinham no sentido oposto.
— Se não é aquela garota estranha! — disse o mais alto dos dois.
— Como vai, White? — indagou o outro — Passando o Natal longe da família? Ah, é mesmo, você não tem família, não é?
— Não, e você? — ela perguntou calmamente.
— Os nossos pais viajaram, não é, John? E quanto aos seus, Emily? Ah, sua mãe morreu, não? A Virgem Maria dos trouxas, que...
E o rapaz não terminou de falar, porque uma grande serpente se materializou à sua frente, partindo para o ataque. Só então eu, que parecia petrificada, abandonei o transe e erradiquei o ofídio antes que se fizesse desgraça maior, quando as outras pessoas começavam a chegar. Emily correu e sumiu na penumbra, e eu cogitei segui-la, mas fui impossibilitada por mim mesma.
— Eu cuido disso — falou o jovem Ambrose de Poções, afagando-me os ombros levemente.
Mecanicamente, encaminhei-me para o Salão Principal e sentei à mesa da Sonserina, ainda desarrumada por conta do banquete. Notei que um ou outro aluno ainda conversava ou comia, mas me pareciam mais vultos do que pessoas, tamanha era a minha vertigem. Pensei em Emily, em como ela sempre me parecera estranha e impopular e agora se revelava aquilo que alguns grifinórios diziam: "O retorno de Voldemort". Fazer uma serpente se materializar em meio ao corredor sem varinha, sem ofidioglossia, sem qualquer manifestação direta de magia, parecia-me bem avançado para uma garotinha de onze anos. Mas eu não conseguia me conformar de que poderia ser aquela menininha, a reencarnação do mal. Conversaria com ela e com certeza tudo se esclareceria, mas não àquele momento.
Sorvi um gole de suco de abóbora e olhei pela extensão da mesa vazia. Lembrei-me dos tempos amenos, de Crabbe e Goyle criando piadas acerca de Harry Potter e seus amigos, a quem eles chamavam de corja. Lembrei-me de como me sentia feliz e orgulhosa por sentar ao lado de Malfoy naquela mesa todos os dias. E me assustei quando a sua mão pálida tocou o meu ombro, como se o passado se fundisse com o presente naquele momento. Mas havia uma diferença na aliança dourada e no cansaço do rosto envelhecido, que capturei ao levantar imediatamente o meu.
— Feliz Natal, Pansy.
A voz parecia também fatigada e um tanto asmática.
— Igualmente — respondi um tanto alterada por vê-lo àquele momento, quando os meus pensamentos eram sintonizados em nossa juventude — o que você faz aqui?
— Briguei com Astoria e Hogwarts foi o primeiro lugar em que pensei. McGonagall, embora não parecesse muito satisfeita, não se recusou a abrir as portas.
— Você acha que Hogwarts é a sua "casa de árvore"?
Malfoy arqueou os lábios em um sorriso apagado, mas seus orbes azuis brilharam intensamente.
— Você se lembra, Pansy, daquela casa de árvore no sítio dos meus pais?
Não imaginei que ele se recordasse de algo que eu realmente esquecera por completo. O sítio para onde passávamos as férias quando meus pais me deixavam ficar com os Malfoy. Havia uma casa de árvore que Draco dizia que era nossa, que casáramos e fôramos lá morar. Tínhamos por volta dos doze ou treze anos e naturalmente as nossas brincadeiras ali eram tão infantis quanto a nossa pouca idade permitia.
— É claro — respondi, deixando que meus olhos refletissem as saudades de tempos amenos que havia nos dele — a nossa casa de árvore.
— Sinto saudades daquela época.
— Como não sentir?
Ele não me respondeu, mas sentou-se ao meu lado à mesa da Sonserina, como fizera tantas vezes no passado. A mão pálida afagou os meus cabelos.
— Por que não tentamos reatar as duas pontas da vida, Pansy?
— Ah, Draco, eu não tenho mais nada a te oferecer. Tudo o que havia de bom em mim foi enterrado há vinte anos.
— Não pode continuar desse jeito, tem que reagir!
— E que droga eu estou fazendo? Não aceitei esse emprego para voltar a ter contato com o mundo bruxo?
— Para ficar perto das lembranças dele.
— Que seja.
— Ele não gostaria que você sofresse, eu penso.
— Há tantas outras coisas que ele gostaria que eu não tivesse feito. Mas agora tanto faz, ele não está mais aqui para me repreender, afinal.
— Por isso deve prosseguir com a sua vida.
— E você com a sua. Por que não volta para casa e se reconcilia com a doce Astoria? Vocês têm um filho lindo e uma vida aparentemente feliz.
— Aparentemente, Pansy, aparentemente. O fato é que quando a vida me apresentou duas estradas, segui pela mais fácil e fiquei com Astoria. Mas o caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor¹, e se eu tivesse lhe esperado, insistido mais um pouco, quem sabe... Enfim, não importa mais, já passou. Por isso lhe peço uma segunda chance, já que voltamos à estaca zero.
— Quem voltou? Você voltou, então. Estou onde sempre estive, Draco. Onde sempre estarei.
Malfoy suspirou e tornou a afagar-me o rosto.
— Os anos a tornaram tão amarga, triste — comentou — onde está a Pansy que eu conheci ainda criança, por quem me apaixonei?
— Sepultada, como já lhe disse.
— Tantos anos, Pansy, e ainda assim Chronos foi gentil e conservou a sua beleza, para contemplá-la por mais tempo, talvez.
— Ou talvez...
E silenciou-me com os lábios. Não o afastei de imediato, nem nos segundos seguintes. Talvez um minuto ou pouco mais. É que os lábios de Malfoy me cediam o calor das tardes de verão à beira do Lago Negro, dos banquetes de começo de ano, das conversas e das gargalhadas... E finalmente o afastei porque relembrei também que aquilo não era — nunca fora e nunca seria — suficiente. Que era como o sol enganador de uma fria manhã de outubro.
Ergui-me e me despedi de Malfoy, que não me seguiu. Não disse palavra alguma, nem de gosto, nem de desgosto, até porque elas não me acudiram. Cogitei recolher-me ao salão comunal e, com alguma sorte, encontrar Emily White ainda acordada e poder conversar e esclarecer o incidente que parecia ter acontecido há mil anos. Mas eu precisava de uma situação amena, um local pacífico.
A Torre de Astronomia estava obviamente silenciosa e fria àquela hora. Acerquei-me do telescópio, mas não o procurei para olhar as estrelas. Queria vê-las ao longe, contemplá-las como uma criança, não com o olhar técnico. De repente um arrepio me percorreu o corpo, diferente do frio natural do inverno. Era um calafrio que parecia causado pela presença da Morte. Fechei os olhos e pensei, com alívio, que me havia chegado a almejada hora. Qual nada! A bela dama se negava terminantemente a me estender a mão gélida, como se tivesse gosto pelo meu sofrimento. E concluí que a Morte não estava ali "em corpo", mas os rastros deixados pela partida de Dumbledore tornaram a sua imagem indelével. E revi o meu próprio desespero, a minha inércia no remoto e fatídico momento. E não deixei de rever a minha esperança, que aproveitara o tropel cabalístico da Morte².
INTERLÚDIO
Acordei e mal pude acreditar que já era véspera de Natal. A data ainda me deixava feliz, embora fosse passá-la em Hogwarts, com o turbilhão de preocupações que me invadiam desde que lera o diário de Dumbledore. Mas nada disso me ocorrera àquela manhã, como se eu estivesse protegida por uma bolha.
Resolvi passar a manhã nos jardins, já que a escola estava vazia e não havia com quem conversar. Havia você, mas presumi que estivesse ocupado, uma vez que não aparecera para o café da manhã. Não imaginei, portanto, que você surgiria ao meu lado, lá pela metade da manhã.
— Feliz Natal, Pansy — você disse, abraçando-me pelos ombros.
Eu sorri e balbuciei um "igualmente", incapaz de desejar melhores votos, ou porque tremia de frio ou porque me entregava ao frêmito. Ou pelas duas coisas.
— Sinto muito que não possa passar o Natal com os seus pais.
— Não importa — respondi — eles escolheram o seu caminho, eu o meu. Ademais, não poderia ser melhor do que estar aqui com você.
Você sorriu e percebi que estava desconcertado, mas ao invés de se afastar como geralmente fazia, estreitou-me mais. Toda a paz do mundo me invadiu naquele momento, enquanto fitávamos as águas quase congeladas do Lago Negro. Você fez uns dois comentários acerca da data e do tempo, mas não me recordo nenhum deles, uma vez que não eram as suas palavras ou o significado delas que eu captava, mas o som da sua voz.
E passamos, dessa forma serena, o Natal e o Ano Novo. Eu quase poderia pensar que todo o terror da Guerra havia sido um pesadelo do qual eu acordara assustada, sendo, em seguida, confortada por você.
E o tempo passou depressa...
- x -
Percebi que havia algo errado pela forma como Draco parecia inquieto naquele dia. Cheguei a perguntar-lhe o que havia, mas ele me repeliu com agressividade. Deu-se que pelo começo da madrugada um colega, de quem não me recordo mais o nome, encontrou-me no salão comunal, onde eu geralmente lia à noite, e me alertou da confusão na Torre de Astronomia. Corri em seu encalço, e quando lá cheguei, deparei-me com Dumbledore a ser ameaçado pela varinha de Draco, que tremia absurdamente. Ainda cogitei chamá-lo, mas positivamente não queria as atenções dos presentes Comensais, embora tenha percebido que Bellatrix me notou. Pois bem, percebi que Dumbledore estava muito fraco, embora ignorasse o motivo, e Draco o desarmou. Então você apareceu, e eu sabia o que aconteceria a seguir. Apalpei os bolsos em busca de minha varinha, prestes a executar um plano que me ocorrera há menos de um minuto, mas não a encontrei. E Dumbledore pediu-lhe que o matasse. Percebi a hesitação nos seus olhos, mas nunca nos gestos.
— Avada Kedavra!
Senti a minha esperança morrer e despencar da Torre, junto ao diretor. Não que gostasse dele, mas porque acreditava em minha teoria, e naquele momento você, aos olhos do mundo, era o assassino de Dumbledore. Tornara-se, portanto, senhor da Varinha das Varinhas. Eu quis gritar, mas como se estivesse no vácuo, a voz me pareceu sair sem emitir nenhum som. Você correu, seguido por Malfoy e outros Comensais. Corri em seu encalço, sem ainda poder verbalizar o seu nome, que gritava interiormente. Passei por alunos assustados, em trajes de dormir, que pediam as novidades. Eram todos vultos, coadjuvantes.
Nos jardins, Harry Potter te enfrentou, e não senti raiva das palavras do garoto porque ele não tinha o conhecimento que eu possuía acerca dessa história e de seu caráter. O que me incomodava, portanto, era que lhe tomasse o tempo que já ia rareando. E quando você finalmente pôs termo àquela discussão que já ia longe, acerquei-me de ti e lhe roubei alguns segundos.
— Para onde você vai agora?
— Eu não sei, Pansy, vou com os Comensais.
— Eu vou junto.
— Não, você não vai! Você vai para a minha casa nas férias, depois voltará para a escola, está bem? É filha de Comensais, sangue puro, certamente estará segura. Não me siga, não se coloque em perigo. É a sua segurança que importa, é nela que pensarei o tempo todo.
— Se quisesse pensar em mim, pensaria primeiro na sua vida³.
— Vai dar tudo certo, Pansy. Faça o que lhe disse, prometa-me que fará.
Assenti, embora o meu desejo fosse fazer exatamente o contrário e segui-lo.
— Eu preciso ir.
Você não disse adeus, nem me abraçou, nem manifestou qualquer outra forma comum de despedida. Fiquei parada, fitando o incêndio da cabana de Hagrid sem realmente vê-lo. Depois me retirei para o castelo, para o salão comunal, e uma vez lá, para o meu dormitório, que estava vazio. Deitei-me à cama e fiquei por uns poucos minutos a observar o cortinado verde, enquanto os pensamentos me passavam pela cabeça, todos eles, sem nenhuma ordem estabelecida. E chorei, não com lágrimas de desespero, mas de conformação, quentes e amargas. A partir daquele momento tudo se tornaria incerteza, e eu sabia muito bem que talvez jamais voltasse a vê-lo. Se eu ao menos tivesse porte de minha varinha naquele momento... Então eu mesma teria matado Dumbledore e você se livraria da hierarquia da Varinha. Por que essa ideia não me ocorrera antes? Era esperar e torcer para estar errada. Mas uma voz incômoda me dizia que, ao contrário, eu estava certa. Que àquele momento a ópera de sua vida começaria a desafinar, até que as cortinas cairiam num trágico desfecho. E tudo teria fim, sem nenhum resquício de palmas.
O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor¹ - Excerto da música Lama (Luxúria)
O tropel cabalístico da Morte² - Parte de Antífona, de Cruz e Souza.
Se quisesse pensar em mim, pensaria primeiro na sua vida³. – Ideia retirada do capítulo CXXVIII de Dom Casmurro, Machado de Assis.
